As listas

Quem tinha telefone em casa, tinha também lista telefônica. Nelas, os números e endereços de tudo e todos. Um abecedário de mundo.

Depois de quitar o carnê com vinte e quatro prestações do plano de expansão da Telesp, e ter nosso aparelho – vermelho, de teclas – instalado na sala em lugar de honra, passamos a receber as listas em casa. Eram duas: a residencial e a comercial, mais conhecida como páginas amarelas.

Livrões desajeitados, encadernação molenga, as listas tinham folhas finiiinhas e letras miúdas. Só assim para abarcar o mar informacional. Um Google de papel, basicamente. A cada dois anos, eram atualizadas. E lá vinham os moços com uniforme da companhia entregá-las. A gente se livrava das antigas? Nem sempre. Por garantia, mantínhamos algumas, para o caso de faltar alguma coisa nas novas. Vai que.

As nossas ficavam na estante da sala, ao lado do telefone, dos livros, TV, rádio, vitrola com som estéreo que nos dava orgulho, um barzinho com bebidas que ninguém tomava e muitos, muitos bibelôs. Estante de sala, naquele tempo, era a central de mídia de uma casa.

Eu achava bem chique quem tinha uma mesinha só para o telefone, com cadeira ao lado. Os aparelhos sem fio só chegaram depois; não dava para sair andando e falando pela casa. O fio enroladinho esticava, pero no mucho. Na mesinha, o porta-caneta, agenda telefônica com os números (escritos à mão) da madrinha, dos primos, dos vizinhos, das amigas, da farmácia, da escola, da vendinha, do médico da família. Bloquinho de papel para anotar os recados e uma toalhinha de crochê fundando tudo. Embaixo, as listas telefônicas. Com a internet e a telefonia móvel, não só a mesinha desapareceu, como todo o resto. Temi pelas toalhinhas de crochê.

Eu catava a lista telefônica e a folheava como quem lê interessante livro. Prestava atenção aos sobrenomes dos assinantes, onde moravam, decifrava as abreviações dos logradouros, av de avenida, al de alameda. Quanta gente, meu Deus. Na letra F, localizava ‘Franco’, para ver quem podia ser parente. Eu sempre achava o tio Jair.

As listas eram uma espécie de Facebook, só que sem fotos. Se não dava para dar like, dava para passar trote. Era sempre na casa da Rô, depois das aulas. Aleatoriamente, escolhíamos nossas vítimas. A aventura consistia em ligar e falar uma besteira qualquer. Tínhamos predileção por nomes esquisitos. Certa vez, achamos um que, em nossa avaliação, merecia a traquinagem: Fotolito Gama. Ligamos. Segurando o riso, anunciei: “– Quero falar com o Fotolito”. E, antes que o interlocutor dissesse algo, desligamos, quase fazendo xixi nas calças de tanto rir. Mas a gente não sabia o que era fotolito. Quem riu mais foi o moço lá. Riu de nós.

Tenho saudade das velhas listas telefônicas enfeitando a estante. Tenho saudade de atender nosso telefone vermelho, nove-quatro-oito-três-quatro-quatro-três. Posso fazer uma lista de tudo que sinto saudade. Hoje, especialmente, a saudade da Rô. Mas não sei como encontrá-la. Em que lista eu acho os amigos que partiram?

2 comentários em “As listas

Quer comentar?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s