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Ailili-ailou

Minha mãe adorava a canção “Hi-Lili, Hi-Lo”. Aquela, do filme. Cantarolava do seu jeito, ailili, ailili, ailou. Não sei se ela assistiu ao clássico de 1953, nem se compreendia a letra. A melodia a encantava, e isso bastava.

Dona Angelina nasceu nos anos 30. Sua playlist era feita, basicamente, de composições suaves, ternas, doces. Como ela. Quando, na vitrola, a agulha acordava um Led Zeppelin nervoso, sacudindo a pequena vila em que morávamos, invariavelmente ela ironizava: “Isso é música?”.

Mais ou menos o que eu disse à Nina, sua neta, quando me apareceu cantando um tal MC Kevinho. “Ai, mãe. Você não sabe de nada. Só ouve música velha”. O que não é totalmente inverdade, mas argumentar com adolescente, às vezes, é monologar em um deserto.

Nos anos 70, quando estreou a novela Estúpido Cupido, reproduzindo os anos 60, eu quis, fervorosamente, o LP com a trilha sonora. Velhas canções, tão novas para mim. Lembro-me do dia em que, finalmente, meus pais chegaram em casa com ele. (Ou será que nesse dia ganhamos só o compacto, com a canção-título e “Banho de Lua” no lado B? Minha memória é meio riscada.) Desta vez, consenso na vitrola: ao reviver seus dias de glória, aquela trilha foi capaz de unir duas gerações.

O que a avó de minha filha ouviria hoje? Que toadas a embalariam? Talvez, ela ainda pedisse para tocar – não mais na fita K7, mas no Spotify – uma de suas preferidas: “Valsa para uma menininha”, de Toquinho e Vinicius:

Menininha do meu coração

Eu só quero você

A três palmos do chão

Essa eu cantei tanto para a Nina, quando era bebê. Primeiro, porque também gosto. Segundo, era um jeito de reinventar a presença da minha mãe; ela não conheceu nenhum neto. Por fim, eu queria acostumar seus miniouvidos à boa música. Porém, ao contrário dos versos, nunca desejei congelar em três palmos a menininha do meu coração. Quero-a gigante, do tamanho do mundo. Como a mãe de sua mãe também gostaria. E como tem sido.

Mas poxa vida. MC Kevinho?

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Qual?

interrogação

Qual lugar? – a moça da bilheteria pergunta e mostra a tela com o diagrama. Fico aflita. Ela continua: Tudo em azul está livre. Pode escolher. Há um oceano de assentos vagos na sessão das cinco, e eu afogo-me nas possibilidades. Mais fácil se houvesse apenas meia dúzia de lugares disponíveis. Fartura de opção sempre me chateia.

Estacionamento, por exemplo. Quando estou em um lotado, bufo, embora me saia bem. Radar atento, detecto a vaga e zás! Mas é aportar em um vaziozão e a crise se instala. Onde é melhor, aqui ou lá? Perto do elevador ou ao lado da pilastra, para não correr o risco de ter a porta do carro ralada? Escolho, manobro. Mudo de ideia, dou ré. Vou para outra. Ensaio mudar de novo. Desço, tranco o carro e sigo na dúvida se antes não estava melhor. Como se fizesse alguma diferença.

Na Era da Opção o cardápio de pizza tem oitenta e três sabores. Esmaltes? Dezoito tons só de vermelho. TV com trezentos canais. Planos de celular e suas infinitas combinações de minutos e internet. Por que a simplicidade saiu de moda?

A bilheteira parece tranquilona. No fundo, ela me odeia. Aguarda minha decisão para fechar a venda. Sala de cinema, repare, é um estacionamento de gente.

Fileira D! – disparo. Quero é romper o silêncio constrangedor. Ela posiciona o cursor do mouse na fileira escolhida e agora eu lhe devo um complemento: a poltrona. A vida tinha que ser alfa-numérica?

Quatro! Dê-quatro! – atiro. Lembrei, feito filme, de quando era criança e jogava batalha naval com meus irmãos. No papel quadriculado eu espalhava (sem estratégia alguma, mas com desenho caprichado) minha esquadra. Sob tiros certeiros, ou n’água, derrotas e vitórias nas tardes de sábado. Entro sozinha na sessão. No diagrama dos assentos, represento um quadradinho. Sou, portanto, um submarino. Na ponta da fileira há um casal. É um destroyer. Cinco amigas lá atrás: um encouraçado. Nenhum hidro-avião por perto. Nunca mais jogamos, nós três.

