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Extra! Indicação ao Prêmio Jabuti

Caros e caras

A primeira indicação ao Prêmio Jabuti a gente não esquece.

Meu livro “Você precisa de quê? A diferença entre consumo e consumismo” está entre os dez finalistas que concorrem à premiação, na categoria Didático/Paradidático. Para quem quiser saber mais, é só ver aí na coluna ao lado.

Agora é torcer, minha gente!

Beijos,

http://premiojabuti.com.br/apuracao/f1/#1

 

 

 

Feliz aniversário para o blog.

Queridos e queridas

Há sete anos, em 11 de abril de 2009, eu estreava como blogueira.

Naquele sábado, meio tímida e insegura, eu publicava “A.E.I.O.U.W.W.W.”, uma crônica sobre a internet. (Nem imaginava que, três anos depois, eu estrearia como escritora e com um livro justamente sobre ela.)

fdm aeiou

O blog foi ensaiado à exaustão, posto que sou touro com ascendente em mula. Eu costumava escrever as crônicas e mostrá-las apenas a duas amigas queridas, Flávia Aidar e Januária Alves, que, pacientemente liam tudo e me incentivavam, mesmo quando o texto era uma porcaria. Amigo também é para essas coisas. Janu, alguns anos depois, viria a ser a pessoa que me apresentaria ao mundo dos livros e me mostraria que eu também era capaz de fazê-los. Não tem como não amá-las, e muito.

Um dia, lá em 2009 ainda, acordei petulante e resolvi mostrar um dos meus textos para a Cris Guerra, do Hoje Vou Assim. Eu não a conhecia. Ela gostou e resolveu publicar o link da minha Brincadeira Séria em seu blog e os leitores dela resolveram vir, em peso, ler. E eu resolvi que a Cris é minha fada madrinha.

Em sete anos meus filhos cresceram, meus cabelos branquearam, avermelharam, eu me tatuei um tanto, publiquei um livro, o segundo está a caminho e eu contei muitas histórias por aqui.

Com vocês, uma geral desses sete anos de blogagem:

  • 380 mil visitas
  • 573 textos, entre crônicas, minicontos, cartas e poesias
  • 4.737 comentários (Eu sempre me espanto com esse número porque, desses, se até hoje recebi uns cinco falando mal do blog, me botando no lixo, foi muito. Juro. Vocês são muito bonzinhos.)

Estas são as leitoras e o leitor que mais comentaram e comentam por aqui . Não são os únicos comentadores “de carteirinha”, mas o WordPress só listou os Top 7, fazer o quê. A todos, desta micro lista e da lista imensa que mora em meu coração, dedico a minha maior e melhor gratidão. Este blog me deu e continua dando bons amigos, desses de tomar café junto, abraçar, contar causo, rir, chorar.

fdm comentadores

 

O blog também já teve várias carinhas nesses sete anos. Algumas delas:

fdm carinha 1 x

fdm carinha 6 x

fdm carinha 4 x

 

Os posts mais lidos até hoje:

Carta para a amiga que foi embora (e eu gosto de fantasiar que é ela, a própria, que vem ler)

Brincadeira Séria

Certinhos

Café com os medos

Chega de cinza

E de onde os leitores vêm?

  • Brasil
  • EUA
  • Portugal
  • Reino Unido
  • França

E de vez em quando aparece alguém perdido do Quênia, Bangladesh, Bahrein…

Tirando os leitores que visitam o blog intencionalmente, algumas pessoas chegam até aqui porque pesquisam, nos sites de busca, palavras-chave ou termos, que listam o FDM dentre os resultados. E isso sempre me diverte. De vez em quando o Google lista coisas assim (transcrevi aqui exatamente como as pessoas digitaram):

Nomes para sapos

voce ja ouviu falar em esminhocar observando a sua formacao que significado voce acha que tem essa palavra

a abelha consegue voar pq é surda

quanto tempo leva para a pessoa te procurar depois de fazer a amarração

greve por melhores mesadas, e se eu não der? eu não tomo mais banho

como ser uma pessoa certinha

como deixar de ser certinha

Nesses sete anos, confesso, já tive vontade de matar o blog várias vezes. Duas coisas não me deixam fazer isso: vocês e eu. (Nós, portanto.) Vocês, porque me leem e gostam e me contam isso e me botam pra cima e pra frente. Eu, porque se não escrevesse ficaria tudo ardendo aqui dentro e provavelmente eu já teria somatizado e sucumbido.

