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Fiscal do Sarney

Havia me esquecido. Já fui fiscal do Sarney.

Meados de 1980. O vice de Tancredo Neves implantara no país o Plano Cruzado, convocando a nação para trabalhar na fabulosa empreitada de vencer a hiperinflação. A tarefa de todo cidadão era fiscalizar os preços, então congelados, nos supermercados. Também fazia parte do job description pedir nota fiscal de tudo.

Eu tinha 19 anos. Um dia, fui à avícola na rua de cima, “Uma dúzia de ovos, por favor”. Na hora de pagar, com meu crachá invisível de fiscal sênior, pedi a nota. O mocinho, que já tinha um ar abobalhado, ficou ainda mais.

– Nota fiscal?

– É.

Ele coçou a cabeça, olhou o horizonte. Mentira, não dava para ver o horizonte dali, só um teco de céu. Mirou o teto, os frangos resignadamente engaiolados no ambiente ao lado, aguardando a hora de serem degolados, e lascou:

– Pra ovo não se dá nota fiscal.

Ele não imaginava que, ao inventar nova e descabida regra tributária, despertaria a fúria da titã baixinha e sardenta à sua frente. Como assim, não tinha nota fiscal pra ovo? Na TV, o presidente falou pra gente pedir nota fiscal de tudo, tudinho. Com as mãos na cintura e meu nariz arrebitado, bati o pé e exigi o documento. Já via o quarteirão bloqueado por carros da polícia, helicópteros sobrevoando o pacato bairro da Mooca, os jornais me entrevistando, o abobalhado sendo algemado, os frangos aplaudindo.

A contragosto, o moço foi lá dentro. Minutos depois, voltou com o talão empoeirado, típico dos objetos sem muito uso. Catou a Bic e foi preenchendo meu nome, meu endereço, “Você mora aqui pertinho”. Discriminou a mercadoria, colocou a data e o valor. Fez ainda, com a caneta, um risco de cima a baixo, inutilizando as demais linhas em branco. Sempre achei bonito fazer isso nos papéis. Para evitar fraudes, aprendera. Quem é que fraudaria nota fiscal de doze ovos?

Quando eu era criança, uma vizinha da rua, Dona Adélia, criava galinhas e vendia os ovos. Meus irmãos iam sempre lá, buscar uns pra nós. Vez ou outra alguém aparecia em casa com uma galinha viva, também. Eu tentava adotar a bichinha, sem sucesso. Então, no quintal, com impressionante naturalidade (ou prazer) minha avó pegava a pobrezinha e crec, destroncava-lhe o pescoço. Eu não queria ver, mas acabava vendo. Emudecia e fugia para o quarto, sonegando meu choro.

Saí da avícola com meus ovos, vitoriosa e empoderada. Cheguei em casa, senti-me meio idiota. Joguei a nota fiscal fora e fui fazer bolo de chocolate. A receita da minha mãe levava três ovos.

Quem nasceu primeiro, a lembrança ou a saudade?

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Melhoral infantil

Uma vez por mês meu pai chegava em casa, à noite, com uma caixa enorme. Está bem, não era enorme. Só grande. Nela, a compra da farmácia. Esse dia era uma alegria só. Não que eu fosse uma hipocondríaca-mirim. É que na caixa, em meio a esparadrapo, mertiolate, algodão, latas de leite em pó e remédios, lá estava ele: Melhoral infantil. O comprimidinho cor de rosa.

Meio doce, meio azedinho. Eu gostava de comê-lo feito bala. No entanto, Dona Angelina, mãe zelosa, não o liberava assim fácil. Valia, então, inventar alguma enfermidade. Dor de barriga ou cabeça. Se o teatro fosse convincente, ganhava um. Se não, o negócio era partir para a traquinagem acetilsalicílica: pegar escondido. E o Melhoral infantil virava sobremesa proibida.

