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Mappin, venha correndo

violão

Anos 80, ganhei um violão. Cheguei no Conservatório Leopoldo Miguez e fui logo avisando o professor: “Quero tocar como o Paulinho Nogueira”. Ele deu um longo suspiro, e iniciou as aulas teóricas. Brevíssimas, pois abandonei o curso assim que ele me fez solfejar. Duvi-de-o-dó que o Paulinho Nogueira tenha começado solfejando.

O violão fora adquirido no Mappin. A maior loja de departamentos de São Paulo era um alucinante formigueiro de nove andares, especializado em financiar sonhos de todo tipo, com o mantra “crédito automático”. Nem precisava de promoção para viver cheio. E quando tinha, não havia quem não ficasse sabendo, pela TV ou pelo rádio.

Mappin, venha correndo

Mappin, chegou a hora

Mappin, até meia-noite

Mappin, é a liquidação

A cada andar, aboletado em seu banquinho redondo, o ascensorista anunciava, enquanto comandava o abre-e-fecha das portas do elevador: Eletrodomésticos… Moda feminina… Cama, mesa e banho… Crediário. Imagine falar isso o dia inteiro, subindo e descendo, sem saber se lá fora era sol ou chuva. Ascensorista, contudo, era profissão mais que necessária, para garantir a segurança dos fregueses e a ordem do estabelecimento. Praticamente extinta, quase não se vê mais.

Naquele dia, fomos eu, a Rô, minha melhor amiga, e o pai dela. Ela também estava adolescentemente determinada a aprender a tocar violão. Experimenta daqui, testa dali, elegemos o Giannini: cabia nos braços e nos bolsos dos nossos pais. Mil cruzeiros, em três vezes no carnê. Todo dia 10, íamos pessoalmente à Praça Ramos de Azevedo pagar as prestações. Os ascensoristas, infalíveis: Eletrodomésticos… Moda feminina… Cama, mesa e banho… Crediário…

Depois da minha frustrada experiência no conservatório, eu e a Rô descolamos um professor particular. Ele dava aulas em sua casa e tinha unhas compridíssimas – levemente asquerosas – , somente na mão direita. Temi precisar manter aquele layout também, cogitei abandonar o instrumento. Mas o método pedagógico dele era interessante, espécie de fast-food musical. Em pouco tempo aprendemos a dedilhar “Como é grande o meu amor por você”, a romântica açucarada do Rei. Treinei os acordes à exaustão, fiquei craque. Submetia todos em casa a longas e desafinadas audições. Família é pra essas coisas.

Com as noções básicas aprendidas, encerrei a temporada de aulas com o professor de unhas compridas e virei consumidora das revistinhas com cifras. Sem, no entanto, jamais chegar aos pés do Paulinho Nogueira. Minha versão de “Menina”, nem a família se dispôs a ouvir. Tudo tem limite.

Um dia, não sei por que, guardei o violão no armário. Para nunca mais. E não sei onde ele foi parar. O Mappin fechou as portas na virada do século, soube que agora é loja online. O que não tem a menor graça, cadê o formigueiro, as vitrines, o burburinho? A Rô partiu faz tempo. Seu pai, alguns anos depois. Foram, como se diz, para o “andar de cima”. Que tenham sido conduzidos por gentis ascensoristas.

A vida também é feita de departamentos. Só não sei em qual setor a gente paga o carnê da saudade. Acho que esse não se quita nunca.

O velho conservatório continua firme no mesmo endereço. E todos os dias um professor recebe um novo aluno, decidido a ser, não um Paulinho Nogueira, que essa turma não o conhece (e não sabe o que está perdendo), mas a próxima celebridade do Tik Tok.

Se me dissessem hoje que o Mappin, o velho Mappin, reabriu no mesmo lugar, do mesmo jeito, eu ia correndo. Ah, ia.

Pijamas

pijama
ilustração: Karolina Pawelczyk

O dinheiro para roupas novas era curto. Solução: descolar um tecido aqui, outro ali, e inventar modelitos para minha mãe costurar. Vestido, blusa, calça, saia, conjunto.

Eu deixava Dona Angelina doidinha. Além dos modelos que via na TV e pedia para ela copiar, eu criava os meus. Alguns, irrealizáveis, davam uma trabalheira danada. Como se eu fosse uma arquiteta maluca, projetando estruturas que a engenharia jamais sonhara. Outros, ela tirava de letra. Não havia técnica que não dominasse. Era bom ter mãe costureira. Embora, adolescente, tudo que eu desejava era usar Pakalolo e Soft Machine.

Lembro da saia mídi de lãzinha marrom que usei com botas de caubói. Do vestido branco, igual ao da mocinha da novela das sete, com gola que abria de lado e faixa do mesmo tecido na cintura (usei-o em um casamento em Jacutinga). Da blusa azul-céu com pala frisada e golinha padre, desenhado em inédito desvario de recato. Da camisa amarela com ajuste de botão no quadril, que ficava subindo e era deveras irritante. Do macacão lilás de popeline, que passeou comigo por São Paulo inteira. Do colete feito de sacaria. O colete, meu Deus! Meus avós faziam panos de prato para vender. Vô Paschoal buscava no Bresser os sacos de algodão, aqueles de armazenar cereais, e os alvejava no tanque – o mesmo tanque onde minha avó, em passado tenebroso, afogava os filhotes recém-nascidos da nossa gata. Os sacos ficavam branquinhos da silva, uma beleza. Então, os dois passavam os dias cortando, fazendo bainha e bordando com linhas coloridas. Vendiam bem, na feira. Uma vez, pedi para minha mãe um colete de saco, na cor original, sem alvejar. Ela fez umas franjas no próprio tecido, dando à peça uma pegada riponga. Perfeito para a adolescente bicho-grilo que fui. Fiz relativo sucesso na escola.

Daria meu reino para ver, em algum arquivo perdido na memória, aquelas roupas todas. As imagens que guardo são difusas, sempre falta um pedaço. Talvez, hoje, eu me surpreendesse com os estilos que adotei ao longo da vida.

Em época de ficar em casa compulsoriamente, se viva Dona Angelina fosse, eu lhe pediria para fazer uns pijamas. De flanela, bem quentinhos. Não inventaria moda, só os básicos. Pijamas que me vestissem como um abraço dela. Pijamas mágicos, antivírus e antitristeza. Com botões de avançar no tempo. E que me fizessem sonhar, à noite, com dias melhores.

Eu não passo desta noite

Já que, vira e mexe, alguém na família desenterra essa história e, considerando que meus filhos sempre perguntam um ou outro detalhe dela, melhor registrá-la devidamente e de uma vez.

Meu primeiro pileque, aos doze, quase treze, foi assim.

Réveillon de 1979 para 1980. Família reunida, fartura na mesa: tender enfeitado com abacaxi, castanhas, uva Itália. Iguarias que só apareciam nessa época do ano. A casa 1 da vila era só alegria. Nas taças, a velha Sidra Cereser que a gente chamava de champanhe.

Durante os comes, não me contentei com a irrisória franquia do pseudoespumante a que eu, caçula, tive direito. Enchi a taça. Brinquei com meus irmãos, zanzei pelo quintal, catei algum gato, botei um LP na vitrola. Mais uma tacinha, que mal tem? Que gosto será que tem whisky? Meio forte. Tudo bem, é quase ano novo. Mais uma Sidra, mais um Drury’s. Drury’s! Diante da minha epifania alcóolica, Seu Tonico e Dona Angelina só observavam. Havia sabedoria na atitude deles.

Cinco, quatro, três, dois, um, adeus ano velho! Só mais um tiquinho de Sidra. Que tudo se realize no ano que vai nascer, muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender. Lá pelas tantas, a família se recolheu para merecido descanso. Eu dividia o beliche com minha irmã. Não me lembro como cheguei à cama de cima. Em meu desvario etílico, Morfeu me aguardava, com o Eno na mão.

Meu estômago adolescente, acostumado a Ki-Suco e Guaraná, estranhou as novidades. No meio da madrugada, a fatura chegou. Foi como a erupção de um furioso (e fétido) vulcão, vindo montanha, ou melhor, beliche abaixo.

Os Franco acordaram, assustados.

Acode a mini-ébria, traz pano de chão, pega desinfetante, limpa o rebosteio, troca o pijama. Enjoada, eu me revirava, agora, na cama de baixo. Cedida pela minha irmã que, por pouco, não fora atingida pelos meus, digamos, dejetos estomacais. Foi ali que cunhei o bordão que, segundo familiares, eu repetia de minuto em minuto, em profética gemedeira: “Eu não passo desta noite”.

