Enquanto descasco os ovos

arte: Edel Rodriguez

Cozinhei ovos para o almoço.

Eu, que vim dum ovinho do tamanho de nada, descasco o ovo que veio duma galinha, para que meus filhos, vindos de ovinhos do tamanho de nada, se alimentem. (Um infográfico disso deve ficar bem louco.)

Enquanto descasco os ovos, lembro de minha mãe fazendo gemada para os três filhos. Se hoje a iguaria não apetece, naquela época era suprassumo. Como gema crua não é manjar dos deuses, mas super alimento, na avaliação materna, ela adicionava gotinhas de essência de baunilha. Até hoje, quando apanho o vidrinho na prateleira do supermercado, é da cumbuca de louça com o creme espumado-amarelado que me lembro.

Nunca fiz gemada para meus filhos.

Ovo é palíndromo. Além disso, a vogal de início e fim tem forma de quê? De ovo. Mas ovo não é redondinho, como os O deste texto. Assim como a Terra, ao contrário do que aprendi na escola, não é exatamente redonda. É esférica com os polos achatados. Um tantinho deformada e feiosa, sejamos sinceros. Eu desenhava nosso planeta com compasso, círculo perfeito. Se pensar bem, moramos num ovo.

No mundo-ovo corre solta uma pandemia. No rádio, o repórter conta os mortos daqui. Um, dois, três, quatro mil num dia só. A cada ovo que descasco, uma pessoa morre. Se eu parar, será que não morre mais ninguém?

A gente comprava ovos frescos na Dona Adélia. Ela morava em nossa rua e criava galinhas no quintal. Os da minha panela têm impresso nas cascas vermelhas o lote em códigos e data de validade: até lá, quantos mais a pandemia terá levado?

Descasco os ovos, pacientemente, pedacinho por pedacinho – ovo não é como banana, que se tira a casca toda em três atos. O repórter continua sua funesta contabilidade. Tenho fome e tristeza e medo. Afinal, quem choca os ovos das serpentes?

Hoje é Sexta-feira Santa. O domingo será de Páscoa, dia de outros ovos. Não de galinhas, nem de coelhos impossíveis. Chocados nas fábricas, filhos de ninguém. Quando meus filhos eram pequenos, escondíamos os ovos de chocolate pela casa. Fazíamos uma trilha de balinhas e contávamos a lorota de que o coelhinho havia passado por ali. Quem nasceu primeiro, a verdade ou a mentira?

Enquanto ajeito na vasilha os ovos pelados e cortados ao meio, penso na velha gemada com baunilha. Penso nas galinhas das donas adélias soltas e também nas confinadas pelo mundo, ciscando, alheias à pandemia.

Depois de amanhã, saibam todos: ninguém ressuscitará.

2 comentários em “Enquanto descasco os ovos

  1. Como sempre, suas crônicas saem redondinhas (ou não?) e batem direto com sua seta em nossos corações. Essas notícias não descem redondo. Andam entalando na garganta do povo e matando pouco a pouco a esperança de muitos. Apesar de tudo, Boa Páscoa para você e família. Fiquem bem!

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    1. Não descem nada redondo… descem quadradas, pontudas, rasgando a gente por dentro. Cuide-se bem, querida! Obrigada pela leitura. 💜

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