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O calendário

Ines Hildur

Tinha em casa, quando eu era criança. Depois saiu de moda, nunca mais vi. Aqueles calendários que vêm com dois conjuntos de papeizinhos: um para os meses, com doze, e outro para os dias, com trinta e um. Era só ir trocando o papelzinho, conforme o dia. Um calendário eterno, válido para qualquer ano. O nosso era pequeno, feito em madeira. Se não me engano, havia algum desenho nele. Florzinha ou outra coisa mimosa. Fazia parte da decoração da cozinha.

Era necessário, no entanto, disciplina para mantê-lo atualizado. Alguém deveria, pontualmente, mudar o papelzinho do dia. E, quando chegasse ao trinta ou trinta e um (exceto fevereiro, o diferentão), trocar o do mês também.

O que nem sempre acontecia. Ficava dias sendo o mesmo dia. Meses, até. Março chegava, e ainda estávamos em janeiro. Já o sete de maio eu torcia para nada, nem ninguém, atualizar. Assim seria sempre meu aniversário.

Por outro lado, em meados de 1972, desejei pular direto para o ano seguinte, quando eu entraria no pré-primário. Queria saber como era esse negócio de ir à escola, meus irmãos iam e pareciam tão importantes com seus livros e cadernos e estojos e tarefas de casa. Mas tempo não é de papel. Tempo é de vento.

De tanto serem manuseados, os papeizinhos iam amarrotando e envelhecendo – o tempo também passava para eles. Curiosamente, ao tomar a dianteira no calendário, traziam sempre um dia inédito, um mês novinho em folha.

Não sei o destino que nosso calendário móvel teve. Sumiu. Ou acabou aposentado, substituído pela folhinha de parede, com fotos de gatinhos fofos ou bucólicas paisagens europeias (solares para os meses de verão e nevadas para os de inverno). Uma vez, ganhei de aniversário um relógio de pulso, com calendário automático. Eu não precisava fazer nada. Ele mudava seus papeizinhos sozinho.

Sei que na nossa velha casa o tempo, de certa forma, parou. Fechada há anos, ali o tempo não passa. É sempre o dia em que o último de nós saiu de lá.

Só as aranhas não sabem.

Reveiôn

foto: Simone Huck

Contabilizo, com o que inicia nas próximas horas, meu 51º ano novo. Sou dona, portanto, de cinco décadas de anos velhos.

Anos passados merecem respeito. Lembra? “Respeite os mais velhos”. Apesar disso, nem sempre cuidamos bem dos nossos velhos. E eles têm muito a ensinar. Ano velho também dá no couro, tem gás, pode ser útil. Não precisa se aposentar e ficar o dia inteiro de pijama (embora ficar o dia inteiro de pijama seja a quinta-essência). O fato é que ano velho não merece o adeus da velha canção, em contraponto à (incerta) felicidade do que está por vir.

O reveiôn a gente passava em casa, tinha comida especial e roupa bonita. Alguém estourava o champanhe barato e o ano novo estava oficialmente inaugurado. Depois da meia noite, os amigos da minha irmã, mais velha que eu, passavam em casa, para de lá irem às casas de outros amigos, formando uma comitiva em homenagem ao ano estreante. Se o Natal era em família, Ano-Novo deveria ser entre amigos. Eu não via a hora de ser grande para fazer o mesmo. Cresci e isso não aconteceu. As vontades mudaram, os amigos envelheceram. Alguns morreram novos, permanecendo assim nas lembranças. A morte congela a idade. Quem morre jovem se divorcia do tempo e não envelhece nunca.

Confundia-me ao escrever Réveillon. Errava o lugar do acento, dobra o L ou não? Certeza, só a de que mais cinco meses e seria meu aniversário. Aniversário é o ano novo da gente.

Aprendi depois que réveillon é uma palavra francesa, derivada do verbo réveiller, que significa despertar, acordar, no sentido simbólico. O que não deixa de ser interessante; no réveillon a gente não tem hora para dormir.

Tem gente que desfila, com pompa e orgulho, sua galeria de anos velhos pelas fotografias da estante. Há quem os coloque no asilo da memória. E só os visite – que ironia – uma vez por ano. Ou nem isso.

O reveiôn da minha infância não se parece em nada com o Réveillon da minha adultice, exceto pela similaridade calendárica. Aquele, sem L e sem sotaque estrangeiro, perdeu-se em algum ano velho e eu não consigo mais encontrar.

A gente tem saudade de ano velho, não de ano novo. Ano velho é porto seguro. É colo familiar, cheiro sabido, música conhecida. Ano novo é incógnita, palpite, candidato a ser feliz.

Com quantos anos velhos se faz um ano novo?

Tempo rei

ampulheta

Foi mais de uma vez: na volta do cursinho pré-vestibular, no ônibus que me levava até a Praça da Sé, costumava tocar “Tempo Rei”. Aquela, do Gil.

Às vezes, eu não tomava esse ônibus, e sim o metrô na estação Vergueiro, próxima ao cursinho. Um ia sob o chão, o outro, sobre. Dependia, portanto, do meu estado de espírito no dia. No metrô não tinha musiquinha ambiente, no ônibus tinha. E quase sempre tocava “Tempo Rei” durante o trajeto. Achava interessante a coincidência.

Foi bem mais de uma vez. Não fosse, eu não lembraria disso hoje, trinta anos depois. É que tocou “Tempo Rei” na rádio, enquanto eu fazia panquecas para o almoço.

Eu estava sempre cansada, por ter me levantado antes das seis e absorvido mais conteúdo escolar do que poderia dar conta. Carregando as apostilas abarrotadas de informações que, acreditava, me fariam entrar na USP, eu escolhia um assento perto da janela e sonhava com o almoço me esperando em casa. Quando minha mãe estava bem, às vezes tinha panquecas.

No ônibus, entre um bocejo e outro, eu acompanhava o Gil.

“Ensinai-me, ó Pai, o que eu ainda não sei”, eu pedia, em especial, para aquela parte dos logaritmos e exponenciais que costumava cair no vestibular. Nunca gostei dos números, nem eles de mim.

“Não se iludam, não me iludo”. A USP não era para qualquer um. E eu era, para todos os efeitos, qualquer uma. Não entrei. Só quarenta e um pontos na primeira fase da Fuvest. O tempo mostrou-me que isso, na verdade, não tinha tanta importância assim.

No percurso até a Praça da Sé, nada de Pães de Açúcar ou Corcovados. No ponto final, porém, uma respeitável – e um pouco esverdeada – Catedral da Sé. São Paulo nasceu ali. O meu marco zero foi na maternidade da Beneficência Portuguesa, no Paraíso. Perto do cursinho, aliás. O tempo é também rei do espaço, transformando as velhas formas do viver: levou-me para estudar, depois de grande, tão perto de onde nasci.

Da Sé eu ainda tomava outra condução até em casa. Um ônibus elétrico, que passava pela Mooca. Nesse, não tinha som ambiente. Ficávamos somente eu e meu pensamento, mesmo fundamento singular. E, claro, as apostilas pesando no colo. Tanta química. Para quê, ó Pai? Quase sempre, os cabos do ônibus escapavam dos fios elétricos suspensos no ar. O motorista parava onde fosse. Quem viesse atrás, paciência. O cobrador descia sem pressa, ajeitava os cabos, voltava ao seu posto, o motorista tocava em frente. Quando chovia eu ficava com pena do cobrador.

“Tudo permanecerá do jeito que tem sido” parece ser a máxima dessas três décadas: o cursinho ainda funciona no mesmo endereço. A estação Vergueiro do metrô, idem. Ainda há a linha de ônibus que tocava Gilberto Gil (se mantém a música ambiente, não sei). Praça da Sé e Catedral, claro, incólumes. Fucei o street view do Google e pasmei: o elétrico que me deixava a dois quarteirões de casa resiste no mesmo ponto e a linha sequer mudou o número.

Na minha vida, no entanto, não foi bem assim. Nesses trinta anos, que é tempo pra chuchu, pouca coisa permaneceu. Ninguém mais mora na nossa velha casa, exceto os fantasmas. Eu saí de São Paulo. Não vivo mais do meu diploma de bacharel em comunicação social. Não ando mais de ônibus, nem de metrô. Não tenho mais cabelos até a cintura, nem ilusões acerca do universo: “tudo agora mesmo pode estar por um segundo”. Não sei onde estão meus amigos do cursinho. Minha mãe não faz mais panquecas. E minhas ideias, no geral, são como os cabos do velho ônibus elétrico: às vezes, saem do lugar. Quando isso acontece, lá vou eu, sob sol ou chuva, ajeitá-las novamente. Ao menos, tentar.

