Os órfãos

Boneca reborn | Foto: Tea Drinker/Flickr.com

– Ficaram apertadas, tem trinta e oito?

Estava na vigésima segunda semana e seus pés não entravam em quase mais nenhum sapato. A tia, autora do presente e mãe de cinco filhos, deveria saber disso. Mas não sabia. Ou não se lembrou. Certas recordações da gravidez parecem ir embora com a placenta.

Aproveitou e calçou as sandálias novas ali mesmo, na loja. Pediu para embrulhar suas sapatilhas, naquela manhã notou que também já não lhe serviam mais. Antes que o vendedor as levasse, despediu-se delas: Quem sabe nos veremos no outono. Estranhou ver suas sapatilhas floridas, tão envelhecidas, naquela caixa nova. Elas, que ao longo dos meses, quando os primeiros inchaços surgiram, aprenderam os novos contornos dos seus pés. Elas, cujas rosas também já haviam mudado de tom, tal qual numa roseira. Era como se duas irmãs solteiras que viveram a vida inteira juntas na mesma casa fossem, de repente, morar em um apartamento novinho em folha. Os cheiros – de gente velha e de casa nova – não combinariam. Haveria certo estranhamento no início. Mas, pelo menos, teriam uma a outra. Por via das dúvidas, saindo da loja, abriu a sacola e as tranquilizou: Em casa coloco vocês de volta no armário.

Os corredores do shopping estavam lotados. Mais trocas que vendas, depois do Natal é sempre assim. Parou para comprar uma garrafa de água. Precisava descansar um pouco. Enquanto aguardava o troco, viu a loja. Aproximou-se. Na vitrine, pequenos bonecos imitavam, à perfeição, bebês recém-nascidos. Dispostos em graciosos e enfeitados bercinhos, as miniaturas humanas a assombraram: as bochechas meio amassadas como convém a quem, há pouco, deixara o útero constrito; os olhinhos ainda se acostumando à luz; os cabelos desgrenhados devidamente ajeitados sob toucas de lã; a pele arroxeada, as veias, as rugas, a lanugem. Pequeninos corpos de plástico, ainda encolhidos sob as amplas vestes de algodão. Lembrou de seus pés nas antigas sapatilhas, renascidos agora nas novas e espaçosas sandálias.

Ela nunca havia reparado naquela loja. Devem ter nascido no Natal, como Jesus Cristo – pensou. A vitrine era como um berçário de maternidade, daqueles que exibem os neonatais para parentes orgulhosos e curiosos de plantão. Com a diferença de que os recém-nascidos da loja não tinham mãe. Nem pai. Nem parente. Nem ninguém. Eram órfãos. Gerados pelo vinil e pelo silicone – sem pomba ou espírito santo. Paridos na manjedoura de algum artista plástico, sem direito às vacas para lhes aquecer, como no presépio. A loja, na verdade, era um imenso, triste e gelado orfanato.

Apertou as mãos contra a barriga e, movida por uma dolorosa piedade, entrou na loja e pediu para ver a menininha na ponta da vitrine, embrulhada no xale lilás. Aquela, que sugava o polegar. Ajeitou-a com cuidado no colo e, sabendo que deveria estar com fome, afastou-lhe carinhosamente o dedinho da boca, abriu a blusa e ofereceu-lhe o seio.

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3 comentários sobre “Os órfãos

  1. ola!! para te conformar um pouco…meu nome é Terezinha, achei seu blog por acaso, pois gosto de ler e, pela net é mt mais facil, não que eu seja a favor d a extinção dos livros…mas por aki polpo o tempo da biblioteca p a leitura…enfim estou a comentar do seu conto; achei-o mt interessante, me fez lembrar de minha gravidez, não sei se vc é mãe, mas quando gravida, uma mulher tem seus sentimentos a flor da pele…amo ler seus escritos…bj

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  2. Aqui, uma frustração de infância: sonhava ganhar uma daquelas bonecas-bebês, nem tão caras, nem tanto realistas quanto essas, mas minha mãe nunca pôde me dar. Hoje, poderia até adotar uma, mas, como justificar, diante de tantos homens na casa?

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