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Atende!

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arte: Alanna Cavanagh

Peço o livro ao atendente, ele consulta o sistema, tem. “Um minuto, vou buscar”. Assim que o Alexander – li no crachá – vira a esquina da seção de gastronomia, o telefone do pequeno balcão toca.

Olho ao redor. Ninguém com crachá. E agora?

Sofro quando um telefone toca e ninguém atende. Tenho urgência de alôs.

Não devo me meter, não sou funcionária da livraria. Mas a pessoa do outro lado da linha não tem culpa de o Alexander ter ido buscar o meu livro, e não ter mais nenhum atendente por perto. E se é um pai que precisa, com urgência, de um livro para a filha fazer o trabalho de Ciências, que não tem em lugar nenhum, quem sabe ali?

O ring-ring nervoso me deixa nervosa. Só eu ouço? Um telefone invisível, um tilintar (meu pai que fala tilintar) inaudível, captado apenas pelos meus, agora angustiadíssimos, ouvidos. Olho os fregueses. Nenhum parece ter – e, na verdade, não tem – nada com isso. Quem tem é o Alexander, que deve ter ido à editora a pé buscar meu livro, só pode. E os colegas dele resolveram todos sumir. Esse negócio de megastore é lindo, mas duvi-de-o-dó que um telefone toca mais de cinco vezes em uma livraria pequena.

É pegadinha. Sempre acho que estou em uma. Atendo; a pessoa procura por um título escalafobético qualquer, entabula uma conversa sem pé nem cabeça, difícil de se desvencilhar; peço, toda educada, que aguarde, vou chamar um atendente; a pessoa diz, então, para eu olhar para trás; eu olho e tcharam! Estou na TV. Todos os funcionários, inclusive o sacana do Alexander, mais dezenas de fregueses curiosos, morrem de rir.

Nem morta que vou atender.

Mas e se, do outro lado da linha, for um senhorzinho, desses que usa cachecol xadrez e gosta de ir à livraria encomendar livro, para depois ir de novo buscá-lo, querendo saber se sua encomenda chegou? Quer tanto aproveitar o feriadão de Páscoa para reler os contos reunidos da Lygia Fagundes Telles, dizem que a nova edição ficou supimpa. Senhorzinhos que usam cachecol xadrez falam supimpa.

O telefone segue se esgoelando. É um pobre solitário na ilha do pequeno balcão, cercada por um mar de leitores, não de ouvidores. O Alexander escafedeu-se. Deve ter infartado na seção de auto-ajuda e não há ali ninguém para socorrê-lo. Só ele, com uma atitude positiva e pensamento focado, pode se salvar.

Aliás, pode ser um parente da moça do caixa, avisando que o avô está no hospital, que o caso é grave, que estão pedindo a presença de todos da família. AVC, igual ao bisavô, que sina! É o tipo de telefonema que não pode não ser atendido. Um minuto faz toda diferença em uma despedida.

Pronto, está decidido. Pelo trabalho de ciências da garota, pelo senhorzinho de cachecol xadrez, pelo avô da moça do caixa, pela memória de Graham Bell, vou atender.

Seja o que Deus quiser.

A aula

telefone 3

Gostava de ouvi-lo ensinar como funcionava o telefone. Eu sentadinha à mesa da cozinha, maravilhada com meu pai explicando coisas sobre voz, eletricidade e cabos. Suas mãos iam simulando, sobre a toalha estendida (a xadrezinha?), o caminho que a chamada percorria para ir de uma ponta à outra. Eu ficava maravilhada com a tecnologia e com meu pai, que sabia tanta coisa (ainda que não soubesse tanto assim). Cheguei a pedir-lhe várias vezes para repetir a “aula”.

Ontem liguei para ele. Seu Tonico não é, mas estava especialmente surdo. Pediu notícias das crianças, dei, não sei se ele ouviu; só soltou um Aaah. Contou-me que havia varrido todas as folhas secas pela manhã. Perguntei-lhe se havia almoçado direitinho. Ele continuou falando da varrição. Lembrei-me da velhinha surda d’A Praça é Nossa, aquele programa de TV. E ri. O script agora é outro.

Enquanto ele discorria sobre a trabalheira que as folhas lhe deram, lembrei-me da aula do passado. Meu pai ensinou-me sobre algo que, hoje, tem dificuldade para usar. Na nossa breve conversa, o meio era a mensagem.

E agora, quando o visito, sou eu que ensino a ele como funciona uma ligação pela internet. Apanho o celular na bolsa e ligamos para minha irmã, sua filha do meio, que mora em outro país. Ele tem telefone, mas não acerta ligar para ela, muitos números. E não adianta colocar o numerão na memória do aparelho. A memória que não funciona bem é a dele. Vou demonstrando a mágica da chamada. Mas não tem mais a mesa da cozinha, nem a cozinha. Nem as toalhas. Mas tem ele, feito criança, maravilhado com a tecnologia e comigo, que sei tanta coisa (ainda que não saiba tanto assim). E, assim que minha irmã atende, ele passa a falar muito alto no aparelho, como se fazia antigamente. Eu que não vou ensiná-lo que não precisa mais.

