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Mappin, venha correndo

violão

Anos 80, ganhei um violão. Cheguei no Conservatório Leopoldo Miguez e fui logo avisando o professor: “Quero tocar como o Paulinho Nogueira”. Ele deu um longo suspiro, e iniciou as aulas teóricas. Brevíssimas, pois abandonei o curso assim que ele me fez solfejar. Duvi-de-o-dó que o Paulinho Nogueira tenha começado solfejando.

O violão fora adquirido no Mappin. A maior loja de departamentos de São Paulo era um alucinante formigueiro de nove andares, especializado em financiar sonhos de todo tipo, com o mantra “crédito automático”. Nem precisava de promoção para viver cheio. E quando tinha, não havia quem não ficasse sabendo, pela TV ou pelo rádio.

Mappin, venha correndo

Mappin, chegou a hora

Mappin, até meia-noite

Mappin, é a liquidação

A cada andar, aboletado em seu banquinho redondo, o ascensorista anunciava, enquanto comandava o abre-e-fecha das portas do elevador: Eletrodomésticos… Moda feminina… Cama, mesa e banho… Crediário. Imagine falar isso o dia inteiro, subindo e descendo, sem saber se lá fora era sol ou chuva. Ascensorista, contudo, era profissão mais que necessária, para garantir a segurança dos fregueses e a ordem do estabelecimento. Praticamente extinta, quase não se vê mais.

Naquele dia, fomos eu, a Rô, minha melhor amiga, e o pai dela. Ela também estava adolescentemente determinada a aprender a tocar violão. Experimenta daqui, testa dali, elegemos o Giannini: cabia nos braços e nos bolsos dos nossos pais. Mil cruzeiros, em três vezes no carnê. Todo dia 10, íamos pessoalmente à Praça Ramos de Azevedo pagar as prestações. Os ascensoristas, infalíveis: Eletrodomésticos… Moda feminina… Cama, mesa e banho… Crediário…

Depois da minha frustrada experiência no conservatório, eu e a Rô descolamos um professor particular. Ele dava aulas em sua casa e tinha unhas compridíssimas – levemente asquerosas – , somente na mão direita. Temi precisar manter aquele layout também, cogitei abandonar o instrumento. Mas o método pedagógico dele era interessante, espécie de fast-food musical. Em pouco tempo aprendemos a dedilhar “Como é grande o meu amor por você”, a romântica açucarada do Rei. Treinei os acordes à exaustão, fiquei craque. Submetia todos em casa a longas e desafinadas audições. Família é pra essas coisas.

Com as noções básicas aprendidas, encerrei a temporada de aulas com o professor de unhas compridas e virei consumidora das revistinhas com cifras. Sem, no entanto, jamais chegar aos pés do Paulinho Nogueira. Minha versão de “Menina”, nem a família se dispôs a ouvir. Tudo tem limite.

Um dia, não sei por que, guardei o violão no armário. Para nunca mais. E não sei onde ele foi parar. O Mappin fechou as portas na virada do século, soube que agora é loja online. O que não tem a menor graça, cadê o formigueiro, as vitrines, o burburinho? A Rô partiu faz tempo. Seu pai, alguns anos depois. Foram, como se diz, para o “andar de cima”. Que tenham sido conduzidos por gentis ascensoristas.

A vida também é feita de departamentos. Só não sei em qual setor a gente paga o carnê da saudade. Acho que esse não se quita nunca.

O velho conservatório continua firme no mesmo endereço. E todos os dias um professor recebe um novo aluno, decidido a ser, não um Paulinho Nogueira, que essa turma não o conhece (e não sabe o que está perdendo), mas a próxima celebridade do Tik Tok.

Se me dissessem hoje que o Mappin, o velho Mappin, reabriu no mesmo lugar, do mesmo jeito, eu ia correndo. Ah, ia.

Régua T

regua t

De adolescente, vivi inúmeros conflitos típicos da fase. Amores não correspondidos, absorventes que vazavam, vergonhas infinitas, medos diversos, dúvidas esparsas. Poucos, no entanto, se igualaram à tragédia de carregar uma régua T, diariamente.

Aos quatorze, cismei que seria arquiteta. Influência evidente da irmã, que já trilhava o caminho.

Achei por bem optar por um colegial técnico, para chegar à faculdade de arquitetura mais azeitada. Avaliei os cursos disponíveis e, determinada a ser a versão sardenta do Niemeyer, escolhi Edificações.

Uma das melhores escolas do ramo: Liceu de Artes e Ofícios, no bairro da Luz. Do outro lado da cidade. Encarei o vestibulinho. Passei, que felicidade! Eu estava razoavelmente familiarizada com os materiais que minha irmã usava em seus trabalhos, papel vegetal, escalímetro, caneta nanquim, normógrafo e a própria régua T. Não tinha ideia, porém, do que me aguardava.

A Wikipedia assim a define:

Régua T é um instrumento próprio para desenho técnico. Assim como a régua paralela, é utilizada para apoiar o esquadro ou para traçar linhas paralelas quando apoiada na mesa de desenhos. Possui em média 80 cm e normalmente é de madeira com detalhes em acrílico. É uma régua de forma da letra T, e tem como benefício ajudar o desenhador durante o desenho.

Em meu dicionário particular, o significado é outro:

Régua T é um instrumento de tortura, causador de sofrimento. Não à toa, seu formato lembra uma cruz. Sua função, além de auxiliar na produção de desenho técnico, é fazer a pessoa que a carrega passar vergonha, onde quer que esteja.

Com oitenta centímetros de comprimento, praticamente metade da minha altura, não havia mochila ou pasta que a coubesse. O jeito era levá-la nas mãos. O que também não era simples. Seu formato de espada a transformava em uma quase arma. T de trambolho. T de troço. T de tranqueira. T de traumático. T de tridente – o Diabo, certamente, inspirou-se nela.

Da Mooca, eu tomava o 3104 que me deixaria na Praça da Sé. De lá, metrô até a Estação da Luz. Na volta, descobrira um ônibus direto, com percurso mais curto, porém mais lotado. Ao menos, a régua T só enroscava em uma catraca.

Considerando que sou dotada de apenas duas mãos, e enquanto uma delas tratava de agarrar as barras para garantir minha estabilidade no coletivo chacoalhante, a outra eventualmente abraçava os livros (só fui ter mochila mais tarde). De modo que faltava a terceira mão para tourear minha cruz, digo, régua T, que insistia em esbarrar nos passageiros, alguns em pleno cochilo. E, eventualmente, uma quarta, para alcançar a cordinha e informar o motorista que eu desceria no próximo ponto. Depois de “com licença”, “desculpe” era meu vocábulo mais empregado durante o trajeto.

Então, eu compreendi o calvário de Jesus Cristo.

Junto à régua T, geralmente eu levava um canudo de papelão, do mesmo tamanho da régua, com os desenhos. Para facilitar o transporte, eu prendia os dois com elásticos. O que, aparentemente, parecia uma solução inteligente, apenas dobrava minha tragédia. O canudo escapava, os elásticos rompiam, a ponta da régua cutucava a cabeça dos passageiros sentados.

Foram três anos de flagelo.

