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Os furinhos do arroz

Diminuo o fogo, tampo a panela. A superfície do arroz está cheia de furinhos. Lembrei: de criança, pedia para minha mãe fazer “arroz com furinhos”. O mais gostoso do mundo. Engana-se quem pensa que esses miniburacos são resultado de simples fenômeno físico. Há mais coisas nos furinhos do arroz cozido do que sonha nossa vã gastronomia.

Ao lado do fogão, eu vigiava a panela semitampada até que a água começasse a secar, dando lugar à mágica dos furinhos. Na ponta dos pés, espiava dentro deles, na tentativa de descobrir-lhes a razão. Nada via, além dos borbulhos. Se a visão não trazia resposta, o olfato se esbaldava: meu nariz era inundado pelo vapor perfumado do alho, da cebola e do cheiro verde temperando os grãos.

Logo eu me distraía com outra coisa. A gataiada brigando no telhado, a vizinha tocando a campainha, o mandrová na folha da comigo-ninguém-pode. Até ouvir o chamado, “Tá na mesa!”. Eu pedia e, com a escumadeira, minha mãe escavava apenas a primeira camada do arroz, capturando, assim, os furinhos. Que se desfaziam no encontro com o caldo do feijão. Tem comida que é pura oração.

Já o arroz da minha avó, que passou a cuidar dos netos quando meus pais abriram a venda e nela trabalhavam o dia todo, era empapado. Não continha furinhos. Nem sabor. Houve época em que reclamamos. Minha mãe resolveu fazer nosso arroz na venda, entre um freguês e outro, numa cozinha improvisada atrás do balcão, trazendo-o à noite para casa. Não era a mesma coisa. Quando ela ficou doente e parou de trabalhar, ganhamos o arroz de volta. Eu não sabia se ficava triste ou alegre.

Desligo o fogo, aviso que o almoço está pronto. Meus filhos disputam a escumadeira para ver quem pega primeiro o arroz. Pergunto se está gostoso. Bocas ocupadas, seus olhinhos apertados dizem ‘sim’. Então concluo: os furinhos do ancestral cereal continuam mágicos. Dentro deles cabem presente e passado.

Lembrança é um prato cheio para a saudade.

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Bengala

bengala

Não se comprava pãozinho. Em casa, só bengala. Precisei explicar aos meninos do que se trata, porque hoje se fala baguete. “Mas bengala não é aquilo que os velhinhos usam?” Não, meus queridos. Bengala era o pão comunitário, que dava para todos. E a da minha infância era generosa, com jeitão de mãe que alimenta o mundo inteiro. Não era magrela, feito as francesas.

A padaria ficava na rua de cima. Eu gostava de ir com minha irmã. A calçada não era lá essas coisas. Então, invariavelmente, eu levava algum tombo. Chegava em casa ou chorando, ou de joelho ralado, ou no colo da minha irmã. Às vezes, as três coisas juntas.

Lembro do meu avô chegando em casa com a bengala, parcialmente embrulhada, embaixo do braço. E era a coisa mais normal. Vê lá se hoje alguém põe uma baguete no sovaco e fica por isso mesmo.

Quando foi que demitimos a bengala do cardápio brasileiro e contratamos a estrangeira baguete? A bengala é patrimônio da panificação nacional. Deveria estar na base da pirâmide alimentar. É pão amassado por Deus. O Pai Nosso merecia, aliás, revisão: a bengala nossa de cada dia nos dai hoje. Bengala é cult.

Quando o assunto aparece nas rodinhas, tem sempre um doido varrido que resolve discorrer sobre as diferenças entre bengala e baguete: o formato, a textura, a casca, a receita, as origens. Tudo para explicar o inexplicável.

Da bengala, tinha quem gostasse do bico. E havia também quem insistisse na infame piada-rima: pra ficar rico. Sempre deixei o bico para os outros. Vivo a consequência.

Quando eu era criança, a gente fazia pão de frigideira. Consistia em fatias da bengala com manteiga dos dois lados, levadas ao fogo até ficarem douradinhas. Outro dia, no mercado, pedi: “Quero uma bengala”. E a mocinha, fingindo confirmar: “A baguete?. Não dei o braço a torcer: “Isso, a bengala”. Quando a gente tem cinquenta anos fica, geralmente, ranzinza. Cheguei em casa e fui tentar reviver a iguaria. Busquei na memória a largura exata da fatia, tentei reproduzir a quantidade da manteiga, apanhei a panela mais parecida com a da minha mãe, calculei a altura da chama, o tempo. Evidentemente, não ficou a mesma coisa. Praga da mocinha lá.