Plano de expansão

telefone

Os vizinhos da casa 4 tinham telefone. Eu achava que eram ricos, os únicos da vila a terem um. Dona Antonia não se incomodava que passássemos aos nossos familiares o seu número – que, num desses mistérios insondáveis da mente, sei até hoje: 92-6405. Para o caso de um parente precisar comunicar, por exemplo, que alguém havia batido as botas.

Dona Antonia (imagino) cozinhando feijão para o almoço. O telefone toca, ela atende, Espere aí que vou chamar. Ela desliga o fogo, tira o avental, desce as escadas, toca a campainha do vizinho e avisa, Telefone para Fulano. Fulano, que assistia TV, a desliga; desce suas escadas, sobe as da Dona Antonia, entra na sala, Alô?. Um processo que podia levar cinco, dez minutos. Era bom que fosse coisa importante.

Apesar de eu ter reforçado às amigas que aquele era um telefone apenas para re-ca-dos, um dia a Adriana ligou. Pediu para falar comigo. Lá fui eu. Ela só queria bater papo. Eu fiquei desenxabida, em pé ao lado da mesinha, respondendo por monossílabos, bem baixinho. Tratei de abreviar o conversê e fui para casa, morta de vergonha. Dona Antonia, no entanto, nunca reclamava.

Telefone de recados, coisa mais antiga. Era comum alguém informar seu contato assim. Até em curriculum vitae. Significava que a pessoa não possuía telefone, mas contava com alguém para lhe prestar esse favorzinho.

Nossa casa só conheceu telefone na década de 80. Passei a infância e parte da adolescência me comunicando por sinal de fumaça. Eu tinha dezesseis anos e me recordo do técnico terminar a instalação e anotar a sequência mágica num papelzinho, para que não esquecêssemos: 948-3443. De fato, não esqueci. Quem disse que não sou boa com os números?

Foi meu irmão que o comprou, pelo plano de expansão da Telesp. Um carnê com intermináveis prestações. O interessado adquiria a linha e esperava, sentado, até dois anos (vinte e quatro meses; setecentos e trinta dias; dezessete mil, quinhentas e vinte horas) para que o telefone fosse instalado. Eu sonhava com o dia em que conversaria com meus amigos do sofá da sala. Fui várias vezes à Telesp, no Belém, fazer o pagamento. Tinha fila. Um ônibus para ir, outro para voltar. Quem, hoje, se sujeitaria a isso? Não se compra mais telefone desse jeito. É ir à loja (toda esquina tem uma) e sair falando. Aliás, falar ao telefone é coisa secundária, periférica, expressão arcaica. Ninguém pode dizer que o mundo não evoluiu. Quando ouço alguém falar que antigamente a vida era melhor, eu lembro do plano de expansão da Telesp. Telefone é coisa que marca a vida da gente. Até o ET precisou de um pra voltar pra casa.

Desde meu primeiro celular já tive vários números, mas o ringtone é sempre o mesmo: o bom e velho triiiimmm. Por razões de nostalgia assumida. Em casa já há mais aparelhos que seres vivos – contando os gatos. Cada um tem o seu (exceto os gatos), e os que vão sendo substituídos acabam nas gavetas, as crianças pegam para brincar. E ainda tem o fixo.

Quem diria. Dona Antonia, que morreu antes de o smartphone nascer, poderia finalmente cozinhar seu feijão sossegada. Nunca mais tive notícias deles. Também perdi a Adriana de vista, gostaria que ela soubesse que já posso conversar à vontade. Ganhei de aniversário, embora não precisasse, um aparelho novo – as gavetas estão cheias. Nunca mais decorei, em minha memória analógica, os números de ninguém. Nem dos filhos. Quem é que liga pra isso?

No mais, recordações à parte, tenho me dedicado aos meus próprios planos de expansão. Tenho um carnê com intermináveis ideias para quitar, o vencimento é todo santo dia. Atraso algumas, adianto outras. Mas vou dando meu recado.

Somente o indispensável

“Silence”, Ricardo Lago

Fez sinal, apertou forte os cadernos contra o peito, subiu.

No primeiro banco, o rapaz de moletom cerzido na manga (dava para ver) levantou, ia descer no próximo ponto. O lugar, por direito geográfico, agora era seu.

Sentou, ajeitou os cadernos no colo. Alinhou os espirais feito escadinha. Com os dedos, brincou de subir e descer os degraus de arame.