Fascínio semelhante tinham o Cebion e o Biotônico Fontoura, que também vinham na caixa. Com o primeiro, nada de dissolver na água, como mandava a bula. Chupava-o feito Drops Dulcora. Eu devia exalar vitamina C pelos poros, gripe nenhuma me pegava. O segundo prometia abrir o apetite das crianças e, por isso, era aliado das mães preocupadas com rebentos que não queriam comer. Não era nosso caso. O fortificante tinha álcool na fórmula e deixava a criançada meio zonza se a dose recomendada fosse extrapolada – e aí é que estava a graça.

Volta para 2018.

Hoje foi dia de levar os remédios para meu pai. A lista é grande e inclui comprimidos que resolvem de pressão alta a gastrite, garantindo ao Seu Tonico uma boa velhice. Enquanto dava meu CPF para a moça na farmácia, avistei na gôndola self-service: Melhoral infantil. A embalagem mudou, a cor rosa permaneceu. Um clássico da farmacopeia. Peguei uma cartela e adicionei-a à cestinha. Senti meu rosto corar. Ou será que ficou da cor do comprimido? Apoiada no balcão, refletida no espelho da seção de maquiagem, vi a garotinha que fui, pilhada na travessura. Como se estivesse pegando às escondidas o comprimido no armário da cozinha, que chamávamos de “farmacinha”. Paguei e separei o Melhoral, guardando-o na bolsa.

Cheguei à casa do Seu Tonico não com caixa, mas sacola de plástico cheia de coisas. É a minha vez de abastecer seu armário, mensalmente, com a compra da farmácia. A vida é mestra em inverter os papéis. Virei mãe do meu pai.

Mais tarde, em casa, tirei a cartela da bolsa. Seis comprimidos. Que festa! Abri um, coloquei-o devagar na boca. Deixei que dissolvesse um pouco, fechei os olhos, pronta para a viagem ao passado. Que gosto horrível! Nem sombra do Melhoral infantil que conheci. Mudaram a receita, por certo. Remédio para os pequenos tem esse problema. Se é gostoso, dá vontade de comer feito doce. Se é ruim, a criança só toma amarrada.

Cuspi o comprimido, já de um rosa desbotado. Mal não me fará. Será que tem efeito colateral? Um pouquinho de saudade, talvez. Logo passa.

Trégua

Julieta, lembrei. Julieta era o nome dela. A vizinha da casa 3, que morrera em seu quarto. Marcos, o único filho. Um garoto da minha idade, sete anos.

Eu batia boca com ele sempre que podia. Não que fôssemos inimigos, brincávamos juntos. Mas não perdíamos a oportunidade de provocar. Ele dizia algo, eu rebatia, ele soltava outra e assim exercitávamos nossa retórica – com sofisticação intelectual no nível de “Nunca viu, cara de pavio?” e “Você não é de nada, só come marmelada”. O objetivo era ver quem daria a palavra final, a resposta lacradora que calaria o outro. Lembro vividamente de uma vez que ele falou: “Você tem resposta pra tudo”. Fiquei em dúvida se era elogio ou não.

Câncer, disseram. Julieta era jovem, miúda, morena, pintas no rosto. Educadíssima. No dia em que ela morreu, fiquei consternada. Como um garoto de sete anos iria viver sem a mãe? Pai já não devia ter, nunca o vira por ali. Quando minha mãe morreu eu tinha vinte; tempo que já me calçara de certa força e autonomia para enfrentar a vida. Além disso, eu contava com pai, irmãos mais velhos, avós. Mas e o Marcos, que estava no primeiro ano e usava franjinha?

O velório foi na sala. O cômodo onde os dois assistiam TV à noite, juntos, agora exibia outro programa. Eu não fui. E tive que lidar com a ideia de haver um defunto a duas casas da minha. Antes da Julieta, eu não tinha notícia de alguém na vizinhança que houvesse batido as botas em casa. Morria-se em hospital, na rua, longe. Não em casa, lugar de viver.

