O pão que o Diabo não amassou

Gonc.A/Flickr.com

Vivia mandando que o Diabo o carregasse. Um dia, o Diabo resolveu obedecer. Vou contar direitinho como foi. Porque o Diabo também precisa que alguém alivie as coisas para o seu lado.

A mulher, embora bonita, não era flor que se cheirasse. Mas fazia o melhor pão de queijo de todo o triângulo mineiro. E pão de queijo bom, mas bom mesmo, é difícil de fazer. Não pode ter queijo demais, nem de menos. O polvilho tem que ser aquele. E por aí vai. A fama garantia à mulher um bom punhado de amigos, que esticavam o caminho só para dar uma passadinha em sua casa. Entre os amigos, havia os admiradores. Públicos e secretos. Dos secretos ela gostava mais. Caprichava na massa do pão quando sabia que um deles iria vê-la.

Até o dia em que um da turma dos secretos, durante a visita, resolveu fincar o pé. E não quis mais sair. Prometeu aumentar a casa, fazer um bom puxado para a cozinha. Dizia que com o que ganhava na loja de material para construção os dois poderiam viver, assim ela não precisaria mais ficar consertando roupa dos outros. A proposta foi ficando interessante, e ela deu sua mão ao homem. Agora apenas os que eram só amigos poderiam passar lá.

Como eu ia dizendo, a mulher não era flor que se cheirasse. Era do tipo de flor que se planta por engano, e depois que se descobre o perfume ruim é preciso arrancar tudo. Até a raiz. E, dia depois de dia, a mulher tratou de infernizar a vida do homem com toda sorte de insulto e implicação. De manhã à noite. Encerrava o palavreado sempre com a mesma ordem ao Diabo. Que, no começo, não dava muita bola.

Mas o Diabo, sempre muito educado, foi se aborrecendo. Não gostava que lhe dessem ordens. Se tem uma coisa que o Diabo preza é a sua independência. Deus sabe disso, e é por isso que fica cada um na sua.

Passaram-se alguns anos e a mulher, não se dando conta do mundinho esquisito que criava à sua volta com sua maledicência, adoeceu. Ficou magra de dar dó. O pão foi mudando o sabor, os amigos foram rareando. Apenas o fiel e paciente marido continuou ao seu lado, comendo o pão que ela amassava todos os dias.

Certa tarde, ele foi ajudá-la a por a mesa para o café. Sem querer, esbarrou no cesto de pães recém-assados e foi tudo ao chão. Desta vez, a mulher não só repetiu a ordem ao Diabo com mais fúria, como também mandou que o Raio, irmão gêmeo do Relâmpago, partisse o homem em dois.

Aí o Diabo se enfezou. Disposto a resolver a história, vestiu seu terno, ajeitou o nó da gravata no espelho, conferiu os sapatos e foi até a casa da mulher. Tocou a campainha, o homem veio atender. Quando abriu a porta, pôde ouvir a mulher esbravejando lá dentro. Viu o ódio que lhe tomara conta. Pôde sentir, também, o aroma morto do pão espalhado pelo tapete da sala de jantar. Da porta mesmo, chamou o homem de canto e sussurrou-lhe algo no ouvido. Ele arregalou os olhos, virou-se para a mulher e sorriu. Despediu-se com um mudo aceno e pulou nos ombros do Diabo. Lá se foram os dois rua acima e, na praça, desapareceram na sombra de um jequitibá.

Percebendo que tinha alguma coisa a ver com aquilo, a mulher tratou de recolher os pães enquanto matutava que diabos havia acontecido. Tomou seu café, não sem uma pulga atrás da orelha. No finalzinho do dia, foi para a porta esperar o marido. Que nunca mais voltou.

Por via das dúvidas, passou a tomar mais cuidado com o que dizia.

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[Nota: este miniconto recebeu menção honrosa no 4º Concurso Literário de Minicontos e Haicais da Editora Guemanisse (RJ) e foi publicado pela editora, com os demais premiados, em agosto de 2010.]