Procurou, como fazia todos os dias, distração para os próximos dez minutos. Desistiu de contar quantos passageiros usavam calça e quantas estavam de saia. Fizera isso antes de ontem. Também não quis repaginar, mentalmente, os cabelos das mulheres, todos tão parecidos. Buscou inspiração no motorista. Mas não nos seus sapatos lustrosos, nem no relógio verde (tão familiar) destacado no braço gordo e branquelo. Na plaquinha colada no para-brisa, leu o aviso: “Fale ao motorista somente o indispensável”.

Quis, então, ir até ele e dizer: ela não havia colado na prova, como acusara maliciosamente o professor de química. Era indispensável deixar isso claro.

Assim como era indispensável dizer que sim, desconfiou da vizinha pela manhã, quando ela respondeu que não havia visto Mussum, seu gato. Da outra vez, ela também dissera que não vira o Pelé, e Pelé apareceria envenenado no dia seguinte.

Dizer que sentia saudade da avó, especialmente na Semana Santa, também era indispensável. Todos os anos, ela furava, escorria e decorava alguns ovos das galinhas da chácara, depois os colocava numa caixinha de Catupiry enfeitada com paninhos estampados e presenteava as cinco netas.

Mas ela não estava acostumada a falar as coisas indispensáveis, por considerá-las dispensáveis.

Não falava para o dono da banca que sonhava trabalhar ali, com ele, um dia, quem sabe.

Não falava para a mãe que não gostava de peixe, e a mãe seguia achando que ela gostava, caprichando na moqueca toda sexta-feira.

Não falava nunca para o treinador que sua cabeça latejava quando jogava vôlei no colégio, e continuava jogando até o final.

O ônibus entrou na avenida. Ela juntou os cadernos, fez sinal, seu ponto era o próximo. Já na porta, resolveu, assim de sopetão, falar ao motorista o que soaria incrivelmente dispensável: “Tenho um relógio igual ao seu”.

O motorista olhou o braço e sorriu, orgulhoso: “Ganhei do meu caçula, de Dia dos Pais”.

O indispensável – ela filosofou – se traveste de dispensável só para nos testar.

A porta se abriu, ela apertou forte os cadernos contra o peito, despediu-se e desceu.

Vá lamber sabão!

arte: Zoraida de Torres
arte: Zoraida de Torres

Os sabonetes andam, não de hoje, atrevidos.

Do tempo em que nove em cada dez estrelas usavam Lux até os anos dois mil, uma passada rápida nas gôndolas do supermercado confirma: não se toma mais banho como antigamente.

Se para minha avó bastava escolher entre sabonete para pele normal ou seca, tenho à minha disposição opções para pele normal, seca, desanimada, em crise, moderna, retrô, light, diet, integral. O sabonete ganhou predicado afetivo, social, mágico e, por que não?, gastronômico.

Valei-me! Sabão é sabão.

Provocar, relaxar e estimular são os verbos preferidos dos slogans. Há também aqueles que não se contentaram com o universo do banheiro e se estenderam à sagrada cozinha, incluindo na receita ingredientes inusitados como vinho, macadâmia, morango, chantily. Agora me lavo com medo de engordar. Vou ter que instalar uma lava-louças no lugar da banheira.

Vou ao delírio quando vejo um rótulo minimalista e sincero: “sabonete para banho”.

Tem sabonete candidato a último romântico oferecendo buquê de sonhos, prometendo suavidade de pétalas, sensação luminosa, maciez renovadora. Uns, mais atirados, convidam: “degusta-me”, “seduza-me”. Já já precisarão colocar a classificação indicativa nas embalagens.

Um sabonete, para ser capaz de estimular meus sentidos, teria que ter o gosto do pão de batata que minha mãe fazia ou o cheiro do meu primeiro carro zero.

Para ser merecedor do título de relaxante, um sabonete precisaria saber fazer massagem nos pés, contar uma boa história ao pé do ouvido, preparar chá de alfazema. Energizante? Bastaria que cantasse “Fistfull of love” igualzinho ao Antony.

Dá para deixar os meus sentidos em paz? Eu só queria sair do chuveiro limpa e razoavelmente cheirosa.

Porque contra cansaço, angústia contemporânea, falta de amor ou paciência, não tem lauril éter sulfato de sódio, anfótero betaínico ou fragrância que resolvam, meu bem.

Atribuir superpoderes àquilo que foi feito para limpar, perfumar e, no máximo, não ressecar, soa a desespero. É forçar a barra do sabonete. Líquido, inclusive.

Te ligou

Arte: Misch Valente

Deu no jornal: Papa Francisco gosta de telefonar para os fiéis que lhe escrevem cartinhas. Só para alguns, é claro. Ele tem muita coisa para fazer na sua rotina papal, muita missa a rezar. Diz que ele faz isso de gosto, espontaneamente. Seus assessores ficam malucos com a mania. E seus fãs, em estado de graça. Sorte de quem atende a ligação. Ou não.