O portãozinho ficou aberto, um entra-e-sai dos poucos parentes. O Marcos ficou zanzando na vila. Chutando pedrinhas pelo chão, cabisbaixo. Da janela do quarto dos meus pais, eu o observava. Ele via que eu o via. Naquele dia, porém, não tive vontade, nem coragem, de provocá-lo. Como se a morte requeresse trégua entre nós. Era preciso alguma paz. Tampouco fui conversar com meu amigo. Saber se gostaria de comer biscoito champagne com Nescau, ouvir o LP dos Carpenters. Nada. O silêncio foi a trégua.

Logo ele se mudou. Comentaram que fora morar com os tios. Não me despedi. Perdi, então, meu parceiro de embates verbais. A casa 3 ficou vazia por um tempo. Depois, chegaram novos inquilinos. Pensei em avisá-los sobre eventuais problemas com almas penadas, mas desisti. Por via das dúvidas, levei anos para entrar ali de novo.

Mães que morrem conseguem, de algum jeito, cuidar dos filhos? Por que eu tinha sorte de ter minha mãe e ele não? Por que médicos não conseguiam curar tudo? Por que gente viva não vê gente morta?

Fiz-me muitas perguntas, na época. E o Marcos estava enganado. Eu não tinha tantas respostas assim.

1983

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ilustração: Jessica Lopez

“Vende-se – ano 83”. Olhei o Gol à minha frente, tão velho e desbotado. Trinta e cinco anos nas rodas, meu chapa. E, pelo jeito, muitos quilômetros de histórias. Todo valente pela avenida, disputando seu lugar com os irmãos mais novos. Deve ter visto de tudo por esses caminhos de meu Deus. Carregado tantas gentes diferentes.

Onde eu estava em 1983?

O sinal abriu, engatei minha retrospectiva particular.

Quando aquele Gol era novinho em folha, eu tinha 16 anos. Usava cabelos até a cintura, morava na casa 1 da vila. Pesava quarenta e poucos quilos e não gostava das minhas pernas, finas e branquelas. Short e minissaia, por autodecreto, não passavam nem perto do guarda-roupa.

De aniversário, ganhei a Carolina. A cachorra mais linda e doce do mundo. Grandona e folgada, quantas noites a deixei dormindo na minha cama e fui para o sofá. Para não atrapalhá-la. E também porque ela roncava. Ê Caró…

Foi o ano em que, após longa espera, instalaram nosso telefone. Plano de expansão da Telesp, vinte e quatro meses pagando o carnê. Eu era a única da turma que não tinha. Para nunca esquecer: 948-3443. Dona Antonia (a vizinha da casa 4 que quebrava nosso galho quando precisávamos ligar para alguém, ou se um parente precisasse dar notícia importante, geralmente de morte, cujo número era 92-6405) respirou aliviada.

Segundo ano do colegial técnico em Edificações, no Liceu de Artes e Ofícios. Queria arquitetura, como a irmã. De casa, na Mooca, até a Luz, ônibus e metrô. E seiscentos metros de caminhada pela rua Jorge Miranda, em meio às bostas dos cavalos do 2º Batalhão de Choque. Levantava-me tão cedo que, não raro, aportava na escola com a blusa do avesso, ou uma meia de cada pé. O importante era a régua T chegar intacta. Fazia bolo para vender na hora do intervalo. Hoje, quase não faço bolo para meus filhos.

Segundo ano de tratamento da minha mãe. Eu a acompanhava, o hospital era ao lado da Santa Casa. Dia de quimioterapia era o pior. Dona Angelina ficava um trapo. Em frangalhos também, meu coração. Sofrimento deveria ser contável e divisível. “Me dá metade do seu enjoo, dois terços das suas dores”, lhe diria.

Não me lembro de ter ficado doente em 1983. Igualmente, não tive namorado. Mas saracoteava à beça. Saía com os mocinhos e, de vez em quando, mentia, dizendo que tinha 17. E também dei trabalho ao anjo da guarda: andava na moto dos amigos sem capacete.

Escrevi poesias. Aprendi a tocar violão. Passei tardes inteiras ouvindo Vinicius de Moraes e Rick Wakeman. Costurei um macacão azul-céu de popeline para mim.