Eis que, quando o curso estava prestes a ser concluído, comuniquei à família: não vou mais fazer arquitetura. Quiseram saber o porquê. Expliquei que já tínhamos uma arquiteta na família. Que eu flertava com a publicidade há algum tempo. Que me dedicaria a ser a versão sardenta do Washington Olivetto.

Só não contei tudo. A razão, claro, foi a régua T.

Wanda

casa antiga desenho

Chique era a Wanda. Longos cabelos estilo pantera, óculos escuros tipo Jackie Onassis. Bem vestida, a qualquer hora. Morava ao lado da nossa vila, na casa dos meus sonhos.

Acompanhe comigo, com olhos de Google Maps: rua, calçada, casa da frente da vila, área comum da vila, nossa casa na vila. Essa era a extensão da casa da Wanda, cujo limite coincidia com o da nossa. Cinquenta metros no total. Uns oito de largura. Casarão, para os modestos padrões da Mooca da minha infância. Nos fundos do terreno, exatamente ao lado da nossa casa, um pomar.

Completando a quimera, a Wanda. Moça bonitona e, na minha avaliação, rica. Moderna, tinha carro e dirigia. Nada lembro do marido. Nenhum registro sequer em minha memória. Se alto, baixo, feio, bonito. Nada. Não tinham filhos, mas cachorro: Gueibin. Não sei como se escreve. Gaybin? Gabin? Um cachorrão deste tamanho, alegre e saltitante. Eu os via e ouvia chamando o peludo para lá e para cá, Cuidado com o portão!, Para, Gueibin!, Não deixa ele sair! Da mesma forma, nunca soube: Wanda com W ou com V? Nunca conversamos.

Gueibin era da raça setter irlandês. Jamais brinquei com ele. Quando eu passava na rua, em frente ao seu portão, nunca o via. Não era cão autorizado a latir para carros e gentes. Pena.

Antes de eles se mudarem para essa casa, havia outra vizinha. Uma senhora, cujo nome não me recordo. Só sei que dava jabuticabas para nós, por cima do muro. Depois que ela se mudou, o muro cresceu, a Wanda veio. Adeus, jabuticabas.

Nossa casa da rua Natal era pequena, ampliada na base do puxadinho. Eu passava bastante tempo pensando nas casas do bairro onde eu gostaria de morar. A da Wanda era a campeã. Em segundo lugar, um sobrado bacana na rua Jaboticabal, com pomposa rampa ligando o portão à porta de entrada. A janela da sala era um espetáculo: de parede a parede, do teto até quase o chão. A da nossa sala era tão mirrada. Para piorar, dava para o tanque de lavar roupas, no quintal. Por isso, quase nunca ficava aberta. A porta, então, fazia as vezes de janela também. Somada a outras limitações, não é de admirar que eu tenha dedicado tanto tempo sonhando com as casas do pedaço.

A única janela que me conectava ao mundo externo – fator de grande frustração – era a do quarto da minha mãe, que dava para a vila. Meu observatório geral de fundos de casas e telhados e horizontes, em um bairro predominantemente térreo, ainda imune à especulação imobiliária. Apenas ouvia os ônibus, as motos, o vendedor de biju, o sorveteiro. Dali, via a Wanda saindo. A Wanda chegando. A Wanda ralhando com o pobre Gueibin, que devia aprontar as suas.

Se viva for, Wanda deve beirar os setenta anos. Mais, até. Será que ainda usa óculos escuros? Será que tiveram filhos, netos, bisnetos? O Gueibin, se foi papai naquela época, talvez esteja na centésima geração. Que centésima o quê; tricentésima. Quem sabe já não topei, por esse mundo e sem saber, com um descendente seu, rolando n’alguma grama, batizando poste?

Depois que Wanda, marido e Gueibin se mudaram de lá, um japonês comprou a casa. O homem não era sofisticado, não usava óculos escuros. Nem cachorro, tinha. Ainda por cima, trocou o delicado portão de madeira da frente por outro, feioso.

Namorei um rapaz que tinha um setter irlandês. Como gosto de inventar reencarnações para os bichos, não demorou para que eu estabelecesse a conexão. Nunca confessei ao namorado, mas houve vezes em que cochichei ao ouvido do cão, como se segredo nosso fosse: “Eu sei que você é o Gueibin”.

Passou “Um peixe chamado Wanda” no Telecine. Aquele, dos anos 1980. Eu poderia fazer um filme também, “Uma vizinha chamada Wanda”. Nele, uma garotinha sardenta narraria, em primeira pessoa, suas filosofações sobre janelas, memórias e jabuticabas. Seu melhor amigo seria um cachorro. Igualzinho ao Gueibin.

Wilson

O ano? Não me lembro. Estávamos no primário. Ao subir as escadas, estranhei os colegas no corredor, quando deveriam estar na sala de aula. Ninguém correndo ou fazendo bagunça, que seria o normal. Uns com olhar espantado, outros conversando baixinho. Perguntei o que havia acontecido. Um deles contou: O Wilson morreu.

Wilson era da nossa classe. Oito, nove anos? Fora atropelado na rua onde morava, enquanto brincava. Caminhão, disseram.

Até então, nenhuma criança, que eu tivesse conhecimento, havia morrido naquele nosso pedaço da Mooca. Tão perto de mim. O ineditismo da morte pegou-me de jeito. Um estranhamento, uma tristeza recheada de susto.

Não fui ao seu enterro. A professora deve ter ido. As aulas continuaram sem ele. Seu nome era o último na chamada. Que ficou mais curta.

Daquele dia em diante, a cada vez que eu passava pela rua Florianópolis, pensava nele. (Ninguém sabe, mas até hoje, se acontece de eu passar por ali, penso.)

Não que fôssemos grandes amigos. Pouco sabia dele. Se assistia Família Dó-ré-mi ou se preferia Perdidos no Espaço. Para qual time torcia. O que gostava de pedir na cantina na hora do recreio. Não conhecia seus pais. Mas era alguém que eu via todo santo dia útil, entre cadernos e livros e provas de matemática e brincadeiras no páteo. De repente, nunca mais.

A morte, às vezes, pode marcar mais que a vida.

Não há uma fotografia dele sequer em minhas recordações da escola, já procurei. Para lembrar de seu rosto, preciso me concentrar. Então, ele surge por alguns segundos, para logo se misturar com os de outros colegas e desfazer-se em uma imagem difusa. De concreto, apenas isto: Wilson, meu colega de classe no primário, morreu. Tinha oito, nove anos? Caminhão, disseram.

 

Nota: devo registrar, a título de assossego interno, que quando recebi a notícia dos colegas, ali no corredor, talvez por distração, ou por não ter ouvido direito, entendi outra coisa. Algo como o professor ter faltado, que não haveria aula. Soltei, para espanto geral, um infeliz “Graças a Deus!”. Só depois me dei conta do vexaminoso mal-entendido. Por instantes, fui a sem-coração da turma.

Voltinha

“Fusca com família”, Gustavo Rosa

À noite, meu pai pegava a chave do Fusca, dava uma chacoalhadinha, olhava pra nós e já sabíamos: dia de dar voltinha! O destino? Nenhum. O programa era a voltinha. Breve ou longa, dependendo do nível no tanque e da disposição do Seu Tonico, único motorista da família. Ele e minha mãe na frente, nós três atrás. Rodar pelos bairros, só pelo prazer de andar de carro. Uma espécie de peregrinação a Santiago de Compostela sobre rodas, onde o caminho é mais importante que o lugar final.

