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O retrato

Ilustração: Mr. Pony/Flickr.com

Pediram ao rapaz que passava para tirar uma foto deles, queriam se registrar com seus novos olhares. Olhar de quem acabara de ver o resultado do exame que mudaria suas vidas dali prováveis trinta e seis semanas. Eufórico, sem ouvir a resposta – se o rapaz poderia ou não fazer a gentileza, e se estivesse atrasado para a aula? –, o futuro papai lhe entregou o celular e correu montar a pose junto à futura mamãe. Era um desses aparelhos de última geração, simples para uns, objeto de ficção científica para outros. O rapaz ficou imóvel, a câmera de não sei quantos megapixels focalizando a calçada e um canto da floreira de antúrios meio murchos.

– Vai, tira! – disse a moça, excitadíssima sob sua nova condição, posicionando o exame em frente à barriga ainda inalterada.

O rapaz chamou o pai de lado.

– Como é que faz? – sussurrou. Carecia de uma ajudinha técnica.

– Enquadra e clica aqui.

O pai voltou para seu posto, a moça agora experimentava outras posições. Exame ao lado do rosto grávido, o dedão para cima, informando o óbvio ‘positivo’.

– Vai logo, moço! – pediu, congelando o sorriso.

– Enquadro, até aí ok. Depois onde aperta, mesmo?

O pai, de seu lugar, relembrou:

– Nesse botãozinho aí embaixo, está vendo?

A moça mudara novamente o exame de lugar. Agora queria que os dois fizessem um coração com as mãos, e ela, com a mão livre, seguraria o papel à sua frente. Ficou meio complicado, mas eles deram um jeito. A ocasião merecia o esforço.

– Enquadrou? – perguntou o pai.

– Enquadrei. Agora é só ‘bater’?

– Isso, é só ‘bater’! – responderam, num aflito coro. As mãos em processo de câimbra, o tal coração.

A moça grita, “Para tudo!”.

– Na frente do laboratório, amor. Pra gente se lembrar que foi aqui que fiz o exame.

Posicionam-se, se abraçam, montam o coração de mãos, lá vai o exame pro lugar, assim, pronto.

– Vai, moço!

– Onde é que aperta, mesmo?

A barriga dela começaria a crescer, e nada de foto. Oh paciência! Tudo na vida é gestação.

Desfizeram o abraço, desmontaram o coração, ela dobrou o exame ao meio, suspirou. O pai foi lá mostrar o processo ao rapaz, tim-tim por tim-tim. Que assistia, entusiasmado, completamente envolvido em sua missão.

– Segura assim…

– Seguro…

– Enquadra…

– Enquadro…

– E aperta aqui.

Click!

– E aperto. Entendi, pode ir lá com ela.

Abraço, coração de mãos, exame, pronto.

– Vai, moço!

– Espera um pouquinho… Isto aqui é assim mesmo?

Vinte e cinco minutos depois, amigos e parentes conferiam a recém-parida foto-notícia no Facebook da moça. Com os três, abraçados e sorridentes. Sem firulas com o exame e nada de coração de mãos, que isso era besteira. E a legenda, que ninguém entendeu: “Nosso bebê nasce em junho. Este é o Osmar, que também está muito feliz por nós”.

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Crônica de minuto #34

Luca, sete anos, no banco de trás:

– Mãe, como se faz bebê?

Silmara, quarenta e quatro, no volante:

– É assim: na barriga da mulher tem um ovinh…

– Olha, mãe! Um Camaro do outro lado da rua!

[Ele é d-o-i-d-o com esse carro]

– Uau! Bonito, hein, filho? O motor deve ser 6.2. Puxa vida!

Resolvido.

Matrioska

Foto: Zeta/Flickr.com, efeitos: Gimp

A bebê dorme em seu carrinho. Enche de amor o coração da mãe que a embala. Enche de amor-perfeito a avó que as contempla. Enche o mundo de graça. E enche d’água meus olhos. Como podem três quilos e cinquenta centímetros ocupar tanto espaço? Na minha tarde de sexta-feira há três mulheres. Saídas uma de dentro da outra. Estou diante de uma matrioska viva. Passaria horas montando-a e desmontando-a. Brincando de nascer e desnascer. Mas quem gosta dessa brincadeira é Deus. A gente só brinca junto; as coordenadas são sempre dele.

No breve tempo de nanar, a bebê se desliga deste orbe, enquanto se liga ao de onde veio, aquele que deixou há pouco tempo. O dos anjos e jardins sem fim, gosto de imaginar desse jeito. Desconecta-se daqui e se reconecta lá. Mata as saudades dos amigos, ainda não sabe que os reencontrará aqui – é surpresa. Joga bola, canta uma canção, afaga um pássaro. E daqui trinta minutos pega um avião de volta, faminta de mãe.

No futuro, as fotografias dos álbuns de família mostrarão o quanto terão sido parecidas essas três mulheres. Pois cada uma tem em si um pouco da outra. O detalhe no sorriso, o jeito de ficar brava, a paixão por alguma arte. E também coisas que as outras se esqueceram de trazer nesta vida, ou não o fizeram de propósito, só para ver se a outra lembrava. Mulheres.

Cada uma delas cumpre um ciclo. E nem sabem por que o cumprem. Só sabem que é assim. Lá se vão, as três mulheres. A primeira ainda não sabe andar. A segunda, sim. A terceira está desaprendendo. Cabe à do meio ajudar as que estão nas pontas do tempo presente. Ela sabe que, breve, o terceiro lugar será seu. E arrepia-se só de pensar: a que cochila no carrinho, um dia, tratará de continuar a história, aumentando a matrioska.