Se o tempo é rei, a valentia é rainha.

Crônica de minuto #61

mentalize-itaiana
“Mentalize”, Itaiana Battoni

Vi no jornal da TV, a moça do tempo está grávida. Pensei: hoje está bom para escrever um pouquinho. Temperatura mínima de duas palavras, máxima de duas mil. Pancadas de café ao longo do dia.

A moça do tempo está grávida. Ela espera el niño. A espera, invariavelmente, é feita de tempo. Tempo bom, tempo nublado, tempestade, furacão. Todas as condições cabem numa barriga de mulher.

A moça do tempo está grávida. Ela mostra onde vai fazer frio. Dentro dela, no entanto, é sempre verão. Seu corpo é um mapa múndi e ela está grávida de sol, encoberto por nuvens de curiosidade, “Como será o rostinho?”. O tempo, eterno gestante, vai parindo a todo instante. Seus filhos se chamam acontecimentos.

A moça do tempo não sabe a hora que seu bebê vai nascer. Quando sentir que chegou a vez, irá ventando para a maternidade. Nesse dia, será que vai chover nos olhos dela? Não sei. Mas a previsão é que ele seja muito amado.

O que você está esperando?

“Inertia”, Jason deCaires Taylor, Musa Cancun

No rádio, a moça do comercial me encosta na parede, sem dó: o que estou esperando para ligar já e comprar um pacote de viagem para Cancun com tudo incluído por apenas dez de seiscentos e cinquenta reais?

Eu vou lhe dizer o que estou esperando, meu bem.

Estou esperando o gato terminar de lavar a pata para estender a cama; não se deve atrapalhar um gato em sua toilette (ainda que feita sobre sua cama). Estou esperando o técnico vir consertar a geladeira. Estou esperando o sinal da Net voltar. Estou esperando o terceiro olho brotar em minha testa. Estou feito o Pedro pedreiro penseiro, do Chico Buarque, esperando o trem.

Viver é esperar. Aqui ou em Cancun.

Estou esperando dar meio-dia para servir o almoço para as crianças. No caminho de casa até a escola, dos onze semáforos, talvez tenha que esperar uns nove (ou dez) abrirem. Na tarde de horas comprimidas, espero conseguir zerar pelo menos dois terços das pendências do dia. Enquanto espero a reunião pelo Skype, o pó de café, vestido de coador, espera pela água quente.

O tempo é uma máquina de esperar.

Eu espero até às cinco e meia para ir buscar as crianças. No caminho de casa até a escola, dos onze semáforos, talvez tenha que esperar uns dez (ou onze) abrirem. Esperei, pelo tempo justo, um filho e uma filha saírem pela minha barriga. Agora espero todos os dias um filho e uma filha saírem pelo portão.

Quantos semáforos existem em Cancun?

A verdade é que eu não sei o que estou esperando para comprar o pacote de viagem com tudo incluído. Se nem sei o que estou esperando para arrumar meus armários, e assim livrar-me das tranqueiras físicas e mentais que entulham as gavetas e as ideias. Se nem sei o que estou esperando para escrever o livro sobre os diários de minha mãe. E outro, sobre as formigas daqui de casa. E outro, com as crônicas deste blog. Se nem sei o que estou esperando para começar a ter aulas de piano.

Não sei onde estão todas essas respostas.

Em Cancun, talvez.

Verbo familiar

arte: Juliana Moraes
arte: Juliana Moraes

Agendar consulta das crianças na pediatra. Inspecionar orelhas do mais velho. Desembaraçar os cabelos da mais nova. Tirar dente mole dos dois.

Comprar os remédios do meu pai. Certificar-me que suas meias e cuecas estão em ordem. Levá-lo para cortar os cabelos e, na volta, passar no mercado para ele comprar bolachas.

Da matrioska, sou a boneca do meio. Cuido da boneca de fora, a que veio antes, e de onde vim. Cuido das que vieram depois, saídas de mim.

De mim, quem cuida?

Eu mesma agendo minhas consultas e nos dias marcados pego meu carro e vou. Lavo minhas orelhas, decido meus cabelos e, sem ninguém mandar, escovo os dentes – surgidos, tanto tempo atrás, em substituição aos meus moles. Não preciso de remédios; precisasse, os tomaria na hora certa. Determino o que entra e o que sai de meu guarda-roupa. Administro minhas próprias bolachas.

Encravado entre a infância e a velhice, o adulto é a peça autocuidante. No meio do jogo, é o presente, cuidador de si, do futuro e do pretérito.

O futuro, da vida, pensa que sabe tudo.

O pretérito sabe, efetivamente, tudo. No entanto, em triste gerúndio, vai se esquecendo.

O presente arde no desejo imperativo de tudo saber. Efetivamente, nada sabe.

São todos imperfeitos.

E isso é infinitivamente mais-que-bonito.

A moça do tempo

Arte: Jonas Seaman
Arte: Jonas Seaman

“Não tenho tempo”. Mente quem diz.

Há tempo de sobra, tempo pra chuchu. Tempo é o que não falta neste mundo de meu Deus. Basta olhar a certidão de nascimento e conferir quanto tempo já lhe foi concedido. E, em teoria, quanto ainda será. E, na prática, quanto está sendo nesse exato instante.

É tentador, fácil, gostoso até, reclamar da falta de tempo. É seguro, também – ninguém contesta. Vale para qualquer setor da vida ou ação cotidiana. É hábito institucionalizado e sacramentado, assim como conversar sobre o frio e o calor, suas variantes meteorológicas. É lamento pronto, desculpa engomada, queixume-curinga.

A falta de tempo para a ginástica, para trabalhar, para ler, para ir ao cinema, para ir ao teatro, para ir ao show, para deitar na rede, para ensinar o filho a andar na bicicleta sem as rodinhas, para assistir novela, para fazer um bolo de fubá, para cuidar das plantas, para arrumar as gavetas, para passar filtro solar, para tomar café da manhã direito, para estudar, para responder e-mails, para organizar as fotografias do celular… são as faltanças em geral, representadas numa só. O tempo que se passa, ao longo da existência, lamuriando a falta dele, bem que daria para fazer um bocado de coisas. À frase “Não tenho tempo para isso” cabe, geralmente, legenda: “Não quero fazer isso”. O resto é imbróglio do inconsciente de cada um.

O tempo escapa porque se enfia coisas demais nele. É como querer usar uma roupa apertada, sem que caiba tanto corpo ali. No dia-padrão, feito de suas medidas próprias, também não cabe tanta agenda. (Ou então, é a gente que usa errado, de trás pra frente, do avesso.)

Comprar flores, no trajeto para o escritório, não toma quinze minutos. Quinze, num dia de mil, quatrocentos e quarenta minutos. É um por cento. Vá lá que é preciso descontar os minutos dedicados ao sono. A conta do desconto passa a ser o quanto você gosta (ou não) das flores, e o quanto elas lhe são (ou não) essenciais.

Tomar um café, naquele lugarzinho charmoso entre o supermercado e a escola das crianças, leva dez minutos. Menos de um por cento. ( E café tira o sono.)

Até a Terra arruma tempo para dar suas voltinhas, em torno de si e do astro-rei. Faça chuva ou faça, veja só, sol.

A moça do tempo, aquela da TV, a falar de nuvens e precipitações, não sabe como gastou seus minutos de ontem. Nem de hoje. Foi dormir com déficit de hora e acordou com superávit de tarefa. Como irá gastá-los amanhã, ninguém sabe. E, se pensar que, na verdade, não existe isso de minuto, hora, nem ano, a previsão fica mais complicada (ou divertida) ainda.

Eu não sou a moça do tempo, sou meu próprio planeta. Faço minha rotação endoidecida de movimentos planejados e aleatórios, nem sempre giratórios, e dou conta da translação no prazo combinado. Tenho tempo para fazer tudo que quero, devo e preciso. Se faço ou não, são outros mil, quatrocentos e quarenta.

 

Crônica de minuto #49

A loja de roupas baratas, na avenida de mão única e comércio múltiplo, abre às oito em ponto. Às oito e um a vendedora está na porta, aguardando os primeiros fregueses do dia. Que, ela sabe, tardarão a aparecer.

Padaria abre cedo. Banca de jornal também. Igualmente, posto de gasolina. Laboratório de análises clínicas. Escola. Há uma lógica, um propósito cristalino, uma serventia sabida na alvorada de alguns estabelecimentos. Não há, porém, explicação para a loja de roupas da avenida. Quem é que compra saias e calças às oito da manhã? Ninguém entra em uma, tão cedo, e pede, “Posso ver aquele jeans de sessenta e nove?”.