Depois do filme, café. Na hora de pagar, o rapaz do caixa – que eu invento ser platonicamente apaixonado pela bilheteira, que não lhe dá bola porque namora a moça da lojinha – quer saber: Débito ou crédito?

Essa é fácil. Ah, o maravilhoso universo binário.

Beijo de cinema

Foto: Marjolein

Há mais coisas na fila do cinema do que julga nossa nem sempre vã filosofia.

As duas moças encostam no balcão. Uma delas pergunta ao bilheteiro:

– Hoje tem a promoção do beijo?

Aquela, onde casais que se beijam na bilheteria pagam meia. Tem que ser beijo pra valer, de cinema. Selinho não vale, que ali não é Correio. É a hora do amor premiado: bom para beijoqueiros, bom para quem quer economizar. Bom para o dono do lugar, que fica lotado.

Sim, hoje tem promoção. A outra moça pergunta, baixinho e exatamente com os intervalos das reticências a seguir:

– E… precisa ser… homem e mulher…?

Receiam que a promoção não seja válida para elas. Talvez, uma condição prevista no regulamento, escrita em letras microscópicas, derivada de algum asterisco preconceituoso. Carecia confirmar.

O bilheteiro, pela primeira vez e por dois segundos, as encara e sorri:

– Não. Não precisa.

Quando eu era criança, na sala de aula, morria de vergonha de perguntar as coisas que eu não sabia ou não entendia. Invejava os colegas que levantavam a mão e expunham suas dúvidas – cabidas e descabidas – sem ficar com o coração palpitando, bochechas em fogo. Minha mãe ensinava que não se devia trazer dúvida para casa. Como se dúvida fosse algo que se levasse para passear. Então, havia a que ia de casa para a escola. E tinha a dúvida que vivia nas ruas, como a das moças na bilheteria.

Regra esclarecida. As duas, num riso particular, só delas, se beijam. Beijo de dois segundos. Para combinar com o tempo do bilheteiro ou a pressa da vida – que não é tão moderna. Poupam, assim, metade do valor do ingresso. É justo; investiram o dobro da coragem que tantos, ao longo da fila, não ousariam. Economia, quem diria, não é só número.

Em meio à gigantesca e nem sempre afável sala de aula urbana, elas resolveram erguer a mão e sanar a dúvida. Arriscaram publicar sua cabida questão. Que não é pequena, tal a alma de quem ama.

O filme há de valer a pena.

Crônica de minuto em 3D

Arte: Isabelle

Não me convide para assistir um 3D no cinema, eu não vou (mais). Não insista. Não carece pagar meu ingresso, queisso. É que não gosto dos óculos, são grandalhões e incômodos. Ocupam tanto espaço no meu rosto que me distraem, perco várias cenas imaginando como fico com eles. Os fabricantes não precisariam chegar ao ponto de consultar um esteta ótico, mas noções básicas de ergonomia ajudariam um bocado. Da poltrona, me volto para trás; quero conferir quem, além de mim, desistiu deles nos primeiros quinze minutos e assistiu o resto do filme sem. Ninguém. Estou só.

Está bem, não é só por isso. Também não enxergo direito com eles, sou a cega em terras de reis e rainhas e príncipes, todos sentados. Os óculos embaçam. Escurecem tudo, dão reflexos. O efeito especial mais nítido é o que me faz ter a precisa sensação de ter comprado gato por lebre.

Sim, há mais. Quem disse que quero estar ali, no meio da aventura, tal uma espectadora-coadjuvante? Quem declarou que a humanidade ama 3D? Deve ter havido algum plebiscito mundial votando a questão, o qual não fiquei sabendo e, portanto, faltei.

Isso posto, agora sei das três dimensões: desconforto, desserviço, dispêndio.

Realidade virtual, realidade 3D. Excessos de interatividade, exageros da cumplicidade. Viver já é uma experiência sensorial e tanto. Às vezes, sinto falta da realidade, somente ela.

