Uni-duni-tê

Foto: Prettywar-Stl/Flickr.com

– Você sabe como se escolhe maracujá?

Virei-me e vi quem tocava, de leve, meu ombro. Moço alto, quase constrangido pela pergunta. Talvez fosse um marido pouco afeito às coisas do lar, cumprindo ordens da esposa. Um recém-separado, compulsoriamente levado a fazer sua própria feira. Um jovem morando sozinho há pouco tempo. Ou, simplesmente, alguém com pouca experiência em hortifrútis.

Encarei o moço. Encarei os maracujás da banca. Respirei fundo:

– Assim, ó…

Eu nunca havia ensinado isso. Sempre elegi, intuitivamente, as frutas, os legumes e as verduras que vão para minha casa. Entram no meu carrinho de acordo com um parâmetro estético – embora não saiba explicar, nesse caso, de quê é construído meu conceito de estética, nem exatamente o quê norteia a minha opção. Sei que é difícil vir algo podre. Deve existir uma teoria, mas desconfio que ela raramente se revele na hora do vamos ver. De uma coisa eu sei: só beleza é que não é (numa variação do ditado “Beleza não põe mesa”). Ou, pelo menos, não a beleza como entendemos. Embutimos nas escolhas – seja maçã, companheiro, música, quadro, jóia – um julgamento, consciente ou não, do que nos faz bem ou mal. Mais que isso: ativamos a memória ancestral daquilo que preserva, ou destrói, nossa espécie. (Preciso desenterrar meus livros de antropologia da faculdade.)

No entanto, diante do moço com um ponto de interrogação na testa, precisando de ajuda para tarefa tão elementar – escolher seu alimento –, me vi na necessidade urgente de elaborar uma teoria. Naquele instante, eu era a sua salvação. Comecei dissertando sobre a casca (lisa, podendo estar levemente enrugada, mas firme e sem machucados), falei do peso (leve demais é sinal de pouca polpa) e outros aspectos que nem eu sei de onde tirei, mas fizeram o maior sentido para o moço, que ouvia tudo com extrema atenção. Senti-me a dona da banca. Especialista. Pós-graduada em maracujá.

O moço agradeceu e, confiante, selecionou meia dúzia de bons exemplares. Missão cumprida. E, enquanto eu continuava minha feira, aquele ponto de interrogação da testa dele agora se transferira para a minha. Por que a maioria das nossas escolhas não é simples como selecionar uma fruta?

Quando escolhemos entre duas propostas de trabalho, por exemplo, em vez de aceitar logo a que, acreditamos, nos fará feliz, analisamos mil e uma variáveis: salário, título do cargo, benefícios, tamanho da equipe, nível de reporte, plano de saúde, participação nos lucros e por aí afora. Trabalhar na Cochinchina por um milhão e fazer um troço entediante, ou ficar por aqui mesmo, ganhando o suficiente e acordando feliz todos os dias? Isso não deveria ser um dilema. Difícil mesmo é saber onde fica a Cochinchina.

Saí com a minha filha de três anos para comprar sapatos. O vendedor despejou à sua frente um mar de opções. Minha opinião de mãe seguiu a lógica: beleza, preço, durabilidade, usabilidade. Ela escolheu justamente o último da minha lista. “É porque eu gostei mais desse, mãe”.

A vida é feita de escolhas, até minha filha sabe. E elas nem sempre são, de imediato, racionais. Eis os maracujás, que não me deixam mentir.

[Nota: eu havia escolhido quatro fotografias para abrir esta crônica. Uma delas combinava perfeitamente com o título. Mas não foi a que eu postei.]