Nenhum corpo – nem alma – precisa de camisa nova a essa hora. Nunca vi amiga que contasse, “Comprei esta blusa ontem, às oito da manhã”. Reparem; é sempre ao meio-dia e quinze, às três e vinte da tarde, cinco e dez, dez pras nove da noite (quando é shopping). Quando muito, às dez e cinquenta, um pouco antes do almoço. Às oito, não.

E a vendedora de cabelos anelados e meia-calça fumê precisa estar a postos, impecável, às oito e um. É sua obrigação, sabia disso quando foi contratada. Tarde demais para pensar nisso. (Ou seria cedo o bastante para mudar de emprego?) Ela rói as unhas enquanto o ônibus segue em seu engole-vomita-gente no ponto em frente à loja. Que padece, assim como ela, de invisibilidade matutina crônica.

E se eu estacionar – é de dentro do meu carro que espio a vendedora enquanto o sinal não abre – e ir ter com ela? Perguntar-lhe, cheia de nove horas, sobre o vestido florido da vitrine, “Que tecido é?”. Apenas para entretê-la, ativar-lhe as ideias, fazê-la sentir-se útil.

Mas é cedo até para a compaixão.

Enquanto você se depila

depilação 1

Enquanto você se depila o planeta segue rumo, a prumo, em acontecimentos diversos, simultâneos, coincidentes, aleatórios. A órbita planetária é precisa e afiada – como a lâmina gentil que escanhoa sua pele sob a água do chuveiro.

Toda sorte de movimento se dá no decorrer desse breve período. É a lâmina universal a fatiar eventos, carregados de significados sabidos e não-sabidos. Nascimento, aniversário, desjejum, aula, reunião, amor, desamor, morte – morrida e matada – caminhada, sono, pensamento, risada, choro.

Tudo enquanto você, solitariamente, se depila.

Se a primeira faz tchan e a segunda faz tchun, minhas axilas desafinaram na Quinta de Beethoven; já é sexta-feira.

É no banho matinal que executo a poda dessa região. Água lava e leva tudo: o pelo e o meu apelo por um dia bom. O pensamento escapa do sossego azulejado e viaja; quero estar um lugar onde eu possa, de fato, sentir a transpiração do universo. Onde fica o sovaco do mundo?

Não dou paz aos pelos que ali brotam: dia sim, dia não, empunho a guilhotina portátil e não deixo nem um para contar história. Recém-nascidos, eu os toso, sem piedade. Eles não perdem a esperança; continuam crescendo e se multiplicando. Pelos têm rara obstinação.

Uso, somente nelas, um barbeador de plástico, em versão com frufrus ergonômicos, próprios para minhas mãos pequenas e meus olhos femininos. Não há barba, porém. Mas estou eternamente vinculada ao objeto masculino, que sequer trocou de nome para me servir.

Sonhava, com onze anos, em depilar as pernas. Os pelos adolescentes não combinavam com a pré-moça que me habitava. Autorizada pela minha mãe, dei cabo deles. Faço isso há trinta e cinco anos. Nunca me perguntei o porquê.

Depilação é eterna refação. É, também, atestar e validar a vida; em morto não nasce pelo. É preciso agradecer, portanto, o pelo nosso de cada dia.

Enquanto me depilo, a fé é cega. A faca, amolada. O barbeador, cor-de-rosa.

Estou pronta. Venha, dia.

… falta um tanto ainda eu sei (*)

Arte: Iroki

Ela adianta o rádio-relógio em dez minutos, todos os dias. Promulga uma espécie de horário de verão, particular e abreviado, para ver se consegue se safar do próprio atraso. Finge não desconfiar da farsa que constrói. Enganar o oráculo do tempo é seu maior embuste.

A serviço de quem está a sabotagem?

Ao primeiro pi-pi-pi ela abre os olhos, tateia em busca do algoz de seu sono e lhe ordena o silêncio. Confere: seis e meia. Lá fora: seis e vinte. O fuso horário que separa seu quarto do resto do mundo tem seiscentos segundos mentirosos. Sua alma se levanta e tenta convencer seu corpo a fazer o mesmo. A batalha é cruel. Não há vencedores; apenas teimosos.

Nos dez minutos de faz-de-conta cabe o resto de descanso providencial. Cabe um terço de sonho e cabe até um sonolento sentimento de culpa, devidamente aninhado em irresistível travesseiro.

O tempo ganho ilicitamente é suficiente para uma escova expressa, um xixi em paz, uma cutucada nas unhas do pé. Ou para preparar um pão na chapa, passar rímel, combinar saia e blusa, fazer um afago no cão. A farsa continua.

Ela ignora o relógio digital do microondas, a delatar o horário de Brasília. Sua fé analógica é inabalável: ainda há dez minutos, viva!

Confere a bolsa, apanha as chaves, dá a partida no carro. Ainda crê estar no futuro, apesar do relógio no painel jurar dizer a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade. O banco do motorista é o mesmo do réu. Ela dá de ombros, mete os óculos escuros e engata a primeira. Tem quarenta minutos para chegar antes dela mesma ao seu destino. O dia está quase salvo.

Ao burlar a lei do tempo ela se julga mais esperta que si. De esperteza é feita a hora que ultrapassa o dia pela direita.

Enquanto isso Cronos, de seu trono circular adornado com ponteiros de ouro, ri dela. Seu castigo está logo adiante, no primeiro semáforo quebrado. Arruinando o tempo que ela julgava sobrar.

(*) “Sobre o Tempo”, Pato Fu (John Ulhoa)

Anatomia de um dia

Arte: Carlos Torrejon

Dia é um caminho imaginário que percorremos enquanto fazemos coisas. Melhor; círculo imaginário. Por definição, sem fim ou começo – a não ser por convenção humana. Sol e lua, redondos, são para combinar.

Dia é aquilo que inventamos para justificar nossos atrasos. Ir ao cinema. Dar festa. Faltar ao trabalho. Num dia cabem todos, todinhos, acontecimentos do mundo. O HD do dia é imenso.

Dia serve para comemorar nascimento, contar idade, registrar amores, vender calendários, comprar sapatos. Dia não serve para ser futuro.

Dia tem tarde, fazendo a ponte entre manhã e noite. (Não esquecer a convenção humana.) Apresenta lógica milenar, contestada diariamente pelos entediados e reclamões.

Dia é feito de coisas, coisinhas e coisonas. Sua anatomia e esquemas têm ricas ilustrações, impressas em vinte e quatro cores, ou horas. Todas muito didáticas. Procura-se alunos atentos.

Dia curto pede saia idem. Longo, dá para enrolar.

Um dia é útil se não for sábado, domingo ou feriado. E inútil quando tanto faz.

Há dias orgânicos e recicláveis – cada um no respectivo compartimento da agenda. Todos, no entanto, são um convite às dissecações afetivas.

Dia não é de ninguém. Mas se lhe desejarem um bom dia, acredite e agarre-o. Não custa.

Um dia não é barato. Mas também nunca sai caro. Mais vale um na memória que dois na folhinha.

Eu, o Tempo

Arte: João Grando

Disse ele, o Tempo, n’algum dia desses:

“Vou lhe explicar, pessoa, por que não retorno ao ontem, nem demoro-me no hoje, tampouco antecipo-me ao amanhã. São justamente os verbos que jamais conjugo.

Ainda que resolvesse fazê-lo, perceba o caos: a feijoada da sexta, o casamento do sábado, a missa do domingo, nenhum deles teria início, nem fim. Só um eterno e desesperador durante.

Relógios endoideceriam. As horas, embaraçadas, confundiriam os minutos. Atos e acontecimentos acomodariam-se num único segundo, condenados a um gerúndio maldito.

O nascimento quedaria distante do parto. A morte não daria cabo da vida, como é de sua natureza. Super-heróis não salvariam o mundo que, por sua vez, não careceria ser salvo (ou viveria em permanente perigo). O Papa reproduziria o gesto da bênção para todo sempre, e os fiéis não teriam o que fazer com ela.

E, caso me dispusesse a atender tantas súplicas a mim dirigidas, a quem deveria dar ouvidos? Ao homem arrependido, à mulher apaixonada ou ao filho ansioso? Cada um tem seu desejo particular de conjugação. Não. Não correria o risco de importunar a Justiça, que em mim deposita tanta confiança.

Seria a era do tiro que perdura, da dor que não cessa, da oração sem amém. Do penne nunca al dente, do bife nunca ao ponto, da água nunca vinho. Nada de pouso ou decolagem. Nem partida, nem chegada. Dia e noite convertidos a uma só massa. O sinal verde sem vez, o vermelho reinante, o amarelo confuso e mais seis combinações possíveis para cada um – todas sem desfecho algum.