– Alô?

– Bom dia! Aqui é o Papa Francisco. O Miguel está?

– É ele.

– Como vai, Miguel? Recebi sua carta. As coisas não estão bem, não é? Estou ligando para confortar seu coração.

– Mas quem está falando?

– Francisco. Papa Francisco. Você me escreveu…

– Isso é pegadinha?

Miguel olha por entre a cortina da janela que dá para a rua. Olha para os lados e para o teto, procurando alguma câmera indiscreta e desconfiando daquele sobrinho levado da breca.

Lá vai o Francisco mencionar o teor da carta, para convencer o Miguel. Que por pouco não desliga, achando que é trote. Ficaria sabendo depois, pelos jornais: “Fiel bate telefone na cara do papa”.

Eu nem sabia que os fiéis escreviam para o papa. Parece coisa de criança que manda cartinha para o Papai Noel. Eu cheguei a escrever algumas. Fazia minha listas de pedidos, argumentando o porquê de eu merecê-los. Geralmente, ganhava apenas o item que encabeçava a lista. Não é clara a lembrança sobre a minha crença no Papai Noel (se era do tipo total, parcial ou conveniente), muito menos a data, ou motivo, que inaugurou a minha descrença. Nunca recebi ligação alguma do bom velhinho. Deve ser porque a gente não tinha telefone.

Papa Francisco poderia enviar e-mails. Usar o Messenger, o WhatsApp. Ficaria doidinho, teclando em seu papa-phone enquanto almoça, vai ao banheiro. Até nisso ele seria gente como a gente.

Jamais me ocorreu escrever ao papa, embora nunca tenha duvidado de sua existência. O que eu lhe diria? Qualquer lamúria careceria de explicações, de detalhes para que eu me fizesse entendida. Papas são representantes de Deus, mas não contam com a onisciência. Poderia, simplesmente, escrever para lhe contar que está tudo bem por aqui, que estou pensando em ter aulas de piano, que os gatos estão ótimos mas que a Bia, a branquinha, morreu no mês retrasado. E, um dia, caso eu recebesse sua santa ligação, e ele perguntasse se tenho ido à igreja, diria que não. Meu coração é meu altar.

Miguel vai enrolando o papa, ainda à procura da câmera escondida, encafifado. “Quem será que pegou a minha carta?”. Cobre o telefone com a palma da mão e faz sinal para o filho ir correndo chamar a mãe no quintal. A mãe vem, enxugando as mãos no avental, estava estendendo roupas.

Papa Francisco, lá do Vaticano, coça a cabeça. Ele, melhor que ninguém, sabe: ajoelhou, tem que rezar.

[Nota: daqui, ó.]

Escreveu, não leu…

Ilustração: Gustav Söderström/Flickr.com

Desde o momento que ganhei um smartphone, desses que fazem interface com Deus e o Diabo (às vezes, mais um que outro), tenho convivido com um professor de português pró-ativo mas, não raro, equivocado. É o corretor ortográfico, mestre em linguística embutido na engenhoca e que tem me dado um trabalhão. Tenho a opção de ativá-lo ou não. Porém, de razoável utilidade em casos de pressa aguda, ainda não me senti forte e determinada o bastante para dispensá-lo.

As aulas iniciam assim: entabulo a prosa com a comadre pelo SMS, sem notar que algumas palavras digitadas vão sendo substituídas por outras, que ele julga, de acordo com sua experiência e sabedoria, mais convenientes. Oh oh. Nem sempre ele está certo. Às vezes, é tarde demais. Há que se enviar nova mensagem: “Estou lesada”, explico, e não “Estou ‘mesada’”. Esclareço que preciso traçar um açaí duplo, e não um ‘Havaí’.

Ainda pelo smartphone visito, na rede social, a página da amiga na intenção de saber como foi a cirurgia do seu ciso. Ela responde que, felizmente, não precisou operar seu ‘riso’. (Só rindo.)

Comento a postagem bem-humorada de um fulano e risada vira ‘rodada’.

Compartilho que o cantor foi mal no show e ninguém entende, porque vaia virou ‘caia’. Um tombo, então? Eu, no passado, já vangloriei minha capacidade de datilografar rápido e certo.

Acesso o email para informar, em tempo real, que o amigo passou mal e foi levado de maca para o hospital. Concluo a mensagem e clico em “enviar”. A notícia espanta os destinatários, que devolvem: levado de ‘maçã’?

É a era das retificações ortográficas virtuais.