Não só passei como, no dia seguinte, debutando na ressaca, fui obrigada a encarar o sintético sermão da minha mãe: “Agora você aprende”.

A pedagogia deu certo. Desde então, nunca mais coloquei uma gota de whisky na boca. Não que eu seja abstêmia. Mas é comum vinho sobrar em minha taça. Nos formulários médicos, nunca sei o que responder. Deveria existir uma zona intermediária entre “nunca bebo” e “bebo socialmente”. A verdade é que não vejo muita graça.

Já vi, porém. É mister anotar que o porre inaugural na infância não foi o único. Na juventude, contabilizei uns dois (três?). Em um deles, conta a lenda que, ao deixar um boteco com minha irmã e amigas, saí pelas ruas da Vila Madalena, virada no vinho, e sentei-me sobre um latão de lixo na calçada. Pedi para me deixarem ali, pois aquele era o meu lugar.

Sempre dramática.

Régua T

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De adolescente, vivi inúmeros conflitos típicos da fase. Amores não correspondidos, absorventes que vazavam, vergonhas infinitas, medos diversos, dúvidas esparsas. Poucos, no entanto, se igualaram à tragédia de carregar uma régua T, diariamente.

Aos quatorze, cismei que seria arquiteta. Influência evidente da irmã, que já trilhava o caminho.

Achei por bem optar por um colegial técnico, para chegar à faculdade de arquitetura mais azeitada. Avaliei os cursos disponíveis e, determinada a ser a versão sardenta do Niemeyer, escolhi Edificações.

Uma das melhores escolas do ramo: Liceu de Artes e Ofícios, no bairro da Luz. Do outro lado da cidade. Encarei o vestibulinho. Passei, que felicidade! Eu estava razoavelmente familiarizada com os materiais que minha irmã usava em seus trabalhos, papel vegetal, escalímetro, caneta nanquim, normógrafo e a própria régua T. Não tinha ideia, porém, do que me aguardava.

A Wikipedia assim a define:

Régua T é um instrumento próprio para desenho técnico. Assim como a régua paralela, é utilizada para apoiar o esquadro ou para traçar linhas paralelas quando apoiada na mesa de desenhos. Possui em média 80 cm e normalmente é de madeira com detalhes em acrílico. É uma régua de forma da letra T, e tem como benefício ajudar o desenhador durante o desenho.

Em meu dicionário particular, o significado é outro:

Régua T é um instrumento de tortura, causador de sofrimento. Não à toa, seu formato lembra uma cruz. Sua função, além de auxiliar na produção de desenho técnico, é fazer a pessoa que a carrega passar vergonha, onde quer que esteja.

Com oitenta centímetros de comprimento, praticamente metade da minha altura, não havia mochila ou pasta que a coubesse. O jeito era levá-la nas mãos. O que também não era simples. Seu formato de espada a transformava em uma quase arma. T de trambolho. T de troço. T de tranqueira. T de traumático. T de tridente – o Diabo, certamente, inspirou-se nela.

Da Mooca, eu tomava o 3104 que me deixaria na Praça da Sé. De lá, metrô até a Estação da Luz. Na volta, descobrira um ônibus direto, com percurso mais curto, porém mais lotado. Ao menos, a régua T só enroscava em uma catraca.

Considerando que sou dotada de apenas duas mãos, e enquanto uma delas tratava de agarrar as barras para garantir minha estabilidade no coletivo chacoalhante, a outra eventualmente abraçava os livros (só fui ter mochila mais tarde). De modo que faltava a terceira mão para tourear minha cruz, digo, régua T, que insistia em esbarrar nos passageiros, alguns em pleno cochilo. E, eventualmente, uma quarta, para alcançar a cordinha e informar o motorista que eu desceria no próximo ponto. Depois de “com licença”, “desculpe” era meu vocábulo mais empregado durante o trajeto.

Então, eu compreendi o calvário de Jesus Cristo.

Junto à régua T, geralmente eu levava um canudo de papelão, do mesmo tamanho da régua, com os desenhos. Para facilitar o transporte, eu prendia os dois com elásticos. O que, aparentemente, parecia uma solução inteligente, apenas dobrava minha tragédia. O canudo escapava, os elásticos rompiam, a ponta da régua cutucava a cabeça dos passageiros sentados.

Foram três anos de flagelo.

Eis que, quando o curso estava prestes a ser concluído, comuniquei à família: não vou mais fazer arquitetura. Quiseram saber o porquê. Expliquei que já tínhamos uma arquiteta na família. Que eu flertava com a publicidade há algum tempo. Que me dedicaria a ser a versão sardenta do Washington Olivetto.

Só não contei tudo. A razão, claro, foi a régua T.

Saudade, 7 letras

arte: Ruth Eastman

A Madalena usava um salto deeeste tamanho. Entrava na sala, tec, tec, tec, subia no tablado (toda sala de aula tinha, para reforçar a hierarquia), colocava suas coisas sobre a mesa, apanhava o giz e anunciava, “Cruzadinha, pessoal!”.

Professora de Geografia, a mestre loura de sorriso largo era aficionada por palavras cruzadas. Dava a matéria toda assim. Canal que liga o Mar Vermelho ao Mar Mediterrâneo, 11 letras. Capital do Paraná, 8 letras. Até que era didático. Mas ela abusava do método. A turma virava cruzadista na marra.

Equilibrada em seus Luiz XV impossíveis, Madalena lançava o desafio no quadro-negro (que era verde) e a gente copiava no caderno. Era preciso atenção para não errar a quantidade de quadradinhos. Fiquei craque em desenhá-los, na horizontal e na vertical. Nem usava régua.

Em casa sempre tinha revistinha de palavras cruzadas. De pequena, eu gostava da Picolé, nível café-com-leite. Cresci, passei para as difíceis. Às vezes, dava uma espiadinha nas respostas na última página. Nunca admiti, porém. Trapacear nas palavras cruzadas é mais ou menos como colocar filtro no perfil do Instagram.

As revistas Coquetel seguem resistindo bravamente, mesmo em tempos de internet. São patrimônio do léxico brasileiro. Hoje dá para fazer palavra cruzada online. E qualquer pessoa pode, num clique, criar as suas próprias. Se tem o mesmo charme das antigas, não sei. Nostalgia, 9 letras?

Nostalgia é meu nome do meio. Sou feita de saudade não idealizada. Não é que eu queira reviver o passado. Adolescência, tirando meia dúzia de delícias, é fase esquisita. Não se é adulto, também não se é mais criança. O corpo indefinido, as ideias idem. Tantos medos esparsos, a maioria bobos. Meu desejo era poder, hoje, assistir às cenas vividas, feito espectadora. O filme da minha vida.

Rever os rostos dos antigos colegas de classe, e me ater aos dos que já partiram. Ver as velhas e pesadas carteiras de madeira do primário. O tampo da mesa era emendado ao assento do aluno da frente (quem foi o gênio que bolou isso?), motivo constante de problemas durante a aula, “Professora, fala pro Fulano parar de balançar, assim não consigo escrever!”. Ouvir o sinal do recreio, ver mais uma vez a cantina do Wanderley. O indefectível sanduíche de mortadela no pão francês com Guaraná Caçulinha de todo santo dia. O uniforme das aulas de educação física, meu pesadelo. O salto da Madalena era mesmo assim tão alto? E por onde ela andará? “Ô Ma… Ô Madá… Ô Madalê… Ô Madalelelelena, ô Ma”. Saudade, 7 letras.

Dizem que fazer palavras cruzadas rejuvenesce o cérebro, deixa o raciocínio mais rápido. Eu nunca mais fiz, ninguém aqui em casa tem o hábito. Mas vou montando as minhas, mentalmente. Organizando memórias num grande registro quadriculado, por vezes inexato. E não preciso mais olhar as respostas. Já estou nelas.

Mocinha

Não gostava quando diziam: “Fulana ficou mocinha”. Ainda não gosto, embora compreenda. Tem palavra mais horrorosa que menstruada? Só genuflexório. Ou locupletar.
 
Também não entendia por que diabos as amigas falavam num tal de Chico para se referir à menstruação. Ainda se fosse Chica. Recusava-me a usar a expressão, antes mesmo de saber o significado.
 

Como eu ouvia as moças conversando sobre absorventes e quetais, ficava ansiosa para que chegasse minha vez. Um dia – já contei essa história – , eu era bem pequena e resolvi colocar um Modess da minha mãe. Os absorventes não eram como os de hoje, ultrafinos, diversos tamanhos, com abas, sem abas, com perfume, sem perfume. Coloquei calça comprida e fui dar um rolê. Voltei rapidinho. Senti-me usando fralda. Joguei no lixo e filosofei: eu era sortuda por não ter que usar aquilo.

