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Crônica de minuto #52

Foto: Russ Morris
Foto: Russ Morris

I

Um beijo no rosto, um só, a registrar olás e adeuses. Dado (e recebido), quase sempre, na bochecha direita. Sem maiores delongas, smack! Um par de estalos, quase simultâneo, quase combinado.

II

Dois beijos no rosto, dois, a registrar olás e adeuses. Na dupla conferência de bochechas, quatro estalos gerados. Isso quando há estalo. É o começo do demais.

III

Três, oh!, três beijos no rosto, a registrar olás e adeuses. Beija dum lado, beija do outro, volta ao primeiro lado já beijado e o beija de novo, reforçando a pegada. É tempo, movimento e beijo em excesso, investidos numa breve saudação ou despedida. São seis estalos.

Quantos trocariam três no rosto por um de língua?

Trinta trilhões de beijos beijados por dia no mundo, faz de conta que a conta é essa. Quem começa?

Três, dois, um, já.

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Do mesmo jeito

Arte: Gustavo Peres

Eu como biscoito recheado do mesmo jeito desde que fui apresentada à guloseima. Desfaço o ‘sanduíche’ e reservo; raspo o recheio com os dentes e, por último, devoro o biscoito. Como dizem as mães aos seus filhos, não consigo diferenciar meu amor por um ou por outro.

Eu coloco cadarços do mesmo jeito desde quando aprendi a amarrar meus sapatos. Confundo-me se preciso fazê-lo de outra maneira, às vezes o filho pequeno pede uma amarração diferente para os tênis. Meus neurônios estão acostumados com o velho trajeto do cordão, como alguém que faz sempre o mesmo caminho para ir a algum lugar.

Não é metodismo. O metódico raciocina sobre seu método, cria teorias, apresenta justificativas. Não é TOC, não chega a ser mania e não tem a ver com obviedade, nem com lugar-comum. Eu não faço nada disso de propósito. Não há inteligência ou proposição em nenhum desses atos, catalogados aqui pela primeira vez. Sou aleatória. Aleatoriamente repetitiva, sem querer. São hábitos inscritos em meu DNA que, talvez, signifique simplesmente aquilo que Deus-Não-Altera.

Eu deixo restinho quando tomo água, suco, vinho ou qualquer outra bebida. Minha sede quase sempre acaba a meio centímetro do final do copo. Convivo bem com as piadinhas sobre deixar um pouco para o santo. Nunca soube qual é o santo dos líquidos.

Eu tomo banho do mesmo jeito desde que passei a ser responsável pela própria higiene. A mesma sequência de lavação: cabelos primeiro, sempre. Braços vêm antes de pernas. Pés ficam pro final. A toalha também faz o mesmo percurso. Estranho quando vejo alguém começar pelos pés ou terminar pela cabeça.

A repetição é fundamental para a evolução da humanidade. Sem ela, as tradições não existiriam. Repetir hábitos, mesmo que não se dê conta, é cultivar a própria tradição, zelar pela autoevolução.

Eu uso batom do mesmo jeito desde o dia em que passei um na boca pela primeira vez. Não importa o matiz. Primeiro em cima, da direita para a esquerda, voltando em seguida ao ponto de partida. Depois embaixo. Fui conferir os exemplares do meu armário: os meus gastam na diagonal. Sem exceção.

Eu visto as roupas do mesmo jeito desde sempre, ainda que os modelos, formas, tamanhos, cores e tecidos tenham mudado tanto ao longo dos gostos e das modas. Há um padrão (natural, não-pensado) para colocação de blusas, outro para calças, para vestidos. Acho graça em quem tira camiseta primeiro pela cabeça e depois pelos braços. Gosto de ver nos filmes e nos vestiários quem faz igual, quem faz diferente. É bom poder transformar tudo em playground.

Fazer as coisas do mesmo jeito é meu legado mais genuíno, minha herança mais autêntica. É meu modo de fazer, minha receita de mim. Só os ingredientes é que mudam.

Pelo caminho, parte 2

Ilustração: Silvia Falqueto/Flickr.com

Oito e meia. A ginástica – compulsória, automática, ausente de prazer – é, enfim, encerrada. O alongamento diz ‘Olá’ aos músculos recém-percebidos, a toalha seca o rosto. E o rumo agora é certo, previsível e familiar: caminho de casa.

Certo, quando a única coisa esperada é retornar ao lar.

Previsível, como aquilo que se sabe, sempre.

Familiar, porque eu sou aguardada. Não para um compromisso ou evento; apenas para quitar a preocupação. Numa família, todos se esperam em casa. Numa família, só se repousa, de fato, quando todos chegam em casa. Verdade cunhada pelo “Trem das onze” do Adoniran.

Pois não fiz nada disso. Não fui para casa. Dei-me o sabor de um brevíssimo jantar no meio do caminho. Sem companhia, sem comunicado, aviso prévio ou satisfação. Para que a única satisfação fosse íntima: saborear a inédita refeição. E avisar em casa não fazia parte do plano. Era a minha pequena contravenção. Meu pecado, nada original. Cometido com a anuência de outro, a gula.

Não fiz, no entanto, ninguém em casa perder o sono. No pequeno desvio de percurso não deixei mortos, nem feridos. Todos se salvaram. Logo, muito logo, eu estaria de volta. No trem das nove. Trinta minutos fora do ar garantiram o direito à solidão, tão rara em meus tempos de mãe. Mulher tem direito à solidão. Mãe, nem sempre. Certos mandamentos familiares têm a força do concreto armado. Convém, de vez em quando, implodi-los. Carinhosamente.