Donos da verdade, os corretores desses aparelhos pensam saber o que é melhor para nossas conversas e manifestações no ciberespaço. Sugerem vasto dicionário de possibilidades, mas sempre batem o pé que a primeira grafia é a melhor. E, num instante de descuido, zás!, assumem decifrar nosso pensamento. Nessa toada, não está longe o dia em que os smartphones terão ideias por nós. Pior: num belo dia eles resolverão ligar, por conta própria, para todos os contatos da nossa agenda. Sabe-se lá o que dirão a eles.

Smartphones levam a sério seu nome, estão ficando demasiado inteligentes. Alto lá: quem manda na minha vida sou eu e o lema é extensivo à minha escrita. O corretor ortográfico pode estar cheio de boas intenções. Porém, vide a antológica frase a respeito delas e o inferno. Seu slogan deveria ser o velho “Escreveu, não leu…” – e eu nem quero ver como é que ele completaria a frase.

Admirável (des)mundo novo

Ilustração: Ade McO-Campbell/Flickr.com

Eu envelheço e o mundo vai ficando novo. Meus espelhos estão mais sinceros, e as propagandas, mais mentirosas. Às vezes, eu queria me trocar, me devolver; acho que vim com defeito. Minha translação é lenta, ando atrasada para viver. Parece que o sol se põe dum lado diferente a cada dia, brincando de ser e não ser. Me confundo toda nessa giração. De quantas rotações somos feitos, afinal, no admirável (des)mundo novo?

Tenho e-mail, Facebook, Twitter, blog, celular 3G e o diabo a quatro ponto zero. Com quem ou o quê, exatamente, isso tudo me conecta? Agora tudo é descobrível, decifrável. (Exceto o coração de quem (des)ama.) Os segredos de Fátima só permanecem ocultos para quem não tem banda larga. As teias sociais capturam até os avisados. E longe, de fato, é um lugar que não existe. Só sei que dependo de água e fibra óptica para viver. Tem dias que preciso mais de uma que da outra. Não conto qual.

Vivo, com expansões no lugar de contrações, num parto incessante de ideias desvairadas. Algumas já nascem mortas. Outras vingam; são amamentadas com fé, liberdade e imaginação. Tento escrever meu diário, mas o presente vira memória num piscar de olhos. Sei que a cabeça está cheia quando passo a me procurar, o tempo todo, para conversar. Qualquer hora, mando dizer que não estou.

Me alimento de atualizações, bebo a pressa, sempre com pressa, e arroto posts aleatórios. Me embanano diante de tantas opções, no infinito self-service do admirável (des)mundo novo. No entanto, recuso o adoçante, o light, o diet. A vida precisa ser integral.

Dei frutos. Mas eles continuam rente ao meu tronco, lambendo minha seiva diária. Eu os protejo e lhes dou sombra. São meus admiráveis filhos novos. Vou imprimindo em meu corpo cicatrizes em forma de tatuagem, enquanto a da cesárea vai desaparecendo. É um recado.

Na admirável (des)ordem nova, os pecados são mais complexos. Os dez mandamentos já se multiplicaram: “Não compartilharás em vão”. Desobedeço ao menos um, todos os dias. Deus, eternamente online, nem liga. Testo sua onisciência, imito sua onipresença e não espero pelo castigo. Ele é moderno. Eu, não.

Pronta para o verão?

Ilustração: Pin-up with sun hat, Freeman Elliot

Começou. Nos outdoors, anúncios de revista, comerciais de TV, alguém ordena: preciso me preparar para o verão. Por aqui, ele só dará o ar da graça em três meses. É como se a primavera, que acaba de tocar a campainha no hemisfério sul, com sua inabalável força renovadora, fosse coadjuvante em um espetáculo onde a única celebridade é o verão.

Em doze semanas eu não consigo definir nem o que quero da vida, quanto mais glúteos, bíceps, tríceps, abdome. Até parece que o que levou um ano (ou mais) para se instalar no meu corpo, sob minha permissão, estará disposto a ir embora assim, em noventa dias.

Eu me preparei para o vestibular. Para a primeira entrevista de emprego. Para encarar uma demissão. Para ter filhos (e me preparo para isso dia após dia). Para perder minha mãe. Eu me preparo para viajar, jantar fora, tomar injeção. Mas preparação para estação vindoura, sinceramente. Isso é lá com os ursos, formigas, cigarras. Eu que não vou dar trela.

Sou obra em progresso, nunca estarei pronta. Na melhor das hipóteses, equipada para dançar conforme a música: câmera fotográfica nas mãos para primavera e outono, ar-condicionado para o verão, botas de cano longo para o curto inverno tropical. No mais, permaneço em construção, desde que nasci até o último dos meus dias. Que cairá, quem sabe, num solstício de verão ou equinócio de outono.

Vida não tem colação de grau, nem formatura. É a coleção de estações vividas, uma após a outra, em seu eterno compasso de brotar, florir, morrer, que deixa a gente razoavelmente preparada para o ato de viver. Ainda assim, é bom que se diga: não há garantias.