Desde que me entendo por gente, teve carro em casa. Nem por isso o encantamento se esgotara; não era sempre que o usávamos. Matinê no Cine Comodoro, para assistir a “Uma janela para o céu”? Ônibus. Visitar a Vovó Carmela na Vila Diva? A pé. Tia Zinha, em Mauá? Trem. Passear de carro, para meus poucos anos de vida, ainda era acontecimento recheado de novidade e finesse, coisa de gente rica.

A discussão era sobre quem iria nas janelinhas. Negociações feitas, lá íamos. Sem cinto de segurança, que nos anos 70 a gente mal sabia onde ficava. Era comum o item permanecer enroladinho em um elástico, tal qual saíra da fábrica. Acho até que o Fusca nem tinha. Nunca sofremos acidente. São Cristóvão era nosso chapa.

Sob o ronco das mil e trezentas cilindradas, a gente pedia para passar aqui e ali, ou seguia a esmo, guiados pelo nada. Eu gostava das avenidas, dava para correr mais. Quando era minha vez, aproveitava minha janela particular (para o céu?), decorando a cidade e treinando a leitura nas placas. Torcia para passar em frente à casa de alguma amiga. Quem sabe ela não me veria e, admirada, diria, “Olha a Silmara!”. Ah, se nosso Fusca falasse.

Hoje, caso eu sugerisse um passeio assim aos meus filhos, acostumados ao carro desde o bebê-conforto, eu seria bombardeada por questionamentos incrédulos – Pra quê?, Mas aonde vamos?, Que graça tem? – e ganharia debochada recusa a tão besta convite.

São poucas as novidades para quem nasceu neste século, e os encantamentos, outros. Definição de simplicidade, para eles, é uma velha conexão 3G, o pacote básico da Net, pizza sem borda recheada.

Já meu pai, piloto-herói da minha infância, hoje se embanana todo na hora de entrar no carro, confunde as portas, não se entende com o cinto de segurança. Agora, sou eu que o levo passear. O destino, geralmente, é o médico. Para ouvir que está tudo bem com seu motor 8.7. O que não é para qualquer um.

Por pura nostalgia, hei de ter um Fusca. E a caçula avisou: estou proibida de buscá-la na escola com ele. Em silêncio, penso: o mundo dá voltas. Deixa estar.

A rua

“Street”, Lea Vervoort

As casas perfeitas eram sempre de frente para a rua. Onde, da calçada, já se entrava na garagem, e da garagem, na sala. Nessa sala, idealmente, a janela tomava a parede frontal toda, nada de janelica. E dela se podia ver o movimento lá fora: quem vinha pela calçada, quem passava de moto, de carro, os vendedores de tudo, os ônibus, os vizinhos. Glória, então, se fosse sobrado: além da escada, que eu considerava chique, o quarto da frente, sobre a sala, virava camarote.

Não fui criança de desejar viver em mansões, palacetes, nada disso. Modesta, bastava-me um sobrado geminado de frente para a rua – típico da Mooca, meu universo natal e então única referência arquitetônica – e eu estaria realizada.

Quis o destino, esse fanfarrão de marca maior, que eu fosse viver em uma pequena vila, de onde não se via absolutamente nada da rua, nem uma nesga de calçada. Ainda se fosse a casa 4, da Dona Antonia, que era a última e única alinhada ao corredor de entrada da vila. Mas não: a vida colocou-me justo na casa 1, a do canto, a mais distante de tudo e de todos. Quando o moço do biju passava com sua matraca, teleq-teleq-teleq, era preciso sair correndo para alcançá-lo já quase na esquina, pois nem sempre ele adentrava a vila para oferecer seu quitute. Quem morava de frente para a rua não passava esse apuro.

Suspirava quando ia à casa das amigas. Em frente às suas salas, seus quartos, suas garagens, se dava a adorável e mágica dinâmica da rua. Como elas deviam ser felizes! Era como pertencer à grande festa cotidiana, fazer parte do filme urbano, viver, enfim. Na vila, eu me sentia fora do cenário, do enredo, do baile.

Não que detestasse a vida na vila; ela acabava sendo uma extensão do nosso diminuto quintal, onde se podia brincar à vontade, andar de bicicleta e skate, sentar no chão e ficar conversando até tardão.

O problema surgiu à medida em que a adolescência chegava. A rua era o cosmos onde circulavam os amigos, os inimigos, os paqueras. E, da janela da nossa sala, eu não avistava nada, além do tanque onde meus avós lavavam roupa. Do quarto dos meus pais, que dava para a vila, só os fundos das casas da frente. E alguns telhados do quarteirão, com eventuais gatos zanzando. Pouco, para minha sede juvenil de acontecimentos (e pertencimento).

Movida pela quimera da moradia ideal, punha-me a desenhar, obsessivamente, casas imaginárias sob medida para a minha felicidade. Caprichava na planta, me dedicava às fachadas. Talvez tenha escolhido Técnico em Edificações no segundo grau por conta disso. Ainda bem que a opção mostrou-se, a tempo, puro delírio.

Mudei-me da vila já adulta. Outros lares vieram, e a vista para a rua nunca mais foi requisito. Os sonhos envelhecem.

Há anos moro em um condomínio horizontal, que nada mais é que uma vila grande. Retornei às origens, por deliberada vontade. Nossa casa é uma das últimas, escolhida a dedo. Quanto mais longe da rua, dos barulhos, dos ônibus, das fumaças, das buzinas, das motos, dos escapamentos adulterados, melhor. Não que tenha deixado de gostar da rua; agora, eu decido quando quero vê-la. Passei a apreciar, sem sofrimento algum, o silêncio e o sossego. A melhor coisa de se ver ao acordar, descobri, não é a rua. É um bem-te-vi carregando um galhinho no bico.

Sinto falta, porém, do moço do biju. Em compensação, tem o sorveteiro. Aos sábados, ele passa na rua de trás, anunciando no alto-falante sabores de creme e de frutas. Que eu nunca comprei.

Xilindró

cadeia

1980, temporada dos jogos inter-colégios. O nosso jogaria com o São Paulo, no centro da cidade. Da Mooca até lá, só de ônibus. Fomos, então, prestigiar o time. Tudo seguia nos conformes, quando uns garotos começaram a bagunça no coletivo. De repente, o estrondo. Haviam quebrado o vidro da janela.

O motorista para. Desliga o motor. Puxa o freio. Sai de seu posto e ruma ao fundão. Quem foi? Silêncio. Então vamos para a delegacia resolver isso. E não é que ele foi mesmo?

No caminho, gelei. Eu, treze anos, na delegacia. Teria direito a um telefonema? Sem advogado, restariam meus pais. Pai e mãe são nossos advogados eternos. Mas a gente não tinha telefone. Ligaria na casa 4 e pediria para a Dona Antonia dar o recado. Vexame. Já me via no xilindró, cabelos raspados, vendo o sol nascer quadrado, batendo caneca nas grades, tomando banho de sol com a galera. Não estaria sozinha, no entanto: meia dúzia de colegas da 7ª A dividiriam a cela comigo. Compadecidos, os professores nos visitariam no Dia das Crianças. Ninguém passaria de ano.

