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A casa de Gilda

arte: Francisco Javier Gamboa
arte: Francisco Javier Gamboa

Doutora Gilda é a pediatra das crianças. Atende em uma casa térrea, cravada no centro da cidade. Nela, outrora o lar de alguma família, há uma varanda em forma de arco e um jardim bem cuidado, cheio de flores. No portão baixo, um trinco. Dos simples, sem cadeado, sem interfone, sem trava eletrônica. Entra quem quiser. É quase a casa de uma tia, não fossem as cadeiras pretas pareadas logo na entrada e a ausência do café com bolo de laranja. Somos pacientes ou visitas?

Seu consultório é um oásis na terra das salas de médicos dos edifícios comerciais, sem janelas, sem vento, sem luz que não a das lâmpadas frias. Onde ninguém fica sabendo se faz sol ou se chove lá fora, exceto quando o paciente chega ensopado ou suando em bicas.

Na longa espera – doutora Gilda não foge à etiqueta médica e está sempre atrasada – é comum ver seus pacientes-mirins (os meus incluídos) brincando de pular as pedras do jardim ou fazendo do portão o pique do esconde-esconde. Se os pais não estivessem por perto, aboletados nas muretas da varanda, quem passa pela rua poderia jurar que ali funciona um animado jardim da infância.

Doutora Gilda é do Rio. Ela é carioca, ela é carioca. A medicina praticada em sua clínica não é inédita, nem ousada, nem encantadora. É tradicional, arroz com feijão bem feitinhos. Encantadora é a casa onde atende. Um dos antigos quartos de dormir é a sua sala. A janela, do tipo veneziana, dá para o jardim onde as crianças fazem bagunça. Igual às casas das tias. Como ela é mais velha que eu, quase dá vontade de chamá-la de tia Gilda. Mas não tenho tia médica. As minhas, no máximo, benzem. Além do mais, falta o café com bolo de laranja.

Próxima visita, só daqui seis meses.

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A santa, a paixão e a vida como ela é

Arte: Simon Roberts
Arte: Simon Roberts

Ela abre os olhos e vê, pela fresta da cortina, que o dia não amanheceu. Levanta-se, ouve a chuva, olha o relógio e desaba na cama. Cogita faltar ao trabalho e, sonada, traça a estratégia: a) seu avô sofreu um derrame; b) um dos gêmeos passou a madrugada fazendo inalação; c) ela bateu o carro e esperou duas horas pelo guincho.

A semana é santa. Ela não.

Desmotivada pela fagulha da retidão que habita seu DNA, e também por amor, ela deixa o avô em paz. Acorda os gêmeos que, graças a Deus, respiram perfeitamente. Todos tomam café da manhã e seguem  no carro que, ufa!, está intacto. Ela os deixa na escola e acelera. O único coelho da história é o da Alice: sempre atrasado. Prepara-se para o sacrifício, a reunião é às nove.

Na hora do almoço, no shopping, ela lembra que precisa de sapatos novos e esquece que não tem dinheiro. Mas hoje é terça-feira da paixão pelas botas com franjas.

À tarde, ela repassa cronogramas, ajusta prazos. Diz não ao cliente, sabendo que, por isso, será crucificada antes de sexta-feira.

A semana é santa. Ela não.

No portão da escola, ela é a última mãe na saída. Exausta, beija as crianças. Está levemente arrependida por ter poupado o avô do derrame. Chegando em casa, ela põe os gêmeos no banho. Enquanto prepara o jantar, ela detecta o último Danette na geladeira. Certa de que isso dará briga na hora da sobremesa, ela resolve o futuro conflito ali mesmo. Os gêmeos já estão descendo as escadas, mas deu tempo de lamber a tampinha também.

Depois do jantar, ela sobe para o quarto, leva o iPad para o banheiro e faz o xixi mais demorado da sua vida. Finge que não ouve os gêmeos chamando por ela. Apura o olfato e estabelece consigo uma condição: se sentir cheiro de gás, ela desce.

A semana é santa. Ela não.

Ainda faltam quarta e quinta. Para o feriado, ela já anunciou: vai dormir feito pedra. Ressurreição só no domingo, depois do meio-dia.