Portanto, pessoa, aceite: não sou seu, nem de ninguém. Nem às coisas, sequer, pertenço. Sou livre e desvencilhado, solitário e feliz. Sou aquele que arrebata, incomoda e salva.

Não dispenda sua força ao implorar por mundanices. Não reivindique que o final de semana se prolongue ou que o relógio custe a despertar ao amanhecer da segunda-feira; que a aula seja breve ou que o beijo não finde. De nada adiantarão suas rogativas, desconheço a compaixão. Faço o que quero. E sei o que faço”.

Enquanto eu me ensaboava

Ilustração: Michelle Certonio/Flickr.com

Se não me banho ao acordar, não termino de nascer para o dia que se faz pronto. É sob minha chuva particular que apago da pele o dia passado, para dele só permanecer, feito tatuagem, a mais bonita palavra. Nem sempre a ouço, porém.

Ontem, enquanto eu me ensaboava, quis mudar o mundo. Mas essas coisas dão preguiça pela manhã, à tarde é melhor. Então, mudei apenas a temperatura da água, tanto calor.

Enquanto eu me ensaboava, assuntei quantas pessoas no planeta faziam o mesmo no exato instante. Imaginei um banho universal. Ah, que bom se todos saíssem dele cheirando a erva-doce. Ou pitanga.

Enquanto eu me ensaboava, o filho chamou. Fingi não escutar, terminava com o dedo uma frase no vidro do box, cheio de vapor. (Tem gente que canta no chuveiro, eu escrevo.) Tive a nítida sensação de que o gato, enrodilhado no tapetinho, leu. Do rádio no quarto, um Lou Reed doidão sugeria: “take a walk on the wild side”. Eu, que pouco me atrevo a passear por lados selvagens, fiquei com vontade. Pra começar, me encarei no espelho embaçado. Em seguida, travei uma verborrágica conversa com meu terapeuta imaginário. O problema é que ele não ouviu nada, justamente por causa do chuveiro.

Enquando eu me ensaboava, olhei o sabonete tão redondo e lembrei dos nove círculos de Dante. Meu banho virou a divina lavação. Lavei a cabeça uma, duas, três vezes. As ideias permaneceram áridas, tal o inferno. Onde vende shampoo para ideias secas? Na hora do enxágue os pensamentos mais gordos não passaram, ficaram retidos no purgatório da autocensura. Fechei o ralo, só para ver a água pausar seu movimento. Abri, ela retomou seu caminho. Fechei de novo, depois abri mais uma vez. Fiquei ali, numa espécie de paraíso, brincando de mandar nas coisas.

Enquanto eu me ensaboava, vi o espectro dos meus amigos da escola primária em cada azulejo, num fragmento úmido de memória. Cumprimentei um por um. Mas evitei o abraço, não se sabe as pessoas tanto tempo depois.

Enquanto eu me ensaboava, fui à festa de aniversário da minha filha daqui dezesseis anos. Como engordei. Mas gostei das minhas calças de veludo cinza-chumbo, bem modernas.

Enquanto eu me ensaboava, pensei na lista de supermercado da semana, no livro que não sai, na fé que balança, mas não cai. Repassei o calendário de vacinas dos gatos, meu Deus, todas atrasadas! Assim como as minhas injeções anti-impaciência. Em dia, só minhas pílulas de melancolia.

Sim, fiz tudo isso no breve espaço de um banho matinal. Pensamento é igual sabão, e uns fazem mais espuma que os outros. Não foi banho comprido, saibam. Prova de que o tempo não é o culpado pelos atrasos, tampouco pelos adiantamentos. No fundo, ele é um pobre coitado que só sabe passar.

Abri mais o chuveiro, levemente siderada. Vi a nesga de sol no vitrô, o banheiro inteiro cheirava a pitanga. Enquanto eu me enxaguava, ainda era verão.

Jingle bells?

Ilustração: Adam Koford/Flickr.com

Gelei: acabo de topar com o primeiro anúncio de Natal. Papai Noel nem contratou os duendes temporários para fazer um bico no final de ano e já anunciaram: está tudo pronto. O bom velhinho deve odiar os publicitários. Viver às turras com o pessoal do marketing. Não é fácil ser lenda em terra comandada pelo dindim.

De meu posto, ainda em fase de embasbacação com as floradas da primavera nos ipês, jacarandás, sibipirunas e manacás-da-serra, em plena espera da boa-nova nos campos de concreto, já preciso pensar no presente de amigo-secreto. No chocotone. Na estratégia para armar a árvore de Natal na sala sem que os gatos comam os enfeites. E se eu insistir com as flores… Viver cada coisa em seu tempo, às vezes, é audacioso demais.

Todo ano é assim. Pior: o ano inteiro. Uma antecipação frenética e ensandecida das datas, fazendo com que tudo passe mais rápido do que já é. Me ponho ansiosa e concluo que, como o Coelho da Alice, estou atrasada. Se bem que coelho é lá na frente, na Páscoa. (Seus ovos que cada vez têm menos forma de ovo, no entanto, infestam os tetos dos supermercados bem antes.)

Tem mínimo para tudo: mínimo para pagamento da fatura do cartão de crédito, idade mínima para entrar no cinema, frequência mínima para passar de ano na escola, salário-mínimo. Campanha de data comemorativa também carece de limites mínimos: nada de outdoor de mãe, a não ser em maio. Comercial romântico de casal enamorado, só se for em junho. De pai, antes de agosto, nem pensar. E ninguém mais bota decoração verde e vermelha nos shoppings antes de dezembro. Infringiu, é multa. O calendário gregoriano reinará soberano, dando uma bela ‘banana’ para o calendário promocional. (Que carece, sobretudo, de novas inspirações. Mas isso são outros trezentos e sessenta e cinco.)

Até que isso aconteça, mês que vem, novembro, terei enjoado das bolas coloridas, dos anjinhos trombeteiros, das luzes piscantes nas janelas, das caixinhas de Natal para frentistas, garçons e manicures. Quando chegar o dia, propriamente dito, os gatos terão destruído a árvore e eu estarei completamente nauseada com a temporada de hohoho.

Que venha o Carnaval.

A enceradeira

Toda casa que se prezasse tinha enceradeira. A dona do lar precisava do trambolhento aparato – fosse presente de casamento ou adquirida em suaves prestações – para dar lustro ao piso e mostrar às visitas o quão zelosa era. Minha mãe caiu nesse conto. Todas as mulheres de sua geração, aliás. Não sei se a armação foi dos fabricantes de cera ou dos maridos que pretendiam manter as esposas ocupadas. E pensar que o advento da engenhoca foi a redenção; antes o brilho era conquistado no muque.

Eram duas, em casa. Uma, do tempo da minha avó. Outra, da época da minha mãe. A primeira era pesada, incômoda, antiquada (enceradeira e vovó). A segunda era mais leve, agradável, moderna (enceradeira e mamãe). A primeira tinha dupla função: de tão grande, cabia uma criança montada nela. Dia de faxina era sinônimo de farra, dia de andar de enceradeira. Mas só um pouquinho; dependia do humor de quem guiava a geringonça. Um verdadeiro bólido. Ou tanque de guerra. Uma arma, talvez.

Conta a lenda que as visitas exclamavam: em casa, se via dois gatos no chão. Um, propriamente dito, e outro, reflexo do primeiro. Obra do Synteko, da enceradeira e do esmero de Dona Angelina. Eu, iniciante no mundo do espelho de Alice, achava aquilo bem curioso. Até eu existia em dobro, portanto.

Minhas visitas, hoje, também dizem o mesmo. A diferença é que elas realmente veem muitos gatos. Todos de verdade. Nesse quesito, a única tradição na família que teve continuidade. Melhor assim.

A enceradeira é o símbolo cabal de que o compasso do tempo já foi outro. Ah, havia mais dele na vida de qualquer ser – homem ou mulher. A era dos assoalhos impecáveis, panelas areadas, roupas quaradas e engomadas. Onde isso, hoje? Preenchemos o tempo livre proporcionado pelas traquitanas elétricas e eletrônicas com outras necessidades. Inventamos outras areações, quarações e engomações para ocupar o tempo. Queremos mostrar o quê para quem? Urge descobrir de quem é a armação agora.

Queria mesmo era passear de enceradeira de novo.

