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Wanda

casa antiga desenho

Chique era a Wanda. Longos cabelos estilo pantera, óculos escuros tipo Jackie Onassis. Bem vestida, a qualquer hora. Morava ao lado da nossa vila, na casa dos meus sonhos.

Acompanhe comigo, com olhos de Google Maps: rua, calçada, casa da frente da vila, área comum da vila, nossa casa na vila. Essa era a extensão da casa da Wanda, cujo limite coincidia com o da nossa. Cinquenta metros no total. Uns oito de largura. Casarão, para os modestos padrões da Mooca da minha infância. Nos fundos do terreno, exatamente ao lado da nossa casa, um pomar.

Completando a quimera, a Wanda. Moça bonitona e, na minha avaliação, rica. Moderna, tinha carro e dirigia. Nada lembro do marido. Nenhum registro sequer em minha memória. Se alto, baixo, feio, bonito. Nada. Não tinham filhos, mas cachorro: Gueibin. Não sei como se escreve. Gaybin? Gabin? Um cachorrão deste tamanho, alegre e saltitante. Eu os via e ouvia chamando o peludo para lá e para cá, Cuidado com o portão!, Para, Gueibin!, Não deixa ele sair! Da mesma forma, nunca soube: Wanda com W ou com V? Nunca conversamos.

Gueibin era da raça setter irlandês. Jamais brinquei com ele. Quando eu passava na rua, em frente ao seu portão, nunca o via. Não era cão autorizado a latir para carros e gentes. Pena.

Antes de eles se mudarem para essa casa, havia outra vizinha. Uma senhora, cujo nome não me recordo. Só sei que dava jabuticabas para nós, por cima do muro. Depois que ela se mudou, o muro cresceu, a Wanda veio. Adeus, jabuticabas.

Nossa casa da rua Natal era pequena, ampliada na base do puxadinho. Eu passava bastante tempo pensando nas casas do bairro onde eu gostaria de morar. A da Wanda era a campeã. Em segundo lugar, um sobrado bacana na rua Jaboticabal, com pomposa rampa ligando o portão à porta de entrada. A janela da sala era um espetáculo: de parede a parede, do teto até quase o chão. A da nossa sala era tão mirrada. Para piorar, dava para o tanque de lavar roupas, no quintal. Por isso, quase nunca ficava aberta. A porta, então, fazia as vezes de janela também. Somada a outras limitações, não é de admirar que eu tenha dedicado tanto tempo sonhando com as casas do pedaço.

A única janela que me conectava ao mundo externo – fator de grande frustração – era a do quarto da minha mãe, que dava para a vila. Meu observatório geral de fundos de casas e telhados e horizontes, em um bairro predominantemente térreo, ainda imune à especulação imobiliária. Apenas ouvia os ônibus, as motos, o vendedor de biju, o sorveteiro. Dali, via a Wanda saindo. A Wanda chegando. A Wanda ralhando com o pobre Gueibin, que devia aprontar as suas.

Se viva for, Wanda deve beirar os setenta anos. Mais, até. Será que ainda usa óculos escuros? Será que tiveram filhos, netos, bisnetos? O Gueibin, se foi papai naquela época, talvez esteja na centésima geração. Que centésima o quê; tricentésima. Quem sabe já não topei, por esse mundo e sem saber, com um descendente seu, rolando n’alguma grama, batizando poste?

Depois que Wanda, marido e Gueibin se mudaram de lá, um japonês comprou a casa. O homem não era sofisticado, não usava óculos escuros. Nem cachorro, tinha. Ainda por cima, trocou o delicado portão de madeira da frente por outro, feioso.

Namorei um rapaz que tinha um setter irlandês. Como gosto de inventar reencarnações para os bichos, não demorou para que eu estabelecesse a conexão. Nunca confessei ao namorado, mas houve vezes em que cochichei ao ouvido do cão, como se segredo nosso fosse: “Eu sei que você é o Gueibin”.