E já estive perto, muito perto de postar a última crônica. Porque é assim, gente: nem sempre escrever é uma delícia. Nem sempre os textos saem facinhos (às vezes, só tenho o fim; ou só o começo; ou só o meio.) Escrever cansa. Mas também salva.

E só sei que hoje a data é muito querida.

E só sei que queria dar um beijo e um abraço demorados em cada um de vocês que estão sempre por aqui – desde 2009, e os que chegaram depois, e os que estão chegando hoje.

Gratidão define.

Com carinho,

Sil

Hoje não tem, mas tem.

Caros leitores

Hoje não tem crônica nova. Na minha página no Facebook, repostei o link para outro texto, publicado aqui em 2010: Carta para a amiga que foi embora. Essa carta já foi vista quase dez mil vezes (é o segundo post mais lido do blog). Gosto de imaginar que é ela, do lado de lá, que fica relendo… 

Trechinho:

(…) Recebi a notícia dias depois. Sua mãe contou para minha irmã. Que falou para o meu marido. Que me contou. Lembrei de nós duas no pátio da escola, trinta e tantos anos atrás, brincando de telefone sem fio. A graça era quando o último entendia um absurdo qualquer, diferente do que o primeiro havia falado. Naquele dia, eu fui a menina da ponta. E entendi certo. Não valeu. (…)

Beijos e até sexta!

Silmara

Meu primeiro livro!

“O primeiro ISBN a gente não esquece”.

Pessoas queridas: publiquei meu livro!

Não é o das crônicas deste blog, ainda. É sobre internet. Traz um pouco de história, fala sobre as gerações X, Y e Z, ética, netiqueta, a nova linguagem, curiosidades e, principalmente, os ‘perigos’ que rondam os jovens internautas. A ideia é ajudá-los a entender como a rede funciona, para que naveguem com segurança e sem cair em roubadas.

Sob a batuta de Januária Alves, o livro faz parte da Coleção Informação e Diálogo da Editora Moderna, recomendada para a moçada do ensino fundamental II. A coleção conta com mais um título – “O que você quer ser quando crescer” -, da amiga Dinah Salles de Oliveira, sobre trabalho e empreendedorismo (tem crônica minha lá).

Já, já, em todas as livrarias do país. E, tomara, na sua estante e no seu tablet também.

Nota: semana que vem as crônicas voltam!

Férias!

Queridos, queridas

Fui ali e volto já.

Quer dizer, volto em janeiro de 2012. Que não será o ano do fim do mundo, mas o ano 4 do Fio da meada (nem eu acredito). Tem mais de trezentos textos aqui. Aposto como tem algum que vocês ainda não leram.

Até lá, vou dando as caras no Facebook.

No mais, desejo que todos reinventem seu Natal e virem o ano com toda alegria possível.

Um beijo, dos grandes, em cada um.

O fio da antiga meada – IV

Mais um da pasta vermelha. Lá se vão vinte anos que eu escrevi isto. Quis brincar com os nomes de alguns municípios brasileiros, sem me importar com seus significados. Ficou assim: sem pé, nem cabeça. O bonequinho que desenhei ao lado, na época, concorda. Mesmo assim, publico aqui. É sexta-feira, vai.

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Quando os espíritos – que sempre se dizem santos – invadem os pinhais, algo pode estar ocorrendo, além do fato de uma paraibuna desvairada andar por aí malogrando os corações de tantos taquaritingas… Tratar-se-á, deveras, de uma pobre araçatuba queixando-se da falta de um jaraguá. E não há conselho que funcione, uma vez que não há na face da Terra paracatu que resista a uma fogosa maranguape, daquelas que atravessam a alma e descambam numa singela dracena. É o amor.