Em 1983, tinha ideia fixa com o ano 2000, tão distante e irreal. Gostava de pensar onde eu estaria. Em minha prospectiva, imaginava que, caso o mundo não acabasse no Réveillon, aos 32 anos eu haveria de estar casada e teria dois filhos. Manteria os cabelos longos e projetaria casas e prédios maravilhosos. Nessa última parte, errei feio.

Quanto deve estar custando o Golzinho?

O maestro e o gato

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Nos anos setenta, costumávamos ir à casa dos meus tios no bairro de Santa Cecília. Eles moravam (ainda moram) em um prédio na Alameda Barros, perto da avenida Angélica. Quando íamos visitá-los, eu gostava de cruzar o corredor e ir ao apartamento do vizinho, no mesmo andar. Eles tinham um gato.

Ali vivia o maestro Portinho. Minha tia falava dele com orgulho, dizia que era famoso e coisa e tal. Eu não estava nem um pouco interessada. Ia lá por causa do gato, mesmo. Bug era um siamês lindo, grandão, bonachão e vesgo. Passava um bom tempo brincando com ele, até minha tia me chamar de volta. Eu tinha seis, sete (oito?) anos.

Não era um apartamento comum. Três unidades, transformadas em uma só. Ficou um apartamentão. A decoração, coisa fina. Um piano, talvez? Vários sofás na sala – para mim, enorme. Sempre aboletado em um deles, o Bug. Eu, bem comportada, sentava-me ao seu lado e punha-me a afofá-lo. Lembro-me de alguém vir perguntar se eu queria um suco, uma água. Eu não queria nada. Só brincar com o grandão do Bug.

O maestro Portinho também era grandão. Muito alto, simpático. Se troquei três palavras com ele, foi muito. Não fazia ideia de quem eu estava diante. O dono do Bug foi um dos principais personagens da época dourada das big bands brasileiras, animando bailes e programas de rádio e TV. Produziu trilhas para novelas e, fora as obras que compôs, assinou arranjos para meio mundo. Cauby Peixoto, Ângela Maria, Nelson Gonçalves, Cely Campello, Vanusa, a turma inteira da Jovem Guarda. As gravadoras só queriam saber do dono do Bug.

Um dia, eis que o apartamento do maestro, no décimo sétimo andar, pega fogo. Meu primo conta que uma bituca de cigarro fora atirada do apartamento de cima e caiu justo onde? Na cortina de um dos quartos. O estrago foi grande. Suficiente para o Bug, sem ter como escapar, morrer asfixiado. Fiquei desolada com a notícia.

Logo arrumaram outro gato. O nome? Bug. Em homenagem ao antecessor. Também um siamês. Igualmente lindo, nem tão grande, nem tão bonachão. Vesgo, talvez? Fui conhecê-lo. Ele não me parecia tão dócil quanto o velho Bug. Influenciada pelo nome, esperava que ele fosse cópia integral do outro. Claro que não era. Então aprendi o que eu já desconfiava: gato não é tudo igual.

As visitas aos meus tios rarearam, não sei que fim levou o segundo Bug. Do maestro, sei: morreu em 1997. Seu legado para a música brasileira é imenso e valioso. Coisa linda, ser maestro. Uma pessoa que entende absolutamente tudo de música. Uma espécie de Deus do som. Gato também é uma espécie de Deus. Ou será que Deus é uma espécie de gato?

São quase dez da noite, estou me preparando para dormir. Sobre a cama, espio o Beto cochilando. É nosso siamês lindo, grandão, bonachão. Vesgo. Gosta de música, o bichano. Com ele que danço, de vez em quando (os outros detestam). Se é que esse negócio de reencarnação também vale para os bichos, gosto de fantasiar que o Beto é meu amigo Bug, do qual não pude me despedir. Pendência que ele tratou de resolver, aparecendo em nossa casa, numa tarde quente de fevereiro. Onze anos atrás.

Mistura

Tudo que não era arroz e feijão, a gente chamava de mistura. Geralmente, carne. “O que tem de mistura?”, eu perguntava, já abrindo as panelas sobre o fogão. Verduras e legumes também entravam na categoria. Viraram, com o tempo, acompanhamento.