Estrogonofe

fogão

Sempre tinha estrogonofe de frango no bandejão do jornal. Eu gostava só do creme. E do champignon.

Quando chegava minha vez, eu deitava a concha no réchaud bem devagar, aguardando o caldo enchê-la e cuidando para que não viessem junto os pedaços de carne. Em seguida, pinçava cirurgicamente alguns cogumelos. Na mais santa paz, sem pressa, para eventual desespero dos colegas atrás de mim.

As moças do restaurante ficavam por ali, ajeitando a comida remexida pelas pessoas, repondo o que acabava, explicando o recheio do capelete. Garantindo, enfim, o bom andamento da sagrada refeição, antes do retorno de todos à labuta.

Bastaram, no entanto, algumas vezes para a moça branquinha de touca idem me flagrar na estranha operação. Veio perguntar. Respondi.

Dali para frente, quando era dia de estrogonofe e ela me avistava na fila, já acenava. E corria para dentro da cozinha. Logo reaparecia no salão, trazendo no rosto um sorriso e nas mãos um prato só com o creme. Muitos champignons extras, certamente colocados na hora. Tudo salpicado de cheiro verde, de modo a ficar bonito. Aquilo era para mim. Eu só completava com arroz, batata palha e ia me esbaldar com meu almoço exclusivo.

É claro que sempre lhe disse “obrigada!” pela gentileza. Não sei, porém, se cheguei a agradecê-la a contento. Porque esse é o tipo da coisa que se deve agradecer grandemente. Registrar, enfatizar. Era o caso de chamá-la num canto e dizer o quanto eu me sentia especial com sua atitude (por mais simples que soasse), ou de elogiá-la para sua chefe. Perdi a chance. E jamais saberei por onde anda a moça alva. Só queria agradecer direito, vinte anos depois. Gratidão retroativa nem sempre é possível, tampouco surte o mesmo efeito. Gratidão deveria ser disciplina obrigatória já na pré-escola.

Era pequena, a moça. Delicada, falava baixo, os gestos humildes. Olhos claros, talvez? Nunca soube a cor de seus cabelos. A touca asséptica escondia sua identidade. Questões da vigilância sanitária. Talvez ela não fizesse ideia de que realizava, em meio a arrozes e feijões e talheres e azulejos brancos feito sua touca, o que muita empresa, com seus múltiplos recursos e ferramentas e aparatos tecnológicos, não é capaz de fazer. Naquele refeitório, eu era uma “cliente” absolutamente feliz e satisfeita. Inclusive nos dias em que não tinha estrogonofe.

Ontem lembrei-me dela mais uma vez, enquanto fatiava champignons e abria a caixinha de creme de leite.

Certos alimentos, dizem, são bons para a memória. Estrogonofe faz bem para a minha.

Enriquecida com ferro e ácido fólico

Não se lê mais nos ingredientes das coisas: farinha de trigo. Dois substantivos com uma preposição no meio e só. Agora é farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico. Adjetivaram, mineralizaram e vitaminaram a farinha. Aquela com que minha mãe fez os bolos da nossa infância, aquela que tinha na vendinha, aquela que a gente fazia cola? Não tem mais. Acabou.

O pão nosso de cada dia está irremediavelmente impregnado de substâncias estranhas. E o macarrão e o biscoito. Panetone? Também. De janeiro a janeiro, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. É a onipresença do ferro e do ácido fólico na vida. Estamos todos mais saudáveis.

Até a hóstia consagrada foi enriquecida de ferro e ácido fólico. Ninguém mais comungou do mesmo jeito.

O binômio alimentar iniciático transformou-se em uma entidade sofisticada. Rebatizada de “farinhadetrigoenriquecidacomferroeacidofolico”, a matéria-prima dos nossos mingaus virou um termo imenso, indissociável, nos dizeres dos rótulos. Um palavrão de comer.

