Achados e perdidos

guarda-chuva
ilustração: Marcio Alek

Esqueci meu guarda-chuva no teatro, semana passada. Guarda-chuva, não; sombrinha. Por que lhes dão nomes distintos, nunca soube. Sombrinha também protege da chuva, e guarda-chuva, do sol. Ao contrário de tantas outras que se foram, abduzidas ou desintegradas (de tão fajutas), essa está comigo há algum tempo. Guarda-chuva (ou sombrinha), pijama e lingerie estão no rol de coisas com as quais tenho enorme dificuldade para gastar dinheiro.

Liguei na bilheteria:

– Alô? Eu queria falar no achados e perdidos.

Essa é outra: por que não só “achados”, ou só “perdidos”? Não se diz, por exemplo, que uma loja é lugar de coisas vendidas e compradas.

– O que você perdeu?

– Uma sombrinha azul de bolinhas brancas.

– Vou olhar, e você liga daqui a pouco.

– Claro! Qual seu nome?

– Osmar.

– Obrigada, Osmar. Até já.

Tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac.

– Osmar?

– Oi.

– Você conseguiu localizar a sombrinha?

– Azul de bolinha branca, né?

– Isso!

– Está aqui, pode vir pegar. Você procura o Adailton.

Escolhi o pior dia para o resgate da sombrinha. Várias escolas estavam ali para alguma atividade, um fuzuê de crianças e ônibus, agentes da mobilidade urbana tentando contornar o caos no trânsito. Determinada a reaver a sombrinha, enfrentei a turba-mirim espalhada pela calçada e escadaria, “Com licença, com licença”.

– Adailton?

– Você veio buscar a sombrinha?

– Isso!

Segui-o até sua sala. Lá ele destrancou um armário velho de madeira, cheio de coisas. Algumas jamais são resgatadas, fico sabendo. Outras, no entanto, sequer esquentam o lugar. Certa vez, ele contou, esqueceram uma carteira em uma das cadeiras. Com dinheiro. Muito dinheiro. O guarda do teatro, que ouvia a conversa em pé junto à porta, lembrou: “Cinco mil reais!”. O Adailton corrigiu, que cinco mil, o quê. Quatorze mil reais em euros. Continuou: eram de uma pianista que acabara de chegar do exterior. Fora assistir a um espetáculo ali e acabou se distraindo. Recuperou-a no dia seguinte, a dinheirama intacta. Sem muito trabalho naquela tarde, o Adailton se animou e começou a contar outro episódio.

No entanto, eu estava com pressa e não poderia ficar ali, perdendo tempo. Até porque, nunca mais o encontraria de novo. Ninguém devolve tempo achado. Pega para si.

A vida, repare, é feita de achados – caminho certo, cachorro sem dono, o grande amor da vida – e perdidos – emprego, pai, filho, prazo, o grande amor da vida. São engrenagens do mundo, movimentando os acontecimentos. Há sempre uma história sobre eles.

Na saída, encarei novamente a multidão infantil, “Com licença, com licença”. Quanta criança, meu Deus. Será que não se perdem nessas horas? Criança perdida é uma tristeza. Achada, uma alegria. Com a esperança, repare também, é assim.

Uma garoa leve começava. Distraída em devaneios, acabei perdendo a saída na avenida. Para achá-la novamente, só pegando o retorno. No final, tudo tem solução.

Cheguei em casa, a chuva havia engrossado. Não tinha problema, eu já estava novamente equipada. Um achado, essa minha sombrinha fajuta.

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