Então, chegou o dia de usar aquilo.

Assim que menstruei, minha mãe tratou de me levar ao Dr. Fuad. Era o médico da família, e não ginecologista. Tinha rosto quadrado e implante nos cabelos, o que lhe dava ares de Frankenstein. Gente boa. Lembro de ele ter dito, polidamente, que precisava examinar minhas “partes baixas”. Melhor do que dizer que examinaria minhas “vergonhas”. Muita gente falava (fala) assim. Não à toa que o mundo, para as mulheres, é o que é.

Eu tinha doze anos e, sem saber que estava diante de inevitável suplício hematológico, cheguei a comemorar. Tolinha. Os tempos que se seguiram foram memoráveis. O que não quer dizer que foram bons.

Não sabia, por exemplo, calcular direito a hora de trocar o absorvente. E, para piorar, aquele período era como um rio que passava em minha vida, mensalmente.

Certa vez, na escola, senti que algo saíra do controle. Sem coragem de pedir ajuda à professora de Ciências, ou licença para ir ao banheiro, tentei permanecer imóvel na carteira. A cada movimento, uma respirada mais profunda que fosse, o estrago ficava maior. Era a última aula. Rezei para que a professora não me chamasse à lousa, e Deus, compadecido de minha miséria, atendeu. Enquanto ela discorria sobre os estados da matéria (o líquido eu já sentia, na pele), tive a brilhante ideia de me sentar sobre uma de minhas pernas, para que o fundo da calça não tocasse a cadeira, que era verde-água. Naquele dia, eu usava um mocassim de couro da minha irmã, bem clarinho, pelo qual ela tinha certo xodó. Não sei se o fiz à época, mas revelo agora a razão daquela mancha escura em um deles, que jamais saiu, nem com água oxigenada. Quando o sinal bateu, levantei-me e estiquei, com a força do pensamento, o comprimento do avental branco que usávamos por cima da roupa. Desci a rua de casa correndo, me sentindo o próprio Mar Vermelho.

Eu andava de ônibus para cima e para baixo, em São Paulo. O que, naqueles dias, se transformava em experiências pra lá de constrangedoras. Quando me levantava do banco e dava sinal ao motorista de que eu desceria no próximo ponto, eu tinha cer-te-za de que uma imensa e colorida mancha decorava meus fundilhos, e que todos os passageiros olhavam para mim e cochichavam entre si, caçoando ou com dó da garota com absorvente vencido. Suava frio, sentia o rosto queimar, queria desaparecer. Depois, quase sempre, via que havia sofrido em vão e tudo estava sob controle. Sem controle era minha imaginação. E minha insegurança.

Em compensação à minha inabilidade para, na prática, lidar com a natureza, na família não rolava obscurantismo. Nunca me proibiram de lavar os cabelos, andar descalça ou outras crendices, enquanto estivesse menstruada. Algumas amigas não tinham a mesma sorte.

Aquela “mocinha” dos anos 70 se transformou em senhora. E hoje me pego novamente ansiosa, mas por outro marco biológico: a menopausa. Que, ainda bem, é uma palavra mais bonitinha.

A rua

“Street”, Lea Vervoort

As casas perfeitas eram sempre de frente para a rua. Onde, da calçada, já se entrava na garagem, e da garagem, na sala. Nessa sala, idealmente, a janela tomava a parede frontal toda, nada de janelica. E dela se podia ver o movimento lá fora: quem vinha pela calçada, quem passava de moto, de carro, os vendedores de tudo, os ônibus, os vizinhos. Glória, então, se fosse sobrado: além da escada, que eu considerava chique, o quarto da frente, sobre a sala, virava camarote.

Não fui criança de desejar viver em mansões, palacetes, nada disso. Modesta, bastava-me um sobrado geminado de frente para a rua – típico da Mooca, meu universo natal e então única referência arquitetônica – e eu estaria realizada.

Quis o destino, esse fanfarrão de marca maior, que eu fosse viver em uma pequena vila, de onde não se via absolutamente nada da rua, nem uma nesga de calçada. Ainda se fosse a casa 4, da Dona Antonia, que era a última e única alinhada ao corredor de entrada da vila. Mas não: a vida colocou-me justo na casa 1, a do canto, a mais distante de tudo e de todos. Quando o moço do biju passava com sua matraca, teleq-teleq-teleq, era preciso sair correndo para alcançá-lo já quase na esquina, pois nem sempre ele adentrava a vila para oferecer seu quitute. Quem morava de frente para a rua não passava esse apuro.

Suspirava quando ia à casa das amigas. Em frente às suas salas, seus quartos, suas garagens, se dava a adorável e mágica dinâmica da rua. Como elas deviam ser felizes! Era como pertencer à grande festa cotidiana, fazer parte do filme urbano, viver, enfim. Na vila, eu me sentia fora do cenário, do enredo, do baile.

Não que detestasse a vida na vila; ela acabava sendo uma extensão do nosso diminuto quintal, onde se podia brincar à vontade, andar de bicicleta e skate, sentar no chão e ficar conversando até tardão.

O problema surgiu à medida em que a adolescência chegava. A rua era o cosmos onde circulavam os amigos, os inimigos, os paqueras. E, da janela da nossa sala, eu não avistava nada, além do tanque onde meus avós lavavam roupa. Do quarto dos meus pais, que dava para a vila, só os fundos das casas da frente. E alguns telhados do quarteirão, com eventuais gatos zanzando. Pouco, para minha sede juvenil de acontecimentos (e pertencimento).

Movida pela quimera da moradia ideal, punha-me a desenhar, obsessivamente, casas imaginárias sob medida para a minha felicidade. Caprichava na planta, me dedicava às fachadas. Talvez tenha escolhido Técnico em Edificações no segundo grau por conta disso. Ainda bem que a opção mostrou-se, a tempo, puro delírio.

Mudei-me da vila já adulta. Outros lares vieram, e a vista para a rua nunca mais foi requisito. Os sonhos envelhecem.

Há anos moro em um condomínio horizontal, que nada mais é que uma vila grande. Retornei às origens, por deliberada vontade. Nossa casa é uma das últimas, escolhida a dedo. Quanto mais longe da rua, dos barulhos, dos ônibus, das fumaças, das buzinas, das motos, dos escapamentos adulterados, melhor. Não que tenha deixado de gostar da rua; agora, eu decido quando quero vê-la. Passei a apreciar, sem sofrimento algum, o silêncio e o sossego. A melhor coisa de se ver ao acordar, descobri, não é a rua. É um bem-te-vi carregando um galhinho no bico.

Sinto falta, porém, do moço do biju. Em compensação, tem o sorveteiro. Aos sábados, ele passa na rua de trás, anunciando no alto-falante sabores de creme e de frutas. Que eu nunca comprei.

As piscinas

Dos meus sonhos de adolescente, ser sócia do Juventus foi dos mais acalentados. Afinal, todas as minhas amigas eram. A Mooca inteira, aliás, era sócia do clube. Menos a gente.

A carteirinha de sócio representava uma espécie de credencial para o olimpo mooquense. Passaporte para o paraíso. Pura ostentação. Imaginava-me passando com ela pelas catracas, desfrutando aquelas piscinas imensas com um milhão de amigos nos finais de semana, voltando para casa só à tarde, bronzeadíssima. Coisa de rico.

Porém, a realidade era outra. Segunda-feira, na escola, os que haviam se encontrado por lá engatavam conversas acerca dos babados piscínicos, dos quais eu não participara. “Te vi no Juventus!” era a senha para que eu me sentisse aquaticamente excluída.

O Atlético Juventus é o clube de futebol queridão da Mooca. Nunca dei bola para jogo; em esportes, pratico o ateísmo. Jamais pisei no antológico estádio da rua Javari – mas já provei o igualmente memorável cannoli do Seu Antonio, o que me livra da fogueira da inquisição. Só as piscinas (na sede social, em outro endereço do bairro) me interessavam. A felicidade, meu bem, era líquida e cheirava a cloro.

O título custava uma fortuna. Mensalidade, idem. Eu nem pedia aos meus pais, sabedora da resposta. Secretamente, afogava minhas tristezas no chuveiro e tratava de fazer outra coisa nos sábados, domingos e feriados.

Apesar disso, frequentei o clube, nos eventos abertos ao público. Fui das matinês de Carnaval regadas a lança-perfume aos shows do Roupa Nova e Fábio Jr., quando este era um jovem galã. Não que fosse fã. Mas o que a gente não faz para pertencer ao bando? As piscinas, no entanto, continuavam proibidíssimas para não-sócios. Não eram para o meu bico.