É boa a roda da vida, como não? Vida de meia volta, volta e meia que se dá. Estamos todos cirandando.

Os órfãos

Boneca reborn | Foto: Tea Drinker/Flickr.com

– Ficaram apertadas, tem trinta e oito?

Estava na vigésima segunda semana e seus pés não entravam em quase mais nenhum sapato. A tia, autora do presente e mãe de cinco filhos, deveria saber disso. Mas não sabia. Ou não se lembrou. Certas recordações da gravidez parecem ir embora com a placenta.

Aproveitou e calçou as sandálias novas ali mesmo, na loja. Pediu para embrulhar suas sapatilhas, naquela manhã notou que também já não lhe serviam mais. Antes que o vendedor as levasse, despediu-se delas: Quem sabe nos veremos no outono. Estranhou ver suas sapatilhas floridas, tão envelhecidas, naquela caixa nova. Elas, que ao longo dos meses, quando os primeiros inchaços surgiram, aprenderam os novos contornos dos seus pés. Elas, cujas rosas também já haviam mudado de tom, tal qual numa roseira. Era como se duas irmãs solteiras que viveram a vida inteira juntas na mesma casa fossem, de repente, morar em um apartamento novinho em folha. Os cheiros – de gente velha e de casa nova – não combinariam. Haveria certo estranhamento no início. Mas, pelo menos, teriam uma a outra. Por via das dúvidas, saindo da loja, abriu a sacola e as tranquilizou: Em casa coloco vocês de volta no armário.

Os corredores do shopping estavam lotados. Mais trocas que vendas, depois do Natal é sempre assim. Parou para comprar uma garrafa de água. Precisava descansar um pouco. Enquanto aguardava o troco, viu a loja. Aproximou-se. Na vitrine, pequenos bonecos imitavam, à perfeição, bebês recém-nascidos. Dispostos em graciosos e enfeitados bercinhos, as miniaturas humanas a assombraram: as bochechas meio amassadas como convém a quem, há pouco, deixara o útero constrito; os olhinhos ainda se acostumando à luz; os cabelos desgrenhados devidamente ajeitados sob toucas de lã; a pele arroxeada, as veias, as rugas, a lanugem. Pequeninos corpos de plástico, ainda encolhidos sob as amplas vestes de algodão. Lembrou de seus pés nas antigas sapatilhas, renascidos agora nas novas e espaçosas sandálias.

Ela nunca havia reparado naquela loja. Devem ter nascido no Natal, como Jesus Cristo – pensou. A vitrine era como um berçário de maternidade, daqueles que exibem os neonatais para parentes orgulhosos e curiosos de plantão. Com a diferença de que os recém-nascidos da loja não tinham mãe. Nem pai. Nem parente. Nem ninguém. Eram órfãos. Gerados pelo vinil e pelo silicone – sem pomba ou espírito santo. Paridos na manjedoura de algum artista plástico, sem direito às vacas para lhes aquecer, como no presépio. A loja, na verdade, era um imenso, triste e gelado orfanato.

Apertou as mãos contra a barriga e, movida por uma dolorosa piedade, entrou na loja e pediu para ver a menininha na ponta da vitrine, embrulhada no xale lilás. Aquela, que sugava o polegar. Ajeitou-a com cuidado no colo e, sabendo que deveria estar com fome, afastou-lhe carinhosamente o dedinho da boca, abriu a blusa e ofereceu-lhe o seio.

Partida e chegada

Foto: Pink Sherbet/Flickr.com

Era dia dos mais sem graça. Dia bom, porém. Mas com jeito de dia usado, daqueles que parecem já ter acontecido. À noitinha dei um pulo no aeroporto, o avô das crianças vinha passar uns dias em casa. Enquanto o esperava, brinquei de prestar atenção no mosaico de gente e mala que se formava a cada embarque e desembarque. E acabei encontrando ali a graça do meu dia. Aeroportos são estações de trem com asas.

Um velho numa cadeira de rodas passou pela minha frente. Atrás dele, um bebê num carrinho. Cada qual com seu condutor. Eles não estavam juntos. Mas tinham algo em comum, além dos cabelos ralos: os dois dependiam de alguém para cuidar deles.

Infância e velhice passam à nossa frente o tempo todo. Para notá-las é preciso ter olhos de ver. O que não é nada fácil para quem está na metade do caminho, longe das duas pontas. A gente se esquece do que já foi e finge não saber do que será.

Saber os dois – bebê e velho – é exercício. De paciência, para o primeiro. De cuidado, para o segundo. Porque o velho é um espelho mágico que mostra o futuro. Então, meu amigo, é bom se cuidar. Começando pelo coração, que é a casa da cabeça. Ele manda no resto. Manda até nas pernas, nossas rodas de verdade.

O bebê do aeroporto era risonho, inquieto na sua fome de novidade. O velho era sério, imóvel. Olhava para o nada, já que tudo lhe parecia conhecido. Bebê e velho eram começo e fim. Oito e oitenta – meses e anos. Diferença e indiferença. Partida e chegada. Como as origens e os destinos lá no grande painel do mundo, que troca as informações a todo instante. O bebê ia para o velho. O velho vinha do bebê. O bebê me disse de onde eu vinha. O velho me mostrou para onde eu ia. E os dois me lembraram que o tempo passa é muito rápido. Voando, eu diria.