Enquanto lamentava meu destino, a turma de – no conceito do condutor enfurecido – menores infratores chegou à Delegacia. Colocaram-nos em uma sala. A maioria de nós não tinha culpa de nada, nadica. Mas como não houve delação, estávamos todos no mesmo barco. E agora, Dotô? Como é que volto pra garagem assim? – quis saber o motorista.

O delegado de plantão, sem nada mais grave para resolver naquele dia, nos mediu de cima a baixo. Iniciou seu sermão. Onde já se viu isso, a gente não tinha educação, nem respeito pelo patrimônio, que não acontecesse novamente, senão já viu. Ouvíamos calados, uns tremiam feito vara verde. Tudo piorou quando a Rô, usando uma saia que trouxera da Bahia, toda de rendas e franjas no melhor estilo boho-afoxé, numa atitude sem noção, resolveu apoiar o pé num cercadinho ao lado da mesa da autoridade. Tomou pito adicional, pobrezinha. Ninguém riu. O medo vencera. Vinte anos depois, perdemos a Rô. Meu coração ficou em cacos, feito a janela do ônibus.

Embora não tenha testemunhado o fato, tenho cá, até hoje, meu palpite sobre o autor do vandalismo. Fiquei de bico calado, no entanto. Vi-me no leito de morte, daqui a algumas décadas, chamando de canto o representante de Deus antes da extrema unção: Acho que foi Fulano, padre.

Sermão dado, lição aprendida, jogo perdido. Hora de voltar para casa. De ônibus. No trajeto, discutimos, apreensivos, se o episódio caracterizaria passagem policial, prejudicando nossas vidas dali para frente. Por via das dúvidas, ficou todo mundo comportado. Fichada, mesmo, é esta minha saudade de tudo e de todos.

À noite, quando meus pais chegaram, contei. Perguntaram se alguém havia se machucado. Não, pai. Quiseram saber se havia sido eu. Não, mãe. Sondaram o que haviam feito com a gente na delegacia. Só bronca, pai. Questionaram as minhas companhias. São gente boa, mãe. Disseram para eu escolher bem com quem andava. Sigo o conselho até hoje.

Contei da Rô, minha mãe não escondeu o riso. E fomos dormir. Certeza que o delegado, depois de despachar os baderneiros-mirins, riu também.

Doris Day, a gata

gato

Fui dar uma volta pelo centro de São Paulo, aproveitei para revisitar velhos lugares. Não os tradicionais, como Praça da Sé, mas os meus cartões postais particulares.

Como a esquina onde ficava a Loja Piter, atrás do Teatro Municipal, e eu, adolescente duranga, cheguei a flertar com uma calça baggy verde-limão. Que nunca foi minha.

E a loja na galeria da Barão de Itapetininga que vendia imensos, encantadores e utópicos relógios carrilhões; eu gostava de passar ali em hora cheia, só para ouvi-los. O tempo, não à toa, é o pai da música.

E a banca de jornal, ao lado do metrô Anhangabaú, que nem estava no roteiro. Aquela banca. A mesma onde, em seis de abril de 1990, ao sair da estação a caminho do trabalho (o falecido Diário Popular), avistei um trapinho peludo e mirrado tentando, em vão, caminhar entre as pessoas. Tantos sapatos apressados! Lembrei do momento em que recolhi aquela gatinha-filhote do chão e coloquei-a no meu colo. Ela, exausta, se aninhou. E, para meu completo e irreversível sucumbimento de amor, adormeceu.

Uma voz dizia, “Pensa, Silmara, pensa”. Levar a gatinha? Já havia tantos em casa. E levá-la para onde, às oito da manhã? Deixá-la ali, para ser pisoteada? Fui ter com o dono da banca:

— Essa gatinha é sua?

— Não… – ele respondeu, desinteressado – Apareceu aí.

A voz: “Pensa, Silmara, pensa”.

— O senhor pode cuidar dela até às 18h? É a hora que saio do trabalho, passo para buscá-la. (claro que não conjuguei assim, tão perfeito)

— Ela vai ficar por aí; depois você busca, então.

Foi a forma abreviada e educada de ele dizer: “Mocinha, eu não estou nem ligando para esse bicho nojento, não vou cuidar dela coisa nenhuma, tenho mais o que fazer. Se ela estiver aqui quando você voltar, ótimo.”.

“Pensa, Silmara. Mas pensa rápido. Quer chegar atrasada?”

Abri minha mochila com estampa de florzinhas e enfiei a gata nela. Com o cuidado de deixar uma frestinha para ela respirar.

Cheguei ao jornal, tomei o elevador. Torcendo para que o fato de minha mochila se mexer sozinha não chamasse muito a atenção. Ao menos, até chegar ao quinto andar ela não miou, nem fez xixi nas minhas coisas. Ao chegar na sala, mostrei a novidade aos colegas, não sem antes garantir que eles não contariam a ninguém.

E a manhã no departamento de marketing foi assim: cuti-cuti pra cá, cuti-cuti pra lá, um desceu na lanchonete e comprou misto-quente para a mini-bichana, outro trouxe leite. Trabalhar que era bom, necas.

Na hora do almoço, a fim de evitar dissabores caso o chefe, lá na outra sala, resolvesse encrespar com a presença felina, levei-a para a casa do Daniel, meu namorado, que morava por ali. Durante a manhã, sondei quem poderia ficar com ela. A Paula, que fazia aniversário naquele dia, topou. Um combinado que logo se desfez, posto que eu estava irremediavelmente apaixonada pela Doris Day – nome que dei àquele trapinho peludo e mirrado. Se foi por causa da atriz, não me lembro. Só sei que aquela mini-diva preta-e-branca era minha e ninguém tascava.

Doris, a miúda, foi um dos bichinhos mais doces que já habitaram a casa 1 da pequena vila da Mooca. Tinha um dedinho defeituoso – certamente, culpa dos sapatos apressados – e uma vez deu cria embaixo da geladeira. Só fomos localizar os natimortos dias depois.

Quando me casei (não com o Daniel) e fui morar longe, ela continuou vivendo feliz da vida com meu pai. E, numa manhã de dois mil e quatro, recebi um telefonema. Doris fora encontrada agonizando, no portão. Nunca soubemos o que aconteceu. Levada às pressas ao veterinário, não sobreviveu. E não cheguei a tempo de me despedir. Não rolaram mais seis vidas para que eu o fizesse. Ou rolaram, ou ainda estão rolando, e eu que não sei.

E se o dono da banca ainda fosse o mesmo? E se eu prestasse atenção e visse, por ali, um frajolinha perdido? E se eu tivesse me casado com o namorado? E se a Paula tivesse ficado com a Doris? Tem lembrança que surge recheada de pergunta inútil, mas que é feito gato: é só a gente passar a mão, que logo começa a ronronar dentro da gente.

Martinha

bússola

Na terra da garoa, os dois policiais militares montam guarda próximo à saída do metrô República. Paramentados, armados e treinados, estão prontos para salvar a cidade. Mas eu, que estou ao lado deles esperando meu irmão, sei: eles são só gente como a gente.