Ser mãe é padecer na praça de alimentação

Foto: R. Maruo
Foto: R. Maruo

Em praça de alimentação pai, mãe, filhos e espírito santo não comungam da mesma hóstia. Um quer isto, o outro, aquilo. Senta para esperar, levanta para buscar o pedido, ao toque de mil buzinas descompassadas. Trezentos e sete. Oitenta e um. Cento e quinze. É a democracia gastronômica na base da senha.

Não raro, o lugar vira praça da alimentação interrompida. Geralmente, por causa de outra senha: a necessidade urgente da cria pequena de fazer número um ou número dois, bem no meio da comida. Semana passada, inaugurei mais um jeito de ficar com fome.

Era sábado e eu estava só com as crianças. Fomos almoçar no shopping, templo das conveniências gerais. Eles escolheram o self-service. Eu fui de risoto. Apaixonei-me pelo do cartaz e quis um igualzinho: arroz arbóreo, suculentos camarões e tenros anéis de lula, tudo puxado no vinho branco. Meu apetite não era meramente ilustrativo.

Os pratos deles ficaram prontos em segundos. O meu demorou mais. Enquanto eu continuava famélica, eles se viram saciados. Natural que quisessem partir para a sobremesa. Como sou mãe de dois, razoavelmente crescidos e iniciados no mundo das finanças, nomeei o mais velho fiel depositário de vinte contos a fim de bancar sorvete para ambos. Um pilar e dez metros, não mais, separavam nossa mesa do balcão, atrás de mim. Lá foram. Eu dava uma olhadela, de vez em quando.

Dei a primeira garfada no meu, só meu, risoto de arroz arbóreo, suculentos camarões e tenros anéis de lula, tudo puxado no vinho branco. A felicidade vem do mar, meu bem.

Segunda e terceira garfadas. A caçula veio chorando. Contou, aos prantos e em prejudicada narrativa, que o mais velho, dotado do espírito sacana comum aos primogênitos, havia feito não-sei-o-quê, que a fizera cair ao chão e todos à volta haviam visto sua calcinha.

Pousei o garfo. “Querida, acontece. Fica assim, não”. Fiz-lhe um carinho nos longos cabelos castanhos, dei beijinho para sarar (ainda que nada houvesse a ser curado, exceto seu orgulho). “Agora volte lá e compre o sorvete com seu irmão”. Ela foi.

Quarta e quinta garfadas no meu risoto de arroz arbóreo, suculentos camarões e tenros anéis de lula, tudo puxado no vinho branco. Segui apreciando cada fruto daquele mar que me concedera tal prazer. Quase pude sentir o aroma da uva que deu origem ao vinho que tudo aquilo envolveu. Minhas narinas – e meu estômago – faziam festa em alto-mar.

Ensaiei a sexta garfada. Problema à vista, Capitã. A caçula voltou. Contou, no mesmo padrão choroso-narrativo, que enquanto ela se queixava comigo da primeira vez, o irmão concluíra que ela não voltaria e resolvera comprar sorvete só para ele.

Mais fácil cuidar de um polvo que de dois bípedes. Ser mãe é padecer praticamente em qualquer lugar.

Recorri à paciência tatuada em meu braço esquerdo. Nem ela, nem o pai, nem o espírito santo para me salvar. Quis fazer como Cronos, que tinha o hábito de engolir seus filhos, assim que nasciam. O deus do tempo fazia isso por medo de que sua cria lhe superasse em poder. Meu motivo seria mais humilde: almoçar em paz.

Pousei o garfo pela segunda vez. “Isso não está certo, meu amor. Eu vou lá com você”. Levantei-me, percorri bufando os dez metros até o balcão, ralhei com o mais velho, certifiquei-me que o sorvete da caçula estava encaminhado e, quarenta segundos depois, eu voltava à mesa.

Tarde demais. A moça da limpeza passou e retirou meu prato, levando dois terços intactos do meu risoto feito com arroz arbóreo, suculentos camarões e tenros anéis de lula, tudo puxado no vinho branco.

Fim.

