Mavi

O salão era perto de casa, íamos a pé. Ficava no subsolo de uma loja de coisa qualquer. Ali, no subterrâneo do bairro, alheio a primavera, verão, outono e inverno, pulsava um confinado e fascinante mundo de beleza. Onde eu, pirralha de tudo, ia cortar os cabelos ou só acompanhar mãe e avó em seus franciscanos rituais embelezadores.

Descia as escadas e já ouvia o burburinho da mulherada e dos secadores de cabelos. Daqueles grandalhões, com uma espécie de capacete futurista a abduzir cabeças cheias de bobs. Em meu nariz se misturavam os cheiros dos esmaltes, dos xampus, do laquê e da amônia no ar – substância fiadora da permanente nos cabelos. Nove entre dez mulheres fizeram permanente nos anos 70, em busca dos cachos perfeitos. (Eu fiz, nos anos 80. Rio bastante quando vejo minha foto na carteirinha do Juventus.)

Nossa cabeleireira era a Mavi. Mavi era linda. Eu queria ser a Mavi.

O salão ficava próximo à igreja onde meus pais se casaram. Cresci ouvindo meus avós, que não sabiam ler e escrever, falando rua Fernandsfalcão aqui, Fernandsfalcão ali. Não demorou para que eu deduzisse; por certo, era Fernandes Falcão. Aprendi a ler e soube: o nome da rua era Fernando Falcão. Mais ou menos como naquela outra história: minha irmã e eu pedimos ao meu avô o endereço da prima que morava em Mogi-Guaçu, queríamos mandar-lhe uma carta. Ele informou: rua Mervin Júnior, número tal. A prima respondeu, toda contente, escrevemos de novo. Muito tempo depois, descobrimos: Melvin Jones era o nome da rua. Esse pessoal dos Correios é bem batuta.

Mavi de quê, mesmo? Maria Vitória ou Maria Virgínia? Maria Virgulina ou Maria Vicentina? Nunca soube. De seu rosto, não me lembro. Nem de seus, vejam só, cabelos.

Só sei que cravei o velho salão e a Mavi na minha cabeça.

Assim como minha avó cravava o pente na minha cabeça, quando me penteava para eu ir à escola. Ela era incumbida de cuidar de nós três enquanto meus pais trabalhavam na venda. Para facilitar, eu subia no bidê do banheiro. Ela puxava com força meus cabelos, que iam até a cintura. Eu reclamava, ela também.

Minha bisavó Carmela, que também nunca foi à escola e provavelmente jamais pisou em um salão de beleza, cravava o pente-fivela em seus longuíssimos, finos e branquinhos cabelos, prendendo-os num coque. Era raríssimo vê-la com as madeixas soltas.

Será que Mavi ainda é cabeleireira? Jogo o endereço do salão no Google Maps, não reconheço mais o local. A escada, os secadores trambolhudos, vô, vó, bisavó, a prima de Mogi-Guaçu… Tudo se foi no sumidouro do tempo. E de vez em quando ressurgem nas lembranças, tão compridas feito meus cabelos de menina.

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