Feliz aniversário (atrasado) para o blog

Era uma vez um blog chamado Fio da meada. Igual filho, ele teve outros nomes antes de nascer: Máquina de escrever e Superbacana. Varal também estava na lista, mas já tinha mãe. O FDM estreou, tímido, em 11 de abril de 2009, com uma crônica sobre a internet:

De lá para cá, em dois anos de vida, muitas letras rolaram. E hoje o FDM tem números, leitores e amigos para dar e vender. Quer dizer, os leitores e amigos eu não dou, nem vendo. No máximo, eu os “empresto” para outros blogs bacanas, assim como outros blogs bacanas emprestam os seus para mim.

O WordPress, plataforma onde o FDM mora, me dá, todos os dias, informações interessantes sobre a audiência do blog. Vou compartilhar com vocês um resumo desses dois anos, até hoje (12/04/2011):

  • 184 crônicas, 25 crônicas de minuto, 12 cartas, 12 minicontos e 9 poesias publicadas
  • 2.711 comentários de leitores (respondidos, na maioria)
  • 144.260 acessos, do Brasil e exterior
  • 5.000 acessos por mês

Tirando os leitores que visitam o blog intencionalmente, algumas pessoas chegam até ele porque pesquisam, nos sites de busca, palavras-chave ou termos, que trazem o FDM dentre os resultados. As 10 palavras ou termos mais utilizados são:

Taí uma coisa que sempre me diverte. De vez em quando o Google manda para cá coisas assim (exatamente como as pessoas digitaram):

como fingir que esta passando mal

como desencardir meias

feitiço para voltar atras no tempo

“não gosto dos meus pés”

faxineiro invisível

vou montar um buffet com um parquinho em fortaleza e gostaria de ideias

sabonete atrativo chora nos meus pés

cinderela feia sem sapato

nome das irmãs gemeas q fazem um clipe juntas q o cenario é todo branco e uma enrola a outra com um

onde comprar uma engrenagem planetaria cronica de nylon

apelidos para o penis por ordem alfabética

oque é uma ceita bacanica

Os 10 sites que mais trouxeram leitores para o FDM (o qual eu agradeço e esclareço: tem muitos outros que também já são meus velhos conhecidos, mas não daria para publicar todos):

Nesses dois anos, depois de darem uma passadinha pelo FDM, os leitores clicaram nos sites do meu blogroll e continuaram navegando. Os 10 mais acessados:

Os 10 posts (ou páginas) mais visitados do FDM nesses dois anos:

E os 10 posts (ou páginas) menos visitados:

Não me lembro quem são esses “deleted”. Mas devem ter sido avisos do blog ou outras coisas, e não textos.

De 2009 para cá, o FDM mudou de carinha algumas vezes:

Algumas nem foram ao ar, eram apenas ensaios:

As tags mais comuns nos textos do FDM:

Os 10 posts mais comentados:

Os 10 menos comentados:

E os nunca comentados:

Às vezes, estou crente que um post vai fazer sucesso, e ele não faz. Nesses casos, apesar de conhecer bem meus leitores e saber o que eles gostam (penso eu), fico com um baita ponto de interrogação na cabeça.

Através do blog, conheci um tanto de gente bonita, com quem converso sempre por e-mail e pelo Facebook. De algumas pessoas, tive o prazer de ouvir a voz por telefone. Com outras, já almocei, tomei ou sempre tomo um café. Outras, nada disso: um abraço daqueles e dez minutos de prosa. Teve até quem passou um final de semana inteirinho aqui em casa, ô delícia! Leitores que viraram amigos de verdade, aos quais eu agradecerei eternamente pelo carinho, pela leitura, pelas palavras. A todos, um aviso necessário: não sou (só) essa pessoa doce que se pensa. O FDM é meu lado A.

Parabéns, Fio da meada. Muitas felicidades. E muitos anos de vida. Saravá!

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Fontes: WordPress.com

Imprevistos

Ilustração: Roy Blumenthal/Flickr.com

Vocês não vão acreditar.