A mentira da princesa

Foto: Mr. Cacahuate

A menina nasce e logo surge uma legião, encabeçada por papai e mamãe, a chamá-la de princesa. É princesa pra lá, princesa pra cá. Das festas de aniversários à decoração do quarto, ela encarna a coroa imaginária recebida na maternidade, reforçada agora pelo maravilhoso mundo de Disney.

Ser princesa é elogio. Mas será que é mesmo um bom negócio? Eu que não me atrevo a perguntar ao espelho da Rainha Má.

Meninas sonham ser, de verdade, como as princesas em seus brilhantes vestidos arquitetônicos. Mas não têm ideia de como deve ser brincar numa piscina de bolinhas metida em um deles. Se dão trabalho para colocar uma camiseta e um short-saia para ir à escola de manhã, imagine para vestir um corpete.

Deixando o conto de fadas de lado e indo para a vida real, ainda não me parece bom negócio.

Princesas não podem usar moletom velho, nem sair na rua com piranha no cabelo.

Princesas não podem arrotar livremente depois de bater uma coca-cola e um cheeseburguer com os amigos. Aliás, que amigos?

Princesas não podem ter, com relativo sossego, conta no Facebook. Tampouco ir dormir na casa da amiga, nem lavar o carro com mangueira num dia quente de verão.

Princesas até podem se casar com plebeus mas, para todos efeitos, é melhor juntar os trapinhos reais com um príncipe. E todo mundo sabe que príncipes, em especial os encantados, não existem.

Princesas não podem pegar uma mochila e sair pelo mundo. Só se for em avião próprio, com uma comitiva de baba-ovos e agenda programada, sem chance de uma escapulida para tomar um café num vilarejo desconhecido. Uma princesa jamais viverá a enriquecedora experiência humana de ter seu laptop roubado em uma estação de trem.

Princesas raramente conseguem assistir, incógnitas, a um show da Madonna – essa sim, uma espécie de princesa, só que ao contrário. (E, vamos combinar, do balacobaco.)

Porque princesas devem ser educadas, gentis, imaculadas, certinhas. Já viu princesa mostrando o dedo do meio para alguém? Princesa no meio dos Black Blocs? Não. Tirante algumas regalias e confortos tão almejados pela plebe, como não precisar lavar roupa, nem conferir extrato bancário, vida de princesa é, no geral, um porre. Um fingimento constante e um cumprimento sem fim de protocolos sociais, como marcar presença em festas aborrecidas e inaugurações entediantes. Um mundo cor de rosa? Só se for rosa antigo.

Ser princesa deve ser tão perigoso, que dar o título simbólico à filha, sua ou dos outros, deveria ser considerado mau agouro. Praticamente uma maldição. Um incentivo à nova leva de brancas de neve, belas adormecidas e cinderelas, candidatas aos feitiços invisíveis do mundo pós-moderno e sem direito a príncipes para salvá-las.

Mas chamar a filha de princesa significa proclamar que ela é linda, perfeita, digna de um pedestal. E se a relação entre princesa e beleza não passar de rima?

(Meninas são princesas e meninos são super-heróis. A elas é concedida, como nos clássicos, a beleza e a bondade. A eles, a bravura e a justiça. Nesse mundo de faz-de-conta, sempre faltam príncipes para as primeiras e super-heroínas para os segundos. A conta nunca fecha. E agora, Walt?)

Há quem assim as chamem sem nem saber direito o porquê. Perpetuam o mito e não percebem que, assim, encastelam suas filhas, fazendo-as crer que são seres feitos de material especial, que são quebráveis. Obrigadas à beleza e condenadas à masmorra da idealização romântica ou, pior, ao fosso da frustração.

E muitas, quando crescem, caem nesse conto. Que nem de fadas é.

Fantasia por fantasia, melhor ser abóbora. Das que não ligam para o relógio, viram carruagem e vão aonde querem.

O nome da gente, parte 2

Arte: Marie
Arte: Marie

Nina vira e diz: “Mãe, sabe como eu gostaria de me chamar?”. E desfila uma longa lista de nomes que ela julga bonitos. Renata, Gabriela, Lorena, Rafaela, Manuela, Flavia. Não por acaso, os nomes das amigas. Não tem Nina na lista encantada. Ela não gosta de seu nome, deixou claro. Penso, mas não falo: “Um dia, você vai gostar”. A gente não desiste de querer mudar as pessoas.

