Quintal

Olhei os hibiscos da vizinha, lembrei dos da minha infância. Repare: a flor parece uma bailarina com tu-tu. Nas ruas, eu gostava de apanhá-la e ir tirando as pétalas, numa espécie de strip-tease botânico. Tremenda sacanagem com a flor, isso sim. Pelada e escangalhada, depois largava a pobrezinha no chão, para terminar de morrer.

Eu também era sacana com tatu-bolinha. Havia tantos no quintal! Agachada no chão de caquinhos vermelhos, observava-o se recolher, ao menor toque. Bastava encostar em sua carapaça com a ponta do dedo ou dum graveto, folhinha que fosse, para que o pequeno isópode detectasse o perigo e se fechasse, virando uma bolinha perfeita. Eu não o machucava. Esperava – e tempo não me faltava – o bichinho acreditar que eu não estava mais por perto, para se desenrodilhar e retomar seu importante caminho rumo a lugar qualquer; então eu tornava a provocar-lhe o movimento defensivo. E assim ia nessa quase tortura, até que outra coisa mais interessante me distraísse ou alguém chamasse para comer pão com manteiga.

Eu não era menina exatamente má, nem com a flor, nem com os tatuzinhos. Era criança habitante de quintal vivo (não de playground asséptico e emborrachado), rodeada de seres, cores, cheiros, formas. Eu torrava a paciência de alguns desses seres, é fato. Gosto, porém, de pensar que a natureza é compreensiva com crianças sem maldade, que veem nela um grande e divertido brinquedo. (Mas é bom lembrar: natureza não é brinquedo.) Já matar passarinho com estilingue ou jogar sal em lesma não era comigo, não. Embora me divertisse assistindo o Coiote se ferrar, porque o Papa-Léguas era muitíssimo mais esperto, e achasse graça no Tom levando a pior – o Jerry era bem danadinho.

O quintal de casa era pequeno no tamanho e imenso nas possibilidades. Ali cabiam oficina de carpintaria, casa de bonecas, cozinha experimental, laboratório de química, castelo de princesa, pista de bicicross, sala de aula e até um museu de coisas desimportantes (já contei essa: certa vez, instalei ali precioso acervo de objetos aleatórios, catados pela casa, como o “pente de José Bonifácio”, o “espelho da Princesa Isabel”). A imaginação é o quintal da vida. Tudo em meio a varais de roupas quaradas, gato e cachorro, vasos de babosa, espada de São Jorge e comigo-ninguém-pode (diziam que quem comesse suas folhas caía durinho, ploft). Nunca me conformei como nosso velho quintal, de pequeno, apequenou mais com os anos. Eu crescia, ele encolhia. Pior: foi deixando de ser território de brincar, enfeiando e entulhando (ou sempre foi entulhado e feio) até virar deserto desabitado de gentes pequena e grande.

Meu quintal de agora é outro, feito de outra história e com outras possibilidades. Cogitei pedir à vizinha uma flor para enfeitar o vaso. Não tenho mais vontade de despetalar hibisco. E aqui nem tem tatu-bolinha (tem maria-fedida, louva-deus, aranhas diversas e insetos indecifráveis; nem tudo está perdido). Como a gente muda. Só a bailarina-flor que nunca mudou o modelo da sua saia.

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