Eu estava voltando do supermercado, quando a cidade inteira foi atingida por uma nevasca. Valente, consegui enfrentá-la. Já perto de casa, um grupo de vikings bloqueava a rua e eu só consegui passar porque tinha algumas cervejas no porta-malas do carro. Quando dobrei a esquina, levei um susto: um incêndio tomava conta do meu lar. Por sorte, os bombeiros já estavam no local. Nem precisava; antes mesmo que eles o controlassem, veio a enchente e levou tudo. Mas isso não foi nada. Pior foram os elefantes que invadiram meu quintal e não querem ir embora, de modos que hoje não tem crônica.

Até terça.

(Se os elefantes deixarem.)

O fio da antiga meada – III

Está mais do que na cara. Gosto mesmo de gatos. E não é de hoje. Na sessão flashback do blog, outro texto da pasta vermelha para vocês. Escrito em 1992, aos 25 anos. Sonhando com amores, príncipes encantados e coisa e tal. Em tempo: Doris, a destinatária desta espécie de carta, viveu conosco por quinze anos. Encontrei-a, ainda filhote, abandonada numa estação do metrô. Naquele dia, ela foi comigo para o trabalho, escondida dentro da mochila. Difícil foi convencer o chefe que não havia gato nenhum ali.

Ilustração: Marina Cuello/Flickr.com

Doris

Viaja no tempo, a tempo de trazer de volta o desenho que fiz dele enquanto dormia. Vai, minha gatinha. Cruza qualquer oceano e grita, de onde estiver, caso ele esteja lá. Mergulha e volta breve para me abraçar, porque estarei triste.

Torna a voar, com asas de pelo e mel; avisa se o vir pelo ar. Mas volta tranquila, se nem assim o achar. Doce gatinha, precisava te contar. Anda até antes de tudo para achá-lo. E volta. Dá um beijo se sim, uma piscadela se não. Conforme for, seca meus olhos. Mas diz que não olhou direito.

Doris, Doris. Pensa e responde em qual rua vive o melhor da minha vida, que se vê tão esquecida na cor do seu olhinho, quase desmanchando de soninho. Mas, se nessa pressa de saber onde ele mora, você perceber, então, que é em mim, inventa rápido um jeito de avisar.

Boa noite, Doris.

Resultado do sorteio!

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Sorteio feito, minha gente. Conforme os comentários recebidos (o primeiro foi o número 1; o segundo, o número 2 e assim por diante) , os exemplares do livro “Das palavras” vão para:

15 – ALESSANDRA FERNANDES GONZAGA

25 – CAMILA DE SOUZA

31 – ÁLVARO DYOGO

Os ganhadores serão contatados por email, e os livros serão enviados pelo Correio. Espero que gostem.

33 leitores postaram seus comentários até 23h59 de ontem (domingo). Se eu pudesse, enviaria um livro para cada um. Mas recebi poucos exemplares da editora. O sorteio foi realizado pelo site Random.org.

Viram? Deu certo. Obrigada aos que participaram.

Boa semana para todos. E amanhã é dia de crônica.

Silmara Franco

Sorteio!

Queridos leitores

Vocês se lembram do miniconto O pão que o Diabo não amassou, postado neste blog em 2009?

Para quem não sabe, ele concorreu no 4º Concurso Literário de Minicontos e Haicais da Editora Guemanisse (RJ) e recebeu menção honrosa. Foi publicado este mês no livro “Das palavras”, reunindo os premiados e demais textos pré-selecionados no concurso. Ao todo, 92 autores fazem parte da coletânea.

Quer ganhar um?

É simples: faça um comentário neste post (não vale em outro). Não se esqueça de preencher seus dados com nome e endereço de email válido (seu email não será publicado). Serão sorteados três leitores. Os comentários devem ser postados de hoje até domingo, 29 de agosto, às 23h59. Na segunda-feira, dia 30, o resultado será publicado aqui no blog.

Ao comentar, não é necessário escrever nada especial. O sorteio será feito aleatoriamente pelo site Random.org. O primeiro comentário recebido será o número 1, o segundo será o número 2 e assim por diante. O horário em que o comentário é feito fica registrado no blog e todos podem ver. Caso seu comentário, acidentalmente, vá parar no spam, fique tranquilo: ele será resgatado e incluído.