Sem perder de vista os pivetes no pedaço, os dois engatam o conversê. Ela, rabo-de-cavalo no capricho, unhas feitas. Ele, sorriso aberto e alvo, a ouve contar sobre o casório da sobrinha. “Sabe a Martinha, minha prima?”. Sim, ele sabe. “Resolveu beber, maior vexame”. Ele arregala os olhos e se ajeita para ouvir, quando o homem de calça xadrez os interrompe:

– Como eu chego no Banco do Brasil?

O policial desarregala os olhos e prontamente dá a coordenada:

– Próxima rua. Só seguir reto, senhor.

E o senhor vai. “Tomou todas”, ela continua. Ele ri e balança a cabeça, em clara reprovação. “Resolveu fazer discurso na hora do bolo”. A senhora de cachecol verde desvia dos pombos e se aproxima:

– Qual dessas – pergunta, apontando as travessas da praça – é a 24 de Maio?

A dupla está ali não apenas para promover a ordem e a segurança. São policiais, mas pode chamá-los de Waze Humano. Desta vez, é ela que dá a orientação:

– Próxima rua. Só ir por aqui e virar à direita.

A senhora agradece e some na multidão. Aperta o passo e a bolsa contra o peito ao passar ao lado dos pivetes, recostados na vitrine. Medo.

“Foi lá na frente dos noivos e disse que o amor era lindo, papapá. Mas que, pra ela, nunca foi, papapá. É que o marido dela voltou com a ex” –  e o policial abre um bocão, disso ele não sabia. Então o rapaz com fones de ouvido:

– Onde tem farmácia por aqui?

Dica fornecida, prosa retomada. “E ela nunca se conformou. Acabou chorando, maior fuzuê, minha sobrinha não sabia onde enfiar a cara, era o casamento dela, poxa!”. Vem a jovem com bebê no colo:

– Moço [primeira cidadã a incluir na pergunta algum vocativo], a Praça da Sé está longe?

E um casal de velhinhos, mãos dadas:

– O Sesc novo é pra lá?

Mas será o Benedito? Eles não têm sossego. Mais fácil controlar um arrastão. Por um momento, compadeço-me; ó povo, deixai os dois fofocarem em paz. Na corporação da maior metrópole do país, uma das maiores do planeta, cabem essas miudezas também. E de que é feita a vida, se não das miudezas?

Mas a Martinha, hein. Alguém precisa orientar essa moça.

Tempo rei

ampulheta

Foi mais de uma vez: na volta do cursinho pré-vestibular, no ônibus que me levava até a Praça da Sé, costumava tocar “Tempo Rei”. Aquela, do Gil.

Às vezes, eu não tomava esse ônibus, e sim o metrô na estação Vergueiro, próxima ao cursinho. Um ia sob o chão, o outro, sobre. Dependia, portanto, do meu estado de espírito no dia. No metrô não tinha musiquinha ambiente, no ônibus tinha. E quase sempre tocava “Tempo Rei” durante o trajeto. Achava interessante a coincidência.

Foi bem mais de uma vez. Não fosse, eu não lembraria disso hoje, trinta anos depois. É que tocou “Tempo Rei” na rádio, enquanto eu fazia panquecas para o almoço.

Eu estava sempre cansada, por ter me levantado antes das seis e absorvido mais conteúdo escolar do que poderia dar conta. Carregando as apostilas abarrotadas de informações que, acreditava, me fariam entrar na USP, eu escolhia um assento perto da janela e sonhava com o almoço me esperando em casa. Quando minha mãe estava bem, às vezes tinha panquecas.

No ônibus, entre um bocejo e outro, eu acompanhava o Gil.

“Ensinai-me, ó Pai, o que eu ainda não sei”, eu pedia, em especial, para aquela parte dos logaritmos e exponenciais que costumava cair no vestibular. Nunca gostei dos números, nem eles de mim.

“Não se iludam, não me iludo”. A USP não era para qualquer um. E eu era, para todos os efeitos, qualquer uma. Não entrei. Só quarenta e um pontos na primeira fase da Fuvest. O tempo mostrou-me que isso, na verdade, não tinha tanta importância assim.

No percurso até a Praça da Sé, nada de Pães de Açúcar ou Corcovados. No ponto final, porém, uma respeitável – e um pouco esverdeada – Catedral da Sé. São Paulo nasceu ali. O meu marco zero foi na maternidade da Beneficência Portuguesa, no Paraíso. Perto do cursinho, aliás. O tempo é também rei do espaço, transformando as velhas formas do viver: levou-me para estudar, depois de grande, tão perto de onde nasci.

Da Sé eu ainda tomava outra condução até em casa. Um ônibus elétrico, que passava pela Mooca. Nesse, não tinha som ambiente. Ficávamos somente eu e meu pensamento, mesmo fundamento singular. E, claro, as apostilas pesando no colo. Tanta química. Para quê, ó Pai? Quase sempre, os cabos do ônibus escapavam dos fios elétricos suspensos no ar. O motorista parava onde fosse. Quem viesse atrás, paciência. O cobrador descia sem pressa, ajeitava os cabos, voltava ao seu posto, o motorista tocava em frente. Quando chovia eu ficava com pena do cobrador.

“Tudo permanecerá do jeito que tem sido” parece ser a máxima dessas três décadas: o cursinho ainda funciona no mesmo endereço. A estação Vergueiro do metrô, idem. Ainda há a linha de ônibus que tocava Gilberto Gil (se mantém a música ambiente, não sei). Praça da Sé e Catedral, claro, incólumes. Fucei o street view do Google e pasmei: o elétrico que me deixava a dois quarteirões de casa resiste no mesmo ponto e a linha sequer mudou o número.

Na minha vida, no entanto, não foi bem assim. Nesses trinta anos, que é tempo pra chuchu, pouca coisa permaneceu. Ninguém mais mora na nossa velha casa, exceto os fantasmas. Eu saí de São Paulo. Não vivo mais do meu diploma de bacharel em comunicação social. Não ando mais de ônibus, nem de metrô. Não tenho mais cabelos até a cintura, nem ilusões acerca do universo: “tudo agora mesmo pode estar por um segundo”. Não sei onde estão meus amigos do cursinho. Minha mãe não faz mais panquecas. E minhas ideias, no geral, são como os cabos do velho ônibus elétrico: às vezes, saem do lugar. Quando isso acontece, lá vou eu, sob sol ou chuva, ajeitá-las novamente. Ao menos, tentar.

Se o tempo é rei, a valentia é rainha.

De onde?

arte: René Nijman
arte: René Nijman

– Bom dia. Posso falar com o Fernando?

– Quem gostaria?

– Silmara.

– Silmara de onde?