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17 comentários sobre “O pão que o Diabo não amassou

  1. Silmara,
    Seus contos são tão bem vindos… É sempre gostoso lê-los ao sabor de qualquer cheiro. Esse do diabo, combina com pão de queijo, que eu não conhecia (o conto).
    O livro que será sorteado? Mas só se for com um autógrafo bem bacana, para uma alagoana que adora ler os seus posts.
    beijos,
    Núbia

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  2. É claro que eu me lembro deste post, foi logo quando eu conheci este espaço. Desde então não larguei, é minha rotina minimamente semanal. 😉
    Ficarei contente se ganhar o livro, mas já sou brindada pelas palavras que dão vida a este cantinho.
    Bjão

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  3. Sil, dia desses fui visitar minha avó e se eu te contar que ela me contou uma história muito parecida você acredita?
    O protagonista era o vizinho, que vivia jogando praga na plantação dos meus avós. De tanto chamar, ele apareceu.
    Terminou falando que não aguentava mais ouvir os vizinhos de hoje falarem palavrão e chamando o dito cujo. Muito cuidado quando se trata das palavras, Camila. Alertou. E eu lembrei do seu conto na hora.

    Beijo.

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  4. Silmara,

    Isso aqui está cada vez melhor! Conto delicioso, a gente fica morrendo de vontade de saber logo o final.

    bj

    Ivana

    PS: Passa lá no blog da Nina pra ver quem é a menina feliz de hoje…

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  5. simplesmente sensacional esse texto!!!!!!!
    adorei!!!!!!!
    rsrsrs
    é bem aquilo… ‘cuidado com o q vc deseja, pq pode virar realidade’
    rsrsrs

    Bom fds!

    Bjão
    da Li

    Ah… hj postei sobre minhas amizades…

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  6. Incrível o poder da palavra mesmo. Outro dia até escrevi sobre “ação ou palavra?”

    Sem dúvidas, as palavras têm muito mais poder!

    Beijos

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  7. As palavras tem uma força inacreditável, não é mesmo!? O que sai de nossa boca pode ser em dois: diamantes ou lavagem. Eu prefiro o primeiro 😀

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  8. To aqui rindo, fazendo a imagem do Diabo conversando ao pé do ouvido do Marido e carregando-o nos ombros, aposto que ele dever ter dito, Olha meu filho to com uma dó danada de vc, vem comigo que no inferno é melhor hehehehehehe…

    Suas palavras como eu ja disse são minha alegria da manhã…

    Mil bjos

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  9. Kkkk! Que texto engraçado, realista e que incrível jeito de escrever! Nem precisa responder de novo viu, é que foi impossível deixar de comentar!
    Beijocas de ótimo final de semana!
    Claudia

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  10. OI Silmara
    As palavras são poderosas, são armas certeiras que jamais voltam pra dentro da boca. Palavras são gestos sutis de carinho, ou tapas ardidos. Como já disse outro dia, são brasa ou brisa. Podem ser brasa que queima e machuca e deixa a cicatriz, mas também pode ser a brasa que inflama, faz o fogo dos discursos que movimentam a massa – perigosa. Podem ser brisa e passarem despercebidas, mas um dia podemos nos lembrar do ventinho suave daquelas palavras que mexeram de leve os cabelos e passaram… ou a brisa que alivia o ardor do que queimava. Basta apenas um gesto, uma intenção ou uma vontade feroz. O pedido geralmente é atendido, mas se Deus sabe o que precisamos o diabo também deve ter seus meios de saber.

    um beijinho
    e um ótimo fim de semana!
    Josi

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  11. Mas que conto maravilhoso de ler!

    Surpreendente!

    Eu não conseguiria explicar o que sinto quando leio o que você escreve, pois você consegue transmitir sensações que para mim ainda são novas, exóticas.
    Você tem o dom.

    E é de um prazer imenso sempre voltar aqui e ser presenteado com tamanha ‘refeição aos olhos’.

    Mas cá entre nós…
    O diabo, finalmente, o carregou.

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