Os três ganhadores serão contatados por email, e os livros serão enviados pelo Correio. Caso o ganhador não responda meu email até o dia 2 de setembro, será feito novo sorteio.

É a primeira vez que faço um sorteio no FDM. Estou torcendo para dar certo. Se não der, a gente conserta.

Um abraço grande, para caber todos vocês.

Silmara Franco

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PS: terça que vem tem crônica nova.

Oração na madrugada

Ilustração: Mankamundo/Flickr.com

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Senhor

Aparece, aqui e agora, na minha frente, e dize o que preciso saber, que ainda não sei ou havia entendido errado. Afasta de mim medo, raiva, tristeza e preguiça – as quatro coisas que paralisam, engordam e fazem cair o cabelo.

Mostra como todos meus sentimentos, atitudes e decisões, desde o dia em que nasci, poderiam ter sido mais simples e o quanto eles ainda podem sê-lo, se eu assim desejar. Mas sê objetivo. Nada de parábolas, pode dizer na lata. Fala devagar, no entanto. Estarei de papel e caneta a postos, anotando para não esquecer depois.

Faze, como de costume, a vossa vontade, assim na terra como no céu e agora também na web. Perdoa a prece a esta hora da madrugada e o pijama descosturado. Não me deixa cair na tentação das liquidações de inverno, mas livra-me das angústias, do sequestro relâmpago e do spam.

Amém.

O fio da antiga meada – II

Mais um da pasta vermelha, dando sequência à sessão retrô do blog. Este aqui eu escrevi quando tinha dezessete anos. O ano era 1984. Foi uma encomenda: minha irmã deu as três primeiras palavras, e pediu que eu escrevesse o resto. Ficou assim.

Foto: J.Mark Dodds/Flickr.com

Já era tarde e ninguém o escondia mais

Surgia da profunda dor o pavor, o calor, o senhor

Brusco alívio de amor

Enternecida, a mão que o afaga

Sorri que agrada; deseja, mas não fala

Alisa o pedaço de corpo que já se esquiva

Já não era dor, nem pavor

Era cor

Cor do corpo que transmite luz

Na doce dança que não mais traduz

A leveza do já partir

E a tristeza de mãe, de não poder ir

Fere. Estilhaça.

O pequeno corpo tão cheio de graça

Que ri sem graça, pois que graça ter?

Se ao nascer já parte

Não. Não há cores que a agrade

Parece assim, luz que ofusca, mas não arde

E reanima o pavor de todos nós

Pois que senão, já era tarde.

O fio da antiga meada

Hoje eu vou arriscar. Em vez de um texto recém-saído dos meus miolos, postarei este aqui. Eu o escrevi quando tinha dezesseis anos, para uma redação do colégio. Nem tem nome. Mas lembro do professor tê-lo lido em voz alta para a classe. Desde então, ele está guardado numa pasta vermelha de elástico (quase tão velha quanto ele), junto a muitos outros, registrados com Bic e máquina de escrever. Naquele tempo não tinha computador; ‘pen’ era uma coisa e ‘drive’ era outra, e essas palavras ainda não andavam juntas.

Há meses ensaio mostrá-lo aqui, numa espécie de sessão retrô. Claro que, hoje, eu reescreveria algumas partes. Mas resolvi publicá-lo do jeitinho que foi escrito há vinte e sete anos, sem retoques. Certa de que os caros leitores darão um bom desconto para a adolescência ingênua que dele transborda. Pois é isso que eu, afinal de contas, era. Confesso: estou morrendo de medo. E com um pouquinho de vergonha. Lá vai.

Foto: John Ryan Brubaker/Flickr.com

“Quero um Deus que não saiba rezar, que morda a língua e envergonhe a família. Um Deus que não saiba ensinar e que não se preocupe em aprender.

Quero um Deus fantasiado de colombina, que traduza em sons toda a melancolia de viver.

Quero um Deus que morra antes de eu nascer, que é para eu não lembrar nem ter saudades dele.

Quero um Deus meu, que saiba fazer pizza e caipirinha.