Eis que cresço e viro adulta. Minha irmã, mais velha que eu, decidiu que o Juventus agora cabia no orçamento. Ela, que também viveu a angústia de ter cem por cento dos amigos donos da carteirinha encantada. Lá fomos nós, finalmente, debutar nas piscinas.

Como nativa do bairro, vos digo: meu, que chatice!

Deus ajuda quem cedo madruga, e isso vale para as piscinas dos clubes. Quem chegava depois das dez – como nós – tinha que se contentar em torrar nas arquibancadas perto da piscina olímpica, muito mais quentes e disputadas a tapa com outros banhistas. Além disso, nem sombra dos amigos do passado. Onde foram parar todos?

Aos poucos, deixei de frequentar. Sonho vivido com atraso, às vezes, não tem mais efeito. Meu clube hoje é a rua.

Eis que cresço um pouco mais. Nossa caçula vive pedindo para ficarmos sócios de algum clube. Ela tem a idade que eu tinha, quando desejava a mesma coisa. Costumo enrolar, tenho preguiça, invento falta de tempo, deixo escapar o desinteresse.

Sei que não é justo agir assim. Ou tomo uma atitude ou, se a história se repete, já sei a primeira coisa que ela fará quando crescer.

1983

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ilustração: Jessica Lopez

“Vende-se – ano 83”. Olhei o Gol à minha frente, tão velho e desbotado. Trinta e cinco anos nas rodas, meu chapa. E, pelo jeito, muitos quilômetros de histórias. Todo valente pela avenida, disputando seu lugar com os irmãos mais novos. Deve ter visto de tudo por esses caminhos de meu Deus. Carregado tantas gentes diferentes.

Onde eu estava em 1983?

O sinal abriu, engatei minha retrospectiva particular.

Quando aquele Gol era novinho em folha, eu tinha 16 anos. Usava cabelos até a cintura, morava na casa 1 da vila. Pesava quarenta e poucos quilos e não gostava das minhas pernas, finas e branquelas. Short e minissaia, por autodecreto, não passavam nem perto do guarda-roupa.

De aniversário, ganhei a Carolina. A cachorra mais linda e doce do mundo. Grandona e folgada, quantas noites a deixei dormindo na minha cama e fui para o sofá. Para não atrapalhá-la. E também porque ela roncava. Ê Caró…

Foi o ano em que, após longa espera, instalaram nosso telefone. Plano de expansão da Telesp, vinte e quatro meses pagando o carnê. Eu era a única da turma que não tinha. Para nunca esquecer: 948-3443. Dona Antonia (a vizinha da casa 4 que quebrava nosso galho quando precisávamos ligar para alguém, ou se um parente precisasse dar notícia importante, geralmente de morte, cujo número era 92-6405) respirou aliviada.

Segundo ano do colegial técnico em Edificações, no Liceu de Artes e Ofícios. Queria arquitetura, como a irmã. De casa, na Mooca, até a Luz, ônibus e metrô. E seiscentos metros de caminhada pela rua Jorge Miranda, em meio às bostas dos cavalos do 2º Batalhão de Choque. Levantava-me tão cedo que, não raro, aportava na escola com a blusa do avesso, ou uma meia de cada pé. O importante era a régua T chegar intacta. Fazia bolo para vender na hora do intervalo. Hoje, quase não faço bolo para meus filhos.

Segundo ano de tratamento da minha mãe. Eu a acompanhava, o hospital era ao lado da Santa Casa. Dia de quimioterapia era o pior. Dona Angelina ficava um trapo. Em frangalhos também, meu coração. Sofrimento deveria ser contável e divisível. “Me dá metade do seu enjoo, dois terços das suas dores”, lhe diria.

Não me lembro de ter ficado doente em 1983. Igualmente, não tive namorado. Mas saracoteava à beça. Saía com os mocinhos e, de vez em quando, mentia, dizendo que tinha 17. E também dei trabalho ao anjo da guarda: andava na moto dos amigos sem capacete.

Escrevi poesias. Aprendi a tocar violão. Passei tardes inteiras ouvindo Vinicius de Moraes e Rick Wakeman. Costurei um macacão azul-céu de popeline para mim.

Em 1983, tinha ideia fixa com o ano 2000, tão distante e irreal. Gostava de pensar onde eu estaria. Em minha prospectiva, imaginava que, caso o mundo não acabasse no Réveillon, aos 32 anos eu haveria de estar casada e teria dois filhos. Manteria os cabelos longos e projetaria casas e prédios maravilhosos. Nessa última parte, errei feio.

Quanto deve estar custando o Golzinho?

Mortadela

O dindim para o lanche da escola tinha destino certo: sanduíche de mortadela e guaraná Caçulinha para acompanhar. Na minha tabela nutricional particular, não havia culpa, nem preocupação. Só alegria saturada.

A receita: pãozinho cortado ao meio, duas fatias – para justificar o preço camarada – de mortadela. Frio ou na chapa, dependendo do dia. Da escola, é a minha lembrança nota dez.

A mortadela divide opiniões gastronômicas e sanitárias. Posso afirmar, no entanto, que o sanduba de mortadela da cantina foi a síntese condimentada da primeira fase de minha vida escolar. Deveria constar em meu histórico acadêmico, ao lado das notas de geografia e matemática. Apesar de não botar a iguaria na boca há décadas, é dele que me lembro mais, tanto tempo depois. Das matérias, nem tanto. Quer dizer, nunca esqueci o que são, num verbo, radical e desinência. Achava linda essa palavra, desinência.

Vanderlei e Marli. O casal simpatia que tocava a cantina da escola, seu ganha-pão-francês. Como a dupla conseguia atender todos no breve recreio, era um mistério. Dava o sinal e um enxame de crianças famintas se aboletava no pequeno balcão. Que mané fila única, o quê. Éramos alunos selvagemente civilizados. Ou civilizadamente selvagens. Se eu fechar os olhos, posso vê-los na minha frente, entregando o troco que eu nem conferia e enfiava nos bolsos do avental branco.

(Parêntesis: espécie de jaleco, o avental era a alternativa prática e detestável ao tradicional uniforme. Ia-se com qualquer roupa por baixo. Charme zero, tornando impossível desfilar a Levi’s ou a US Top novinha em folha. O meu vivia rabiscado de caneta e encardido, o chão era uma extensão natural dos bancos. No fim do ano, os colegas o assinavam, como lembrança para a eternidade. A eternidade dos meus não durava muito e logo eles iam para o lixo.)

A distância entre os hábitos alimentares de uma geração e outra é quase abissal. Ninguém se preocupava com glúten, lactose. Teor de sódio e prazo de validade não passavam pela nossa cabeça. E sobrevivemos. Mudamos muito no quesito comida. Recebo reclamações constantes dos meus filhos, por não fazer batata frita. Belchior estava enganado: não somos e nem vivemos como nossos pais.

Quando terminei o ginásio e precisei me mudar de escola, foi do sanduíche de mortadela que mais senti falta. Na nova não tinha. Eram as frustrações da vida se apresentando, fatia por fatia.

Nunca mais entrei na velha escola. Os amigos daquela época, nunca mais encontrei. O Vanderlei e a Marli? Nunca mais os vi.

Parece que toda saudade vem com um “nunca mais” dentro.

Três não é demais

orelha

Nina quis saber por que tenho três furos na orelha direita e só um na esquerda. Então a história, guardada em um buraquinho da minha memória, saiu para passear.

Naquele dia, voltei da escola decidida. Na manhã seguinte, os colegas me veriam com furos extras nas orelhas. Um eu já tinha. Os originais, feitos quando eu era bebezinha.

Certifiquei-me de que estavam todos ocupados em casa e rumei ao quarto da minha mãe. Afinal, para que recorrer à farmácia, gastar dinheiro, se agulha e um pouco de álcool bastariam? Eu era rústica e não sabia.

O álcool foi fácil. Peguei o que a gente usava na limpeza da casa – crente de que ele exterminaria qualquer bactéria mais atrevida. A agulha veio direto da caixinha de costura da Dona Angelina.

O plano: dois novos furos, um em cada orelha. Comecei pela direita. Providenciei a assepsia, ensaiei, respirei fundo. Segurei firme a agulha, mirei e pá.

A dor, completamente fora do meu script particular, não foi proporcional à profundidade que o artefato atingiu. A agulha entalou. Já não podia retirá-la facilmente, mas ela também não atravessara o lóbulo. Olhei-me no espelho. Tão pouco juízo para quinze anos. Se alguém entrasse no quarto, diria que estava em uma sessão de acupuntura, andava com enxaqueca. Desculpa furada?

