Chega de saudade

Ilustração: Sil Falqueto/Flickr.com

A amiga assinou a mensagem assim: Saudades, Fulana. Considerando a veracidade da expressão, o que, exatamente, correrá nas veias dessa saudade? Acreditando que não seja coisa para ser declarada em vão, que inspirações levam alguém a anexar a palavra em suas missivas, além do evidente sentimento? Nessa hora, qual som, imagem ou referência brota no grande cinema do pensamento, durante os segundos que se leva para escrevê-la?

Pode ser a voz do outro, com aquele jeito diferente de pronunciar Roraima. Ou a lembrança da (saudosa) maloca, compartilhada nos tempos de faculdade. Uma tarde de primavera, verão, outono ou inverno – qualquer estação, de ano ou metrô, onde bons encontros já tiveram lugar. A carona das quintas. O cigarro secreto dos tempos de colégio, com direito a risada boba e bedéu idem. O colo emprestado e jamais devolvido. Os presentes de aniversário embrulhados com laços de ternura. As horas-extras regadas a pizza, bocejos e piadas no escritório, madrugada adentro. Uma coleção, enfim, de instantes registrados e classificados como bacanas no relatório periódico da vida. Seria bom saber como funciona e do que se alimenta a saudade alheia. Mas saudade, às vezes, não mostra o RG.

Ontem, depois da mensagem, me peguei no quarto, definindo saudade enquanto pendurava de volta as cortinas recém-lavadas. Cortina é coisa que pouca gente se lembra de limpar. E eu lembrei das da sala, na casa onde nasci. Tinha mania de trepar nelas e balançar, para desespero da minha mãe. Logo que foram instaladas, critiquei: Estão curtas. Sabida era ela, que já previa as brincadeiras da caçula ou conhecia as características do tecido. Logo, elas estavam no comprimento ideal. Foi a breve saudade em cascata na tarde invernal, me fazendo despencar dos quarenta e quatro para os sete anos: casa, mãe, infância. Se eu fosse escrever para minha mãe, botaria saudade no começo, no meio e no fim, para não deixar dúvida.

Quem ama não mata, dizem. Não, no caso da saudade. Quem ama pode, e deve, dar cabo dela. Não é crime. Deixar de fazê-lo é condenar-se a um tipo especial de xilindró: o do coração apertado. Amor e saudade, aliás, costumam viver às turras. Se desentendem e vão deixando lembranças espalhadas pelo chão. Eu que não vou recolhê-las. No fundo, eles sabem: um não vive sem a outra.

Quanto à amiga, é um convite para o seu aniversário. Já respondi, claro que vou. Imitei a despedida dela ao final, e ainda incluí ‘muitas’. E eu, só eu, sei do que elas são feitas.

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Nota: para quem quiser deixar um comentário, é só rolar a página até láááá embaixo. Não sei porque o WordPress é assim, chatinho.

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8 comentários sobre “Chega de saudade

  1. Cada um com sua saudade… sejam racionais ou emotivas, leves ou pesadas…
    Minhas saudades, quando ditas ou ainda mais sentidas, funcionam como âncoras: me levam toda pra um tempo e geralmente, dói (feliz o triste).

    Seja como for, admitidas ou não, transformo-as em quadros que vou pendurando nas salas da minha alma.
    Algumas saudades, ainda mais de amor, as vezes devem ficar orgulhosas. Demonstrar, falar, repetir… e isso não adiantar… deve ser lá outra coisa… Logo, saudade também podem se transformar em orgulho omitido, e, respeito.

    Enfim…
    Posso deixar minha saudade de amiga que queria deitar no seu ombro e simplesmente esquecer?
    Beijos sempre admirados pela sua escrita…
    Si

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  2. Ontem eu me dei o direito de uma deliciosa e meio dolorida viagem no tempo e fui buscar lááá atrás, nos meus pouquíssimos anos, o colo, o abraço, o olhar e a proteção que ficaram em algum lugar do passado. Voltei forte, com um sorriso nos lábios, mas ainda querendo colo. Se eu escrevesse uma carta agora, eu a boicotaria e me colocaria dentro do envelope em seu lugar… pra falar – pessoalmente – de todas as cores da minha saudade.

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  3. Pingback: Saudade |
  4. Saudade estava eu de você e suas crônicas! Voltastes! Oba!! O coração dá pulinhos de um lado ao outro, dança uma dança que só ele sabe quando a leveza se instala. Beijo grande!

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