Arquivo da tag: gratidão

Chico Churrasco

Senhoras e senhores, esta é a história do Chico Churrasco. Que pode ser uma história sobre gratidão. Ou só mais uma história de gato, mesmo.

Era comum termos muitos gatos em casa. Um é pouco, dois também. A gente ia logo tendo seis, sete. Tudo deve ter começado com minha mãe. Diz que Dona Angelina, gateira que só, viu um garoto na rua com uma gatinha branca, muito bonita. Ofereceu-lhe figurinhas em troca da bichana. O menino topou e Branquinha, um olho azul e outro verde, viveu feliz conosco por anos. Desde então, nunca mais fomos uma família “desgatada”. Sempre aparecia alguém doando gatinho – quem resistia? A maioria, no entanto, vinha (ainda vem) da rua. Andarilhos abandonados e resgatados em geral. Uns na iminência de atropelamento, outros retirados do motor de carro, e assim por diante.

Certa vez, apareceu em nosso telhado um gatinho preto, bastante machucado. Mancava e miava, como se pedisse ajuda. Uma das patas dianteiras tinha um grave ferimento, em carne viva. Seu pelo parecia chamuscado. Concluímos que alguém havia ateado fogo nele. Por maldade ou ignorância, ou as duas coisas juntas. Ainda mais preto. Batizamos na hora: Chico. Chico Churrasco.

O problema: já tínhamos muitos gatos “próprios”. Decidimos cuidar dele no próprio telhado. A escadinha que levava à casa de meus avós, nos fundos, também dava acesso fácil ao telhado. Era só por o pé perto do vitrô da cozinha, apoiar as mãos nas paredes, dar impulso e zás! Eu gostava de subir no telhado, era um dos passatempos de criança sem internet, celular, TV a cabo, Netflix. Aprendera o jeito certo de pisar nas telhas, para não quebrar. De vez em quando, quebrava. Do telhado, novas paisagens do bairro, que as janelas não ofereciam. (Ali, eu também me arriscava em inúteis sessões de bronzeamento, mas essa é outra história.)

Providenciamos uma caixinha forrada para o Chico, em local protegido da chuva. Nem cachorro, nem gente ruim, o incomodariam. Eu e minha irmã nos revezávamos para levar comida e água. Os tempos eram de vacas magras e não tinha como ficar levando bicho em veterinário. Remédio, só caseiro. Éramos, muitas vezes, bem-sucedidos. Em outras, nem tanto. Shazan que o diga. Nosso pequinês, que ganhara o nome em homenagem ao seriado Shazan, Xerife & Cia, teve sarna. Alguém disse que enxofre era bom. Então, dá-lhe banho de enxofre. Além de não curá-lo, o pobrezinho vivia com um esquisito tom amarelo-esverdeado. Se os cães merecem o céu, Shazan certamente ganhou uma confortável almofada bem ao lado da poltrona de Deus.

No início, Chico mal saía de sua caixinha. No entanto, erguia a cabecinha e miava de satisfação, quando aparecíamos.

Valendo-se do adiantamento das sete vidas que lhe foram concedidas, milagrosamente, ele foi se recuperando. Comida, amor e tempo foram seu tratamento. Cheguei a pensar que ele perderia a pata. Nada. Ficou manco, é verdade. E gato liga pra isso?

Curado, Chico ganhou o mundo novamente. Mas vinha sempre nos visitar. Para dar um alô, filar a boia e ganhar afagos. Entendia que não poderia ficar de vez, para dormir na nossa cama, ver TV na sala com a gente. Talvez nem quisesse. Como diz a canção: gatos já nascem pobres, porém, livres.

Após um longo intervalo sem aparecer, eis que Chico Churrasco surge no telhado. Desta vez, não estava só. Ao seu lado, uma gata e dois (ou três?) filhotes. Conclusão: ele viera nos apresentar sua família. Deve ter-lhes dito: “Vamos lá na vila, quero que vocês conheçam uns humanos bacanas.”

Depois dessa visita, não lembro de tê-los visto mais.

E assim termina a história do Chico Churrasco, um gato grato. Porque a maldade não tem fim. Ainda bem que o amor também não.

Anúncios