Nina, a caçula, ouvia tudo com atenção. Ela, que nem bem chegara ao mundo, também teve suas mini-orelhas furadas. A madrinha assumiu a missão afetiva de acompanhá-la no rito ancestral. Apesar da bravura dos tempos idos, eu não reunia condições de ver meu próprio rebento sendo espetado.

Segurei o choro e empurrei a agulha um tiquinho mais, piorando significativamente a situação. Sangue, dor e agulha entalada. Perguntei à Silmara do espelho onde é que ela havia se metido. Não houve resposta. Pedir ajuda? Vô Paschoal, no quintal, viria em socorro da neta, não sem esbravejar com bom sotaque italianado. Sempre que ficava muito bravo ou muito alegre, as origens do velho torcedor do Palestra ressurgiam. Correr para a farmácia do Archimedes? Levaria um polido sermão do polido farmacêutico, “Sua mãe sabe disso, mocinha?”. Lançar tendência com a agulha, antecipando a moda do piercing? Ou migrar para o país do espelho, feito Alice? As dúvidas da minha adolescência não foram tão clássicas.

Comecei, então era preciso terminar. Foi quando me lembrei que, nas farmácias, a coisa era pá-pum. A pessoa piscava e já estava de brinco. Decidida, prendi a respiração e Deus – que usa um brinquinho maneiro, reparem – tomou conta do resto. Encerrei a furação, certa de que não havia absolutamente nada estranho em se ter dois brincos numa orelha e um na outra.

Evidentemente, infeccionou. Bronca, pomada, curativo. E os brincos tiraram férias por um bom tempo.

Taurinos são conhecidos pela teimosia. Se um furo em cada orelha era pouco, dois também, e três não seriam demais. Assim que o segundo furo artesanal cicatrizou, fiz nova investida. Não a fim de regularizar a situação da orelha esquerda, com apenas um furo, mas para conquistar o terceiro na direita. Que dois é para os fracos.

Escolada, utilizei o mesmo expediente da primeira vez, com o infalível método do pá-pum. Evidentemente, infeccionou também. Bronca, pomada, curativo. E, de novo, férias para os penduricalhos.

Mais tarde, fui ler sobre auriculoterapia. Soube que as orelhas têm meridianos por onde circulam energias, e uma mal planejada intervenção nelas pode causar uma série de problemas. Deve ser por isso que eu tenho uma série de problemas.

Sendo assim, por saúde e certa preguiça, acabei desistindo de estabelecer a simetria nas orelhas. E gostei assim.

Por isso que eu tenho três furos na orelha direita e só um na esquerda, Nina.

Eu, panfleteira

jeans

Omiti de meus empregadores, ao longo da vida, importante experiência profissional. E só agora me dei conta. Não está no curriculum vitae, nem na minha página do LinkedIn. Eu mesma já a havia apagado de meu portfólio mental de realizações. Lembrei dia desses, quando uma garota veio entregar folhetos no semáforo.

Desci o vidro. Apanhei o papel, novos apartamentos na cidade. Deitei os olhos sobre ela, enquanto o sinal não abria. Cabelos longos, pretos, magrela – “pau de virar tripa”, diria minha avó. Vi-me nela, trinta e cinco anos atrás. Sim, eu já fiz panfletagem nas ruas de São Paulo.

A amiga do colégio, parceira de pequenas, médias e grandes aventuras, arrumara um bico para nós duas. A gente não queria umas roupinhas novas? Trabalho para depois das aulas no Liceu, à tarde. Coisa tranquila. Ou nem tanto.

Apresentamo-nos na data e hora combinadas, munidas de tênis confortáveis. Sobre os planos da minha amiga não sei, mas eu tinha um objetivo claramente definido: queria comprar uma calça Levi’s.

O serviço era, basicamente, espalhar folhetos pelo bairro. Casas, carros estacionados, padarias, lojas. Um por vez. Sim, senhor. Não pode jogar no chão. Sim, senhor. Nenhum folheto sobrando no final do dia. Sim, senhor.

Primeiro quarteirão. Quilos de folhetos nos braços. O bairro de Santana, de ônibus, parecia mais plano. Mas eu estava radiante. Inserida no mercado de trabalho, ganhando meu próprio dinheiro com o suor do rosto que, literalmente, começava a brotar. A Levi’s esperava por mim.

Com disciplina militar aliada ao esmero feminino, seguíamos caprichosamente depositando os folhetos nas caixinhas de correspondência das residências, nos para-brisas.

Segundo quarteirão. Os folhetos pareciam ter se multiplicado, em peso e tamanho. De quê eram, jamais me lembrarei. Deixando o capricho de lado, passamos a enfiá-los, do jeito que dava, nas grades dos portões e sob os limpadores dos carros.

A timidez nos levou à primeira não-conformidade na execução da tarefa: com vergonha de adentrar as padarias e lojas para deixar os folhetos, fizemos breve reunião de equipe na calçada e resolvemos eliminar essa etapa do roteiro. O que nos fez andar mais. Quis desistir. Mas tinha a Levi’s.

Terceiro quarteirão, ladeira acima. Descobrimos que se fossem dois folhetos por para-brisa, terminaríamos antes. Quem perceberia?

Quarto, quinto, sexto quarteirão. Os folhetos não acabavam. Ganhavam vida em nossos braços. Agora eram cinco em cada portão, dez em cada para-brisa. Sétimo, oitavo, nono, décimo. Pra quê portão? Era só atirar os folhetos nas garagens, os moradores veriam do mesmo jeito.

Exaustas, dobramos a esquina e avistamos um cesto de lixo. Bastou um olhar entre nós. Anjos empoleirados nos muros ao longo da rua, todos vestidos com Levi’s, trombeteavam o final do expediente.

Dia seguinte, fomos acertar o pagamento pelo dia anterior e rescindimos unilateralmente o contrato de trabalho. Minha alegação: aos dezesseis anos, não tinha perfil para a função. Não estava alinhada com a filosofia da empresa. Queria novos desafios, sobretudo que não me fizessem andar tanto. A Levi’s ficou para depois.

Cinco anos depois daquela tarde de panfletagem, já na faculdade, consegui um estágio remunerado. Que fiz com o primeiro salário? Torrei num jeans.

A garota do sinal ofereceu seu folheto ao motorista do carro azul, que recusou com gentil aceno. Determinada, investiu no carro de trás, que também declinou. Sorrindo, fez nova tentativa com o táxi ao lado, que aceitou. A persistência é uma calça velha, azul e desbotada.

Please don’t go

fita k7
arte: Jess Wilson

A Sara, professora de inglês meio maluquinha, colocou suas coisas sobre a mesa e começou a escrever no quadro-negro a letra de uma canção. A 6ª B foi ao delírio: era Please Don’t Go. Agora poderíamos cantar direito o hit do KC and The Sunshine Band, e mais, saber do que se tratava. O que, aliás, foi bem decepcionante – não fosse pela melodia que grudava na cabeça feito a cola Tenaz que a gente comprava na papelaria do Seu Remo.

Copiei no caderno a letra, com letra bonita. Tenho uma fagulha de lembrança, inventada ou real, que a Sara levou um tocador de fita K7 no dia, pra turma ouvir e cantar junto. Corajosa, a Sara.

Foi assim que aprendi inglês. Ouvindo música. Também costumávamos ganhar, de vez em quando, uns folhetinhos simplórios com letras traduzidas, um oferecimento da Fisk, a escola de idiomas do pedaço. De graça, o folheto era bem disputado. Uma sorte, cair nas nossas mãos. O negócio era torcer para vir com músicas que a gente gostava. Geralmente vinha, eles eram razoavelmente antenados com os top hits.

Certa vez ganhei um com a letra de Follow You, Follow Me, do Genesis. A letra era fácil, decorei rapidinho. Não tem uma vez que eu não me lembre dos folhetinhos, cada vez que a ouço. Na verdade, acho que essa música me segue. Conto pro Phil Collins ou não?

Hoje qualquer pessoa, num clique, encontra a letra de qualquer música e pode traduzi-la para qualquer idioma. Please don’t go em quirguistanês ou birmanês? Se preferir iorubá, tem. Esloveno? Tem também. E rapidinho: apenas 0,4 segundos. O Google Tradutor tem um milhão de Saras dentro dele.

Meus filhos nasceram na era da abundância de informação, a um toque de distância do que desejarem saber. Podem ouvir todas as músicas que quiserem, saber as letras, as traduções, assistir aos videoclipes, ouvir um sem-número de versões. Não precisam esperar o professor de inglês colocar na lousa, tampouco alguém lhes arrumar um folhetinho. Talvez, justamente por isso, não se interessem. Vivo sugerindo que procurem as letras das canções que gostam, mas eles nem tchum. “Depois, mãe”. O mundo facilita demais para eles. C’est la vie. Ou, em bom zulu: lokho ukuphila.

