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Ave, Neutrox

As vacas, em casa, eram magras. E os cabelos, fartos. Não seria o xampu Colorama Ovo que iria deixá-los desembaraçados – missão que cabia ao creme rinse (o avô do condicionador) e que não podíamos comprar. Sofríamos, minha irmã e eu, adeptas das melenas até a cintura. Como abrir mão da cabeleira estava fora de cogitação, o jeito era encarar longas batalhas com o pente.

Minha avó me penteava para ir à escola. Pequenina, eu subia no bidê do banheiro para facilitar seu trabalho. Ela, sem muita delicadeza, puxava meus cabelos com força. Eu reclamava, ela retrucava. Quem mandava ter assim, comprido? Cortasse, oras. Do alto de meus oito anos, eu nada podia fazer, exceto chorar as pitangas para minha mãe, à noite, quando ela chegava do serviço.

Eis que, no fim dos anos 70, a tecnologia nos brinda com algo revolucionário, mágico e, finalmente, acessível: o Neutrox. Botando para escanteio os velhos cremes rinses e inaugurando a era dos condicionadores. Creme amarelo com tampa vermelha. Bastava espalhá-lo nos cabelos depois do xampu e plim!, adeus, nós!

Passei a adorá-lo, como a uma entidade divino-cosmética. Deus Neutrox. Deixava a juba macia e brilhante. Era tão cheiroso que, um dia, comi. E aprendi: nem tudo que o nariz gosta, a língua aprova.

As coisas melhoraram um pouquinho, e em casa nunca mais faltou Neutrox. Outras marcas também chegaram ao nosso toucador. Não satisfeita com a primeira experiência, tratei de provar também o creme Yamasterol “de frutas”, aquele que formava um degradê colorido no frasco. Mas Neutrox era imbatível.

Com os cabelos desembaraçados e macios, faltava o acabamento. Sem secador de cabelos, eu e minha irmã resolvemos improvisar: conectamos a mangueira do aspirador de pó no bocal de saída do ar, em vez do de entrada, e voilá! Cabelos secos em um instante. Meio fedidos, no entanto. A gambiarra, obviamente, não prosseguiu.

Então, em um Natal (acho), ganhamos do Papai Noel um Braun Styler. A última palavra em secador de cabelos. Vinha com pente e escova modeladores, que se encaixavam no bocal. Super prático. Vermelho (ou cor de laranja?), potente, uma belezura. Agora, equipadas com Neutrox e secador, não tinha pra ninguém, meu bem.

Vi Neutrox outro dia, no supermercado. Ícone fundamental da minha biografia capilar. Não tive dúvida; abri um. Resisti à degustação, mas inspirei o quanto meus pulmões deram conta. Nada do cheirinho que um dia me encantou. Por que diabos mudam essas coisas? A fragrância do Neutrox deveria ser tombada pelo patrimônio histórico olfativo.

Três garotas se aproximaram, escolhendo seus produtos. Uma delas apanhou justamente o Neutrox e pôs-se a ler, em voz alta, o rótulo para as outras. Olhei-as e sorri. Duas – as ouvintes – sorriram de volta.

Elas não sabem de quê era feito meu sorriso. Não imaginam que houve um tempo em que aquele creme amarelo já fora o supra-sumo dos salões de beleza, objeto de desejo de dez entre dez cabeludas. Não fazem ideia de que aquele condicionador tem, provavelmente, a idade de suas mães. Nem suspeitam do significado que ele tem para mim, nas minhas longas, macias e penteadas histórias.

Questão de pele

Image from page 166 of “The skin, its care and treatment” (1904)

Se acaso a senhora estiver precisando de um dermatologista, de modo a sanar aquela coceira infernal, dar um jeito na queda das melenas ou exterminar uma verruga inconveniente, convém preparar-se para uma longa e ingrata jornada pelo site ou livrinho do convênio. Doses extras de paciência e compreensão serão requeridas. Nem todos – na feliz hipótese de se encontrar algum com horário livre nos próximos dois meses – irão querer saber de você.

Caspa, micose, espinha? Esqueça. É cada vez mais raro encontrar um médico que faça o arroz com feijão dermatológico.