Passou “Um peixe chamado Wanda” no Telecine. Aquele, dos anos 1980. Eu poderia fazer um filme também, “Uma vizinha chamada Wanda”. Nele, uma garotinha sardenta narraria, em primeira pessoa, suas filosofações sobre janelas, memórias e jabuticabas. Seu melhor amigo seria um cachorro. Igualzinho ao Gueibin.

Wilson

O ano? Não me lembro. Estávamos no primário. Ao subir as escadas, estranhei os colegas no corredor, quando deveriam estar na sala de aula. Ninguém correndo ou fazendo bagunça, que seria o normal. Uns com olhar espantado, outros conversando baixinho. Perguntei o que havia acontecido. Um deles contou: O Wilson morreu.

Wilson era da nossa classe. Oito, nove anos? Fora atropelado na rua onde morava, enquanto brincava. Caminhão, disseram.

Até então, nenhuma criança, que eu tivesse conhecimento, havia morrido naquele nosso pedaço da Mooca. Tão perto de mim. O ineditismo da morte pegou-me de jeito. Um estranhamento, uma tristeza recheada de susto.

Não fui ao seu enterro. A professora deve ter ido. As aulas continuaram sem ele. Seu nome era o último na chamada. Que ficou mais curta.

Daquele dia em diante, a cada vez que eu passava pela rua Florianópolis, pensava nele. (Ninguém sabe, mas até hoje, se acontece de eu passar por ali, penso.)

Não que fôssemos grandes amigos. Pouco sabia dele. Se assistia Família Dó-ré-mi ou se preferia Perdidos no Espaço. Para qual time torcia. O que gostava de pedir na cantina na hora do recreio. Não conhecia seus pais. Mas era alguém que eu via todo santo dia útil, entre cadernos e livros e provas de matemática e brincadeiras no páteo. De repente, nunca mais.

A morte, às vezes, pode marcar mais que a vida.

Não há uma fotografia dele sequer em minhas recordações da escola, já procurei. Para lembrar de seu rosto, preciso me concentrar. Então, ele surge por alguns segundos, para logo se misturar com os de outros colegas e desfazer-se em uma imagem difusa. De concreto, apenas isto: Wilson, meu colega de classe no primário, morreu. Tinha oito, nove anos? Caminhão, disseram.

 

Nota: devo registrar, a título de assossego interno, que quando recebi a notícia dos colegas, ali no corredor, talvez por distração, ou por não ter ouvido direito, entendi outra coisa. Algo como o professor ter faltado, que não haveria aula. Soltei, para espanto geral, um infeliz “Graças a Deus!”. Só depois me dei conta do vexaminoso mal-entendido. Por instantes, fui a sem-coração da turma.

Voltinha

“Fusca com família”, Gustavo Rosa

À noite, meu pai pegava a chave do Fusca, dava uma chacoalhadinha, olhava pra nós e já sabíamos: dia de dar voltinha! O destino? Nenhum. O programa era a voltinha. Breve ou longa, dependendo do nível no tanque e da disposição do Seu Tonico, único motorista da família. Ele e minha mãe na frente, nós três atrás. Rodar pelos bairros, só pelo prazer de andar de carro. Uma espécie de peregrinação a Santiago de Compostela sobre rodas, onde o caminho é mais importante que o lugar final.

Desde que me entendo por gente, teve carro em casa. Nem por isso o encantamento se esgotara; não era sempre que o usávamos. Matinê no Cine Comodoro, para assistir a “Uma janela para o céu”? Ônibus. Visitar a Vovó Carmela na Vila Diva? A pé. Tia Zinha, em Mauá? Trem. Passear de carro, para meus poucos anos de vida, ainda era acontecimento recheado de novidade e finesse, coisa de gente rica.

A discussão era sobre quem iria nas janelinhas. Negociações feitas, lá íamos. Sem cinto de segurança, que nos anos 70 a gente mal sabia onde ficava. Era comum o item permanecer enroladinho em um elástico, tal qual saíra da fábrica. Acho até que o Fusca nem tinha. Nunca sofremos acidente. São Cristóvão era nosso chapa.