Tenho um buscador de lembranças embutido na cabeça. Bem mais rápido que o do Google. Uso-o à beça, nem preciso de Wi-Fi. Uso meu HD, mesmo (às vezes, ele me prega peças, fazer o quê). Não carece sequer traduzi-las. Estão todas no idioma universal da saudade. E posso ficar tranquila, não preciso nem pedir por favor. Elas nunca, nunca não se vão.

Paralelas

listras 1.jpg

Não uma, nem duas; o negócio era agasalho de três listras. E tinha que ser da Adidas. Se tivesse o ziperzinho na barra da calça, então, era a glória nas aulas de educação física. As três retas, paralelas e mágicas, se encontravam no infinito do meu desejo adolescente. Habitavam o imaginário da escola inteira, do bairro, quiçá do planeta.

A matemática, exata e implacável, teoriza: três é mais que dois, que é mais que um. Três listras na roupa, portanto, era mais legal, mais bonito, mais tudo. Como as estrelas dos hotéis; quanto maior a constelação, melhor. Se algum colega aparecia tri-listrado, presente de aniversário ou coisa do tipo, logo se formava discreto burburinho, com breves notas de invejinha. A felicidade é ímpar.

O problema é que agasalho da Adidas era caro pra chuchu. Tive que me contentar com um genérico. Duas listras e só. Paciência.

Certa vez, uma colega apareceu na aula com um agasalho simplório, apenas uma listra nas mangas do blusão e na calça. A situação daquela família, concluí imediatamente, não deveria ser lá muito boa. Cheguei a ficar levemente compadecida, quis dividir meu lanche com ela.

Minha mãe não entendia o que tornava a terceira listra tão valiosa. Como se fosse espécie de terceiro olho, terceira margem do rio, terceiro segredo de Fátima. Eu não sabia explicar. Tal paixão cega, a minha pelo logotríplice também não se explicava.

Ontem saí com meu filho, ele está precisando de chuteiras. Quer uma da Adidas. Enquanto o vendedor mostrava os modelos e enaltecia a tecnologia do sistema de amortecimento, era para as três listras o meu olhar. As paralelas do meu passado, me reencontrando no infinito do presente.

Descobri que reparo nas listras dos outros. Se for agasalho esportivo, como os da Adidas, não tem jeito: conto quantas tem. Inconscientemente. Estabeleço, na hora, fugaz avaliação das pessoas com base na quantidade de listras que exibem – tal fiz com a colega da listra solitária. Com quem divido meu lanche, agora?

Meu filho não está nem aí com as listras da Adidas. Outros elementos na chuteira nova o encantam. Por exemplo, o craque que usa uma igual. Seus desejos são outros, diferentes dos meus, quando tinha sua idade. E, embora sigamos lado a lado, pode ser que eles se encontrem no finito das nossas vidas.

Verde-água

sutiã

Noite de Natal. Todos foram dormir, menos eu. Fiquei na cama, admirando meu presente. Um sutiã de “menina moça”, como se dizia. Verde-água, a cor. Minha mãe achou que estava na hora e que eu ficaria feliz. Feliz eu fiquei, mas não era hora. Demorei a usá-lo. Não havia necessidade. E, ainda que, tinha a vergonha. Não é fácil ter onze anos.

Fecho os olhos, posso vê-lo na minha frente. Uma miniatura dos sutiãs da minha mãe, tão maiores. Quando escolheu o meu modelo na loja, Dona Angelina não imaginava os dramas que ainda viveria com os próprios peitos.

Na escola, eu observava as meninas de treze, já iniciadas nas curvas e, portanto, nos sutiãs. Fora da curva, eu só tinha retas. Pensava, “Quando eu tiver treze, então”. Os treze chegaram, as curvas não. Otimista, concluía: “É com quinze”. E assim os anos se passaram, tangenciando minha frustração. Embora até hoje não exiba fartura de curvas, aos poucos elas se instalaram. Eu que não estava madura. Estava verde. Verde-água?

Primeira boneca Suzy, primeiro par de botas, primeiro relógio. Tem presentes que ficam eternizados na lembrança. Embora não me recorde com precisão quando ganhei cada um. A gente deveria ter um memorial de datas importantes, válido para outras coisas, também. A primeira vez que comi nhoque, por exemplo. Ou o dia em que, criança, ainda, ouvi o disco do Renaissance e achei a voz da Annie Haslam a coisa mais linda deste mundo. Quando foi que um gato ronronou no meu colo pela primeira vez? E a primeira mordida de cachorro? O primeiro (blargh!) beijo. Queria as datas exatas, dia, mês e ano. Para quê, exatamente, não sei.

Depois que minha mãe operou, passou a usar um sutiã com bojo recheado de minúsculas sementinhas para disfarçar a ausência de uma das mamas. Ela mesma o confeccionara, até que ficou bom. Anos depois, ela morreu. Se é verdade que o primeiro sutiã a gente não esquece, o último também não.

Que terá sido feito do meu, o verde-água? Ficou pequeno e, como sou a caçula, deve ter ido parar no lixo. Ou foi habitar o armário de outra garota, também estreante na adolescência. Num mundo circular, o tempo todo há sempre algo começando.

Dia desses, olhei minha gaveta. Está na hora de renovar meus sutiãs. Apesar de não ter fascinação pela peça; já desejei aposentá-la. O custo-benefício, no entanto, tem valido a pena e eu sigo firme o lema “uso-quando-quero”. Notei também que a Nina logo, logo vai usar. Quem sabe ela não ganha um bem bacana? Verde-água, para perpetuar a tradição que acabei de inventar. Próximo Natal, talvez.

Memórias olímpicas

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E era levemente careca, lembrei disso agora. Dona Yara, a professora de educação física da escola, tinha cabelos ralos. Antiesportista no layout, andava maquiada, os parcos cabelos presos num coque com laquê. Suas aulas eram monótonas e de pedagogia duvidosa: com frequência, sentávamos em círculo e um livro com as regras do vôlei era lido em voz alta pelos alunos, em revezamento. Bocejos eram inevitáveis. Mas o que pegava mesmo era o laquê.

Se vieram dali minha apatia pelos esportes e meu desinteresse nas olimpíadas, não sei. Só sei que fugi o quanto pude das aulas de educação física ao longo da vida escolar.

Usei de meios ilícitos para escapar das quadras ao escrever em minha própria caderneta recomendações expressas para que eu fosse dispensada dos exercícios, assinando i-gual-zi-nho ao meu pai. Às vezes, funcionava.

Assim como quem entra para o mundo do crime através dos delitos leves e logo já está praticando os hediondos, no colegial, atual ensino médio, rendi-me à falsidade ideológica. Comprei um atestado médico. Valia tudo para me livrar das aulas de vôlei, agora 100% práticas.

Eu tinha quinze anos e vi que as coisas não seriam fáceis. Para começar, eram dez voltas correndo ao redor da quadra. Depois da aula, determinada a resolver a parada, tomei o metrô e desci na Praça da Sé. Rumei à ladeira Porto Geral e caminhei até o Parque Dom Pedro II. Sobre a portinhola que levava a uma longa e estreita escadaria, a placa mal feita: “Médico”. Sem nome do doutor, sem CRM, sem especialidade. O cenário ideal para o crime perfeito.

O médico, um homem esquálido, sacou o receituário. “Vou colocar aqui que você sofre de lombalgia. Não tem erro”. Eu não sabia o que era lombalgia, dei-me por satisfeita. Qualquer coisa que me poupasse do horroroso shortinho azul de helanca do uniforme. Paguei, desci a longa e estreita escadaria e tomei o ônibus para casa. No trajeto, abri o envelope e abri também um sorriso. O médico acrescentara um adjetivo poderoso à minha lombalgia: “crônica”. Aquilo deveria ser suficientemente grave para eu ser mantida longe dos exercícios para sempre.

Dia seguinte entreguei, orgulhosa, o atestado na secretaria da escola. Reforcei junto à mocinha, que apertava os olhos para compreender a letra, “É crônica”. Vinte e quatro horas depois, quando eu já fazia planos para as três aulas vagas que teria na semana, o recado. A coordenadora queria ter um dedo de prosa comigo. Seria a prova de química, que eu havia zerado?

– Você tem algum problema de saúde, Silmara?

Rapidamente, associei o motivo da inquisição:

– Sim, tenho lombalgia. Crônica! – confirmei. Eu continuava sem saber o que aquilo significava (a doença e a falsidade ideológica).