Mês passado, recorri ao uni-duni-tê e à mentalização indiana e liguei para uma. Mal completei a frase “Gostaria de marcar…” e a recepcionista tratou de investigar qual era o meu caso. Expliquei. Ela: “A doutora não atende mais essas coisas”.

“Essas coisas”, incluindo o herpes que resolve me visitar de tempos em tempos, foram rebaixadas às frugalidades orgânicas, às patologias desprezadas, aos casos desinteressantes. É a tal medicina estética – sequer reconhecida, juridicamente, como especialidade médica – , transformando consultórios médicos em empresas de beleza. Um filão.

Sete ligações e… aleluia! Encontrei uma dermatologista que também fazia a gentileza de atender “essas coisas”. Agendei a consulta e três semanas depois (um recorde) eu, que só queria um comprimidinho bacana para me livrar da pereba semestral no nariz, deixei o consultório levando na bolsa uma folha A4, frente e verso, com uma lista de procedimentos estéticos que eu nem sabia que precisava: tratamentos por radiofrequência, peeling, laser CO2 fracionado, criolipólise e hidratantes de três dígitos (sempre importados, porque os nacionais “não prestam”), num pacote rejuvenescedor que me levaria de volta à década de 80. E uma receita de Zovirax, desanimadamente redigida.

Deprimida com a descoberta de que há mais manchas em meu rosto do que o espelho, espelho meu, mostra diariamente, tive receio de uma súbita crise herpética ali mesmo, no estacionamento, enquanto aguardava o manobrista de terno (terno!) preto e sapatos reluzentes trazer meu carro.

Eu bem que desconfiei quando me ofereceram um Nespresso assim que cheguei. Nada nesta vida é de graça. Nem injeção de Botox na testa.

Corrija-me

arte: Robin Ator/r8r
arte: Robin Ator/r8r

A vida começa aos quarenta. Ou, no caso da mulher, quando ela conhece o corretivo.

O corretivo é o photoshop natural, não-comedogênico, com textura oil-free e, salve!, FPS 30. É a mágica da maquiagem, sem coelho, nem cartola, mas com ilusionismo garantido. A retificação dermatológica de mentirinha, com validade até o próximo demaquilante. Quem se importa?

Corretivo é item de primeira necessidade, como pasta de dente. Pode faltar tomate na geladeira, bisnaguinha para o lanche das crianças, ração para os gatos, mas não pode faltar corretivo no meu toucador. (Lembrando que quem fala ‘toucador’ tem mais, muito mais de quarenta.) O corretivo não me salva da ação do tempo, mas de mim mesma.

Dei-me conta da minha fascinação pelo creminho quando a maquiadora disse “Vou lhe aplicar um corretivo” e, diferente de uma criança amedrontada que aprontou alguma, e eu fiquei feliz da vida.

O produto é mestre: corrige e ainda dá nota. 7 no disfarce do melasma da gravidez,  surgido dez anos atrás e que ainda está estampado na minha pele, feito a cicatriz da cesárea; 8 para as olheiras, 8,5 para as sardas mais rebeldes e 9 para a espinha. Nada mau para quem tirou zero em cuidados com o sol na juventude.

Melhor que corretivo, só os BB e CC cream, aqueles cremes multifuncionais cujos nomes têm esse jeitão meio tatibitati. Um bom exemplar faz pela sua pele, em cinco minutos, o que você não fez por ela em trinta anos. Resolve aquela aparência de peixe deprimido e repara até mau humor matutino.

Tanto amor pelo corretivo me põe na contramão da nova moda: mulheres inventaram de postar nas redes sociais fotos sem maquiagem. A intenção é nobre: combater a ditadura da beleza perfeita e o excesso dos filtros e retoques nas fotografias.

Mas logo agora, que aprendi a esfumar os olhos?

Bem agora, que dá para se embonecar à vontade com batons, blushes e sombras que não são testados na bicharada? Até pouco tempo atrás, arrancar essa informação dos fabricantes era mais difícil que passar delineador.