Sob o ronco das mil e trezentas cilindradas, a gente pedia para passar aqui e ali, ou seguia a esmo, guiados pelo nada. Eu gostava das avenidas, dava para correr mais. Quando era minha vez, aproveitava minha janela particular (para o céu?), decorando a cidade e treinando a leitura nas placas. Torcia para passar em frente à casa de alguma amiga. Quem sabe ela não me veria e, admirada, diria, “Olha a Silmara!”. Ah, se nosso Fusca falasse.

Hoje, caso eu sugerisse um passeio assim aos meus filhos, acostumados ao carro desde o bebê-conforto, eu seria bombardeada por questionamentos incrédulos – Pra quê?, Mas aonde vamos?, Que graça tem? – e ganharia debochada recusa a tão besta convite.

São poucas as novidades para quem nasceu neste século, e os encantamentos, outros. Definição de simplicidade, para eles, é uma velha conexão 3G, o pacote básico da Net, pizza sem borda recheada.

Já meu pai, piloto-herói da minha infância, hoje se embanana todo na hora de entrar no carro, confunde as portas, não se entende com o cinto de segurança. Agora, sou eu que o levo passear. O destino, geralmente, é o médico. Para ouvir que está tudo bem com seu motor 8.7. O que não é para qualquer um.

Por pura nostalgia, hei de ter um Fusca. E a caçula avisou: estou proibida de buscá-la na escola com ele. Em silêncio, penso: o mundo dá voltas. Deixa estar.

A rua

“Street”, Lea Vervoort

As casas perfeitas eram sempre de frente para a rua. Onde, da calçada, já se entrava na garagem, e da garagem, na sala. Nessa sala, idealmente, a janela tomava a parede frontal toda, nada de janelica. E dela se podia ver o movimento lá fora: quem vinha pela calçada, quem passava de moto, de carro, os vendedores de tudo, os ônibus, os vizinhos. Glória, então, se fosse sobrado: além da escada, que eu considerava chique, o quarto da frente, sobre a sala, virava camarote.

Não fui criança de desejar viver em mansões, palacetes, nada disso. Modesta, bastava-me um sobrado geminado de frente para a rua – típico da Mooca, meu universo natal e então única referência arquitetônica – e eu estaria realizada.

Quis o destino, esse fanfarrão de marca maior, que eu fosse viver em uma pequena vila, de onde não se via absolutamente nada da rua, nem uma nesga de calçada. Ainda se fosse a casa 4, da Dona Antonia, que era a última e única alinhada ao corredor de entrada da vila. Mas não: a vida colocou-me justo na casa 1, a do canto, a mais distante de tudo e de todos. Quando o moço do biju passava com sua matraca, teleq-teleq-teleq, era preciso sair correndo para alcançá-lo já quase na esquina, pois nem sempre ele adentrava a vila para oferecer seu quitute. Quem morava de frente para a rua não passava esse apuro.

Suspirava quando ia à casa das amigas. Em frente às suas salas, seus quartos, suas garagens, se dava a adorável e mágica dinâmica da rua. Como elas deviam ser felizes! Era como pertencer à grande festa cotidiana, fazer parte do filme urbano, viver, enfim. Na vila, eu me sentia fora do cenário, do enredo, do baile.

Não que detestasse a vida na vila; ela acabava sendo uma extensão do nosso diminuto quintal, onde se podia brincar à vontade, andar de bicicleta e skate, sentar no chão e ficar conversando até tardão.

O problema surgiu à medida em que a adolescência chegava. A rua era o cosmos onde circulavam os amigos, os inimigos, os paqueras. E, da janela da nossa sala, eu não avistava nada, além do tanque onde meus avós lavavam roupa. Do quarto dos meus pais, que dava para a vila, só os fundos das casas da frente. E alguns telhados do quarteirão, com eventuais gatos zanzando. Pouco, para minha sede juvenil de acontecimentos (e pertencimento).

