Olhai as linhas do chão

Arte: Paula Pérez i de Lanuza
Arte: Paula Pérez i de Lanuza

É estar no banco, nos Correios, na loja de departamentos ou qualquer lugar onde a fila se faz necessária para organizar o atendimento, e é essa joça.

Fazem a marcação no chão, bem bonita em amarelo, para otimizar o espaço e guiar a (sempre grande) fileira, e as pessoas fingem que não é com elas. Vão chegando, se juntando e, a despeito da indicação virtual de caminho, criam uma linha humana contínua, no melhor estilo Deus-dará.

É gente aérea, alheia, programada no individual. Não aprenderam a formar fila. Não fizeram pré-primário com a Tia Neide.

Tia Neide era gordinha e tinha bochechas rosadas. Reunia seus alunos-mirins no páteo e ia compondo a fila por ordem de tamanho. Menores na frente, maiores atrás. Ela tinha vinte e sete anos. Eu, seis, condenada à eterna pole-position junto com uma ou duas amigas. Batia o sinal da entrada e seguíamos, obedientes e em fila indiana, para a sala de aula. (Fossem as filas de hoje organizadas por estatura, provavelmente eu não ficaria muito distante da antiga posição.)

A agência do Correios está cheia. Bastam duas pessoas para justificar uma fila. Sou a sexta. Lá estão as guias no chão, rejeitadas e ignoradas em sua missão. Bufo, encaro o primeiro da fila, concentro-me e tento enviar-lhe uma mensagem telepática, “Olhai as linhas do chão, ó irmão”. Ele não se move. Plantado fica, no epicentro da geometria desenhada sob seus pés. Nem cá, nem lá. O segundo, o terceiro, o quarto e o quinto o acompanham. A atendente chama, “Próximo”. É a deixa. Ensaio o movimento para tomar o lugar certo, na esperança que os demais da fila se animem com a reconfiguração. Nada. Estou só, ilhada sobre a setinha apontando para a frente, enquanto todos seguem o novo líder que, para minha tristeza, fez escola com o cliente que já está sendo atendido no balcão. Correndo o risco de perder o agora quinto lugar, volto, sob silenciosos protestos, ao meu posto original. Faço mimetismo na fila que não pensa.

Não sou a Tia Neide, nem estou no velho páteo, mas lanço, tímida, o desafio. O último da fila, pobrezinho, já está com um pé para fora da agência. “Pessoal, vamos seguir a marcação?”. Silêncio. Ninguém se move. Mais fácil conquistar apoio para uma missão de paz na Síria. A atmosfera de pouco-caso se instala no ambiente. É o desdém à ordem e ao progresso. Viro a chata, a general. Audácia da pilombeta.

Alguém precisa avisá-los que aquilo não é um jogo e não perde pontos quem fica dentro da faixa. Que é amarelinha, tem céu, mas não tem inferno. Inferno é a anencefalia coletiva.

O que faria Tia Neide se estivesse ali, postando suas cartas? Pegaria gentilmente nas mãozinhas de cada um e os conduziria ao seu lugar? “Sem bagunça e sem empurrar; Fulano, não puxe o cabelo da colega”.

Nada disso. Tia Neide, hoje com 67 anos, iria ao caixa preferencial. Não se comoveria com meu drama, não daria ouvidos à minha inconformação. Diria que é coisa de criança.

Tia Neide e sua turma do pré-primário (eu, na fileira do meio, a quinta da esquerda para direita). São Paulo, 1973. Arquivo pessoal.
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3 comentários sobre “Olhai as linhas do chão

  1. Filas, pra que filas? Só pra deixar a gente irritada mesmo. Hoje, também estou nas filas da Tia Neide, só que às vezes a fila da Tia Neide com apenas 8 pessoas anda mais devagar do que a fila para o público “normal” com 80!
    Sil, você precisa fazer um estudo também sobre o comportamento das pessoas nas filas dos bancos: é um que encosta nas colunas, outro que aproveita um aparador para se ancorar, outro que a fila nem andou e ele se adianta e já está bufando no seu pescoço. E aquele que balança nervosamente aquele cordão que separa as filas? Minha nossa! Ninguém merece.

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