Justo agora, que estou de cabelos brancos e a maquiagem é a amiga bacana que não me deixa com ares de fantasminha camarada ou de quem tem hemoglobinas abaixo de 6?

Não. No meu rímel ninguém tasca. Muito menos no meu corretivo.

Porque o movimento #semmaquiagem é mimimi em um tom acima da pele: a moça tira a foto de cara lavada, bota na internet, coleta as curtidas e os comentários de “Continua linda”, “Uau”, “Maravilhosa” e depois vai, leve ou integralmente maquiada, cuidar da vida. É cara lavada da boca e olhos pra fora, para inglês ver. Não vale. Não orna.

Corrija-me se eu estiver enganada.

A mão que passa o esmalte

Foto: Eva the Weaver

E eu, que julgava ser uma mulher autossuficiente?

Que jurava por Deus ser capaz de me cuidar sem precisar de ninguém?

Que acreditava ter despontado no século XXI cônscia da máxima cabalista que garante estar em mim o poder para tudo?

Enganei-me bonito: não consigo pintar minhas próprias unhas. Logo, pouco ou nada disso é verdade. Caí do cavalo.

Havia decidido não mais gastar dezenove (dezenove!) reais por semana na manicure para tê-las feitas. É que fiz as contas do investimento, de hoje até o presumido fim dos meus dias, e tomei um susto. Considerando que também tenho pés com o mesmo direito (sem trocadilho) e fazê-los custa mais caro e nunca entendi o porquê, posto ser idêntica a quantidade de dedos.

Tudo pronto: ajeito, com rigor profissional, a parafernália sobre a mesa da sala de jantar. Alicate, lixa, algodão, palito de laranjeira, arsenal multicolorido de esmaltes, acetona, toalhinha, água morna. Trinta e cinco exaustivos minutos de trabalho: acho que tirei cutícula demais, pega mal ir à reunião com Band-Aid do Ben 10? Não domino o pincel, que aparenta ter vida própria. Extrapolo os limites geográficos de noventa por cento das unhas, tento corrigir. Será que acetona estraga a madeira da mesa? O palitinho escapa, derrubo o vidro de esmalte, apanho-o com a unha molhada, pronto, lá se foi mais uma. Esse algodão não presta, gruda em tudo. Alcanço o iPad no canto da mesa, vou no Google, “como remover esmalte de jeans”. Afinal, o que são dezenove reais? Apanho o telefone, Fulana tem horário para hoje?

Eis aqui, à revelia, minha declaração de dependência da manicure.

A manchete futura, no jornal: Dona Silmara Franco, 128 anos, vai ao salão fazer as unhas antes de receber a homenagem do Guiness Book como mulher mais velha do mundo. Não sei como serão os jornais em 2095, nem se ainda existirá o Guiness Book, muito menos se haverá manicures. Só sei que continuarei sendo uma mulher incapaz de esmaltar, decentemente, as próprias unhas.

Meu reino para saber se Angela Merkel consegue fazer, minimamente bem, sua manicure. Ainda que não precise; o ponto aqui é talento.

Com algum ensinamento e algum chão, sou capaz de produzir, processar e preparar meu próprio alimento. Costuro e tricoto minhas vestes, passo roupa com a mão esquerda, desenho um gato com os olhos vendados, tudo com relativa facilidade. Já pintar as unhas… É uma incapacidade definitiva, impassível de evolução. Falta em mim o gene responsável pela valiosa habilidade. Teria meu caso indicação médica para uma ressonância magnética, regressão, terapia de unhas passadas?

Que ninguém venha com coleção de frases do tipo “Querer é poder”, “Supere seus limites”, “Quem acredita sempre alcança”. Nenhuma delas se aplica à automanicure.

Que ninguém questione o hábito, também. Uma mulher de unhas (bem) feitas pode dominar o mundo. Assim que o esmalte secar, claro.

A cada tentativa de virar o jogo – na verdade, apenas três ou quatro, ao longo de quase três décadas de esmaltação – a história se repete. Diante do kit manicure sinto-me como uma criança de três anos apresentada ao mundo maravilhoso da tinta guache. Uma artista plástica pós-abstracionismo com referências no movimento punk e sob efeito de alucinógenos. Uma garotinha brincando de cabra-cega no terreno acidentado do parquinho da escola. A ideia de fazer uma poupança com os valores deixados semanalmente nos cofres dos salões vai, invariavelmente, para as cucuias.