Movida pela quimera da moradia ideal, punha-me a desenhar, obsessivamente, casas imaginárias sob medida para a minha felicidade. Caprichava na planta, me dedicava às fachadas. Talvez tenha escolhido Técnico em Edificações no segundo grau por conta disso. Ainda bem que a opção mostrou-se, a tempo, puro delírio.

Mudei-me da vila já adulta. Outros lares vieram, e a vista para a rua nunca mais foi requisito. Os sonhos envelhecem.

Há anos moro em um condomínio horizontal, que nada mais é que uma vila grande. Retornei às origens, por deliberada vontade. Nossa casa é uma das últimas, escolhida a dedo. Quanto mais longe da rua, dos barulhos, dos ônibus, das fumaças, das buzinas, das motos, dos escapamentos adulterados, melhor. Não que tenha deixado de gostar da rua; agora, eu decido quando quero vê-la. Passei a apreciar, sem sofrimento algum, o silêncio e o sossego. A melhor coisa de se ver ao acordar, descobri, não é a rua. É um bem-te-vi carregando um galhinho no bico.

Sinto falta, porém, do moço do biju. Em compensação, tem o sorveteiro. Aos sábados, ele passa na rua de trás, anunciando no alto-falante sabores de creme e de frutas. Que eu nunca comprei.

Xilindró

cadeia

1980, temporada dos jogos inter-colégios. O nosso jogaria com o São Paulo, no centro da cidade. Da Mooca até lá, só de ônibus. Fomos, então, prestigiar o time. Tudo seguia nos conformes, quando uns garotos começaram a bagunça no coletivo. De repente, o estrondo. Haviam quebrado o vidro da janela.

O motorista para. Desliga o motor. Puxa o freio. Sai de seu posto e ruma ao fundão. Quem foi? Silêncio. Então vamos para a delegacia resolver isso. E não é que ele foi mesmo?

No caminho, gelei. Eu, treze anos, na delegacia. Teria direito a um telefonema? Sem advogado, restariam meus pais. Pai e mãe são nossos advogados eternos. Mas a gente não tinha telefone. Ligaria na casa 4 e pediria para a Dona Antonia dar o recado. Vexame. Já me via no xilindró, cabelos raspados, vendo o sol nascer quadrado, batendo caneca nas grades, tomando banho de sol com a galera. Não estaria sozinha, no entanto: meia dúzia de colegas da 7ª A dividiriam a cela comigo. Compadecidos, os professores nos visitariam no Dia das Crianças. Ninguém passaria de ano.

Enquanto lamentava meu destino, a turma de – no conceito do condutor enfurecido – menores infratores chegou à Delegacia. Colocaram-nos em uma sala. A maioria de nós não tinha culpa de nada, nadica. Mas como não houve delação, estávamos todos no mesmo barco. E agora, Dotô? Como é que volto pra garagem assim? – quis saber o motorista.

O delegado de plantão, sem nada mais grave para resolver naquele dia, nos mediu de cima a baixo. Iniciou seu sermão. Onde já se viu isso, a gente não tinha educação, nem respeito pelo patrimônio, que não acontecesse novamente, senão já viu. Ouvíamos calados, uns tremiam feito vara verde. Tudo piorou quando a Rô, usando uma saia que trouxera da Bahia, toda de rendas e franjas no melhor estilo boho-afoxé, numa atitude sem noção, resolveu apoiar o pé num cercadinho ao lado da mesa da autoridade. Tomou pito adicional, pobrezinha. Ninguém riu. O medo vencera. Vinte anos depois, perdemos a Rô. Meu coração ficou em cacos, feito a janela do ônibus.

Embora não tenha testemunhado o fato, tenho cá, até hoje, meu palpite sobre o autor do vandalismo. Fiquei de bico calado, no entanto. Vi-me no leito de morte, daqui a algumas décadas, chamando de canto o representante de Deus antes da extrema unção: Acho que foi Fulano, padre.