Amanhã

Ilustração: India Amos/Flickr.com

Contei: são seis livros novos repousados ao lado da cama, mais outro tanto, arrumadinho na estante. Adquiridos, emprestados, ganhos. Todos aguardam, pacientemente e em certa fila anárquica, minha leitura. Que inicia, avança, mas não finda. É a roda-viva do dia-a-dia, fazendo picadinho de mim. A maldição do fiado, enfeitiçando a biblioteca particular: só amanhã.

Quase sempre, vivemos, os livros e eu, algo parecido com a síndrome do mamão. Eternamente renovado na fruteira, sob os votos de papá-lo todos os dias, ele há de garantir longevidade e intestino em ordem. Já registrei em cartório: quero completar cem anos fazendo tai-chi-chuan na praia. E o fruto é protagonista do plano. Fatalmente, porém, eu o flagro apodrecendo. Ao preferir o açucarado e fácil Sucrilhos matinal, me esqueço dele. Assim é com o livro, que vive perdendo a vez para eventuais fast-leituras, lotadas de calorias e poucos nutrientes. Livro, ao menos, não estraga. Também contribui para a vida longa, põe a mente para funcionar, faz bem à pele. E, de quebra, também é cheio de sementes.

Dei para colecionar livros na (vã?) promessa de que esse, ah! Esse eu vou ler. O problema é que arrumo sarna demais para me coçar. A leitura prometida fica para o dia seguinte, mês que vem, nunca. E ‘nunca’, todo mundo sabe, não existe no calendário. Eles, os livros, vêm parar nas minhas mãos por vários motivos. Um é culpa do projeto gráfico, lindo de morrer. Outro, de um assunto que eu pre-ci-so dominar. Mais um, daquele autor que eu não perco nenhuma vogal publicada. Mais outro, porque o amigo achou que eu deveria ler, e me deu de presente. (Quase sempre o amigo está certo.) Como procuro não questionar os mecanismos (ou ordens) do universo, eu os acolho, dou-lhes as boas-vindas, apresento-lhes a estante, confiro suas orelhas, exploro até a página vinte. Ler inteiro, que é bom, necas. Em casa, a proporção entre lidos e não-lidos beira o fracasso: um para dez. Até o criado ao lado da cama, que não é nada mudo, levanta a voz para mim, vez por outra: “O que há com você?”. Não sei de qual doença padeço.

Tê-los, apenas tê-los, vistosos na estante, funciona como alívio, espécie de garantia: a de que só sua presença já fará seu conteúdo ser telepaticamente absorvido. Tornar-se proprietário de um livro dá certa paz, algum conforto, uma quase segurança. Sabe-se lá se ele, mesmo quando não é folheado, não é capaz de emanar suas letras pelo espaço, além capa, além prateleira?

Batizei um lugarzinho em meu computador, no browser, de “Para ler depois”. É lá que guardo o que vou descobrindo de interessante no oceano sem fim da web. São links de artigos, matérias, críticas, resenhas, blogs. E, como nas promessas para livro e mamão, juro retornar em breve. Sempre dou cano. Não sei ler tanta notícia.

Antes de dormir, contei de novo os livros ao lado da cama. Havia cinco. Li? Não. Marido levou um, sem avisar. Só assim. E viva o fiado.

Crônica de minuto para quem pensa muito

Ilustração: Michael Young/Flickr.com

Repartir um prêmio em dinheiro que você nem punha fé? Não pense duas vezes. Apostar tudo naquele namoro que ninguém põe fé: pense duas vezes.

Ultrapassar aquele caminhão só porque a pressa está maior que de costume? Pense duas vezes. Agradecer ao anjo da guarda por ter escapado de ir para o beleléu, por causa do dito cujo: não pense duas vezes.

Socorrer o cãozinho atropelado que as pessoas fingiram não ver? Não pense duas vezes. Comprar um animalzinho, em vez de adotar: pense duas vezes.

Derrubar o fícus em frente à sua casa porque suas raízes levantaram um bocadinho a calçada, e agora você precisa desviar, de leve, para entrar na garagem? Pense duas vezes. Parar dois minutinhos para fotografar o ipê rosa que amanheceu florido na rua de cima: não pense duas vezes.

Traçar um pratão de nhoque ao sugo com pão italiano? Não pense duas vezes. Traçar um pratão de nhoque ao sugo com pão italiano: pense duas vezes.

Topar uma proposta para trabalhar mais feliz e ganhar um tiquinho menos? Não pense duas vezes. O contrário: pense duas vezes.

Cortar os cabelos porque deu uma vontade súbita, assim, do nada, sem explicação? Não pense duas vezes. Mantê-los longos apenas porque seu namorado gosta, e vive pedindo, com aquele olhar que você conhece bem, para você deixá-los assim? Pense duas vezes.

Adicionar, multiplicar e dividir os bons amigos nas redes sociais? Não pense duas vezes. Subtrai-los da sua vida porque, de vez em quando, eles não concordam com você: pense duas vezes.

Aproveitar o triz de inspiração para guinar a vida praquele lado que ela, há tempos, precisa? Não pense duas vezes. Se pensar uma vez e meia, o triz já era.

Pensar uma, duas ou três vezes. Não pensar. Ter cérebro à vela, com vento comandando o pensamento. Ideia motorizada, para ir o mais longe possível em menos tempo. Mente a jato, para perder de vista o que ficou para trás.

Dou-lhe uma. Dou-lhe duas. Dou-lhe todas.

Diariamente

Ilustração: Tadashi Kumai/Flickr.com

Todos os dias, enquanto escovo os dentes antes de dormir, presto atenção ao meu rosto. Não quero perder seu envelhecimento diário. Também não desejo, um belo dia, lá na frente, me assustar: “Meu Deus, estou velha”. Minha observação é pura precaução. Não posso fazê-la pela manhã, no entanto. Sou imprestável ao acordar. Como a tartaruga-marinha recém-nascida, que brota do seu ovo escondido na areia e dispara para o mar, eu broto dos lençóis e disparo para o chuveiro. É lá que termino de nascer. No banho, a água morna aciona minha agenda e eu repasso, tal uma vidente, o dia já anunciado.

Todos os dias, numa hora qualquer, presto atenção a alguma parte do meu corpo. Dedão, batata da perna, dorso da mão. Não quero perder de vista uma sarda nova, o anúncio de uma limitação física inédita, uma ruga que chega sem avisar. Meu corpo é uma hospedaria de sinais do tempo. Não gosto de todos, mas é preciso recebê-los e tratá-los bem. Sou feita deles.

Todos os dias, não sei ao certo a que horas, nem por quanto tempo, dedico-me a decorar os filhos. Estudo seus tamanhos, cheiros, formato dos olhos, quantos dentes aparecem quando sorriem. Talvez, por isso, ainda não tenha me espantado ao vê-los já grandes, nem compartilhado com outras mães as clássicas constatações, “Como cresceram!”, “Como o tempo passa rápido!”. Depois que tive filhos, o tempo não passou rápido coisa nenhuma. Seu compasso é o justo. Ser mãe demora. Uma vida inteira, por sinal. Às vezes, mais de uma.

Todos os dias, eu leio. Jornal, pensamento, olho, futuro. Nem sempre entendo o que dizem. Mantenho um dicionário na bolsa e outro no coração, para os casos de dúvida. Vez por outra, nenhum dos dois me acode. Então, em vez de ler, escrevo.

Todos os dias, é um tal de lembrar e esquecer as coisas, que nem sempre me lembro de lembrar de Deus. Sei que ele não liga para isso. Somos bons amigos, daqueles que não precisam se falar todo santo dia. E ele sabe que preciso mais dele que ele de mim. O que também não o preocupa. É mais velho, mais escolado. Não é dado a criancices. Isso ele empresta aos pequenos. Que vão lhe devolvendo as criancices, aos poucos, enquanto crescem. Mas eles nunca devolvem tudo. Sempre guardam um pouco delas, escondido entre uma coisa e outra. É assim comigo, é assim com todas as pessoas. Gente é incrivelmente parecida e repetitiva.

Quase todos os dias, quando dou comida para meus gatos, busco nas prateleiras mais inalcançáveis da memória as recordações dos outros animais que já viveram comigo. Três cães, dúzias de felinos, um hamster, alguns passarinhos. Enquanto fizer isso, vivos eles permanecerão. As lembranças são fundamentais para o registro da história – deles e minha. Despejo a ração nas vasilhas e vou historiando. Brinco que os bichos de agora são os de outrora, renascidos. É um jeito – inofensivo – de matar as saudades.

Quase sempre, no almoço ou jantar, imagino a jornada do alimento dentro de mim. Cada um dos nutrientes conhece plenamente a sua missão, sabe para onde ir e o que fazer para me manter viva e razoavelmente saudável. Ninguém lhes ensinou isso. Eles sabem por que sabem, a vida deles é tão somente ser. De vez em quando, queria ser um feijão.

