De olhos (quase) fechados

Arte: André Fromont
Arte: André Fromont

É estar na aula de yoga, na meditação ou em qualquer outra atividade que envolva exercícios de relaxamento, e chegar a hora em que todos são convidados a fechar os olhos para que os meus, insubordinados, façam justamente o contrário, postando-se atentos a tudo ao redor.

Nessa hora, secretamente, espio os outros em suas imobilidades, tão impossíveis para minha condição humana. Confiro quem alcançou o nirvana e quem está quase lá. Reparo nas roupas, nos cabelos, nos pés. Não raro, detecto meias sujas, furadas. Invento histórias de vida para todos, arrumo-lhes amores, crio profissões e manias, atribuo personalidades.

Não tenho déficit de atenção, devo ter superávit de imaginação. É grave, doutor?

Eu deveria estar aquietando a mente, mas os pensamentos resolvem dar plantão. Enquanto ouço as instruções, repasso as pendências do dia, investigo as unhas, as mãos, preciso de uma esfoliação. Lembro dos e-mails que tenho de mandar e dos filmes que quero assistir mas preciso ver quando vai dar porque no próximo final de semana vamos viajar e no outro tem aniversário do amigo do filho será que ele gostaria de ganhar quebra-cabeça ou talvez prefira um livro sobre dinossauros tem um bem bacana na Cultura.

Reverta a distração; foco, Silmara!

Fecho os olhos, ajeito-me na posição, respiro longamente. Agora vai. Trinta segundos depois, o olho esquerdo parece não me pertencer. Mantém-se semicerrado, aquele vaso é novo. Que camisa horrível. Acho que vou passar na padaria antes de ir para casa.

E não é privilégio só da yoga ou da meditação. Nos velórios, é alguém sugerir a derradeira oração pela alma que se despede, “Vamos fazer um círculo e dar as mãos”, e dou início ao escaneamento dos presentes, dos cabelos às barras das calças, em alta resolução. Examino lordoses, calculo índices de massas corporais, repagino layouts.

A maior vantagem de ser gente é pensar no modo “mute”.

Estou ciente de que, desse jeito, não pode haver progresso na minha busca de paz interior. Sou a desconcentração encarnada, um arremedo de ser iluminado, caso perdido.

Meditarei a respeito.

 

ps: esta crônica era para ser publicada amanhã, sexta, como de costume. Mas eu me enganei bonito, e acabei postando hoje. De modos que, crônica nova, só na terça que vem. Se eu não me enganar de novo, claro. Haja meditação.

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6 comentários sobre “De olhos (quase) fechados

  1. Vc vai pro céu de trem bala por fazer a gente rir TANTO! Amo, me identifico com algumas coisas… a Isa, minha irmã tbm…- é com ela que compartilho seus textos em voz alta e risadas galhofantes – via skipe!

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  2. Adorei o superávit de imaginação… revisão de conceito… lendo fiquei imaginando vc em profunda meditação, mas como eu falo… já medito o tempo todo…na vida tudo é relativo… beijossssssss

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  3. para a minha primeira leitura do dia, vou ter muito pra medita o dia todo… pena que vou ter um tempinho pra sentar e fechar os olhos, vou pensando e imaginado tudo entre uma coisa e outra … Beijinho Sil, Você é de mais!

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