– De São Paulo. Da Mooca, para ser mais exata. Da barriga da Angelina, casada com o Tonico, meu pai. Nasci na Beneficência Portuguesa, ali no Paraíso. Foi um Deus-nos-acuda naquele hospital, eu não queria saber de nascer, dá-lhe fórceps, vim toda roxinha, não chorava, minha mãe achou que eu tinha morrido e quem chorou foi ela. Mas não morri, e outro dia mesmo estava pensando: sou muito durável. Veja só, tenho quarenta e sete anos. São quarenta e sete anos respirando, sem parar. Inspiro, expiro, inspiro, expiro. Ando pra lá e pra cá, faço isso, faço aquilo, subo, desço, durmo, acordo. Já me machuquei muito quando era criança, rasguei tornozelo andando de skate, cortei o dedo na máquina de frios, tenho a cicatriz até hoje. Bati o carro feio uma vez, engavetei no Minhocão, tive de fazer B.O. de pijama, quem manda dirigir de pijama? Tive sarampo, um febrão que me dava alucinações, via gente pelo quarto, números gigantes flutuando. E tive catapora, estomatite, dez injeções de Benzetacil na bunda, tem noção?, cólica renal em pleno shopping, perdi o jeans da promoção. Pneumonia, gastrite, insolação, devo ter cruzado com muito bandido por aí e nem fiquei sabendo, graças a Deus, quer dizer, fiquei sabendo em duas vezes. E continuo aqui, não é uma coisa incrível? Nunca que um raio caiu na minha cabeça, nunca fui atropelada, nunca quebrei nada. Acredita que meu sonho, quando pequena, era quebrar o braço? Achava lindo quem ficava de gesso, os colegas da escola assinando naquele gesso encardido. Uma vez, fui sozinha na casa de material de construção, comprei gesso e engessei meu braço, improvisei tipoia, fingi o sofrimento. Quando minha mãe chegou em casa levou aquele susto, mas logo sacou, eu fingia mal. Quarenta e sete anos e nenhuma fratura, nenhum osso trincado, nem luxação. Devo ser inquebrável. A inquebrável de São Paulo, da Beneficência Portuguesa. Eu não sou portuguesa, nem descendente. Quarta geração de italianos, precisava tanto ir atrás da cidadania. Sou, de certa forma, da Itália. E da Mooca, da Angelina e do Tonico. Isso para ficar só nesta vida; se você me perguntar de onde, mas de onde mesmo eu sou, espiritualmente falando, só fazendo regressão. Será que sempre estive flanando neste planeta, ou será que já passei por outro? Silmara, de Júpiter. Silmara, de Saturno. Sabia que não é só Saturno que tem anéis? Aprendi com meu filho, ele foi ao planetário. Estou brincando, não sou de Júpiter, nem Saturno. Sou da Terra, mesmo, e de São Paulo, estou em Campinas há uma década, sou praticamente campineira. Morei em outro país, também. Um frio do cão. Aliás, por que se diz “frio do cão”? Ficaria melhor “frio do urso polar”. Então, na verdade, sou de um monte de lugares, dependendo da época, de qual época você quer saber? Sem contar, como falei, dos outros planetas por onde posso ter passado. Está certo, ‘posso ter passado’? Três verbos na mesma oração fica bem esquisito. Sabe, eu escrevo, mas tem horas que dá um branco. Pois bem, sou meio que da Itália e de outro país onde faz um frio do urso polar, de São Paulo, da Mooca, da Beneficência Portuguesa, da Angelina e do Tonico, de Campinas, esquece isso de Júpiter, senão o Fernando não me atende. Aliás, ele está?

– Um instantinho. Vou transferir.

– Obrigada, bom dia. – Fernando?

A Rua do Laço de Fita

Apanhei o chocolatinho com menta, veio no pires fazendo companhia à xícara do café. Rasguei a ponta da embalagem verde – tudo o que se diz de menta é verde – e enfiei-o inteiro na boca, esperei gelar. Depois, li os dizeres, tão pequeninos. Sem grandes novidades, exceto o endereço onde o dito cujo é feito: rua do Laço de Fita. Me diz: há coisa mais singela?

Laço de fita, que enfeita cabelo, vestido e presente, também adorna logradouro. E essa rua é continuação da Travessa Lanterna Mágica. Depois dizem que São Paulo é uma selva de pedra. Selva, talvez. De pedra, não.

Como são as casas da rua do Laço de Fita? Quem são as pessoas que moram nas casas da rua do Laço de Fita? Que laços têm entre si as pessoas que moram nas casas da rua que tem fita no nome? E quando se passa o endereço para o disque-pizza, a redonda vem com lacinho combinando? Ih, deu nó.

Caio na tentação de adivinhar a razão do nome. Invento três.

Primeira. Inaugurada com pompa e circunstância, o prefeito da cidade corta o laço de fita da rua novinha em folha, com nome homenageando um senhor húngaro que viveu ali na década de 60. Como, na hora, nem o prefeito acertou pronunciar o nome, ela é rebatizada em seguida.

Segunda. Metade do comércio da rua é de aviamentos. Todo mundo sabe, nesses lugares o que mais tem é laço e fita.

Terceira. Do enamorado para sua amada: “Comprei isto para ti”. É a rua, embrulhada para presente.

Diz o ditado que quem procura, acha. Eu, que até estava bem feliz com minhas razões inventadas, descubro, no site que conta a origem dos nomes das ruas paulistanas, que “Laço de fita” é um poema de Castro Alves. Já suspeitava, porém; esta história aqui quis virar verso desde o início, eu que insisti na prosa. Fita e laço dão poesia instantânea.

Como sou teimosa, agora vivo de imaginar a rua do Laço de Fita com os versos do poeta, grafitados ao longo dum muro branco e comprido. Visíveis também à noite, com ajuda da mágica lanterna da rua vizinha. Seria uma espécie de certidão de nascimento da via, atestando sua autenticidade. Bossa urbana, enfim. Que ia ficar bacana, ia.

E pensar que era para ser só um café e chocolatinho com menta.

A bailarina

Ilustração: Joel Ormsby/Flickr.com

Desde que não viva comigo, nem me deva nada, eu gosto de quem inventa a própria realidade e vive de acordo com ela, nenhuma outra. De quem gira noutra órbita, vibra noutro padrão e não quer nem saber quem pintou a mula preta. De quem está à margem, alheio às estações, sem saber que dia é hoje ou o que vai comer amanhã. De quem não se rende ao esquadro, mesmo que não saiba o que é isso e, de uma forma ou de outra, aguenta as consequências. Como a bailarina da rua.

Não pergunte por que lembrei. Tenho tantas coisas arquivadas na cabeça, procuro uma e vem outra. Centro velho de São Paulo. Avenida Ipiranga, Praça da República, Avenida São Luiz, algo de Edifício Itália, não lembro com exatidão. Só sei que foi por ali. Minhas lembranças visuais, vez por outra, não têm legendas.

Sendo assim, uma parte desta história foi pras cucuias, já que não lembro o que eu fazia, se estava calor ou frio, aonde fui depois. Estimo que tenha sido na década de oitenta, quando eu perambulava pela região praticamente todo santo dia. Não importa, porém. Um fragmento desse arquivo mental está intacto. O fundamental, o que resistiu ao tempo.

Em frente a uma dessas joalherias classudas – quando elas ainda se instalavam com razoável tranquilidade nas ruas – eu vi uma mulher. Jovem, maltrapilha, jeito de mendiga e ares de doidona. Diante da vitrine milionária, ela protagonizava um delicado balé. Ora atenta aos quilates em exposição, ora obcecada pela própria imagem refletida no vidro transparente, blindado à prova de pobreza. Nos braços, um amontoado de trapos, gentilmente embalado em carinhosa coreografia, como se houvesse ali um bebê. O bebê que, talvez, tivera. Ou que sonhava um dia ter. Ou nada disso, eram apenas seus farrapos mesmo. Às vezes, a gente põe poesia onde só cabe prosa.

