Enquanto você se depila

depilação 1

Enquanto você se depila o planeta segue rumo, a prumo, em acontecimentos diversos, simultâneos, coincidentes, aleatórios. A órbita planetária é precisa e afiada – como a lâmina gentil que escanhoa sua pele sob a água do chuveiro.

Toda sorte de movimento se dá no decorrer desse breve período. É a lâmina universal a fatiar eventos, carregados de significados sabidos e não-sabidos. Nascimento, aniversário, desjejum, aula, reunião, amor, desamor, morte – morrida e matada – caminhada, sono, pensamento, risada, choro.

Tudo enquanto você, solitariamente, se depila.

Se a primeira faz tchan e a segunda faz tchun, minhas axilas desafinaram na Quinta de Beethoven; já é sexta-feira.

É no banho matinal que executo a poda dessa região. Água lava e leva tudo: o pelo e o meu apelo por um dia bom. O pensamento escapa do sossego azulejado e viaja; quero estar um lugar onde eu possa, de fato, sentir a transpiração do universo. Onde fica o sovaco do mundo?

Não dou paz aos pelos que ali brotam: dia sim, dia não, empunho a guilhotina portátil e não deixo nem um para contar história. Recém-nascidos, eu os toso, sem piedade. Eles não perdem a esperança; continuam crescendo e se multiplicando. Pelos têm rara obstinação.

Uso, somente nelas, um barbeador de plástico, em versão com frufrus ergonômicos, próprios para minhas mãos pequenas e meus olhos femininos. Não há barba, porém. Mas estou eternamente vinculada ao objeto masculino, que sequer trocou de nome para me servir.

Sonhava, com onze anos, em depilar as pernas. Os pelos adolescentes não combinavam com a pré-moça que me habitava. Autorizada pela minha mãe, dei cabo deles. Faço isso há trinta e cinco anos. Nunca me perguntei o porquê.

Depilação é eterna refação. É, também, atestar e validar a vida; em morto não nasce pelo. É preciso agradecer, portanto, o pelo nosso de cada dia.

Enquanto me depilo, a fé é cega. A faca, amolada. O barbeador, cor-de-rosa.

Estou pronta. Venha, dia.

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4 comentários sobre “Enquanto você se depila

  1. Eu me recordo bem de quando, criança inocente, espiei pela primeira vez (por um buraquinho que meus irmãos haviam feito na porta do banheiro de serviço) a moça que trabalhava lá em casa tomando banho. Nossa, o que era aquele matagal na perereca dela??? (Naquela época, eu chamava a dita-cuja de perereca…) Não podia acreditar que eram pelos.
    O tempo passou, minhas amigas da escola me explicaram que era assim mesmo e que não demoraria eu teria os meus próprios pêlos pubianos. E não demorou mesmo… e vieram muitos.
    Quando eu me casei, há quase vinte anos, a depilação se restringia unicamente às pernas e axilas. De uns anos para cá, por causa da imposição social, eu me peguei fazendo depilação também nas partes íntimas. Mas duas situações me fizeram repensar o assunto. Numa das depilações na virilha, tive queimaduras leves. Sim, queimaduras. Sou muito branca e minha pele é sensível. Provavelmente, a temperatura da cera estava um pouco alta demais. E, em outra situação, a depiladora começou a depilar meu ânus, sem autorização. Chocada, dei um berro e mandei parar. Ela, toda surpresa, disse: “mas como assim, você não depila o ânus? Como você faz sexo anal sem depilar? Seu marido não reclama?” Minha resposta foi curta e grossa: “eu não faço sexo anal. E meu marido respeita a minha decisão.”
    Hoje em dia alterno fases “careca” e “cabeluda” la em baixo, principalmente de acordo com a necessidade (no verão sempre depilo por ex). Já me acosutumei assim e abri o jogo pro marido que nao tem problema em “encarar” a mata atlantica.

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  2. Gostei, encontras “serventia” até em pelos/depilação pois “em morto não nascem pelos”. A partir de hoje agradecerei o viço dos meus, estou viva!
    Beijinho,
    Beth

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  3. … o mundo gira, gira, gira… e nem a faca, o barbeador ou a fé poderá mudar nosso destino… Somos viajantes. Só nos resta depilar, pensar e curtir a estadia.

    Adorei “onde fica o sovado do mundo?” – tb quero saber.

    Que venha a vida, também estou pronta!!!

    Bela fornada, Franco.
    Bjs admirados e amanhecidos em ótimo tom e leitura.
    Huck, sua fã.

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  4. Bom dia, Silmara!!!!
    Se não consigo me livrar das tinturas do cabelo (continuo invejando sua libertação …), da depilação eu estou totalmente livre!!!!!
    Privilegiada pelos genes japoneses, venci a vontade adolescente de ser igual ao restante do mundo e aceitei (e agora fico muito feliz por isso) a minha falta de pelos…..

    beijos e boa sexta feira!!!!!

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