Se eu não fosse o que sou

Ilustração: Darwin Wins/Flickr.com

Se eu não fosse o que sou, e caso tivesse talento, gostaria de ser três coisas: música (feminino de músico), chef e cineasta. Não que eu não goste do que faço, mas porque a vida me parece larga demais para a estreiteza da carreira única.

Primeiro, estudaria música para descobrir como nascem as canções que amo, e gastronomia, para entender de quê são feitas as comidas que adoro.

Para ser sabedora das notas todas, assim como quem domina ingredientes e modos de fazer. Escrever uma sinfonia seria tão fácil quanto preparar um penne ao pesto de manjericão.

Para apreciar um prato sofisticado da mesma maneira que saboreio um bom arranjo. Porque o paladar está na boca e nos ouvidos. Que, aliás, são tão próximos. E não deve ser à toa.

Para, ao ouvir música no carro, brincar de regê-la no ar com propriedade, e não feito maluca. Embora todo maestro em ação pareça um maluco. Pensando bem, a parte de reger pode ficar como está.

Para eu compor quando estiver triste e também quando alegre. E quando não estiver nem uma coisa, nem outra, naquele estado de calmaria que o mar tem, de vez em quando (porque alegria e tristeza nada mais são do que ondas). Só pelo prazer de combinar os acordes e dá-los de presente aos instrumentos. Aquilo de correr para o violão, num lamento, e a manhã nascer azul.

Depois, estudaria cinema para transformar em documentário a vida de gente comum, que ninguém acha interessante. Apenas para provar o quanto se pode estar enganado.

Para gravar em película as cenas que gosto de imaginar, mas que nunca acontecem.

Por exemplo, a da moça entrando numa livraria e reconhecendo a mulher do caixa como sua mãe, que não vê há dezenove anos. Pelo jeito de ela prender os cabelos, que é igual ao seu. O pai a levara para longe, ainda bebê, e ela nada sabia da mãe, exceto pela fotografia de casamento que ele guardava numa caixinha branca, junto a um anel solitário sem a pedra.

Ou então, a cena da freira que resolve, em plena praça, levantar o hábito, tirar os sapatos e mergulhar os pés na fonte. Porque está um calor infernal e ela tem certeza que Deus prefere vê-la feliz.

Ou, ainda – e essa é a minha preferida –, a sequência do rapaz que encontra na esquina de casa uma cachorrinha branca e marrom com coleira de coração, e se lembra de ter visto, no dia anterior, uma faixa na rua. Dizendo sabe o quê? Que uma cachorrinha branca e marrom com coleira de coração se perdeu.

Confesso: pensar nisso me dá vontade de ser outras coisas também. Novas profissões que acabei de inventar e, acredito, fazem uma falta danada neste mundo. Por exemplo: demonstradora de verdades, exterminadora de mentiras, costureira de corações rasgados e fabricante de cadeiras especiais para assistir por-do-sol. Esvaziadora de sacos cheios e reparadora de gente chata. Tradutora e intérprete de bichos, caçadora de tesouros no final do arco-íris e vendedora de gargalhadas.

O problema é que não sei onde tem escolas para eu aprender esses ofícios. Embora saiba que há bons mestres em várias dessas áreas. E, apesar de ter noção do quanto dá para ganhar depois de formado, sem ser dinheiro, a grande dúvida é se, em alguns casos, eu teria emprego. E não é porque passei dos quarenta.

La solitudine

Ilustração: Gura Eyal/Flickr.com

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– Uma inteira, por favor.

O vidro, intransponível, deixou passar a surpresa da bilheteira. Pelo microfone, ela quis confirmar. Talvez não tivesse entendido direito:

– Só uma?

O moço aproximou-se do diminuto alto-falante cravado no vidro que os separava:

– Isso. Só uma.

A bilheteira se remexeu na cadeira. Olhou para a colega à direita, que baixou os olhos, não queria confusão para o seu lado. Buscou a da esquerda, mas essa não poderia fazer nada. Enfrentava problemas com o cartão de débito do casal de velhinhos à sua frente. Que soltavam impropérios, achando que nada se ouvia lá dentro. Desamparada, encarou a situação, tentando simpatia:

– Vai vir mais alguém? Pode comprar depois… A sala está vazia, mesmo. Esse filme não fez sucesso.

