Chiclete

arte: “Bubble Gum”, Zara Picken

Já fomos mais mascadores. Por onde quer que se fosse – puxe aí na memória –, havia alguém mascando chiclé. O cobrador do ônibus. O motorista do ônibus. Os passageiros. As vendedoras nas lojas. Os primos, os vizinhos. Todos os colegas da escola, sem exceção. Até a professora, que não admitia, mascava enquanto corrigia as provas. O chiclé era onipresente nas bocas brasileiras (quiçá mundiais).

Hoje, nem tanto. Quase não se vê mais aquele gingado de maxilares.

Chiclé é apelido de chiclete. Que, por sua vez, é metonímia de Chiclets, a marca gringa da famosa goma. Dizem que veio do hispânico chicle, látex extraído do sapotizeiro e que significa, ora ora, substância pegajosa.

Nada dessas erudições, no entanto, importava: eu só queria saber quantos chiclés eu poderia pegar na venda. Ser filha dos donos tinha suas vantagens. Além do Ping-Pong tutti-frutti, meu predileto, podia me fartar à vontade de bala Juquinha, Jujuba e Delicado; Chokito, picolé da Gelato, Dadinho e maria-mole. Passar a tarde na venda, depois da aula, era pura epifania.

Voltava de lá com Chiclé na boca e tatuagem de mentirinha no dorso da mão. Dez entre dez crianças tinham. Vinha na embalagem do Ping-Pong e do Ploc. Desenhinho ordinário, era só molhar o papel e grudar na pele. Durava dias, para horror das mães. Não saía nem no banho. Depois de uma semana, a pseudo-tattoo era apenas uma sombra pálida e encardida. Que beleza.

Eu tinha medo de engolir chiclé. Falavam que grudava nas tripas, a pessoa ia parar no hospital, poderia até bater as botas. O controle pelo medo, como se vê, é estratégia secular. Nunca soube de ninguém que tivesse morrido por causa disso. Por garantia, eu mantinha os meus longe da garganta.

Além da tattoo, os chiclés vinham com outro bônus, igualmente divertido: faziam bola. Os mais velhos classificavam a performance como falta de educação, na mesma categoria de mostrar a língua. Já eu considerava aquilo uma arte (exceto quando explodiam no rosto do próprio artista). Quanto maior e mais tempo durasse, maior a habilidade do chicleteiro.

Depois, os ping-pongs e suas bolas deixaram de exercer fascínio. Migrei para o politicamente correto Trident, sem o bandido açúcar. E sem bola, por favor. Nem dava; só se colocasse uns cinco tabletes na boca. Por fim, abandonei a mascação. Aderi, porém, às tatuagens de verdade. Que me acompanharão até o derradeiro banho nesta vida de meu Deus.

Outro dia, vi no supermercado o Bubbaloo, neto do Chiclets. Não vem com tatuagem temporária, mas tem recheio. Criança ainda gosta? Olhei ao redor. Nenhum gingado de maxilares detectado, em uma pequena amostra de pessoas entre 5 e 80 anos. Posso estar enganada, mas chiclé é guloseima em extinção. Basta olhar embaixo das carteiras escolares, das cadeiras e mesas dos fast-foods, nas paredes dos banheiros públicos. Nenhum.

Será a superação do ato de mascar uma clara evidência de evolução da espécie? Se sim, viemos das vacas, e não dos macacos.

Deu saudade da venda. Das tardes regadas a glicose, o baleiro antigo, a vitrine de madeira cheia de doces. Meu pai servindo Tatuzinho e Cynar aos fregueses, enquanto fazia preleções sobre a vastidão do universo. Minha mãe pesando arroz e batatas para as freguesas, suas mãos sempre cheirando a café moído. A máquina de cortar frios que quase decepou meu dedo (culpa minha), a sulfa mágica do farmacêutico estancando o sangue. Guardo na cabeça uma enorme goma de mascar lembranças. E não tenho medo de engoli-las. Se grudarem nas tripas, faço delas coração.

2 comentários em “Chiclete

  1. Lembranças boas! Para mim, isso era uma iguaria dos deuses, uma vez que só de vez em quando, tínhamos acesso a isso. Assim como o Dan Top, que uma vez por mês, ganhava de minha tia e comia beemm devagar para demorar a acabar (risos)
    Oh tempo bom!

    Curtido por 1 pessoa

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