Quero um Deus que precise tragar fumaça para se convencer que o mundo é uma tragédia, que se coloque num altar e, embriagado, diga que a vida é linda e que meus pais me amam.

Quero um Deus sujo, que seja pedreiro e que não ganhe nada. Quero mandá-lo embora e depois esperá-lo até que ele volte.

Quero um Deus lindo e fotógrafo, que não use flash e que xingue o juiz de futebol. Quero chorar por achar esse Deus tão lindo.

Quero um Deus morto, que não dê trabalho, e que morra sem dizer um pio, que é para não atormentar.

Quero um Deus triste e que tenha medo de avião.

Quero um Deus que me ouça dizer um palavrão e que ria, me chamando de criança.

Quero um Deus que cante desafinado e que não viva sem mim.

Quero um Deus que me dê chocolate aos sábados, e que goste de me ver de branco.

Quero um Deus gordo, que passe pasta de dente em queimadura.

Quero um Deus que saiba imitar gato e bem-te-vi. Que conte a história do boneco de pau que comeu a maçã envenenada.

Quero um Deus azul que limpe os óculos com a camisa, e que ande com os pés pra dentro, que é para eu rir.

Quero um Deus sozinho, que precise de mim e mande me chamar na escola. Que diga que vai morrer, só para me ver chorar.

Quero um Deus completamente pobre, que diga que é rico e que vai comprar a lua para mim.

Quero um Deus amigo dos ladrões e dos barbeiros, que saiba dirigir caminhão e que me ensine coisas da vida.

Quero um Deus mocinho, que é para eu ensiná-lo que o Papai Noel não mora no Pólo Norte, e sim na América do Sul.

Quero um dia de manhã ir acordar esse Deus com um pássaro ferido achado em nosso quintal, e ele me chamar de criança, fechar os olhos e dormir para sempre.”

Coisa de segundos

O livro Encontro das Artes, de Hermélio Silva e Renata Sunega, é um registro fotográfico dos monumentos históricos de Campinas, que conta também com textos de vários escritores da região.

É aí que eu entro: O segundo a mais, crônica postada neste blog em 2009, é um dos textos publicados nele. E o interessante é que o convite para participar dele não levou mais que alguns segundos.

O lançamento será no dia 9 de abril, às 19h, na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi, aqui em Campinas. Passa lá.

Nove e meio

Foto: See-Ming Lee/Flickr.com

O pão que o diabo não amassou”, miniconto postado neste blog no ano passado, recebeu menção honrosa no concurso literário da Guemanisse, editora carioca sangue-bom. Ele será publicado em um livro, ao lado dos minicontos premiados e dos demais que também receberam a menção.

Na escola, quando eu tirava nove e meio na prova, eu fazia duas coisas. A primeira: matutar no meio ponto que havia faltado. A segunda: contar para todo mundo. Afinal de contas, nove e meio é quase dez.

Seu Jorge

Afinal de contas: a ‘mina’ que o Seu Jorge fala mora no mesmo condomínio que ele, ou num condomínio do bairro onde ele mora? Oh dúvida.

Mina do Condomínio
(Seu Jorge – Gabriel Moura – Pretinho da Serrinha – Pierre Aderne)

“… Mina maneira do condomínio
Lá do bairro onde eu moro
… Minha gata, minha sina
Do meu condomínio”

Alegrante

cici joey cauboi - daniel duendeIlustração: Daniel Duende/Flickr.com

Justiça seja feita. Assim como este mundo de meu Deus tem coisas que me tiram do sério, há aquelas que me põem na alegria e também merecem uma lista. Confesso: deu trabalho. Mas ela tem 29 itens (para combinar com o dia), contra as 24 da semana passada. Está decidido: sempre haverá mais coisas alegrantes do que irritantes.

1. Motoristas que freiam para o cachorro atravessar. Para o gato. Ou para as galinhas que moram aqui na rua de cima.

2. Na padaria, quando peço o pão de queijo do balcão e o atendente diz: Esse não. Eu vou lá dentro buscar um fresquinho para você.