Ele mordiscou os lábios. Então não podia ir ao cinema sozinho, era isso. A solidão alheia incomoda mais que a própria. Ali, ela era denunciada: onde estava seu complemento, seu bando? Macacos andam em bando. Ele não era macaco. E macaco nem vai ao cinema.

A bilheteira pediu, Só um minutinho, e chamou o segurança pelo rádio. Que ao chegar mediu-o de cima a baixo e, já ciente do caso, interrogou:

– Você é repórter? Aqui vem sempre repórter fazer crítica de filme.

Ele teve que explicar que não estava esperando ninguém, nem era repórter. Só não conseguiu explicar seu caso de solidão voluntária. Num sábado à noite, ainda por cima. Quando a cidade é inundada por pares de todas as espécies. As pessoas não querem ninguém, nem nada, sozinho. Uma amiga que contou. Ela entrou num café e pediu:

– Um croissant, por favor.

– Pois não. E para beber?

– Nada.

– Como assim, nada?

– Só o croissant.

– Nem um café, um suco para acompanhar?

E ela:

– O croissant me faz companhia, e eu faço companhia a ele. Quando eu terminar de papá-lo, estaremos mais acompanhados que nunca.

Diz que a garçonete até fingiu um sorriso. Por dentro, porém, não gostou. Ou não entendeu. Como se tudo na vida só funcionasse com alguém, ou alguma coisa ao lado. Quem fez dupla com Deus quando ele resolveu criar o universo?

O moço só queria ir ao cinema. Sabia que, só, também se faz verão. Mas parece que ninguém consegue nem ser, nem estar sozinho em paz. Nem andorinha. Nem croissant.

As pessoas

Ilustração:Amy-Wong.com/Flickr.com

Pessoa-livro. Cada dia com ela é uma página: a gente vai descobrindo a história aos poucos. E no capítulo final, das três, uma: ou a gente entendeu tudo, ou não entendeu nada, ou pensa que entendeu. Aí, só mesmo lendo tudo de novo. É quando o casamento se faz necessário, que é para ler um pouco por dia. Tem as pessoas que, de tanto que já escreveram, viraram livros de fato: Você já leu Drummond? Tem a pessoa-prosa: ela vai contando as coisas e você fica lá até o fim, deliciado. E tem a pessoa-verso: vive rimando os acontecimentos da vida, dando a tudo um sentido especial.

Pessoa-música. Umas, a gente ouve uma única vez e já está bom. Outras, a gente quer ouvir sempre, decorar a letra, traduzir, fazer versão. Tem aquela que a gente descobre por acaso, se apaixona, e passa o resto da vida tentando por no iPod. Tem as que desafinam, e as que são capazes das notas mais impossíveis. No céu de todas elas, repare, há sempre uma clave de sol brilhando.

Pessoa-quadro. Estas aqui são como as pinturas dos grandes mestres: você não se cansa de admirar. Cada vez que as vê, repara num detalhe que não tinha visto da última vez. Algumas dão até vontade de roubar. Só para pendurar na sala. Outras – gostem ou não do traço, da técnica, do tema – não morrem jamais. Ficam eternizadas na memória. Pena que, para algumas, a gente só dê valor quando elas desaparecem.

Pessoa-arte-abstrata. Quanto mais você a observa, menos a entende. Mesmo assim, ela atrai o seu olhar. Você não sabe qual é a dela, nem para quê ela serve, muito menos o que ela quer com você. Uma incógnita.

Pessoa-escultura. Não adianta: você tem que tocá-la. Descobrir do quê é feita, conferir as formas, saber se é macia, áspera, fria ou quente. Se pulsa ou se é inerte. Às vezes, é preciso olhá-la de todos os ângulos para compreender-lhe as  dimensões. É o tipo de pessoa que a gente deseja carregar nos braços de vez em quando.

Pessoa-filme. A pré-estreia dela são os minutos anteriores ao seu nascimento: só gente especial pode assistir. Depois, quando ela entra em cartaz, todo mundo pode acompanhar o desenrolar da história. Que pode ser de amor ou não. Pode ser triste, pode ser alegre. Pode ter aventura ou ser um drama. Às vezes, comédia. Mas que fique claro: ninguém faz cinema por acaso. Tem as pessoas que são como os filmes antigos, clássicos. Essas nunca saem de moda. E todo mundo deveria assisti-las de vez em quando. Elas têm um bocado a ensinar.