Eles

arte: Robert & Shana ParkeHarrison

É deles que quero falar.

Eles, que moravam acima da nossa vila. Numa casa destoante das demais da rua. Se todas eram muito simples, a deles era mais. Casebre antigo, plantado no fundo de um grande terreno, vinte de frente, cinquenta de fundo. O que também destoava; na minha rua, com raras exceções, as casinhas eram coladas umas às outras. Lembranças de um bairro operário. Fora o casebre, tão pouco. Nem garagem, nem carro, nem jardim. Umas bananeiras, o mato crescendo livre. E o casebre lá. Feito ilha.

Eles, que não tinham nome. As pessoas se referiam àquela família como “os turcos”. Se eram turcos, de origem ou ascendência, não sei dizer. A geografia da ignorância nunca foi bem mapeada. Só sei que eram diferentes. E a gente não tinha olhos para os diferentes. “Os turcos” não se relacionavam muito com a vizinhança. Porque a vizinhança não queria muito se relacionar com eles.

Eles, que não conversavam pelo muro com os outros vizinhos, como todo mundo. Suas crianças não andavam de carrinho de rolimã na rua, nem jogavam bola com os outros meninos. Nem sei, ao certo, se iam à escola, ou como foram parar naquele pedaço da Mooca. Uma aura sinistra pairava sobre aquela casa pobre. Feito lenda.

Eles, com quem não podíamos brincar. Ordem expressa dos mais velhos; baseada em quê, exatamente, não sei. Talvez um boato, alguma história mal contada que criança não deveria saber. Entrar na casa deles, nem pensar.

Até o dia em que entrei.

Levada por uma amiga que morava nas imediações, que precisava tratar alguma coisa lá. Jogo rápido, ela disse. Entramos sem bater palma, não havia campainha. A caminhada até o casebre pareceu-me infinitamente assombrada. Então eu não morria de medo deles? A amiga, talvez lendo meus pensamentos, falou: “Eles são legais, vem”. O medo, construído no solo fértil da imaginação, tentou e quase venceu. Deixamos a casa, desci a rua correndo, entrei na vila, alcancei nosso portão. E agora? Conto, não conto, conto, não conto? Guardei o segredo como uma perigosa aventura infantil à qual eu, heroicamente, sobrevivera. Continuei a passar, todo santo dia, em frente à casa, tão diferente e tão incorporada à paisagem. Com o tempo, o medo se foi. A indiferença, não.

Até o dia em que eles foram embora.

O terreno foi vendido. O casebre, demolido. As bananeiras, derrubadas. No lugar, surgiu um prédio de apartamentos. Era a história deles soterrada para sempre. De certa forma, a minha também. Admito que não senti falta dos meus não-vizinhos, do terreno semiabandonado, do casebre, das bananeiras solitárias, daquela família excluída, maltrapilha, que nunca fizera mal a mim e, até onde sei, a ninguém. Se pouco sabíamos deles enquanto viviam ali, nunca soubemos para onde foram. Será que continuaram sendo “os turcos” em outras paragens?

O prédio erguido, numa espécie de estigma às avessas, também destoava na rua. Por muito tempo, reinou como único do quarteirão. Na frente está escrito um nome pomposo, em outra língua. Para essas coisas, a gente gosta de estrangeiro. O prédio bem que podia, numa espécie de redenção, tardia e inútil, se chamar Edifício Eles.

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