3. Experimentar uma roupa numa loja e ver, ainda que com certa indignação inicial, a sinceridade da vendedora: Não ficou muito bom, não.

4. Rever uns bons trocados com o programa Nota Fiscal Paulista.

5. Saber que a história do cãozinho Bob teve um final feliz.

6. Ver que, finalmente, pais e mães estão tendo direitos e deveres iguais quando se separam e há filhos na parada.

7. Saber que tem um desenho animado infantil produzido no Brasil fazendo o maior sucesso num canal de TV paga, onde reinam os importados.

8. Quando ligo num SAC qualquer, o atendente promete ligar de volta para resolver meu problema, e liga.

9. Ver que a cachorrinha que nós recolhemos da rua, doente e faminta, hoje é gorda e feliz.

10. Quando vou pagar algo e percebo que estou sem dinheiro algum na carteira e o caixa, que às vezes nem me conhece direito, diz: Você acerta depois. (Eu sempre acerto depois.)

11. Descobrir que tenho saldo para sacar do FGTS, daquela conta que eu havia dado por encerrada há séculos.

12. Poder ficar tranquila em casa. O bloqueio do PROCON à praga do telemarketing funciona.

13. Ver, todos os anos, que minha mamografia está normal.

14. Quando escrevo para alguém famoso e ocupado, sem esperar por uma resposta, e ela vem.

15. Saber que, apesar da AIDS ainda não ter cura, as pessoas que carregam em si o HIV não estão mais condenadas à morte.

16. Entrar em roupas que eu tenho há dez anos. (OK, ficam só um pouquinho apertadas.)

17. Pedir para a costureira reformar um vestido que estava rasgado, e ele ficar mais bonito do que quando era novo.

18. Lembrar de quando meu filho tinha três anos e pedia para ouvir Villa-Lobos (“Aquela música do trenzinho, mãe”).

19. Ele pedir até hoje.

20. Ver que uma história triste contada num blog ganhou fãs pelo país, virou livro e já não é mais tão triste.

21. Saber que as pessoas me dão dez anos a menos. (OK, sete.)

22. Ver um comercial de pomada com novos modelos de famílias.

23. Tentar assistir a um espetáculo teatral infantil, e os ingressos estarem esgotados.

24. Uma das minhas melhores amigas na adolescência tentou e conseguiu me encontrar, depois de trinta anos. Conversamos como se tivéssemos nos visto ontem, na aula de Ciências.

25. Saber que desconhecidos já deram carona para meu pai até em casa, porque ele havia se perdido pela cidade.

26. Ouvir com meus filhos as músicas da Palavra Cantada. E gostar. Muito.

27. Descobrir um monte de tecidos perdidos há anos no armário, que estão virando roupas novas e bonitas.

28. Quando escrevi sobre a Lygia Fagundes Telles aqui, um monte de gente bacana quis me ajudar a chegar perto dela. E cheguei.

29. Assistir CQC toda segunda-feira.

Irritante

Ilustração: Daniel Duende/Flickr.com

Não tem aquele programa Irritando Fernanda Young? Pois então. Eu não tenho programa de TV, mas listo aqui 24 coisas que me irritam neste mundo de meu Deus. É para combinar com o dia de hoje, 24.

1. Quando digo que não como carne vermelha nem frango e as pessoas perguntam com aquela cara de espanto: Mas o quê você come, então? Às vezes, só para variar, respondo: arroz, feijão, abobrinha, brócolis, tomate, batata, aveia, pão, requeijão, peixe, biscoito salgado, biscoito doce, ovo, brigadeiro… e só paro quando a pessoa diz: OK, já entendi.

2. O termo “sanduíche natural”. Esse eu nunca consegui compreender a definição. Tem frango, maionese com ovos.

3. Quando há alguma campanha em prol dos animais e as pessoas dizem: Com tanta gente passando fome… Então está bem. A gente pára tudo no mundo e não faz mais nada para ninguém. Porque tem gente passando fome, não é?

4. Porta-toalhas de papel que diz: Bastam duas folhas para secar as mãos. Você usa duas e termina de secar as mãos na roupa.