Seguiram-se os piores momentos de minha temporada de Liceu de Artes e Ofícios. Pilhada em flagrante, tive crise aguda de arrependimento. “Se você tivesse esse tipo de lombalgia, Silmara, mal conseguiria andar!” – esbravejava a coordenadora. O agravante “crônica”, portanto, de nada valera. Ao contrário; complicara minha situação. Eu já era suficientemente conhecida da coordenadora, que presenciara minha agilidade pelos pátios. Não adiantaria explicar minha antipatia pelo esforço físico, minha ojeriza ao shortinho azul de helanca, nada.

Foi o fim das minhas idealizadas aulas vagas. Rendi-me ao shortinho. Nem pude ir reclamar no consultório.

Só fui ter sossego na faculdade, onde vi-me com autonomia para decidir sobre minha vida, meu corpo, minhas vontades. Uma injustiça crianças de nove anos não terem esse direito.

De lá para cá, motivada por súbitos desejos de bom condicionamento cardíaco, tonicidade muscular, capacidade aeróbica e barriga sarada, entrei em inúmeras academias de ginástica. Com os mesmos súbitos desejos, abandonei inúmeras academias de ginástica. Possuo um único par de tênis esportivos, adquiridos há doze anos em um de meus devaneios pós-parto, quando acreditei que somente a ginástica impediria que as pessoas perguntassem se eu, parida há seis meses, estava grávida. Recentemente, resolvi substituí-los, começaria nas caminhadas. Fui ao shopping, achei alto o investimento e retornei não com tênis novos, mas com novos óculos de sol – pelo mesmo preço, muito mais bonitos e úteis. Os tênis arqueológicos foram para o sapateiro. Bastou uma colinha, estão novos. Guardados.

Assumi, sem culpa, o sedentarismo como característica de minha personalidade, marca indelével de meu DNA. Não sei jogar nada, nem truco, nem Pokémon Go. Não fez parte dos meus sonhos ser ginasta olímpica, nem quando assistia a Nadia Comaneci voando graciosamente nas barras assimétricas. Não vibrei ao saber que o SporTV está com dezesseis canais em HD à disposição da olimpíada doméstica. Atestei para mim mesma que esporte não é comigo e pronto. De crônica, só minha escrevinhação. De olímpica, só minha nostalgia.

Mas em ano de olimpíada as memórias esportivas – ou nem tanto – vêm à tona. Faz tempo que não visito minhas velhas escolas. Nunca mais fui ao centro de São Paulo, há muito o Parque Dom Pedro II virou uma área feia e decadente. Terá o esquálido doutor se aposentado?

Assistirei a alguns jogos pela TV. Quem sabe, em um dos telões, verei flagrada n’alguma arquibancada dona Yara e seus bisnetos, agitando uma bandeira verde e amarela?

 

Para o Glauco Marques.

O primeiro beijo

Arte: Hsiao Ying

Meu primeiro beijo romântico, aos doze, foi isto: uma porcaria. O menino era da escola, daqueles que eu via aqui e ali, em frouxa convivência. Um dia, ele apareceu em casa. Tocou a campainha, desci as escadas para atendê-lo. Trocamos meia dúzia de frases compactas, conforme o esperado para a pouca idade. Quando dei por mim, estava beijando no portão. Não foi beijo dado, nem roubado. Foi beijo acontecido.

Por muito tempo, cobrei-me não ter tido um primeiro beijo especial como os das amigas e seus relatos encantadores. Em geral, os primeiros e primeiras, o que quer que sejam, costumam carregar, injustamente, um fardo: a obrigação de serem mágicos, perfeitos, inesquecíveis. Nem o amor à primeira vista dá garantia de felicidade, tampouco de eternidade. E as amigas, até as melhores, costumam inventar.

Meu primeiro carro, aos dezenove, não ficou escondido na garagem, enfeitado a laço, e eu não fui conduzida até ele de olhos fechados, para não estragar a surpresa. Foi um Fiat 147 (troco em um negócio do meu pai) caindo aos pedaços, cuja palheta do para-brisa saiu voando quando precisei usá-la num dia de chuva. A primeira vez no sexo também não foi nenhuma maravilha, posto que o rapaz era, antes de tudo, meu amigo. O primeiro emprego, ah!, esse é preciso confessar: teve o charme da estreia e está num bonito porta-retrato da memória. Foi no Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga. Viver os bastidores do lugar que abriga a história do país, com acesso privilegiado, valeu cada hora de estágio. O primeiro salário, porém, não foi dedicado a nenhuma causa nobre, como pagar um jantar para os amigos ou ajudar os pais nas despesas do mês e, sim, torrado inteirinho numa única calça jeans.

Desajeitada, eu não queria continuar o beijo. Primeiro – e óbvio – motivo: não estava bom. Segundo, o medo de ser pilhada em flagrante. Um ato secreto e proibido como aquele não deveria ocorrer em território tão doméstico. Terceiro, não era daquele jeito que eu havia sonhado. Se é que sonhara. Às vezes, a gente sonha que sonhou. Primeiro beijo é feito de espera, susto ou sabor. O menino foi embora, razoavelmente decepcionado. Nunca soube se também era o seu primeiro. Ficou o beijado pelo não-beijado.

O que fazer com um beijo pioneiro absolutamente esquecível? Ele não foi, sequer, importante para os beijos que vieram depois. Não estudo mais naquela escola, não moro mais naquela casa e não sou mais colega do menino. E não tenho mais doze anos. Certos eventos não valem nem como experiência, ficam velhos, padecem e morrem. Servem apenas para risadas futuras. Ou para ilustrar histórias despretensiosas n’algum blog por aí.

O fio da antiga meada

Hoje eu vou arriscar. Em vez de um texto recém-saído dos meus miolos, postarei este aqui. Eu o escrevi quando tinha dezesseis anos, para uma redação do colégio. Nem tem nome. Mas lembro do professor tê-lo lido em voz alta para a classe. Desde então, ele está guardado numa pasta vermelha de elástico (quase tão velha quanto ele), junto a muitos outros, registrados com Bic e máquina de escrever. Naquele tempo não tinha computador; ‘pen’ era uma coisa e ‘drive’ era outra, e essas palavras ainda não andavam juntas.

Há meses ensaio mostrá-lo aqui, numa espécie de sessão retrô. Claro que, hoje, eu reescreveria algumas partes. Mas resolvi publicá-lo do jeitinho que foi escrito há vinte e sete anos, sem retoques. Certa de que os caros leitores darão um bom desconto para a adolescência ingênua que dele transborda. Pois é isso que eu, afinal de contas, era. Confesso: estou morrendo de medo. E com um pouquinho de vergonha. Lá vai.

Foto: John Ryan Brubaker/Flickr.com

“Quero um Deus que não saiba rezar, que morda a língua e envergonhe a família. Um Deus que não saiba ensinar e que não se preocupe em aprender.

Quero um Deus fantasiado de colombina, que traduza em sons toda a melancolia de viver.

Quero um Deus que morra antes de eu nascer, que é para eu não lembrar nem ter saudades dele.

Quero um Deus meu, que saiba fazer pizza e caipirinha.

Quero um Deus que precise tragar fumaça para se convencer que o mundo é uma tragédia, que se coloque num altar e, embriagado, diga que a vida é linda e que meus pais me amam.

Quero um Deus sujo, que seja pedreiro e que não ganhe nada. Quero mandá-lo embora e depois esperá-lo até que ele volte.

Quero um Deus lindo e fotógrafo, que não use flash e que xingue o juiz de futebol. Quero chorar por achar esse Deus tão lindo.

Quero um Deus morto, que não dê trabalho, e que morra sem dizer um pio, que é para não atormentar.

Quero um Deus triste e que tenha medo de avião.

Quero um Deus que me ouça dizer um palavrão e que ria, me chamando de criança.

Quero um Deus que cante desafinado e que não viva sem mim.

Quero um Deus que me dê chocolate aos sábados, e que goste de me ver de branco.

Quero um Deus gordo, que passe pasta de dente em queimadura.

Quero um Deus que saiba imitar gato e bem-te-vi. Que conte a história do boneco de pau que comeu a maçã envenenada.

Quero um Deus azul que limpe os óculos com a camisa, e que ande com os pés pra dentro, que é para eu rir.

Quero um Deus sozinho, que precise de mim e mande me chamar na escola. Que diga que vai morrer, só para me ver chorar.

Quero um Deus completamente pobre, que diga que é rico e que vai comprar a lua para mim.

Quero um Deus amigo dos ladrões e dos barbeiros, que saiba dirigir caminhão e que me ensine coisas da vida.

Quero um Deus mocinho, que é para eu ensiná-lo que o Papai Noel não mora no Pólo Norte, e sim na América do Sul.