Nem todos os dias sou feliz. Na maioria, alegre. Todos os dias, porém, sou valente. Isso basta.

Lições da Dona

Ilustração: Gustavo Peres/Flickr.com

A receita diz para deixar a massa descansar por trinta minutos. Acho engraçado. E massa lá fica cansada? Só gente e bicho é que carece de descanso, aprendi assim. “Não é isso, querida”, segreda baixinho Dona Benta – a própria, do livro. Ela conversa comigo: “Para ficar pronto, tudo precisa, antes, de certo repouso. Mas isso não vem escrito nas receitas”. Cá estou, ouvindo livro falar. Livro, não; a autora dele. Bem diferente.

“Feita de farinha, água e fermento, a massa que descansa não está à toa na vida, vendo a banda passar. Está se preparando. Se arrumando, bem bonita, para virar pão. Esse é o destino da massa. Se for ao forno antes da hora, não cresce direito. O pão fica feio, embatumado. Só passarinho é que vai gostar. Por outro lado, se passar da hora também estraga. Mas é a espera, o descanso, que garante que sua sina seja cumprida. Com gente é mais ou menos a mesma coisa, já percebeu?”. Me pega de surpresa, essa senhora. Só estou tentando fazer um pão para o lanche. Mas ela não para: “Gente precisa saber o seu tempo de descanso. Isso é simples. O relógio da Terra está sempre certo, é só ajustar o seu de acordo com ele”. E eu, achando que a Dona Benta só entendia de comida.

O relógio do meu avô estava sempre certo. Ele costumava fazer a sesta. Depois do almoço, chupava uma laranja e ia se ajeitar na poltrona. Recostava-se e punha uma almofada atrás da cabeça. Cruzava os braços e tirava sua soneca, sentado mesmo. Preparava-se para os afazeres da tarde, que não eram poucos. Inventar traquitanas para facilitar a vida da minha avó, alvejar sacos de algodão para fazer panos de prato, buscar cimento no carrinho de mão. Os três pilares fundamentais: alimento, descanso e movimento. Não entendia por que não se deitava de uma vez. Nunca perguntei, então, ele nunca respondeu. Hoje sei: o descanso do dia não deve ser igual ao descanso da noite. Meu avô, que sabia disso, viveu quase cem anos. O descanso sagrado, mais a mania de subir no telhado feito gato, por certo ajudaram na sua longevidade. Eu, que não faço sesta, nem subo no telhado, devo ser forte candidata a uma vida breve.

“Já acendeu o forno, querida?”, a quituteira quer saber. Ih, esqueci. “O que está esperando? Papai Noel?”. Engraçadinha, a velhota. Corro com os fósforos. Em silêncio, na tigela sobre a pia, a massa parece meditar. Sabe de sua missão, que é ser pão. E espera, pacientemente.

Deus, dizem, só descansou no sétimo dia. Não acredito. Fazer mundo é trabalho dos mais penosos. Duvido que, assim que inventou os dias, não tenha feito a sesta, como meu avô, antes de continuar a criação. Além do mais, universo não tem fim. Há sempre alguma coisa para ser criada ou consertada. Meu avô pensava assim. Começo a entender o negócio da imagem e semelhança.

Fecho o forno, guardo o livro e os mantimentos que espalhei pela cozinha. No relógio cinza e branco que, aliás, pertencia ao meu avô, marco o tempo. Agora ele está sincronizado com o da Terra. Como Dona Benta ensinou. Ela deve ter ficado triste comigo, não lhe dei muita bola. O que ela não sabe é que prestei muita atenção a tudo que ela disse. Tudinho.

Crônica de minuto #6

Meu creme antissinais acabou junto com 2010. Hoje, último dia do ano, vi que ele não chegará a 2011. Passá-lo em meu rosto todos os dias é um claro sinal de que o tempo, esse sim, passa. E mais: não espera ninguém. Tenho que providenciar refil. Só para o creme, no entanto. Para o tempo, infelizmente, não há.

O peso do tempo

Era hábito: parar nas farmácias perto de casa e me pesar nas enormes balanças. Aquelas, antigas. Aferição sem compromisso, meus (poucos) quilos de criança não importavam. Em jogo, apenas o ritual. A parada era o imprevisto, previsto no meio do caminho para comprar o pão do lanche da tarde, o papel almaço para a lição, o bife do jantar. Pousar na balança significava congelar o tempo por um instante, enquanto a rua e sua gente mantinham o ritmo do lado de fora da farmácia. Ao descer da balança, me esquecia do que o ponteiro havia dito e retomava meu passo na coreografia bem ensaiada do dia. O bairro tinha seu balé.

Toda farmácia que se prezava instalava sua balança de propósito perto da porta. Era o convite, a desculpa, o pretexto para entrar. Todos eram bem-vindos, mesmo quem não estava atrás de comprimido para dor de cabeça, injeção, pomada para queimadura. Nas balanças, vi meu peso crescer através das décadas e das dezenas. Trinta, quarenta, cinquenta quilos. Encostei nos setenta, nas vezes em que havia outra pessoa dentro de mim.

As balanças de hoje não convidam mais ninguém a entrar nas farmácias. Encolheram, esconderam-se, são eletrônicas, precisam de tomadas, pedem moedinhas para ver se o peso está de acordo com a altura. As antigas não queriam nada de nós, além da breve companhia. Quem é que tinha ouvido falar em IMC?

Perdi o hábito de entrar nas farmácias só para me pesar. Agora vou atrás de xampus, cremes e até remédios. Vez por outra, quando a balança está ao lado do caixa, verifico os quilos enquanto aguardo o troco. Mas eles continuam sem tanta importância, meu termômetro é a roupa. Reparei que as lembranças, estas sim, valem quanto pesam. E que o peso do tempo é a medida da saudade.

Rapidinha

Ilustração: Christy Hydeck/Flickr.com

Você telefona e a pessoa do outro lado da linha, de imediato, informa:

– Estou numa reuniãozinha.

Duas mensagens claras: a pessoa não pode falar agora, e a reunião é com os subalternos ou com os pares. Fosse com o superior, não seria reuniãozinha. Aliás, nesse caso a pessoa nem atenderia. Ou nem uma coisa, nem outra, é mentira. A pessoa está jogando paciência no computador e não quer prosear.

Você confere as vitrines. Entra, por acaso, numa das lojas. Passa a mão num casaco, só para sentir a textura, e a vendedora aparece para oferecer ajuda. Sua resposta:

– Só estou dando uma olhadinha.

A olhadinha rende. Você acaba experimentando o casaco, mas não está tão determinada assim a efetivar a compra. Agradece a vendedora, ajeita a bolsa no ombro e avisa, já em direção à saída:

– Preciso dar uma pensadinha.

A amiga, de última hora, convida você para o aniversário dela. Não será nada especial, ela não ia comemorar, mas o namorado insistiu, então vão todos a uma pizzaria. Você finge entusiasmo:

– Vou dar uma passadinha.

O marido interrompe seu banho, e lhe mostra a página vinte e cinco da revista:

– Depois, dá uma lidinha.

É coisa importante, melhor prestar atenção. Pode ser um artigo sobre tensão pré-menstrual, uma matéria ensinando a lidar com a birra dos pequenos ou uma promoção de TV LCD, aquela que vocês ensaiam comprar desde a última restituição do imposto de renda.

Não se trata do mamanhês, o tatibitate oficial de pais e mães (tias, eventualmente) na comunicação com seus rebentos, usando e abusando do diminutivo. Tampouco é uma característica exclusiva das pessoas que adotam o “inho” e a “inha” com freqüência em seus diálogos. Não, não. Gente de todo tipo, tamanho, idade e sexo esbarra no vício da palavra diminuta, vez por outra. É preciso registrar, no entanto, que o vício não apresenta justificativa. É sem necessidade, mesmo. Poderia ser reunião. Olhada. Pensada. Lida.

O que estará por trás do insondável diminutivo casual? Se para cada uma das suas aplicações pode ser atribuído um significado diferente, a teorização a respeito dele se mostra impossível. Tentemos. Um: ele está, notadamente, associado a um verbo. Dois: geralmente, é precedido do verbo dar. Três: tem relação com tempo. A pessoa não tinha tempo para atender aquela ligação. Você precisava de tempo para decidir se comprava o casaco ou não. Se desse tempo (ou vontade), você iria à pizzaria. Sobrando tempo, seria importante você ver a página vinte e cinco. Quatro: ainda sobre tempo, sugerindo que a ação é ou será breve. Era uma reunião rápida. Uma olhada rápida nos casacos. Uma passada rápida na pizzaria. Não levaria muito tempo para ler a página vinte e cinco.