Sermão dado, lição aprendida, jogo perdido. Hora de voltar para casa. De ônibus. No trajeto, discutimos, apreensivos, se o episódio caracterizaria passagem policial, prejudicando nossas vidas dali para frente. Por via das dúvidas, ficou todo mundo comportado. Fichada, mesmo, é esta minha saudade de tudo e de todos.

À noite, quando meus pais chegaram, contei. Perguntaram se alguém havia se machucado. Não, pai. Quiseram saber se havia sido eu. Não, mãe. Sondaram o que haviam feito com a gente na delegacia. Só bronca, pai. Questionaram as minhas companhias. São gente boa, mãe. Disseram para eu escolher bem com quem andava. Sigo o conselho até hoje.

Contei da Rô, minha mãe não escondeu o riso. E fomos dormir. Certeza que o delegado, depois de despachar os baderneiros-mirins, riu também.

Doris Day, a gata

gato

Fui dar uma volta pelo centro de São Paulo, aproveitei para revisitar velhos lugares. Não os tradicionais, como Praça da Sé, mas os meus cartões postais particulares.

Como a esquina onde ficava a Loja Piter, atrás do Teatro Municipal, e eu, adolescente duranga, cheguei a flertar com uma calça baggy verde-limão. Que nunca foi minha.

E a loja na galeria da Barão de Itapetininga que vendia imensos, encantadores e utópicos relógios carrilhões; eu gostava de passar ali em hora cheia, só para ouvi-los. O tempo, não à toa, é o pai da música.

E a banca de jornal, ao lado do metrô Anhangabaú, que nem estava no roteiro. Aquela banca. A mesma onde, em seis de abril de 1990, ao sair da estação a caminho do trabalho (o falecido Diário Popular), avistei um trapinho peludo e mirrado tentando, em vão, caminhar entre as pessoas. Tantos sapatos apressados! Lembrei do momento em que recolhi aquela gatinha-filhote do chão e coloquei-a no meu colo. Ela, exausta, se aninhou. E, para meu completo e irreversível sucumbimento de amor, adormeceu.

Uma voz dizia, “Pensa, Silmara, pensa”. Levar a gatinha? Já havia tantos em casa. E levá-la para onde, às oito da manhã? Deixá-la ali, para ser pisoteada? Fui ter com o dono da banca:

— Essa gatinha é sua?

— Não… – ele respondeu, desinteressado – Apareceu aí.

A voz: “Pensa, Silmara, pensa”.

— O senhor pode cuidar dela até às 18h? É a hora que saio do trabalho, passo para buscá-la. (claro que não conjuguei assim, tão perfeito)

— Ela vai ficar por aí; depois você busca, então.

Foi a forma abreviada e educada de ele dizer: “Mocinha, eu não estou nem ligando para esse bicho nojento, não vou cuidar dela coisa nenhuma, tenho mais o que fazer. Se ela estiver aqui quando você voltar, ótimo.”.

“Pensa, Silmara. Mas pensa rápido. Quer chegar atrasada?”

Abri minha mochila com estampa de florzinhas e enfiei a gata nela. Com o cuidado de deixar uma frestinha para ela respirar.

Cheguei ao jornal, tomei o elevador. Torcendo para que o fato de minha mochila se mexer sozinha não chamasse muito a atenção. Ao menos, até chegar ao quinto andar ela não miou, nem fez xixi nas minhas coisas. Ao chegar na sala, mostrei a novidade aos colegas, não sem antes garantir que eles não contariam a ninguém.

E a manhã no departamento de marketing foi assim: cuti-cuti pra cá, cuti-cuti pra lá, um desceu na lanchonete e comprou misto-quente para a mini-bichana, outro trouxe leite. Trabalhar que era bom, necas.

Na hora do almoço, a fim de evitar dissabores caso o chefe, lá na outra sala, resolvesse encrespar com a presença felina, levei-a para a casa do Daniel, meu namorado, que morava por ali. Durante a manhã, sondei quem poderia ficar com ela. A Paula, que fazia aniversário naquele dia, topou. Um combinado que logo se desfez, posto que eu estava irremediavelmente apaixonada pela Doris Day – nome que dei àquele trapinho peludo e mirrado. Se foi por causa da atriz, não me lembro. Só sei que aquela mini-diva preta-e-branca era minha e ninguém tascava.

