Acredite se quiser

Jamais contei essa.

Para não correr o risco de passar por mentirosa, loroteira, gabola, bazofiadora. Porque, se eu não houvesse vivido o causo em primeira pessoa, parece mesmo mentira, lorota, gabolice, bazófia.

Agora vou contar.

Talvez, a maturidade tenha me trazido autoconfiança, um certo nem-te-ligo para o que o povo fala. Também porque é preciso contar histórias tão reais quanto improváveis, pra tornar o mundo mais crível.

Minha irmã, testemunha ocular, também jamais a contou. Para, penso eu, não correr o risco de passar por mentirosa, loroteira, gabola, bazofiadora.

N’algum dia da longínqua década de 80, fritávamos batatas. Panelão com óleo borbulhando, as batatinhas lá. Cortadas em palito, trabalhando a mágica de ficarem crocantes por fora e macias por dentro.

Peço que prestem atenção aos elementos essenciais da história: fogão – fogo – óleo.

Quase prontas, eu as revolvia no óleo quando, por algum movimento desastrado, a panela virou. Eu tinha o péssimo hábito de cozinhar coisas líquidas e derramáveis na boca da frente do fogão. E não na de trás, como manda o manual da cozinha segura.

Panela tombada, batata e óleo pelando desabaram feito uma cachoeira do último círculo do inferno de Dante, romperam como o magma do centro da Terra – valei-me, Júlio Verne! – sobre meus pezinhos… calçados com míseros chinelinhos de dedo.

Quedada, procurei o olhar da irmã. Talvez, para certificar-me que eu continuava viva e a visão da cozinha não era um apenas um lampejo pós-desencarne, esses que os mortos contam em cartas psicografadas, relatando que viram suas almas se desprendendo dos corpos, aquelas coisas.

Então, concluí: eu estava ali, sim, vivinha da silva. E que meu par de pés número 35 acabara de ser escaldado em óleo de soja, feito nuggets.

Pois bem. Meus pezinhos, alheios às leis da termodinâmica, não haviam se transformado em uma imprestável geleia morna de pele, carne e osso. Tampouco em uma massa derretida e sanguinolenta. Estavam apenas e tão somente avermelhados. Como se eu tivesse apanhado um solzinho sem Coppertone.

Acredite se quiser.

Incrédula, fui lavar os pés lambrecados no banheiro, sem saber ao certo a que santo ou entidade agradecer. Minha irmã, igualmente incrédula, limpou o chão, que permaneceu quentíssimo por muito tempo. Assim como meus chinelos. O rango, porém, fora para as cucuias. Mas não adianta chorar pela batata derramada.

Está certo que batata frita é iguaria incomparável, universal, unânime, a única capaz de unir os povos (talvez, ao lado da pizza), e tem em si um aspecto realmente divino. Mas até eu achei o milagre meio exagerado.

E agora que me animei, vou contar outra, também inédita. Podem me chamar de mentirosa, loroteira, gabola, bazofiadora.

Morávamos em casas coladas, a nossa e a dos nossos avós, unidas pelo quintal. Eu estava no quarto dos meus pais. Minha avó em seu quarto, no extremo oposto. Cuidava de meus afazeres adolescentes quando a ouvi me chamando, num brado fraco. Silmaaaraaa. Parei o que estava fazendo, fui atendê-la. Cheguei ao quintal e já ia subindo à sua casa, quando encontrei ali a Caró, minha cachorra, engasgada com um osso de frango. Acudi a pobrezinha, sabe-se lá o que teria acontecido se eu não chegasse naquele exato momento. Cachorra salva, dei-lhe um beijinho e subi a pequena escada para ver o que dona Zéfina queria comigo. Ela, plácida em seu sofá de curvim verde, disse: “Não te chamei, não”.

Acredite se quiser.

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