Ao contrário do que deveria ser, não é a brisa da primavera que nos acaricia agora. O que nos derruba, daqui até o Natal, é o vendaval de apelos para ficar bonitona, gostosona, tudo ona. Inclusive bobona. É o externo premiado. No entanto, não é só disso que se faz um verão. Até andorinha sabe.

Chegará o dia em que outdoors, anúncios e comerciais noticiarão cada estação do ano com a mesma pompa e devida circunstância, pedindo de nós só o que é possível lhes dar.

Os que viverem, verão.

Casamento

Ilustração: Silvia Falqueto/Flickr.com

Marido deixa microrrecados românticos ao lado do chuveiro, de vez em quando. Ele toma banho antes de mim. Compõe suas pequenas missivas usando aquelas letrinhas coloridas de EVA que grudam nos azulejos, deixadas ali pelas crianças em dia de ducha coletiva. Ele envia, eu recebo depois. O banheiro é a nossa caixa postal.

São recados curtos, de carinho imediato, mais breves que um tweet. Já não há tantas letrinhas disponíveis – o alfabeto de brinquedo, de tão antigo, foi se perdendo com o tempo. Quando eu os leio, ele já está longe, enfiado em reuniões e outras chatices corporativas. Gosto de imaginar que ele me imagina sorrindo nessa hora. Outro dia, um minimalista ‘super woman’ me aguardava no box ainda embaçado pelo vapor de seu banho, anunciando o bom dia. Percebi que o W era, na verdade, um M de ponta-cabeça. Aquele foi fácil de responder: tirei duas letras, W e O. Ficamos quites. Em outra ocasião, faltava um U à minha microfrase. Virei-me como pude, deixando coladinhos um L e um I. Criatividade e improviso, mais que tudo, deveriam constar como obrigações na certidão de casamento.

Nem sempre, porém, dá para ser lacônica. Eu, que estou mais para palavrosa, se pudesse, ocuparia o banheiro inteiro com meus bilhetes. Escreveria cartas com frente, verso e avesso. Que continuariam nas paredes do quarto, alcançariam o corredor, escorreriam pelas escadas e ganhariam o quintal. A super woman aqui é aprendiz na arte da concisão. E inveja no super man tal poder.

Há também os recadinhos escritos com lápis de olho no espelho, sobre a pia. Devidamente codificados, para que fiquem entre nós. Às vezes, apenas um ‘boa viagem’, ou uma força para aquele dia que, sabe-se, vai ser longo. Às vezes, em inglês, para ninguém em casa decifrar. A empregada não pode ser bilíngue.

Nenhum dos dois, no entanto, manda recado ao outro pelas letrinhas nos dias em que a casa cai. Nem mandando lamber sabão, tampouco pedindo desculpas. Não se lava roupa suja no chuveiro. Nossa caixa postal é protegida contra insultos, tem Blindex. Ali, só o lado A do casamento. Ali, só correio elegante.

Nota: quer ver o que veio depois deste? Aqui.

Alto-falante

Ilustração: Scott Maxwell/Flickr.com

Um inventor jamais tem paz se descobre que seu invento é usado para fins que ele próprio desaprovaria. Assim foi com Santos Dumont, que deu cabo da vida depois que viu seu avião lançando bombas. Se pesquisarmos, talvez fiquemos sabendo de outro inventor com destino semelhante: o do alto-falante.

Praga essencialmente urbana, quando não está a serviço da música e no local certo, o alto-falante se presta a infernizar o cidadão, atordoando-o de vários jeitos. Em todos, contará sempre com seu fiel companheiro, outra invenção que também deixaria seu dono desgostoso: o microfone. Agindo em dupla, eles são imbatíveis na missão de despachar a tranquilidade para longe. Algo falante já é chato. Alto, então, é o fim.

Quem já foi a – ou passou próximo de – um feirão de automóveis, sabe do que estou falando. Tropas de vendedores invadem estacionamentos de shoppings centers ou qualquer outra área livre, como vikings, e já vão instalando alto-falantes aqui e ali. Bólidos tinindo, outros nem tanto, são os personagens mudos de um espetáculo do barulho. A diferença é que o antigo povo bárbaro saqueava as cidades em busca de mercadorias, os feirões saqueiam a sua paciência. Muita falação amplificada para animar o candidato a comprador e desanimar quem não tem nada a ver com o pato. A ordem é por o silêncio para correr. Quem quer silêncio, que vá para o campo.