Algumas marcas ainda acrescentam “especial”, para tornar tudo mais belo – e maior. Não se enganem, porém: é tudo farinha enriquecida com ferro e ácido fólico do mesmo saco.

No mercado:

– Moço, onde fica a farinha de trigo?

– Não tem.

– Como não tem?

– Só farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico. Terceiro corredor.

Ferro é importante para a saúde, evita anemia. Ácido fólico idem, evita má-formação. Mas não há nada que evite a saudade dos bolos da minha mãe, que nunca mais comi.

A verdade sobre comer, rezar e amar

arte: Paul Downey
arte: Paul Downey

Há no mundo um exército dedicado a nos convencer de que cozinhar é uma experiência próxima ao nirvana, o maior ato de amor, a epifania máxima.

Cozinhar pode ser literalmente delicioso, quando rotina, obrigação e horário não estão na parada.

No combate ao mimimi culinário, minha colher de pau e eu estamos aqui para lhes dizer, ó chefs afetivos, que o negócio não é bem assim.

A magia de poder preparar no fogão o alimento da ou das pessoas amadas, embora real, não se aplica a quem precisa fazê-lo todo santo dia, sob a vigilância implacável do relógio e da agenda.

Fora isso, é, de fato, estimulante preparar aquele peixe com molho de não-sei-o-quê guarnecido com lascas de não-sei-que-lá junto com os amigos. Fora isso, faz sentido sovar longamente a massa do pão integral e esperar, como numa gestação, que ela cresça, forte e bela. Fora isso, dá vontade de fotografar o cuscuz lindão e postar no Instagram. Fora isso, pinta alegria ao ver como o bolo de cenoura ficou fofinho e as crianças vibram ao saber que vai ter cobertura de chocolate também.

Há dias – não  poucos – em que cozinhar resume-se a um ato mecânico, necessário para cumprir o protocolo diário (em especial de quem tem filhos pequenos) e atender a uma necessidade fisiológica, sua ou de outrem. Uma pitada de carinho, às vezes nem isso, porque a cabeça está em outras paragens, e pronto. Todos alimentados? É o que importa. Vamos, estamos atrasados.

Há dias – muitos – em que não há poesia alguma no ato de cozinhar. Como naqueles onde eu preciso correr para preparar e servir o almoço a tempo de as crianças não se atrasarem para a aula. Não há ternura possível na produção da torta de legumes quando o relógio, cinicamente, parece andar no fast-forward. Não posso impregnar o suflê, o arroz, o feijão e a salada com boas energias se não avisto mais o fundo da pia, a ajudante ligou dizendo que não vem e a reunião é às duas.

E mais: haja amor e criatividade para compor cardápios diários balanceados com proteínas, leguminosas, carboidratos, hortaliças e tudo que a pirâmide alimentar exige. Quisera ser faraó e viver embalsamada para não ter mais que decidir o que vamos comer. Peço perdão pelas fadas que sepultei, recorrendo ao velho Miojo. Não resta dúvida de que serei exemplarmente condenada pelo fadicídio, quando estiver diante de Deus prestando contas.

Nessas horas, penso que sou uma espécie de alien que pariu. Passo a me autoclassificar como mãe desnaturada, relapsa, sem coração. Mas há algo bastante errado quando o significado de férias é não precisar fazer varejão. Se minha relação com os brócoles, as cenouras e os tomates anda desgatada, lanço mão do self-service. Nem toda cozinha industrial será castigada.

O lirismo permanente do ato de cozinhar, tão declamado pelos soldados da comida afetiva, fica bonito no cinema, na fotografia com frase de efeito que circula no Facebook, na prosa do Mia Couto. Mas quase não combina com o meu dia-a-dia de gente normal. Só de vez em quando.

Visite minha cozinha

Arte: Jérôme Motte
Arte: Jérôme Motte

Visite minha cozinha. É nela onde refogo as manias, asso os medos, torro a paciência e lavo meu coração de louça.

Visite minha cozinha. Ali escolho humores e amores, invento modos de fazer e desfazer. Mantenho o dia aquecido em banho Maria e sigo rezando, Livrai-me de todo sal, amém.

Visite minha cozinha. Mas atenção: facas e palavras estão sempre afiadas.