Escolher nome de filho é uma responsabilidade cruel. Decidir a palavra-própria que o acompanhará pelo resto da vida, a que vai representá-lo perante o mundo, a que timbrará seus documentos, da certidão de nascimento à de óbito, é tarefa séria. E nem sempre pai e mãe acertam o gosto do filho. Fazer o quê.

Nina foi ideia minha. Era uma das opções de uma imensa lista desenvolvida em família. Infelizmente, não tivemos acesso à lista da Nina a tempo.

Até os quinze anos, todo mundo deveria se chamar ‘Pessoa’. Só então, a ‘Pessoa’ escolheria seu nome definitivo. Quinze é uma boa idade; o risco de uma escolha por impulso (nome de jogador do São Paulo, atriz da Chiquititas) é, em tese, reduzido. Deveria ser processo simples, inclusive, a mudança de nome. Que é possível perante a lei, mas o interessado tem de percorrer um caminho tão longo, tão deserto, que desiste. Não fosse isso, seria comum o diálogo:

– Oi, Maria!

– Oi, Raquel! Mas ó, não sou mais Maria. Sou Beatriz desde 2009.

– Bacana! Eu também mudei, agora sou Abigail.

– Ficou lindo! Me conta, você tem notícias do Henrique?

– Qual Henrique? O ex-Marcos?

– Ih.

O gosto – ou desgosto – por um nome é construído. Não basta a beleza do som ou da grafia; é uma afeição moldável e depende do contexto sócio-econômico-cultural-folclórico-planetário. Osama, por exemplo, há de ser rejeitado pelos povos ocidentais ainda por algumas eras. Por aqui, ninguém mais deve ter sido batizado Bráulio, depois de 1995. (Para quem não lembra ou não sabe, o Google pode ajudar. Palavras-chave: órgão – genital – masculino.)

Não me recordo de ter confessado algo parecido à minha mãe, a respeito do meu nome, quando criança. Nunca fui apaixonada por ele, é fato. Apenas resignei-me. E também tive minhas fantasias infantis. Já quis ser Noeli – personagem da novela Bandeira 2, que passou na Globo em 1971. Considerei melhor guardar o desejo para mim, ela poderia ficar magoada. Até porque, o desejo passou (eu ainda não tinha quinze anos).

Se há algum significado do nome Nina, a sinceridade deve estar na relação de características. Não deixa de ser uma coisa bacana.

[Nota: a parte 1 está aqui.]

Dos medos

“Homem do Saco”, Renata Miyagusku

Que tipo de gente eu seria se os meus mais-velhos não me assombrassem – sem querer, até – com a história do Homem do Saco, aquele que me enfiaria no dito cujo e me levaria embora caso eu não fosse uma boa menina?

Que espécime de mãe eu daria se, assim que comecei a andar, não temesse nunca mais ver o rosto da minha, toda vez que ela se ausentasse por mais de trinta minutos?

Em que modelo de adulto eu me transformaria se não morresse de medo dos seres indescritíveis e impiedosos que moravam não só embaixo da minha cama, mas sob todos os móveis da casa, e que me pegariam, zás!, se eu me levantasse de madrugada para fazer xixi?

Eu seria, hoje, uma pessoa mais autoconfiante, uma mãe menos intolerante, uma adulta mais corajosa e bem resolvida, se ocorresse de ter sido poupada lá atrás?

Certos terrores, pensei anteontem, são absolutamente fundamentais à vida humana. Nos primeiros anos, nos do meio e, por que não?, nos últimos. Um pavorzinho aqui, um fantasminha ali, não fazem tanto mal assim a ninguém. Na dose certa, ajudam a construir seres imaginativos, erguem mentes atentas, desencadeiam sinapses que são uma festa. Seus ‘danos’, aqueles que a terapia insiste em tratar, podem, no fundo, ser inofensivos. Quase producentes.

O que seria do cinema sem o sobressalto, da literatura sem o pavor?