Boa ideia, aliás, para as férias: um hotel-fazenda longe da metrópole, cheio de bichinhos para entreter a molecada, ar puro, comida caseira. Ou então um daqueles imensos resorts, para se esquecer até do próprio nome. Certo? Errado. Em nenhum deles se escapará da maldição dos alto-falantes. Você apanha seu livro, caminha até a piscina, ajeita-se numa espreguiçadeira e cumprimenta o sol. O mundo pode acabar ali. Antes, porém, um recreacionista munido da temível dupla avisa que a próxima aula de hidroginástica é dali quinze minutos. E começa a discorrer, entre uma piadinha e outra, os benefícios da atividade. É o tempo de você reunir suas coisas e se pirulitar dali.

De volta das férias, você lembra que antes de partir deu para a empregada tudo o que havia na geladeira, para não estragar. Hora de ir ao supermercado. Assim que você põe a primeira caixa de leite no carrinho anuncia-se no alto-falante uma promoção relâmpago no setor de eletrônicos, onde TVs moderníssimas de infinitas polegadas podem ser adquiridas em dez vezes sem juros no cartão. Você está feliz com a sua TV, as pessoas ao seu lado também não alteram as pestanas. Mas todos são obrigados a ouvir, de trinta em trinta segundos, uma voz animada avisando que não dá para perder essa.

O único lugar onde se conseguia a proeza de usá-los sem (muito) dano aos ouvidos – e estômago – era o aeroporto. Mas lá os alto-falantes estão aposentados. Há tempos, a voz de veludo anunciando o próximo embarque se foi. Salve-se quem puder.

Rapidinha

Ilustração: Christy Hydeck/Flickr.com

Você telefona e a pessoa do outro lado da linha, de imediato, informa:

– Estou numa reuniãozinha.

Duas mensagens claras: a pessoa não pode falar agora, e a reunião é com os subalternos ou com os pares. Fosse com o superior, não seria reuniãozinha. Aliás, nesse caso a pessoa nem atenderia. Ou nem uma coisa, nem outra, é mentira. A pessoa está jogando paciência no computador e não quer prosear.

Você confere as vitrines. Entra, por acaso, numa das lojas. Passa a mão num casaco, só para sentir a textura, e a vendedora aparece para oferecer ajuda. Sua resposta:

– Só estou dando uma olhadinha.

A olhadinha rende. Você acaba experimentando o casaco, mas não está tão determinada assim a efetivar a compra. Agradece a vendedora, ajeita a bolsa no ombro e avisa, já em direção à saída:

– Preciso dar uma pensadinha.

A amiga, de última hora, convida você para o aniversário dela. Não será nada especial, ela não ia comemorar, mas o namorado insistiu, então vão todos a uma pizzaria. Você finge entusiasmo:

– Vou dar uma passadinha.

O marido interrompe seu banho, e lhe mostra a página vinte e cinco da revista:

– Depois, dá uma lidinha.

É coisa importante, melhor prestar atenção. Pode ser um artigo sobre tensão pré-menstrual, uma matéria ensinando a lidar com a birra dos pequenos ou uma promoção de TV LCD, aquela que vocês ensaiam comprar desde a última restituição do imposto de renda.

Não se trata do mamanhês, o tatibitate oficial de pais e mães (tias, eventualmente) na comunicação com seus rebentos, usando e abusando do diminutivo. Tampouco é uma característica exclusiva das pessoas que adotam o “inho” e a “inha” com freqüência em seus diálogos. Não, não. Gente de todo tipo, tamanho, idade e sexo esbarra no vício da palavra diminuta, vez por outra. É preciso registrar, no entanto, que o vício não apresenta justificativa. É sem necessidade, mesmo. Poderia ser reunião. Olhada. Pensada. Lida.

O que estará por trás do insondável diminutivo casual? Se para cada uma das suas aplicações pode ser atribuído um significado diferente, a teorização a respeito dele se mostra impossível. Tentemos. Um: ele está, notadamente, associado a um verbo. Dois: geralmente, é precedido do verbo dar. Três: tem relação com tempo. A pessoa não tinha tempo para atender aquela ligação. Você precisava de tempo para decidir se comprava o casaco ou não. Se desse tempo (ou vontade), você iria à pizzaria. Sobrando tempo, seria importante você ver a página vinte e cinco. Quatro: ainda sobre tempo, sugerindo que a ação é ou será breve. Era uma reunião rápida. Uma olhada rápida nos casacos. Uma passada rápida na pizzaria. Não levaria muito tempo para ler a página vinte e cinco.

Paro por aqui. Para justificar o título da crônica. E também porque já passa da meia-noite. Bateu soninho.