Quem sabe a bailarina da rua já não usara um diamante? Assim como tem pobre que endoidece se fica rico, também tem rico que amaluca se empobrece. Que será que ela via na vitrine, além do evidente? Sobretudo, o que ouvia? De quais notas era feita sua sinfonia?

No balé-solo da Dona Doida, monólogo de loucura e diversão, a calçada era seu palco. As jóias, o luxuoso cenário. A cidade, o imenso teatro, plateia e camarotes. Quem mais comprou ingresso, além de mim?

Numa joalheria nada custa pouco. Dançar em frente a ela, no entanto, é de graça.

Carta para o motorista de trás

Moço

Logo vi. Alguém que gruda no carro um adesivo escrito “Festa do Peão de Boiadeiro, eu fui” não poderia ser alguém lá muito civilizado. Você pode até ter ido, moço. Para satisfazer seus instintos ancestrais. Mas não precisa contar para ninguém. Se fosse “eu vou”, eu compreenderia sua pressa ao tentar me ultrapassar pela direita. O evento é daqui cinco meses mas, com o trânsito de sexta-feira na capital paulista, você certamente chegaria atrasado.

Em todo caso, antes que você pense o contrário, eu não sou a culpada por ele. Estamos no mesmo barco. Embora, se estivéssemos de barco, era só pegar o rio Tietê e estaríamos longe, bem longe. Mas Deus nos deu rodas. Só nos resta brincar de somar as placas dos carros à nossa volta, checar os emails pelo celular, disfarçando bem para o amarelinho não ver, ou comprar pipoca de canjica oferecida de cinquenta em cinquenta metros pelos ambulantes, enquanto os fiscais não removem o caminhão quebrado ali na frente.

A maioria das pessoas diz, com orgulho, que não tem inimigos. Porém, ao ver pelo meu espelho retrovisor o seu olhar irado, os seus sinais que, confesso, nem sei o que querem dizer, mas boa coisa não deve ser, começo a acreditar que a afirmação não vale para mim. Não nos conhecemos, mas você age como se eu fosse sua inimiga. Ou, no melhor dos casos, um obstáculo a ser transposto, um organismo indesejável, um vírus a ser exterminado.

Que as pessoas se transformam atrás de um volante, todo mundo sabe. Quem nunca assistiu aquele desenho de Walt Disney, incrivelmente atual apesar de ter sido feito em 1950? Assim é você, moço. Meu avô diria que você está indo tirar o seu pai da forca. Mais alguns minutos e poderá ser tarde demais. O motivo da condenação do seu pai? Ter permitido que você tirasse carteira de motorista. Talvez nem você saiba por que está com tanta pressa. Afinal, o importante é ultrapassar, não ser deixado para trás, chegar antes. Ainda que somente dois minutos e quinze segundos antes.

Do meu posto, eu vejo tudinho o que você faz. Seu ar de enfado, sua investida frustrada na ruiva da pickup ao lado, seu ímpeto de viver um dia de fúria como o Michael Douglas. Não há saída, meu caro: ou encolhemos nossos carros, ou criamos mais ruas. Ou vamos todos viver felizes em Borá, o menor município do país, pertinho daqui. Nem todos os quase mil habitantes de lá têm carro, um sossego. No entanto, no meio desse caminho ficamos, eu e você, nessa relação tão delicada. Eu sou a motorista da frente que, para você, não anda. Você é o motorista de trás que, por não ver direito o que acontece lá na frente, dá de esbravejar, esmurrar, gesticular e ameaçar lançar seu carro contra o meu como se os cavalos do seu motor fossem de verdade. Trânsito é uma das mais tristes variantes da cegueira urbana, a psicopatia temporária manifesta até por cidadãos de bem. É, moço. O mundo ficou pequeno para tantos bólidos. E, por causa do caminhão, não adianta reclamar: todos nós passaremos, mas um de cada vez.

Por falar em mundo pequeno, já pensou se estamos indo ao mesmo lugar? Imagine: você está indo visitar um amigo no mesmo prédio onde mora minha amiga que faz aniversário hoje. Vai ter festinha e eu não perco o rissole de palmito da Dona Janu por nada deste mundo. Estacionaremos na mesma rua, aguardaremos juntos o porteiro nos anunciar. Você vai ao quinhentos e um; eu, ao seiscentos e dois. Como no desenho de Disney, você já terá desincorporado o malévolo senhor Wheeler para voltar a ser o gentil senhor Walker. Até se oferecerá para apertar o botão do sexto andar.

Não é impossível que isso aconteça, moço. Portanto, melhor você se comportar e parar de piscar o farol. Senão, eu conto para todos no elevador (lá no prédio onde, se meu devaneio fizer sentido, a gente vai se encontrar) que você tira meleca do nariz e depois fica analisando o material.

Atenciosamente,

Moça da frente

No Pátio do Colégio

Ilustração: Karro Lean/Flickr.com

Dei para ter lembranças, verdadeiros flashes de memória. Assim, aleatórias. Do nada. Elas vêm e vão em fração de segundos, e eu preciso laçá-las – como se laça um cavalo manso, velho conhecido no pasto, porém ágil demais – se quiser revivê-las. Elas parecem desconectadas dos sentidos tradicionais, já que não têm nenhuma relação com o que estou fazendo, vendo, ouvindo, provando. Embora devam estar especialmente ligadas a algum outro, ainda incompreendido. É como se vivessem pairando pelo infinito e de repente um delas pousa. Ou re-pousa. Um amigo costuma dizer: tudo o que já aconteceu continua a acontecer, só que noutra dimensão; assim como o que ainda não aconteceu está acontecendo nesse exato momento, também em outra dimensão – daí as premonições, as vidências.

Tarde de domingo, lavo uns copos. E esta aqui surge num galope.

São Paulo, Pátio do Colégio, seis e meia da manhã de algum dia entre 1986 e 1988. O sol despontava amarelando as antigas construções, preservadas aqui e ali como foi possível. A cidade acordava aos poucos e alguns madrugadores, como eu, também já haviam começado seus dias. Era nesse cenário que eu esperava o 408, trólebus marrom, silencioso e confortável, que me deixaria na faculdade vinte minutos depois. A linha existe até hoje: Machado de Assis/Cardoso de Almeida. Apesar de eu detestar, com todo afinco, estar em pé àquela hora, não houve como não me encantar com a cena. Duvido que algum daqueles madrugadores se lembre. Talvez nem o sujeito da história, caso seja vivo. Se bem que verdade seja dita: eu não o vi. Eu o ouvi. O silêncio da manhã fora quebrado por uma voz de homem, voz ainda moça, aguda e afinada, forte, porém suave, inaugurando o dia numa velha canção que ecoou pelas ruas estreitas onde, séculos antes, a cidade nasceria:

Toda manhã, pela manhã

Abra a janela, faça sua lei

Dê viva ao sol

Que ele é nosso rei

Ele cantava só esta parte, ou foi então somente o que guardei. Gosto de pensar que era um travesti retornando ao lar após uma noite de trabalho e diversão, homenageando o sol que surgia. E não vê-lo conferiu ao que construí posteriormente como lembrança um mistério extra. Feito mágica, sua voz, favorecida pela acústica das ruas ainda semidesertas, acordou os pombos, os paralelepípedos, os prédios velhos e sonolentos. E se viesse do céu? Ou de dentro do colégio? Quem sabe era a alma perdida de algum jesuíta nostálgico. Ou de um índio resistindo ao catecismo, lembrando que seu Deus, seu rei, era outro. Que, no fundo, era o mesmo. Só que nenhum dos dois sabia disso.

