Carta para minha tia

Tia

Meu avô sempre dizia, em meio às prosas e sem maldade alguma, que você era meia-irmã dele. Engraçado isso de dividir as pessoas pela metade, conforme o pai e a mãe. Ser meio-irmão é como ser meia-pessoa. Que teria sentido se fosse feito só de pai ou só de mãe. Mais ou menos como, dizem, aconteceu com Jesus. Não foi assim com você.

Nunca me disseram, no entanto, que você era minha meia-tia. Tampouco você me tinha como meia-sobrinha. Para mim, você era tia inteira. Que telefonava de vez em quando só para saber se a gente estava bem. Que usava vestido com calça comprida, onde quer que fosse. A estranha combinação ficou sendo a sua marca registrada. Mal sabia você que isso viraria moda. Eu deveria ter prestado mais atenção em você, tia.

Eu também deveria ter sido uma pessoa menos atarefada. Menos atrasada. E daquela vez, com razão, mais apressada. Daquela vez, recebi um recado seu, pedindo que eu fosse à sua casa. Você queria conhecer minha filha, que acabara de nascer, para dar a ela um presente: uma roupinha nova. E eu não fui, tia. Não fui. Poucos meses depois, você que se foi. O verbo ir é mesmo cheio de sutilezas.

Vocês duas acabaram não se conhecendo. Nina não recebeu seu presente, certamente embrulhado com papel celofane cor-de-rosa e fitinha enrolada em espiral. Roupinha de bebê, quando é para presente, deixa de ser só roupinha para o bebê. Vira abraço. Presente, quando não é dado, vira nuvem. E o vento leva.

Obrigada pelo presente, tia. Ainda que tarde. Um dia, eu aprendo a fazer as coisas direito. Ou por inteiro.

Saudades,

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10 comentários sobre “Carta para minha tia

  1. Ai Silllll,
    você e suas cartas….Sempre tão lindas e delicadas….
    Sabe que vi nesta ilustração o lindo rosto de uma mulher?? Isto antes mesmo de começar a ler o texto…
    Um beijo enorme no seu coração

    Ana Paula.

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  2. Silmara que emocionante… tão sincera e tão verdadeira!
    É muito difícil esse momento, o momento da partida, mas, o tempo é o senhor da vida, ele nos ensina a transformar a saudade naquele amor que fica, na lembrança boa, no sorriso.

    bjs e força sempre!

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  3. Olá querida!!!
    Que emocionante!!
    Me fez sentir de novo (o que quase sempre sinto) a “culpa” por ter viajado no último mês de vida de meu irmão, que estava com câncer. Eram minhas férias, que eu não tiravá há uns 8 anos e eu estava tão necessitada disso.
    Quando voltei soube até que ele tinha ficado em nossa casa por uns dias. Foi só uma semana, mas eu sinto por ter me afastado. Um mês depois ele se foi.
    Não sei se todos temos culpas quando perdemos alguém a quem amamos, mas…
    Obrigada por dividir suas angústias conosco (se for fato veridico rsrs)! As vezes não sei se é verdade, ou se vc entende tão bem do ser humano, que coloca nossas dificuldades e felicidades tão bem nesse blog.
    Se for verdade, o tempo se encarrega de levar e trazer de vez em quando, essa sensação de que devíamos ter feito “melhor”.

    Bjssss

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