Paro por aqui. Para justificar o título da crônica. E também porque já passa da meia-noite. Bateu soninho.

Sobre tempos e feitiços

Ilustração: Eurritimia/Flickr.com

Faltavam dois minutos. Acelerei, passei o sinal vermelho, ultrapassei um ônibus, virei à direita e entrei no estacionamento. Apertei o botão, retirei o cartão, a cancela se abriu, engatei a primeira. Voei até a locadora e… fechada. Como, se ainda faltava um minuto?

No meu relógio ainda não eram onze horas. Mas na locadora já devia ser. Lojas têm um fuso diferente – estão sempre adiantadas. Já perdi a conta de quantas vezes uma porta se fechou diante do meu nariz, enquanto do outro lado alguém com um sorrisinho misturando pena e ironia apontou didaticamente para uma placa com os horários de funcionamento, ou então fez um gesto com as mãos mostrando que já encerraram por aquele dia – numa mímica cruel – e em seguida desviou o olhar.

De volta ao carro, olhei para os DVDs no banco do passageiro e calculei a multa. Uma ninharia, perto do desaforo de retornar com eles embaixo do braço. Por conta de um minuto. Ou nem isso. Já na saída do estacionamento, lembrei-me que a locadora poderia ter Quick Drop. A gente nem precisa entrar, devolve tudo lá de fora mesmo, através de uma espécie de portinhola. O DVD escorrega por uma canaleta e pronto. Está devolvido. Antigamente o método era um pouco constrangedor, dependendo das instalações: todos na locadora – funcionários e clientes – eram ‘avisados’ de que alguém devolvera seus filmes. Uma barulheira.

Esperançosa, dei a volta no quarteirão e entrei novamente no estacionamento. Apertei o botão, retirei o cartão, a cancela se abriu, engatei a primeira. Tudo precisamente idêntico à cena de, quanto?, uns dois minutos atrás. Mesmos movimentos dos meus braços, mãos, cabeça, olhos. Mesmo carro, mesmo som do mesmo motor, mesmo abre-fecha da cancela. Era uma cena nova, de fato. Incrivelmente velha, conhecida e usada, porém. Um rapaz, recostado a um pilar ao lado da cancela, certamente desde antes da minha primeira entrada e, tendo percebido a repetição, assistiu à segunda com certo assombro inicial. A baforada de seu cigarro foi interrompida, sua boca permaneceu no movimento de quem pronuncia a letra “o” e seu olhar, incrédulo, me seguiu. Deve, por um instante, ter pensado com sua bituca se estava a ver coisas. Ri.

Quem assistiu “O feitiço do tempo” – filme antigo e instigante – já deve ter posto a imaginação para trabalhar e deu continuidade à história. Verdade seja dita: é sempre um divertido exercício, tremendamente inspirador, esse de pensar na repetição constante de um dia e de todos os fatos que se desenrolam nele. Sempre do mesmo jeito. À mesma hora. Nos mesmos lugares. Com as mesmas pessoas. Sob os mesmos propósitos, conscientes ou não. O que se tira disso é impressionante, ainda que somente sob um aspecto: misture-se o azul e o amarelo e sempre se terá o verde. Não adianta querer que dê roxo. Adicione-se água à terra e sempre se terá o barro. Assim é com as nossas ideias. Relacionamentos. Planos. Roupas. Comidas. Casas. Gostos. Passeios. Atitudes. Sonhos. Opiniões. Trabalho. Dinheiro. Saúde. Fé. Para tê-los diferentes dos nossos velhos conhecidos, não tem jeito: as fontes, as referências, precisam ser outras.

Meu dia (ou meu filme) escapou do feitiço do tempo e mudei o final da história. Afinal, a locadora não tinha Quick Drop.

Isso são horas?

Essa é para deixar Cronos, deus do tempo, meio lelé. No mínimo, confuso.

Tanque quase vazio, parei para abastecer o carro. Aproveitei para espiar a lojinha que há no posto. É um pequeno atelier de artesanato. Na porta de vidro, a placa informa:

A Jussara, ou simplesmente Juca, é quem comanda o lugar e faz tudo o que está à venda nele. São objetos de decoração simples e caprichados, como uma luminária de parede em forma de pipa – ou papagaio, quadrado, raia, pandorga – com direito a uma rabiola comprida, feita de retalhos coloridos. Dá vontade de sair empinando. Mas interessante mesmo é a placa. O expediente ali tanto pode ser das oito às cinco, como das dez ao meio dia. E, entre os dois, muitas possibilidades. Tudo depende.

Metáforas à parte (pois se todos resolvessem trabalhar dessa forma o mundo colapsaria), o bom humor da placa revela: ali trabalha uma pessoa dona do seu nariz. Alguém que recusa o sutil convite para se encaixar na fôrma e, mesmo assim, é capaz de uma produção com valor cultural e comercial. Vamos confessar: por mais que você ame sua profissão, tem dias que a última coisa que você gostaria é de ir para o trabalho. Ou, pelo menos, não na hora que inventaram para ele.

Vá lá: horário é importante. Para registrar nascimento e morte, almoçar, jantar, ir à missa, à escola, ao médico, pegar ônibus, avião, ver novela. Sem horários, é caos na certa. A Juca deve perder freguês e negócio de vez em quando. Talvez não viva somente do seu artesanato. Mas, ao que tudo indica, ela sabe seu ritmo, dirige a sua vida e não deixa ninguém lhe tomar a direção. Quem sabe o ideal fosse o meio-termo. Nem tanto o céu, nem tanto a terra, mas na altura das pipas. Um pouco mais ao sabor do vento.

A foto da placa foi feita com o celular. Infelizmente, não ficou com muita definição. Mas tudo bem: faz de conta que é para combinar com os horários do atelier.

Horário de verão

Ilustração: Mike Sagmeister/Flickr.com

O moço do caixa passava suas compras e quis saber se ela já adiantara o relógio. Ela colocou os mirtilos na esteira – era a primeira vez que via aquela frutinha azul –, abriu a bolsa e procurou o celular. Há anos o relógio ficara órfão do seu pulso, agora só conferia as horas pelo visor do telefone. O tempo definitivamente saíra da frente dos seus olhos, perdendo-se para sempre na barafunda na bolsa.

Não, ela ainda não havia ajustado a hora. Seu dia, portanto, acabava de ficar mais curto. Uma hora a menos, suspirou. E, como o coelho branco de Alice do País das Maravilhas, lembrou: estava atrasada.

Apressou-se em embalar suas coisas: o sorvete com o sabão em pó, a goiabada longe do queijo, o peixe para o domingo junto com a lasanha da segunda. Despediu-se e voou para casa.

No carro, caminho de volta, uma música fez questão de acompanhá-la pelo rádio:

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo

Descarregou as compras e foi acertar os relógios. E não adiantou apenas uma hora, mas sim várias. Teve uma ideia: na folhinha atrás da porta, avançou um dia inteiro. Uma semana toda. Chegou ao mês seguinte. E quando se deu conta, havia ido parar a dois verões depois daquele dia no supermercado.

Desanimada, ela constatou que naqueles anos a única novidade havia sido os mirtilos. A pós-graduação não saíra do papel. A reforma do apartamento não passara da cozinha. Não conhecia o rosto do filho. Que nem nascera, pois não tivera coragem de dizer sim ao homem da sua vida. A caixa com os livros da última mudança ainda estava num canto da sala. E seus pais aguardavam sua promessa de levá-los para um cruzeiro. Achou que era hora de acertar os ponteiros com o tempo.

Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo…

Não seria fácil, ela sabia. Mas combinou que voltaria ao dia do supermercado e, sem pressa, saborearia os mirtilos. Faria a matrícula na universidade, assim que chamasse o namorado para uma conversa séria. Teria uma semana para libertar seus livros do cativeiro de papelão. Marcaria as férias e ligaria para os pais. E decidiria, enfim, que os azulejos da cozinha seriam azuis. Em homenagem aos mirtilos. Ou blueberries.

Ficariam amigos, ela e o tempo. Não só em todas as estações do ano, mas nas de trem, nas de rádio. E, como uma promessa, lhe diria:

… acredito ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo

Primeiro e último

Ilustração: Daybeezho/Flickr.com

A vida é feita basicamente das primeiras coisas, um pouco das últimas, e o resto das que vão ficando pelo meio. A gente vai pondo número nos fatos, brincando de reger a história e sempre prestando mais atenção nas pontas – opostas e, por vezes, complementares –, que são o início e o fim. Parece que assim fica mais fácil entender o mundo.

