O boneco feio

Dos poucos brinquedos que minha mãe teve, quando criança, um permaneceu. É um bebê de louça, acabou ficando comigo. Se hoje ela teria oitenta e quatro anos, ele beira os oitenta. Apesar da idade, continua bebê. Não tinha nome de gente, como Alfredo ou Sérgio. Minha irmã lembrou: a Angelina-criança, minha mãe, o chamava, vejam só, de Boneco.

Se Boneco era o bebê de mentirinha da minha mãe, eu sou irmã de mentirinha dele. Além de compartilharmos a orfandade, tornei-me, nem sei desde quando ou por que, tutora dele. Dia desses, tirei-o do armário onde vive, envolto em xales, protegido dos perigos deste mundo. Nina, minha filha, neta de Angelina, sobrinha de mentirinha do Boneco, assustou-se ao vê-lo na sala. Já Luca não poupou o desaforo: “Que feio!”.

Eles têm razão. Boneco é feio.

Tem cabeça, bracinhos e perninhas de louça pintados à mão, em cor de pele sem vida. Seus olhos são fundos, inertes, perturbadores. A boca mal desenhada em cor de rosa, a balbuciar o nada. As mãozinhas, fechadas como as dos recém-nascidos, parecem de gente velha, cheias das marcas do tempo. Seu corpinho, de tecido estofado, está puído. Falta-lhe a ponta do pé esquerdo, quebrado sabe-se lá como. Na nuca, um misterioso buraco que acabou por lhe rachar parte da cabeça. Como é oca, alguém enfiou ali um chumaço de pano. Pois, todo mundo sabe, cabeça vazia é oficina do diabo.

Minha irmã e eu, de pequenas, também brincávamos com ele. Minha mãe deixava (o que, talvez, explique os acidentes). Crescemos, ninguém mais brincou com ele. Pudera. Que criança, hoje em dia, há de querê-lo? Não é bebê rosado, gordinho, fofo. Não se pode pegá-lo de qualquer jeito. O Boneco é durão, não fecha os olhinhos quando o deitam. “Não faz nada”, como diriam. E, duro dizer, é feio pra burro. Aqui em casa, nunca lhe arranjei merecido lugar, como num museu afetivo. Então, ninguém o embala mais. Resignado em sua condição de relíquia, Boneco é brinquedo esquecido. Nem por isso ele chora. Se ele é de louça, o coração deve ser de lata. Já chorou um dia, porém. Em suas costas há uma espécie de alto-falante inativo, enguiçado, podre. Devia ser desses bonecos que, se lhe apertam a barriguinha, choram metálico.

Tenho vontades de lhe dar um banho, mandá-lo a um hospital de bonecos, fazer-lhe curativos, vesti-lo decentemente, providenciar um bercinho. Não se pode esconder um pequeno irmão mais velho assim, num armário, para sempre. Ele precisa de cuidados. Boneco, o boneco feio, é frágil. Embora ninguém que chegue aos oitenta com apenas um pé quebrado e um buraco na cabeça deva ser considerado frágil.

Frágil sou eu. Que pareço de louça e me quebro inteira, imaginando a Angelina-menina dando-lhe papinha, trocando a fralda do xixi invisível, passeando com ele para lá e para cá, conversando com ele, ninando-o, fazendo-o adormecer. Ensaiando a mãe que já era desde sempre.

Boneco, o feio, deve ter sido bonito, um dia.

4 comentários em “O boneco feio

Quer comentar?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s