Se eu, quando era deste tamanhico, não soubesse o que o escuro me propiciaria em termos de paúra, como mãos gélidas e ossudas surgindo do nada a tocar meus ombros, talvez eu não houvesse exercitado minha imaginação e hoje, quem sabe, eu seria uma pessoa menos empática com os medos e sofrimentos alheios – de qualquer natureza.

Pensei nisso anteontem quando, na praça, ouvi uma mãe fazendo ao filho uma ameaça qualquer acerca do Homem do Saco. Meu radar pedagogicamente correto a condenou de bate-pronto. Onde já se viu, dizer isso ao menino.

Que nada; a patrulha no folclore-afetivo alheio é que é danosa. Eu tive meu Homem do Saco (que era Homem Chato, em neologismo autorizado de infância, e também possuía um saco). Você teve seu Homem do Saco. Todos nós tivemos nossos Homens do Saco! Por que negar isso aos mais novos? Por que ceifar-lhes o direito inalienável de ter pesadelos? (Se é que o Homem do Saco, vilão-mor do imaginário infantil desde priscas eras, ainda está com essa bola toda.)

Pais, mães e responsáveis: perpetuem em seus pequenos meia-dúzia de medos mitológicos, deem-lhes corda, deixem que acordem assustados à noite. O colo bem dado na hora do pânico é o que verdadeiramente nos salva neste e deste mundo.

Gente feliz não é feita (só) de experiência feliz. Isso é lorota que a publicidade inventou e a psicologia certificou. Coisa que até o Homem do Saco, vejam só, deve achar uma chatice.

Redação: Minhas férias

Arte: Mariana Valente
Arte: Mariana Valente

férias. [Do lat. ferias.] S. f. pl. 1. Dias em que se suspendem os trabalhos oficiais (datas patrióticas e dias santificados); feriado. 2. Certo número de dias consecutivos destinados ao descanso de funcionários, empregados, estudantes etc., após um período anual ou semestral de trabalho ou atividades. [Cf. ferias, dos v. feriar e ferir.]

Viu? O verbete não fala nada, nadica, sobre as mães. Mães, portanto, não pertencem à categoria de gente com direito a férias. Pode ser que estejam incluídas no “etc.” mas, verdade seja dita, não seria nada nobre. Mães não tiram férias nunca, nunquinha. Mesmo quando tiram. Não está na constituição, mas no dicionário.

O substantivo “férias” é comumente ligado a um pronome possessivo que, depois que se tem filhos, é usado em todas as pessoas, exceto na primeira do singular. As férias passam a ser dos outros ou deles. Predominantemente deles, os filhos. Ponto final.

Quando eu era criança, toda volta às aulas, em começo de ano ou primeira semana de agosto, vinha com o previsível e aborrecido tema para a redação: “Minhas férias”. Eu ficava entediada, porque nem sempre tinha coisas estupendas para contar. Raramente viajava. Brincava na rua, ficava acordada até mais tarde e escrevia no meu diário. Poderia, aliás, tirar uma cópia dele e apresentar à professora, todos os anos. Pouparia-me um trabalhão.

Se hoje eu tivesse de fazer uma redação assim, ninguém ia querer lê-la, ou eu tiraria zero, já que a deste mês começaria assim:

No primeiro dia das férias (deles) eu estava tomando banho tranquilamente, quando a caçula emitiu SOS lá da sala por ocasião de ter pisado, descalça, no cocô que a gata – adoentada e levemente incontinente – fizera no tapete.

Nos últimos trinta dias, eu não fui gente; fui uma espécie de entidade, cujas atividades consistiram em assistir Carrossel, passar filtro solar na cria e apartar brigas. Minhas frases se resumiram a “Larga esse iPad” e “Não faz isso com seu irmão”, com a variante “Não faz isso com sua irmã”. O episódio do cocô, felizmente, foi pontual.

Julho ainda não acabou, mas as férias, sim. As aulas recomeçaram ontem. Não se usa mais passar o antiquado tema para a redação. O assunto, no caso deles, fica para conversas informais com os professores e amigos. No meu caso, com o terapeuta.

Dezembro é logo ali, virando a esquina.