Quero um dia de manhã ir acordar esse Deus com um pássaro ferido achado em nosso quintal, e ele me chamar de criança, fechar os olhos e dormir para sempre.”

Prometeu e os meninos acorrentados

"Prometheus Bound 1610-11", Peter Paul Rubens, óleo sobre tela

Não foi uma. Nem duas. Nem três vezes que li nos jornais: mães acorrentam seus filhos adolescentes em casa. Maus tratos? Nada disso. Sem saber onde e como buscar ajuda, elas agem assim, primeiro, para proteger sua cria: seus meninos, usuários de crack, estão ameaçados. Se saírem às ruas, talvez não voltem. Segundo, para se proteger: no ápice da crise, eles fazem qualquer coisa para conseguir o que seus corpos pedem. Vale tudo: vender a TV, o aparelho de som, matar o pai, a mãe e quem mais atrapalhar seus planos. Já que é assim, a única saída são as correntes.

Certa vez, no Olimpo, um titã chamado Prometeu enfureceu Zeus, o deus dos deuses. Só porque ele havia tirado dos céus o fogo, dando-o aos homens, garantindo-lhes a supremacia sobre os demais seres. Aliás, foi ele também quem lhes ensinou as coisas sobre a civilização, a liberdade, as artes, a cultura. Mas o episódio do fogo tirou Zeus do sério. Como castigo, ordenou que Prometeu fosse acorrentado a um penhasco. Ali, dia após dia, um enorme abutre lhe devorava o fígado, que se renovava, e lá ia o abutre de novo. Ao fim, salvou-lhe Hércules que, inconformado com a injustiça, com sua força abateu a ave e libertou o titã.

Ao contrário de Prometeu, que tolerou e resistiu ao sofrimento imposto, em nome da liberdade e do conhecimento que o fogo proporcionara à humanidade, os acorrentados do crack não sabem o que é uma coisa, nem outra. Sua liberdade é de mentirinha, sem valor, trocada na esquina. Quanto ao conhecimento, esse lhes faltou logo de cara, no ‘sim’ do primeiro negócio feito, na mesma esquina. Isso porque aqui também existe o Olimpo com seus deuses, preocupados em manter o fogo sob controle e só para si.

Mas os meninos têm o crack, impiedoso abutre de pedra, a lhes bicar não só o fígado, mas todos os órgãos. A eles, restam as mães desesperadas que, tal como Hércules, tentam resolver a parada como dá.

As meninas superpoderosas

ForUrEyeZOnly/Flickr.com

Esqueça a Docinho, a Florzinha e a Lindinha. Tem menina de carne e osso que é superpoderosa e não sabe. Há muitas delas, e por toda parte. Elas não moram em Townsville, como no desenho da TV, mas em cidades de verdade. Na sua, por exemplo.

Essas meninas costumam ter seus superpoderes desenvolvidos ainda no ventre de suas mães. O poder original, iniciático, que lhes garante a super-resistência à rejeição, ao desamor, às tentativas de se livrar delas.

Meninas superpoderosas podem nascer em lares despedaçados, e mesmo assim se encantar com histórias de amor, príncipes e princesas, e sonhar serenamente com a sua vez. É o superpoder da esperança.

Pensem nas meninas que vendem seus cacarecos e seus chicletes nos semáforos, sob os olhos vigilantes de alguém bem mais velho na outra esquina. Além do evidente superpoder da invisibilidade, elas têm o da invulnerabilidade, que as protege dos acidentes. Elas também contam com o poder da não-indignação diante do constante, aceitável e familiar fechar dos vidros elétricos à sua frente.

Meninas superpoderosas têm o poder de sobreviver sem o mínimo de alimento, como se nutridas por alguma espécie de energia ou prece. E, mesmo assim, ainda conservam no olhar um brilho que não sabemos de onde vem.

Na outra ponta, longe do superpoder da imortalidade, estão as meninas que morrem de segunda a segunda e não ganham uma linha sequer no noticiário. O superpoder, neste caso, é justamente o de não nos causar comoção alguma.

Agora me diz: quem é que gostaria de ter superpoderes assim?

Meninas superpoderosas de verdade costumam viver a falta de amor-próprio e o excesso de amor aos outros, numa conta que não fecha nunca. Terminam por apresentar ao mundo seus bebês indesejados, repetindo e eternizando o ciclo de suas próprias origens. Essas meninas têm o superpoder de criá-los sozinhas, encerrando de vez e prematuramente suas infâncias já mal vividas. Precisam dar conta de um filho, quando ainda são tão filhas. São meninas que abrem mão de sua juventude em nome do pai e do filho. E talvez do espírito santo.

Meninas superpoderosas desafiam, além da gravidade, o descaso e a incredulidade, e promovem verdadeiros espetáculos em solos olímpicos. Há ainda as meninas com o raro superpoder de conquistar lugares nas universidades públicas, porque ultrapassam, em inteligência e raciocínio, os superpoderes financiados das outras meninas.

Pensando bem, ao menos numa coisa as meninas superpoderosas de carne e osso se parecem com as personagens do desenho animado. Ou a gente as assiste. Ou muda de canal.

Elogio à diferença

Foto: Michael Flick/Flickr.com

Talvez tudo tenha começado no pré-primário. Eu não queria participar da peça de teatro que a turma encenaria, mas a professora de bochechas rosadas e ar maternal insistiu no convite. Não adiantou dizer que eu não tinha talento para ser planta. Minha fala começava assim: “Eu era uma sementinha…”. A única frase que guardei no labirinto da memória. O resto, por conta da péssima experiência com apenas seis anos, eu apaguei permanentemente. E daí em diante eu teria declinado toda espécie de convite semelhante.

Depois vieram as sardas. E os óculos. Para as sardas, cremes mágicos. Para os óculos, propositais esquecimentos na sala de aula. Mas logo surgiam mais sardas. E óculos novos.

Alguns anos mais tarde, foi a vez do espelho me mostrar diferente das amigas. Não sei se construí a lembrança a partir de fragmentos, já que minha memória torta costuma me pregar peças, mas arrisco: foi numa noite de Natal que ganhei o primeiro sutiã. Verde-água. Após a ceia a família toda foi dormir. Exceto eu, extasiada com o presente emblemático. E inútil.

Adolescentes pertencem àquela idade esquisita onde a criança esbarra no jovem sem, contudo, ser uma coisa nem outra. Quase tudo é motivo para um complexo. No meu caso, as pernas. Eram tão fininhas, tão branquinhas. Como o resto de mim. Enquanto todos na escola faziam as aulas de educação física sem grandes problemas, além de uma eventual inabilidade com a bola ou certa falta de coordenação motora, eu fugia delas. Não por conta da professora que usava peruca e ensinava os esportes através de um livro velho, onde os alunos liam em voz alta, em vez de praticar, as regras do vôlei ou do basquete. Era a minissaia branca e plissada, com um inexplicável shortinho vermelho, a razão da minha fuga. Foi a época em que mais estive doente, acometida de todo tipo de mal súbito. Tudo devidamente informado na caderneta escolar. Com a minha letra, claro.

O modelo da minha família também não me ajudava a ser parecida com as demais garotas. Todas tinham suas mães disponíveis em tempo integral em casa, preparando lanchinhos no meio da tarde ou tricotando casacos coloridos para o inverno. Eu tinha que me contentar com a doçura do meu avô, sempre superada pelo mau-humor e rabugice da minha avó, responsáveis por mim e meus irmãos enquanto meus pais trabalhavam. Justamente numa época onde tudo o que eu desejava era ser igual. Fazer parte do bando.

Nunca me achei bonita. Nunca fui popular. Nem aluna brilhante. Fazia parte da turma dos invisíveis. Talvez por isso tenha me acostumado a enxergar a vida do canto. Comecei a escrever. Para traduzir a minha perspectiva.

Tempos depois, o curso superior. Nunca vi ponto de ônibus tão vazio quanto aquele em frente à minha faculdade. Sempre esperei, com apenas um ou dois amigos, o meu passar. Não compreendia aquelas garotas lindas e ricas. E não era visível para os rapazes, igualmente lindos e ricos. Tive um único namoro ali. Que começou poucos meses antes da formatura. No ônibus, por sinal.

Talvez tudo tenha, de fato, começado lá atrás. Na escola, eterno palco onde as diferenças são todas representadas. Hoje estou perto de compreender a utilidade da diferença. Eu não sabia, mas o valor de ser diferente ficaria tatuado em minha alma para sempre, tal qual as tatuagens reais que hoje me estampam. E já não há dúvida: eu era mesmo apenas uma sementinha.