Visite minha cozinha. É o lar que habito e de onde me mudo. Às vezes, acerto o tempero. Às vezes, erro a mão; o abraço, não.

Visite minha cozinha, repare na bagunça, nos meus pés descalços e no gato que cochila na cadeira.

Visite minha cozinha. O fogo é brando e o café, forte. Tenho um fraco pelos extremos.

Visite minha cozinha e prove os ingredientes sagrados e profanos das minhas receitas. É minha salada espiritual.

Visite minha cozinha – ao mesmo tempo, altar de adoração e sacrifício. O lugar onde preparo (nem sempre com alegria) o alimento e gero combustível para o bom dia de todos. Há, no mundo, responsabilidade maior?

Visite minha cozinha. Pode vir sem avisar. Mas não tenha hora para ir embora; não sei preparar o futuro na pressão. Ajeite-se à mesa, o presente está sempre servido. Bem passado ou ao ponto, você escolhe.

O tempero da minha mãe

Arte: Mariana Leme
Arte: Mariana Leme

Junte cebola, alho, cheiro verde, óleo e sal. Ponha tudo no liquidificador e bata bem. Despeje a mistura em vidros vazios, tampe-os e leve-os à geladeira. Use para refogar qualquer coisa. Em cinco ingredientes, eis a receita das minhas lembranças. Rendimento: uma infância inteira.

Dona Angelina preparava o próprio tempero. Para economizar tempo e dinheiro – talvez mais dinheiro que tempo. Lembro do óleo aquecendo na panela, afoito, esperando pelo tempero, que vinha em generosa colherada. Quando eles se encontravam, era uma farra, chiiiiiii. A casa inteira ficava sabendo do abraço dos dois. Logo em seguida, chegavam os grãos de arroz, lavados e escorridos. Noutra panela, outra farra, agora com centenas de feijões recém-cozidos na pressão. Era sempre festa no fogão da minha mãe. Na cozinha, sua oração. E o tempero, artesanal, era sua pegada. O rastro saboroso pontuando o alimento que nos fez crescer, feito planta.

Bem que tento. Mas é impossível reproduzir o tempero dela. Por mais que eu siga o modo de fazer (afinal, cebola é cebola, alho é alho), falta um ingrediente etéreo, invisível, secreto. Falta ela.

Liquidifiquei minhas recordações no turbilhão impiedoso do tempo. Misturei tudo, Natal com Páscoa, aniversário com Dia das Crianças. Mas o aroma do tempero dela está bem guardado no nariz da minha memória. De vez em quando, ele surge d’algum vento brincalhão. Inspiro o quanto posso, para tentar retê-lo e guardá-lo num vidro bem tampado, à prova de despedidas. Se eu fosse descrever a cor desse cheiro, seria verde.

Será que meus filhos terão alguma reminiscência da maneira como tempero nossa comida? A gente nunca sabe o momento, exato ou inexato, em que vai entrar para o rol de lembranças de alguém. Qualquer ação ou atitude podem virar protagonistas; preciso me lembrar disso, para caprichar mais nas coisas.

Será que, n’algum momento da vida, eles tentarão recuperar algum sabor de suas infâncias? Experimentarão, quando grandes, algo que não tenha sido feito por mim, fecharão os olhos por alguns segundos e se pegarão dizendo “Parece a torta de legumes da mamãe” ou “É igual ao creme de abóbora que ela fazia”?

No fundo, a gente quer é ser lembrada. E o alimento é a memória afetiva mais forte que existe. É o primeiro presente que ganhamos, ao nascer. Onde fica a boca do mundo?

Tantas coisas faço igual à minha mãe, e nem sei que faço. É a herança genética e silenciosa, a perpetuar a nossa espécie e algum tipo de amor. Talvez eu dobre roupas como ela, talvez eu lave pratos como ela, talvez eu abotoe um vestido como ela, talvez eu tenha um jeito de mexer nos cabelos como ela. Talvez até meu tempero guarde em seu DNA a centelha materna. Não podemos mais medir nossas semelhanças em tempo real. É uma constatação, não um lamento.

Há quatro vidros repletos de tempero na geladeira, fiz no comecinho do mês. Ficou bom. Mas não é igual ao dela. É idêntico a mim. Sou eu, deixando a minha pegada no caminho da minha gente.