Doris, a miúda, foi um dos bichinhos mais doces que já habitaram a casa 1 da pequena vila da Mooca. Tinha um dedinho defeituoso – certamente, culpa dos sapatos apressados – e uma vez deu cria embaixo da geladeira. Só fomos localizar os natimortos dias depois.

Quando me casei (não com o Daniel) e fui morar longe, ela continuou vivendo feliz da vida com meu pai. E, numa manhã de dois mil e quatro, recebi um telefonema. Doris fora encontrada agonizando, no portão. Nunca soubemos o que aconteceu. Levada às pressas ao veterinário, não sobreviveu. E não cheguei a tempo de me despedir. Não rolaram mais seis vidas para que eu o fizesse. Ou rolaram, ou ainda estão rolando, e eu que não sei.

E se o dono da banca ainda fosse o mesmo? E se eu prestasse atenção e visse, por ali, um frajolinha perdido? E se eu tivesse me casado com o namorado? E se a Paula tivesse ficado com a Doris? Tem lembrança que surge recheada de pergunta inútil, mas que é feito gato: é só a gente passar a mão, que logo começa a ronronar dentro da gente.

Martinha

bússola

Na terra da garoa, os dois policiais militares montam guarda próximo à saída do metrô República. Paramentados, armados e treinados, estão prontos para salvar a cidade. Mas eu, que estou ao lado deles esperando meu irmão, sei: eles são só gente como a gente.

Sem perder de vista os pivetes no pedaço, os dois engatam o conversê. Ela, rabo-de-cavalo no capricho, unhas feitas. Ele, sorriso aberto e alvo, a ouve contar sobre o casório da sobrinha. “Sabe a Martinha, minha prima?”. Sim, ele sabe. “Resolveu beber, maior vexame”. Ele arregala os olhos e se ajeita para ouvir, quando o homem de calça xadrez os interrompe:

– Como eu chego no Banco do Brasil?

O policial desarregala os olhos e prontamente dá a coordenada:

– Próxima rua. Só seguir reto, senhor.

E o senhor vai. “Tomou todas”, ela continua. Ele ri e balança a cabeça, em clara reprovação. “Resolveu fazer discurso na hora do bolo”. A senhora de cachecol verde desvia dos pombos e se aproxima:

– Qual dessas – pergunta, apontando as travessas da praça – é a 24 de Maio?

A dupla está ali não apenas para promover a ordem e a segurança. São policiais, mas pode chamá-los de Waze Humano. Desta vez, é ela que dá a orientação:

– Próxima rua. Só ir por aqui e virar à direita.

A senhora agradece e some na multidão. Aperta o passo e a bolsa contra o peito ao passar ao lado dos pivetes, recostados na vitrine. Medo.

“Foi lá na frente dos noivos e disse que o amor era lindo, papapá. Mas que, pra ela, nunca foi, papapá. É que o marido dela voltou com a ex” –  e o policial abre um bocão, disso ele não sabia. Então o rapaz com fones de ouvido:

– Onde tem farmácia por aqui?

Dica fornecida, prosa retomada. “E ela nunca se conformou. Acabou chorando, maior fuzuê, minha sobrinha não sabia onde enfiar a cara, era o casamento dela, poxa!”. Vem a jovem com bebê no colo:

– Moço [primeira cidadã a incluir na pergunta algum vocativo], a Praça da Sé está longe?

E um casal de velhinhos, mãos dadas:

– O Sesc novo é pra lá?

Mas será o Benedito? Eles não têm sossego. Mais fácil controlar um arrastão. Por um momento, compadeço-me; ó povo, deixai os dois fofocarem em paz. Na corporação da maior metrópole do país, uma das maiores do planeta, cabem essas miudezas também. E de que é feita a vida, se não das miudezas?

Mas a Martinha, hein. Alguém precisa orientar essa moça.