Comunicação e trumbicação

Ilustração: Jessica Gluckman/Flickr.com

Dobro a esquina e preciso reduzir a marcha: um cão atravessa a rua. Sem pressa alguma em alcançar o outro lado, o sem-teto peludo segue lerdamente, a cauda balançando para lá e para cá. Língua de fora, o sol. Também não estou com pressa, é a sua sorte. Um motorista mais afoito e o totó já era. A pequena e compulsória pausa no meu trajeto, no entanto, não é em vão. Afixado ao alambrado que cerca um dos espaços não construídos do quarteirão, jaz o cartaz:

“Faço limpeza de terrenos e corto grama”

Volto para casa, devidamente informada de que há uma pessoa no bairro que limpa terrenos e corta grama. Para o caso de, um dia, quem sabe, eu precisar do serviço.

No mercado de trabalho informal as pessoas sempre dão um jeito de divulgar, a quem interessar possa, suas habilidades. “Reformo sofás”. Faço amarração para o amor. Os meios, públicos ou particulares, são variados: postes, paredes, muros. No meu bairro, por conta da grande concentração de terrenos vazios, os preferidos são os alambrados. Eles constituem as bases ideais para uma propaganda eficaz. Estão dentro do campo de visão de motoristas e pedestres. Não requerem investimentos pesados. O anunciante do alambrado não paga taxa, nem imposto, não precisa de uma agência de publicidade. Corre, no entanto, o risco de ver seu anúncio ir para o beleléu numa chuva mais forte. Mas quem se importa? Tanta gente o verá, antes disso. Na contramão da comunicação segmentada o cartaz do alambrado dá tiro para todo lado (embora seu posicionamento seja perfeito: em frente ao terreno, objeto da mensagem). Uma hora, ele acerta. Sem custos, e isso já está bom demais.

Imagine que, no seu bairro, todos os moradores usassem a estratégia do nosso limpador. Não só para garantir o bico do próximo mês. Mais que isso: para apresentar os autores de demanda e oferta um ao outro. Você pode passar a vida tentando curar uma unha encravada, sem saber que na rua de cima mora um dos maiores especialistas em unha encravada do mundo. Colocasse o vizinho médico, ou você, um cartaz no alambrado, e um saberia do outro. Ou: você quer muito encontrar um exemplar daquela revista que você lia na adolescência. A mãe da moça que trabalha na farmácia da esquina tem a coleção inteirinha. Nas cidades, só se sabe dos outros o básico: onde mora, onde trabalha, qual carro tem. O não-básico – às vezes, mais importante – vive escapando.

Continue imaginando. Os alambrados ganhariam um papel social e se transformariam num banco de dados gigantesco, informal e independente, alimentado pela própria comunidade, com informações sendo cruzadas o tempo todo. Das mais úteis (“Sou enfermeira e cuido de idosos”) às nem tanto (“Imito o Pica-Pau”). Tudo estaria ali, para quem quisesse contar e para quem precisasse saber. Afinal, o Chacrinha já decretou: quem não se comunica, se trumbica.

Tão longe, de mim distante

Foto: Mat Gartside/Flickr.com

Richard Bach nem sonhava. Mas em tempos de internet, telefone celular, conexão sem fio e GPS, longe é mesmo um lugar que não existe. Ninguém mais fica, involuntariamente, longe de ninguém. Toda conexão é possível. Mais que isso: desejada.

Essa história de ver e falar com todo mundo na hora em que bem se entende, do lugar em que se esteja, empolga. É bom. Diz que não? Ver, em tempo real, como é o quarto do seu filho de dezesseis anos em intercâmbio de um ano na Nova Zelândia. Falar com sua irmã que trabalha numa estação da Antártida como se ela estivesse ali, na rua ao lado. Assistir ao vivo o show do U2 na Califórnia, do melhor camarote que há: sua sala. Achar e ser achável.

Está certo: reduziram-se as distâncias e produziu-se uma espécie de onipresença. Isso é bom e não tem volta, o que é fascinante. Pois bem. Quero é saber o que foi feito da distância. E agora, que ninguém consegue mais desaparecer, sumir, escafeder-se? Conseguir, consegue. Mas dá trabalho. Arlindo Orlando, aquele caminhoneiro fictício da pacata Miracema do Norte, não conseguiria ter fugido assim tão fácil da sua noiva, fosse hoje. Como fica o mundo, então?

Com tanta presença, qual o futuro da saudade? Assim como os mistérios insondáveis do não estar, a necessidade do cadê, a curiosidade sobre como deve ser – tudo parece estar com os dias contados. A lembrança, que é feita de ausência, pode ser extinta. Tudo é perto e pertencente demais. Mas não é. Nem pode ser.

Gente precisa de desconexão para existir. [Quem diria. Logo eu, dizer isso.] Precisa saber da distância fundamental que marca sua posição no planeta. Precisa do despertencimento e do tempo que constrói as relações todas. Precisa da demora – e não da volta ao mundo em oitenta cliques.

Longe precisa ser um lugar real. O universo, imenso, deve continuar assim. Sua grandeza é que dá dimensão às coisas. Sem ela, nós nos perdemos – em tamanho, função e sentido.