5. Anúncios de Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Namorados, Dia dos Pais, Dia das Crianças e Natal. Poderiam usar os mesmos todos os anos, porque os motes, surradíssimos e pra lá de caricatos, são sempre os mesmos. Sem falar nos que circulam na época do Carnaval, cheios de confete e serpentina. Ou em junho, onde tudo vira arraiá, num idioma que nem caipira de verdade sabe o que é. É de lascar.

6. Anúncios de telefonia celular. Dos institucionais eu até gosto, mas os promocionais… Um tem pacote de duzentos minutos, outro de quinhentos (como se o ligador controlasse isso, ou tivesse noção desse tempo), no outro fala-se por um ano de graça com não sei quem. Finjo que não vejo.

7. Lojas de sapatos. Você pede aquele modelo, naquele número. Não tem, e o vendedor traz um modelo absolutamente diferente, dois números maior e diz: Trouxe esse para você ver.

8. Março, 36 graus, sol de rachar côco. As lojas colocam suas coleções de inverno nas vitrines, e você vai encontrar uma camisetinha de manga curta lá no fundo, na última arara. Sem contar o ar-condicionado, que desce para 15 graus. É para sugestionar, como disse uma vez uma vendedora.

9. Aquelas etiquetas enormes e pinicantes nas roupas, com instruções de lavagem, composição dos tecidos. Algumas vêm até com o a indicação do lugar para você recortá-las. E depois ninguém se lembra se a peça pode ir à secadora ou não.

10. Troco menor que R$ 0,05. Ninguém dá. Deve haver, portanto, algum critério misterioso ou supersticioso que faça existir preços terminados em 96, 97, 98 ou 99 centavos.

11. Quando você vai comprar um carro o vendedor afirma: Vermelho é um charme. Você fica na dúvida e ele garante: Não tem mais essa de cor mais ou menos valorizada. Quando você vai vender: Xi, vermelho não tem muita saída.

12. Na praia. Por que 99% dos donos das barracas acham que as pessoas que vão à praia só querem comer tranqueira? Gordura não combina com praia. Nem com biquíni.

13. Na praia II. Por que 99% dos donos das barracas acham que as pessoas que vão à praia só querem ouvir pagode?

14. Na praia III. Você resolve sair com uma calça comprida e alguém se espanta: Você não vai por um shortinho?

15. Combustível. De onde vem o hábito de colocar o preço com três casas decimais? E a terceira é beeem pequenininha. Aquela vendedora da loja de roupas diria que “é para sugestionar”.

16. Quando eu digo que minha filha se chama Nina e a pessoa pergunta: Mas é o nome ou apelido?

17. Quando eu digo que meu filho se chama Luca e a pessoa vem conversar com ele: Então, Lucas…

(Quem mandou colocar esses nomes.)

18. Estrangeirismos. Em geral, são todos ruins e fora de contexto. Mas os que batizam prédios e condomínios são os piores. Você pede uma pizza pelo telefone, e na hora de dizer onde mora é aquele martírio.

19. Embalagens. Lenço umedecido: quem é consegue abrir o pacote e tirar o primeiro, sem antes estragar uns dez?

20. Embalagens II. Caixa de leite longa vida: primeiro você precisa de uma faca ou tesoura para abri-la. E depois, de uma habilidade ímpar para servir o primeiro copo sem espalhar leite pela pia.

21. Embalagens III. Iogurte de potinho: impossível tirar o papel de uma vez só. Vai rasgando, rasgando.

22. Aquelas caixinhas de morango, com os maiores e mais bonitos por cima, e os menores e nem tão bonitos por baixo. Enganação descarada. Aquela vendedora da loja de roupas diria que “é para sugestionar”.

23. Aqueles papeizinhos pequenininhos, os comprovantes das compras com cartão. Vão se amontoando na carteira. Quem é que confere aquilo tudo depois, ó Senhor?

24. Esse não irrita mais, mas já irritou muito quando eu era criança. Sempre que fazia um desenho alguém dizia: Que bonito… o que é? Se fosse uma pessoa: Que bonito… Quem é?

Diz se não é para sair do sério.