O homem parecia caminhar em direção à Praça da Sé, que fica ali ao lado. Sua voz foi ficando distante. Vez por outra o vento a trazia… Dê viva… de volta ao pátio… Sol… Até que … Nosso rei… silenciou por completo e o 408 chegou.

Está bem, está bem. Uma cena dessas com trilha sonora de Benito di Paula talvez não tenha tanto charme. Fazer o quê. Mas se um dia eu fizer cinema, ela estará lá, na íntegra, tal qual eu a registrei no pensamento. Juro que vai ficar linda.

Os parentes de Santo Amaro

Foto: detalhe da estátua de Borba Gato, Augusto Gomes/Flickr.com

A Dona Antonia morava na casa quatro. Nós, na um. Ela costumava receber visita de uns parentes que moravam no bairro de Santo Amaro. Eu tinha a maior admiração por eles. Quando o carro entrava na vila, eu ia espiar pela janela do quarto dos meus pais. Era um carro lindo – eu achava que eram ricos – e podia vê-los desembarcando. Os parentes. Tinha sempre uma ou duas crianças, talvez sobrinhos, que de vez em quando brincavam conosco. Mas eram forasteiros, crianças muito diferentes de nós. Lembro de acreditar que eles deveriam ser melhores que nós em tudo. O carro do pai deles era melhor. Assim como as roupas que usavam. A casa. A escola, então, nem se fala. Só não me lembro deles. A lembrança que tenho é coletiva, como uma entidade – eram só “os parentes de Santo Amaro”. Bom mesmo deveria ser morar lá. E não na Mooca. Pensava: criança de Santo Amaro certamente podia comer Flan Dany todo dia.

Para mim se tratava de um lugar muito, mas muito distante. E não a apenas dezessete quilômetros de casa. Tudo é longe quando se é criança. (Preciso lembrar-me disso quando, na viagem, meu filho pergunta Mãe, já está chegando?) A gente vai crescendo e o mundo, encolhendo. O meu tem ficado cada vez menor. Tudo me parece logo ali. O pior é que nele também não está cabendo mais uma porção de coisas que cabiam antes.

Quando descobri que Santo Amaro, além de não ser tão longe assim, não era um reduto de gente rica, nem um lugar fantástico, senti uma tristeza e alívio imensos. Então era ali que eles moravam? Só faltava ser perto da estátua do Borba Gato. Que, além de horrorosa, foi erguida em homenagem a um bandeirante paulista não tão nobre quanto se fez acreditar.

Tantos anos e quilômetros depois – cento e dezessete, para ser mais exata –, até hoje quando passo por ali ou leio alguma notícia de lá, é dos parentes da Dona Antonia que me lembro. A força do mito.

A mão da santa

Foto: Maria Guimarães/Flickr.com

P. tem cuidado muito dos santos, ultimamente. Os santos da Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, que há tempos precisavam de um carinho. A pequena igreja, feita de taipa de pilão e tombada pelo patrimônio histórico, fica escondidinha no centro de São Paulo e agora está sendo restaurada. Era ali que, antigamente, os escravos condenados davam uma passadinha para rezar, antes de serem enforcados em praça pública, ali perto, onde hoje fica o Largo da Liberdade. Daí o nome da igreja. Pois tudo o que aquelas pessoas poderiam pedir, àquela altura do campeonato, era uma boa morte.

Eu conheci P. no final dos anos oitenta. É uma mulher bonita, alta, magra, esguia, criativa e inteligente. Naquela época, sem noção de sua beleza (ou talvez ciente demais), se escondia nos jeans, camisetas, sapatos sem salto e na ausência do batom. Mesmo assim, chamava a atenção por onde passasse. P. cozinhava, costurava, tricotava, gargalhava, dançava. Dona de um fino senso estético sobre todas as coisas, conversava coisas incomuns e amava intensamente seus amores. Ficou viúva. No velório de T. eu a abracei forte. Seu olhar pedia que eu lhe dissesse o que seria dela daquele dia em diante. Não pude atender minha grande amiga naquela hora: eu não sabia.

O ofício de P. é restaurar objetos que já viveram demais, e que precisam continuar vivendo. Para que, de certa forma, eles expliquem nossa vida, de onde viemos e como chegamos até aqui. Os santos dessa igreja, em especial, devem ter muita história pra contar. Quanto desespero devem ter visto, quanto apelos devem ter ouvido. No entanto, imóveis em sua santice de barro, louça ou madeira, pouco podiam fazer pelos condenados.

P. chegando pela manhãzinha em seu ateliê. Ela diz “bom dia” aos seus santos e se prepara para o trabalho. Um nariz quebrado, um manto puído. Enquanto mexe aqui e ali, vai ouvindo os pequenos e gelados amigos contando coisas do passado. E quando volta para sua casa, à noitinha, certamente chora por tudo que ficou sabendo.

Há nove anos P. e eu não nos vemos. Três anos atrás encontrei, por acaso, um endereço seu, perdido na agenda. Escrevi. Ela respondeu, atualizamos a amizade, o carinho, as saudades e as novidades. E mais uma vez nos distanciamos. Agora, vez por outra nos damos um alô.

P. também costuma recolher bichos abandonados. Os mais recentes – uma cadelinha doente e um gatinho – foram resgatados do Centro de Controle de Zoonoses. Um nobre ato de misericórdia, posto que os animais que vão parar lá e não chegam a ser adotados sequer têm uma igreja aonde possam fazer uma última reza antes do sacrifício. Cujo método, tirante a semelhança da crueldade, chega a ser mais moderno que os enforcamentos dos nossos ancestrais.

Semana passada, após um bom período de silêncio e às voltas com a santaiada da igreja, ela me escreveu:

“Imagine você, que eu estava aqui retocando (vamos ser mais técnicas: reintegrando a policromia) e, olhando as mãos da santa, lembrei das tuas: tão branquinhas! Tem até umas manchinhas como se fossem sardas…”

A lembrança, espécie de elogio, comoveu. Eu não tinha noção – embora fosse de se esperar, pois a praia de P. é o detalhe – de que minhas mãos merecessem. Muito menos tanto tempo e ausência depois.

Acabou que naquele dia fiquei olhando para as minhas mãos mais do que de costume. Tentei me lembrar como elas eram, para entender como elas estão. Ainda são branquinhas. Mas nem tanto, o sol campineiro é mais implacável que o paulistano. O que, nesse ponto, confere à terra da garoa um fator a mais de proteção, ainda que solar. Continuam com sardas. Há nove anos uma aliança vive na mão esquerda, sem ter passado pela direita. Não são mais mãos jovens, com fome de mundo, como aquelas que P. conheceu. Tampouco são as mãos da última vez que nos vimos – já mudaram. Longe de serem santas, elas envelhecem com o resto do meu corpo, no mesmo compasso, nem adiantadas, nem atrasadas. Elas escrevem, desesperadamente escrevem. E hoje já fazem menos sinais feios no trânsito. Sim, as mãos também criam juízo.