Rostos

Ilustração: Isaac Nazal/Flickr.com

Na revista colorida

Sem índice nem número de página

Há sempre alguém se casando

E um fulano que se separou.

Há a mulher que vai ter bebê

Perto da outra que acabou de ter um

Inexplicavelmente enxuta e sem olheiras.

Há uma família feliz em férias

Onde ninguém briga e nenhuma criança chora.

Há alguém querendo aparecer

E outro que faz de tudo para se esconder.

Há uma pessoa fazendo força para ser lembrada

Ao lado da que deveria ser esquecida.

Em meio aos anúncios de sorrisos em liquidação

Surge um beijo sem foco

Uma pose sem graça

E uma legenda sem ambição.

Há recém-apaixonados

Com grandes chances de se desapaixonarem

Até a próxima edição.

Uma traição aqui,

Outra reconciliação ali

E nada que altere a vida.

Sempre tem foto de quarto feito para tudo, menos dormir

Em algum apartamento deslumbrantemente falso

Ou num castelo de mentira

Onde mulheres posam em sofás de aquarela, com pezinhos esticados.

São bailarinas de um espetáculo impossível

Com roupas que não amassam, nem criam bolinhas.

Há sempre as confraternizações esquisitas

De harmonia indecifrável

Reunindo alhos e bugalhos

Brincando de ser amigos de infância.

No planeta-pose até as histórias tristes se dissolvem

Ficando fotogênicas e agradáveis.

Ninguém tem problemas.

Ninguém tem cárie.

Ninguém tem saldo negativo.

Nem chulé.

Revistas assim são estranhas companhias para a espera

Do médico atrasado

Da manicure desapressada

Ou do cabeleireiro ocupado.

Eu, entre um cafezinho e outro,

Deixo que elas sentem ao meu lado

E puxem conversa comigo.

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19 comentários sobre “Rostos

  1. Tenho a mesma percepção a respeito dessas revistas e dessa exposição de uma realidade montada. Não me incomodo, mas muitos tomam essa realidade pra si e muitas vezes acabam frustrados por não conseguirem materializá-la. Esse é um grande mal da atualidade.

    Parabéns pelos textos!

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  2. Silmara,
    Lindo seu texto, real e profundo nessa vida tão superficial que vemos nas revistas… Futilidades não me interessam também, afinal é uma vida irreal, onde roupa não amassa, a comida sempre cai bem, os cabelos jamais enrolam…
    Obrigada por esse primor…
    Beijos da Marie.

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  3. Eu gosto de sua percepção ou visão do mundo.

    Elas parecem obvias,mas pelo fato de parecerem ou serem
    elas passam batidas nos olhos de muitos e você as capita com perfeição.

    adorei mas uma vez 🙂

    beijos e até mais

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  4. Esses rostos de cera, com sorriso falso
    essa familia feliz que nunca se desentende
    e essa ilha onde essas Caras se expõe
    nem me chamando de lindinha me fazem conversar com elas

    hehehheheh
    amei o texto

    bjos lindeza

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  5. Um brinde (nem que seja com água rsrsrsrs) à vida REAL. Acredito que essa vida maquiada, “photoshopada”, posada e por aí vai, tem colaborado bastante para infelicidade de quem não consegue enxergar além……

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  6. Sabe que penso, assim como você? Negócio é o seguinte: não são revistas pra ler, mas para ver e, esquecer em seguida. Já pensou, ficar pensando, frustrada, que não tem essa vida maravilhosa, mostrada por lá, com pessoas sempre tão sorridentes, felizes, esticadas, lipoaspiradas, bronzeadas, plastificadas…enquanto que a gente tá aqui, no mundo real, toda descabelada, pra dar conta de tudo?! Parece fácil, mas não é…
    Lembrei da Ciranda da Bailarina, de Chico:

    Procurando bem
    Todo mundo tem pereba
    Marca de bexiga ou vacina
    E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
    Só a bailarina que não tem
    E não tem coceira
    Berruga nem frieira
    Nem falta de maneira
    Ela não tem

    Futucando bem
    Todo mundo tem piolho
    Ou tem cheiro de creolina
    Todo mundo tem um irmão meio zarolho
    Só a bailarina que não tem
    Nem unha encardida
    Nem dente com comida
    Nem casca de ferida
    Ela não tem…

    …Procurando bem
    Todo mundo tem…

    (Pois, é. Não sou essa bailarina, mas sei dançar conforme a música…)

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  7. Engraçado…
    Textos nos fazem viajar mesmo… Você aí falando de pessoas de revistas (famosas ou não), e eu aqui vendo a figura dos funcionários que as empresas querem hoje em dia… hahaha (nada a ver!!)
    Super homens, ou Batgirls… Perfeitos… Que mais cedo ou mais tarde, fazem um filme que já não é tão interessante assim…
    O mais engraçado somos nós tentando nos tornar esse ser solicitado pelo RH. Pena que tenhamos que chegar a maturidade, que geralmente nos dá segurança, para nos apresentarmos como realmente somos… e não como querem que sejamos
    É a vida, né??

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  8. E eu, que sou bem chatilda no quesito conteúdo inútil) compro a revista Vida Simples para que aqueles que esperam (o que evito, porque detesto atrasar) possam participar da terapia como um bem familiar…
    Vez ou outra pego matérias aqui e ali, textos bonitos (já ando te divulgando rsrsrs) e gibi para os pequenos, que alegram e aliviam as dores…
    Sabe que as pessoas gostam? Achei que preferissem as tais revistas ‘normais’, mas sempre levam e trazem por causa de uma matéria, sempre pedem cópias ou e-mails com esses conteúdos! Sempre indicam para outros…
    Valeu, querida!

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  9. Até quando esses padrões e dogmas vão nos perseguir? Sei que nessa sociedade descartável em que vivemos tudo que é novo e belíssimo vai ser ultrapassado em dois segundos. Então pra quê tanto, né? Pra quê tentar copiar e seguir cegamente tudo isso…
    Revistas assim são cavernas, como a do “Mito da caverna” e eu quero distância.

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  10. Eu vi uma canção nestas tuas palavras.
    Fiz até um arranjo mental e imaginei ela sendo musicada pela Adriana Calcanhotto.

    E sinceramente, ficaria maravilhoso.
    Lindo texto, lindo sábado.

    Beijo de carinho.

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  11. Olá notívaga!! Sabe que eu não tenho paciência para essas revistas? Elas têm mesmo tudo isso que você falou…Desperdício de papel ou neurose de fãs que não acaba nunca no país que vive de fofoca, em todos os níveis da sociedade??
    Pelo menos dão emprego a alguém…
    Um fim de semana iluminado!!

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