Bem que queria, mas não estou nas mãos de Deus, como diz aquele adesivo de carro. Estou, irremediável e eternamente, na mão de quem passa o esmalte.

A consultora

makeup

Fui atacada por uma consultora de beleza e quero fazer um B.O.

Eu, que só queria olhar os batons expostos na mesinha, enquanto aguardava minha vez com a manicure, fui abordada por uma, que fazia demonstração no salão. Eu, que só fui educada, como mamãe ensinou.

Quando dei por mim, estava com o cartãozinho dela nas mãos e sendo coagida a dizer qual dia era melhor para ela ir à minha casa fazer uma apresentação sem compromisso. A esta altura, meu punho já estava tomado de amostras de base líquida com FPS 30, em diversas tonalidades, até que ela encontrou o tom “peeerfeito” para mim.

Aliás, não foi uma abordagem; foi um estupro. Um estupro comedogênico, obstruidor do meu direito inalienável de flanar pelo salão, ler revistinhas, tomar café. Um crime que não entra nas estatísticas da violência, mas também deveria ser considerado hediondo e inafiançável.

Contra minha vontade, ela mostrou defeitos em minha pele que eu nem sabia que tinha. “Está vendo esta manchinha aqui?”. Olhei-me no espelho. “Some tudo com o nosso corretivo. Você não vai querer saber de outra coisa!”. Espantou-se com minha rotina de maquiagem para os dias úteis, composta de apenas dois itens – lápis, batom – e por eu não saber o que é primer facial. Quase convenceu-me de que eu não poderia mais viver sem uma máscara para cílios ultra-alongadora à prova d’água.

Consultoras de beleza são um perigo. A polícia deveria distribuir folhetos com dicas para se proteger delas.

O que elas chamam de consultoria, eu chamo de inquisição com foco em vendas diretas: querem saber o seu tipo de pele, examinam suas linhas de expressão, questionam o que você come. Mostram o catálogo inteirinho sem que você peça, pedem seu telefone celular, residencial e email para um cadastro, sondam em que horário você está em casa.

Para meu azar, a manicure estava atrasada.

Orei por um celular tocando (meu ou dela); torci por um princípio de incêndio no local, uma batida de carros em frente ao salão. Ninguém, nem nada, veio em meu auxílio. Acabei, enfim, conhecendo também o quarteto de sombras minerais de fórmula exclusiva por apenas quarenta e nove reais e noventa centavos.

Foi quando tirei o casaco – um calor lá dentro – e ela informou que tem uma amiga que revende lingeries. “Qual número você usa?”.

É crime organizado.

Crônica de minuto # 19

Quando meus cabelos iam até a cintura, as pessoas diziam “Que cabelo lindo”. Depois que passei a usá-los curtos, bem curtos, as pessoas passaram a dizer “Que cabelo bacana”. Lindo é diferente de bacana. É como se cabelos curtos não estivessem autorizados à beleza. Só à bacanice. É o paradigma do cabelão, dando nó no mito do feminino. (Pense nisso quando for lavar os seus.)

Carta para meus pés

 

Neuro74/Flickr.com

Caros

Vamos ser sinceros: lindinhos vocês não são.

Pés são como irmãos gêmeos. Brotaram juntos, nasceram no mesmo dia e hora. Carregam o estigma da alma idêntica, como aqueles bebês espelhados nos carrinhos duplos: mesmas meias, mesmos sapatos. Como é que vocês poderiam ter desenvolvido suas próprias identidades desse jeito? Logo vocês, que dão nome a tanta coisa. Pé de vento. Pé de moleque. Pé de chinelo. Pé direito. Pé de galinha. Pé de pato. Pé de meia. Toda fruta tem seu pé. Toda serra também. Tem o pé na estrada. E tem o pé na cova.