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11 comentários sobre “Uni-duni-tê

  1. Silmara
    Minha amiga de tantos anos!!! que saudades!!! adorei saber que é escritora e adorei o que escreveu sobre escolhas!!!
    Hoje preciso fazer minhas escolhas, um caminho a percorrer que me dê satisfação em viver, pois até uns 4 meses e pouquinho atrás, minhas escolhas foram à favor do outro, agindo pela razão, por exemplo: arrisco um novo emprego: acho que não! moro ao lado, tenho mordomias; compro o carro dos sonhos? ou o carro prático, econômico? lógico: o prático, o econômico, pois vaia sobrar mais para o outro….!!!! não me arrependo de nada de nenhuma escolha até hoje, mas preciso sair da minha zona de conforto (do vicio da minha vida) e começar de novo arriscar….escolher a carro dos meus sonhos!!! o trabalho que me faz realizada!!! a fruta embora ao abri-la pode não ter o sabor esperado, agora basta saber qual, pois perdi esse sentido!!!
    Creio em Deus e sei que esta comigo e me guia pelo melhor….mas o meu hoje é esse: como escolher a fruta!! qual fruta!!!
    beijos no seu coração
    Rosemeire de Lucca

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  2. Escolhas, escolhi cranberries pela cor forte e formato bonito, cara de fruta fresca e gostosa, quando cheguei em casa era puro fel! Impossível de comer.

    Daí alguem me disse q tinha que escolher as mais molinhas, quase desmanchando (com cara de podres).. desisti!

    Não sabia que sua filhota tem 3 anos, a idade das perguntas!

    Eu criei um blog para registrar as mil perguntas do meu pequeno, também de 3 anos. se quiser passar por lá, será muito muito bem vinda.

    beijos

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  3. Olá querida!!!
    Você me fez lembrar das vezes em que, na faculdade, tive que fazer alguma prova para a qual não estava preparada.
    Prova de múltiplas escolhas e eu sempre acertava, quando marcava a que tinha escolhido intuitivamente e SEMPRE errava, quando respondia depois de pensar sobre elas.
    bjssssssss

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  4. SIlmara, a pergunta do moço reportou-me de alguma forma ao “Desenha-me um carneiro” lá do Saint-Exupéry… Sei lá por que… intuição? Então me deixei levar. Por que momentos às vezes tão simples podem nos levar a reflexões tão agudas? E coisas que nos fariam pensar por muito tempo são definidas pelo “gostei mais deste”. Assim somos nós, e por isso somos tão interessantes!
    Adorei e aprendi muito sobre maracujás. Vamos ver se usarei os novos conhecimentos nas minhas próximas compras… hehehe
    Beijos.

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  5. Guria, também fiz essa pergunta dia desses! A resposta foi uma revelação: tem que chacoalhar o maracujá ao pé do ouvido; se ouvir um barulhinho, é porque as sementes se soltaram e estão prontas para o suco.

    Que louco, né?
    Beijo doce!

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  6. EU escolhi ler, mesmo com o tempo apertado e um monte de coisas pra fazer e gostei muito… já comentar, não depende mais da escolha, simplesmente não posso deixar esse espaço em branco, hehehe! Parabéns Sil, e continuamos fazendo escolhas pela vida a fora… será que viver é escolher? Ou ser escolhido? Hummm tem um ponto de interrogação na minha testa…
    beijinho
    Josi

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  7. Sil….
    kkkkk, gostei do comentário do final, sobre as fotos que vc escolheu e não postou…
    As escolhas amiga….tenho pensado muito nas escolhas que fiz ao longo da vida e me trouxeram até aqui…certas?? Erradas??? Sei que todas foram pelo coração. Pq sempre fui pelo coração. E foi pelo coração, pela intuição com um, praticamente, desconhecido, que a Lê aconteceu…E olha só, me fez feliz da vida….
    Saudades.
    Beijos
    Ana

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  8. Pós graduada em maracujá! Olha só que beleza, podemos ser o que quisermos…E tudo ao mesmo tempo agora, e podemos mudar tudo de novo amanhã. Eu acho que a verdadeira sabedoria consiste em ver a vida como a página em branco, que aceita amorosamente tudo aquilo que escrevemos. Não deu certo? Não faz mal. Mude e comece de novo, numa nova folha. A anterior não vai ficar magoada, não, mas lembre-se de jogá-la fora, para que não venha a trazer fantasmas, culpas, mágoas e ressentimentos.
    E como maracujás, que possamos ser doces e azedos ao mesmo tempo, que tenhamos milhares de utilidades, que nossos galhos se enrosquem alegremente pela vida, e que nossas flores sejam as mais belas.
    Uma semana iluminada e perfumada!

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