Quem não se lembra do primeiro fantasma embaixo da cama? Do primeiro choro no escuro. A primeira peça de teatro na escola e a última chance de você ser um artista. O primeiro bichinho de estimação que você viu morrer e pediu para enterrar numa caixa de sapatos no jardim da sua casa. A primeira vez que você ouviu Papai Noel chamar baixinho sua mãe de ‘querida’, e a última vez que você acreditou nele. A primeira bronca feia. O primeiro gol. A primeira bota de cano longo. A primeira bicicleta. E a última vez que você andou nela com as rodinhas de apoio.

O primeiro salto alto. A dor estranhamente boa da primeira depilação. O primeiro email enviado e o primeiro recebido. A primeira canção do Led Zeppelin que você ouviu. A primeira fotografia três por quatro. O primeiro esmalte vermelho. A primeira poesia feita assim, de uma vez só. O primeiro show que você foi sem seus pais. O primeiro porre e a primeira amnésia alcóolica. O primeiro prêmio na escola e a primeira vez que você se achou o máximo. O primeiro computador só seu. O primeiro amor. O primeiro rio de lágrimas, que você achou que seria o último. A primeira saudade. O primeiro xeque-mate. A última chamada no vestibular. A entrevista para o primeiro emprego.

O primeiro salário e a primeira certeza: você ganhava mal. O primeiro cartão de crédito, a primeira fatura e o juramento de que seria a última vez que você gastaria tanto. O primeiro carro. A primeira demissão. A primeira vez que você falou com Deus, e ele respondeu. A primeira dívida. O primeiro negócio próprio e a última vez que você tirou férias. O primeiro cliente e o primeiro mês sem grana.

A primeira estria. O primeiro carro com ar-condicionado. A primeira dor de cotovelo. O último dia de solteira. A última nota na carteira. O primeiro assalto. O primeiro cabelo branco. O primeiro infeliz que chamou você de senhora. O primeiro filho aos quarenta e nove. A última chamada para o embarque. O primeiro casamento aos sessenta e sete. A última esperança. O primeiro tempo. O último dia do ano. O primeiro dia da semana, que ninguém entra num acordo se é domingo ou segunda.

A primeira vez que você comprou um teste de gravidez de farmácia. A última vez que você se olhou no espelho e desejou que a barriga fosse transparente, só para ver sua filha lá dentro, pronta para o mundo. E a primeira noite com ela nos braços.

O primeiro ovo da primeira galinha. A primeira vez frente a frente com a Morte e a última que ela foi embora sem você. O primeiro negro a ser isto, a primeira negra a fazer aquilo. O primeiro homem na lua. A primeira carta de amor do seu filho. O último dos moicanos.

O primeiro segredo guardado e o último revelado. O primeiro pensamento ao acordar. O último antes de dormir. O último voo. O último dia do resto da sua vida. O último beijo. O último sopro de ar. E a primeira vez que você viu uma estrela tão de perto.

O tempo das coisas

Wordle.net

A primeira vez que comprei uma agenda foi quando entrei na faculdade. Achei que teria coisas demais para fazer e tive medo de esquecer alguma. Também acreditava que com ela eu pareceria uma mulher ocupada. E gente ocupada não tem tempo, mas tem agenda.

Agendas, depois eu descobri, servem para nos lembrar que não damos conta do que temos, ou cismamos que temos, de fazer. Agendas são os coronéis do dia-a-dia, a todo instante nos mandando por a vida em ordem.

O que, no meu caso, é inatingível. Transfiro tarefas de hoje para amanhã, as de amanhã para depois de amanhã, e depois para a semana que vem, para o mês seguinte. De tempos em tempos preciso revisar tudo e buscar tarefas esquecidas lá no passado, como quem encontra uma roupa no fundo do armário da qual já não se lembrava mais.

E um dia me dou conta: muito do que precisava ter sido feito, não foi. Muito do que fôra agendado era simplesmente inútil. E o pouco que realizei parece ter sumido no vácuo do não-realizado. Terão os dias ficado mais curtos, ou a vida mais cheia de tarefas? Ou será o nosso cérebro que está batendo o pino? Ou nada disso e é Cronos que está nos sacaneando?

Com o tempo virei refém da agenda, escrava do Palm Top. Que resolveu agora alternar períodos de lucidez com períodos de sonolência. Aparelhos eletrônicos também ficam doentes.

Para me salvar, inventei de usar caderninhos. Que, além de fazer as vezes de agenda, têm outra função em tempos de esquecimento fácil – ou crônico. É nele que registro as ideias captadas do mundo ao meu redor, matéria-prima do que vai virar história. E elas – as ideias – surgem sem aviso prévio. Daí a importância de ter algo à mão, funcionando, para atender ao chamado da inspiração. (O que também não é garantia nenhuma que dela vá sair algo de bom.)

Perder a inspiração de vista, como quem perde alguém na multidão, pode ser como perder um trem. Que partirá sem mim caso eu não esteja na plataforma na hora certa. Sem dó, ele irá embora seguindo seu ofício de inspirar alguém mais atento ao tempo.

Vejo ao longe a fumaça da velha locomotiva, riscando de cinza um colorido céu invernal. Ouço seu apito, é a inspiração chegando. Ela pára por alguns segundos na plataforma do pensamento. Abrem-se as portas das ideias, embarco e aboleto-me ao lado da melhor janela. E fico lá, desenhando e combinando no caderno-agenda as letras que vou encontrando pelas paisagens.

Desembarco, enfim, em qualquer estação. Qualquer uma serve, qualquer uma vale. Durante a viagem formei tantas palavras que é preciso agora por ordem nelas. Vou penteando uma por uma. Para que no dia certo elas cheguem, quem sabe, ao coração de quem as lê.

O segundo a mais

Dali Inspired ClockDois mil e cinco teve um segundo a mais. Naquele 31 de dezembro, um segundo – isso mesmo, um segundinho de nada – foi adicionado à véspera do Ano Novo, no caso, 2006. Dizem que isso foi feito para ajustar a hora com a rotação da Terra. Pergunto: o que você fez com esse segundo a mais? Em um segundo não dá para fazer muita coisa, propriamente dita. Você boceja e ele puf, já era. Mas um segundo pode significar a diferença – temporal, física, absoluta – entre tudo. A diferença implacável, determinante. É tempo suficiente para consolidar uma decisão – certa ou errada, talvez só se saiba tempos depois. Dá para perder alguém de vista na multidão. Ou para achar alguém, na mesma multidão. Dá para afagar um gato que se espreguiça no tapete. Mas aí o segundo vira minuto, que vira hora, ô delícia que é gato.

Mas o segundo. Dá para sorrir num segundo. Dá para soltar um pum. Um segundo basta para você acordar e esquecer completamente o que sonhou, Ah, como era mesmo… E o centésimo. Quem foi que inventou o centésimo? E quem é que se importa com essas coisas, além dos atletas? Um centésimo na frente: recorde mundial.

Um segundo pode ser a diferença entre cruzar com sua alma gêmea, ou, por outro segundo igualzinho, não cruzar. E aí continuar a viver procurando por ela, eternamente. Morre-se em um segundo. De tiro, de infarto, de porrada. Mas não se nasce em um segundo. As contrações, de cinco em cinco minutos, olha quanto segundo. Intermináveis. Em um segundo é sorteado aquele numerozinho que falta para você virar milionário. Ou para ficar na miséria, os cassinos. Um segundo basta para alguém escapar daquele vaso caindo de cima do prédio, como nos desenhos animados, bem na sua cabeça. Um segundo para virar celebridade, o clique fatal. Agora diz: se o nome é segundo, haveria um primeiro? E quanto tempo ele duraria?

A cada segundo, três pessoas nascem no mundo todo. Em 2005, então, fechamos o ano com três a mais no planeta. Em compensação, vinte e três morreram de fome durante o mesmo segundo a mais. A ONU diz que mais de dois milhões de pessoas morrem de fome a cada dia. É só fazer as contas. Naquele segundinho bobo, vinte e três fulanos, pobres e anônimos, morreram porque não comeram. E não comeram, não porque assim o quiseram. Vai entender o mundo. O segundo. O terceiro mundo.

Em um segundo dá para fugir de um assalto. Ou cair nele. Um segundo é o que a mãe de João Hélio precisava para ter mudado seu caminho naquele dia, Hoje vou por ali. E pronto. Ele seria apenas mais um Menino do Rio, tranquilo e feliz. Um segundo e você perde para sempre o trem da vida. Num segundo você diz sim. Ou não. Ou não diz. E transforma tudo. Ou nada. Ou em nada.