Por muito tempo, depois de adulta, já, eu tive vergonha de vocês. Hoje me envergonho da vergonha. Aprendi a gostar de vocês. Isso não acontece entre as pessoas? Pois então. Às vezes, cismamos com fulano, o ignoramos durante anos, décadas, uma vida inteira. Para, num belo dia, constatar que não era bem assim.

Vocês são iguais aos pés de minha mãe. Arredondados, dedos curtos. Exceto pelo fato de que os dedos dos pés de Dona Angelina, vistos de baixo, pareciam balas de coco. Os seus dedos não se parecem com bala nenhuma.

Seus dedões sempre foram como plantas buscando um sol imaginário. Um vislumbra eternamente a minha esquerda. O outro, minha direita. Dedões paralelos, que jamais se encontrarão no infinito.

A primeira vez que tirei os sapatos na frente de um namorado foi horrível. Na sala, descalcei-me na velocidade da luz, e enfiei vocês dois embaixo da maior almofada que havia no sofá. E lá vocês ficaram, exilados.

Um dia, uma colega de trabalho, que tinha os pés mais feios do mundo, apareceu de sandálias. Aquilo não eram pés, eram mãos que saíam dos tornozelos. Os dedos, longuíssimos e finos, pareciam tentáculos. Fui correndo para o banheiro, tirei as botas, arranquei as meias. Se pés tivessem olhos, os seus ficariam ofuscados com a claridade inédita. Encarei vocês. Tão amassadinhos. Ali decidi: se a amiga podia, eu também.

Comecei a procurar algo que representasse a grande virada em minha vida. Mas que não fosse tão radical. Afinal, meus queridos, eram anos de reclusão. Foi difícil encontrar um modelo que atendesse às minhas bizarras exigências. O namorado (outro) não compreendia como eu poderia pedir nas lojas uma sandália aberta que fosse o mais fechada possível. Resultado: acabava saindo com uma bota na sacola. Mais uma. Para desespero de vocês.

Quem diria. Hoje eu gosto, e muito, de vocês. São bonitos, reconheço. Branquinhos. Capricho no filtro solar, para eternizá-los assim. Eu não deveria tê-los submetido a tanto sofrimento na distante adolescência. Coca-cola, óleos… tudo pelo bronzeado. Que jamais aconteceu: a genética deixou claro quem manda no pedaço.

É hora de pedir perdão aos dois. Pela monotonia das botinhas, espécie de cativeiro para vocês. Por vocês não saberem, por anos a fio, o que era um podólogo. Pela falta de carinho e atenção. Pelos bicos finos, anos a fio. E, mesmo depois da nossa reconciliação, pelos saltos imensos em pleno nono mês de gravidez.

Hoje, metidos nas rasteirinhas abertíssimas que surpreenderiam os ex-namorados, vocês são muito mais felizes. Metade dos meus cremes são para vocês. Vocês passeiam descalços, até mais do que deveriam. Aos trinta e nove anos, pintei suas unhas de vermelho – inédito e histórico – e vocês vibraram. Vocês padecem, ainda, da maldição dos gêmeos, mas o que se há de fazer.

Nada como nossos olhos (aliás, para esses eu também preciso enviar uma cartinha) para nos fazer enxergar a beleza de outra forma, dar novo sentido às coisas.

Recentemente, fiz em um de vocês uma tatuagem. Um sol, para que meu caminho seja sempre iluminado. Mas o que deveria representar o senhor dos astros ficou parecido com uma aranha. Os raios lembram as perninhas. O desenho é bonito, mas se visto, no máximo, a trinta centímetros. Como as pessoas geralmente são mais altas que isso, preciso, com frequência, dizer do que se trata. E explicar tatuagem é o fim da picada.

É bom ter feito as pazes com vocês, ainda que tardiamente. E notar o quão nobres vocês são, perdoando a rejeição e do passado, compreendendo a que ponto chegam as esquisitices femininas.

Nem os pés da Cinderela, com seus sapatinhos de cristal, seriam tão charmosos.

Um beijo em cada um.

Nota: o sol tatuado no pé esquerdo passou por uma reforma, dando à luz uma linda flor. E o direito também ganhou um desenho especial.