Como se diz a alguém, “Que Deus te acompanhe”, também deve-se falar para a dupla gastronômica mais brasileira que há: “Que o purê de batata te acompanhe”. Afinal, se está com purê de batata, está com Deus.

Cresci com os adultos mandando a gente ir comprar mistura. Lá ia eu no açougue buscar uns bifes, ou na avícola, pegar umas coxas de frango. Para os bifes, havia um martelo especial. Diferente dos martelos do meu avô, o da minha mãe era quadradinho, com pontas achatadas. Para amaciar a carne, diziam. Eu gostava de brincar com ele. Sumiu, nas mudanças.

Não digo que sempre achei esse termo – mistura – curioso, porque jamais deitei pensamento sobre. Fez parte do meu vocabulário desde sempre, é dessas palavras que a gente só reproduz, não questiona. Não, até agora. A mistura é mistura de quê? No Google, leio que o nome remonta ao tempo dos escravos. Nas refeições, eles recebiam um naco de carne que, de tão pouco, era misturado ao arroz, feijão e farinha de todo santo dia. Veio a abolição, o nome ficou. Toda cozinha tem um pé na senzala.

Apesar de amante do bom e velho feijão com arroz, hoje a mistura é o melhor do meu prato. Abobrinha empanada. Shimeji na manteiga. Quiabo refogadinho no alho. Suflê de espinafre. Salada toda coloridona. Por trás de um grande prato há sempre uma grande mistura. Pronto: mistura é a mistura de coisa boa com coisa gostosa.

Quando foi que deixamos de falar mistura? Deve ter sido quando paramos de dizer engrossar (um molho, por exemplo) e adotamos o reduzir. Ou quando substituímos o combinar pelo harmonizar.

Ontem fui pensar no almoço e a palavra saiu assim, sem querer: o que teríamos de mistura? Ri sozinha. Sem acompanhamento.

Lembrei das velhas panelas lá de casa. Fechei os olhos, abri as tampas. Servi-me de saudade. Memória com nostalgia é a melhor mistura que tem.

O nome da minha mãe

Ilustração: Juliana Cassab

De criança, eu não achava o nome da minha mãe bonito. Angelina. Achava-o levemente feio, sonoramente estranho. O problema, acredito, era o ina, que lembrava aspirina, vaselina, gelatina.

Certo dia, na escola, um menino perguntou o nome dela. Com vergonha, inventei, “É Angela”. Senti-me mal com aquilo, então emendei: “Mas todo mundo chama de Angelina”. Como se, sendo apelido e espécie de diminutivo, a coisa amenizasse.

Angela era bem mais lindo. Uma proparoxítona forte e, ao mesmo tempo, doce. O lance direto com o universo angelical. Além disso, tinha a Angela Maria, baita cantora. A Angela Ro Ro. Não havia naquela época, que eu soubesse, nenhuma Angelina importante ou famosa. Personagem da História, atriz de novela, nada. A Angelina Jolie era apenas uma bebê beiçuda.

Jamais contei o episódio da escola para minha mãe. Talvez ela achasse graça, talvez não. Para que correr o risco? Esta é a primeira vez que escrevo sobre. Se existe a internet dos mundos e a conexão for boa, ela vai ler. Talvez ache graça, talvez não. Agora eu corro, confiante, o risco.

Levou tempo para eu simpatizar com o nome. No colégio, já não lhe inventava nomes. O som, An-ge-li-na, começou, inclusive, a me agradar. Gosto é gosto, e ele muda. Passei a apreciá-lo. Tanto que o incluí na lista de nomes para minha filha. “Que tal Angelina, pra homenagear a avó?”, propus, no quinto mês de gravidez. Não houve adesão. Não que achassem feio. Acabei – coisas da vida – sugerindo Nina. Que ganhou. Então, “ina” não consistia mais em problema? Eu, definitivamente, estava em paz com o nome dela. De algum modo, sei que ela sabe. Na vila dos anjos também se comemora o Dia das Mães?

Pudesse, reencontraria o garoto da escola e explicaria tudo.