Eu não passo desta noite

Já que, vira e mexe, alguém na família desenterra essa história e, considerando que meus filhos sempre perguntam um ou outro detalhe dela, melhor registrá-la devidamente e de uma vez.

Meu primeiro pileque, aos doze, quase treze, foi assim.

Réveillon de 1979 para 1980. Família reunida, fartura na mesa: tender enfeitado com abacaxi, castanhas, uva Itália. Iguarias que só apareciam nessa época do ano. A casa 1 da vila era só alegria. Nas taças, a velha Sidra Cereser que a gente chamava de champanhe.

Durante os comes, não me contentei com a irrisória franquia do pseudoespumante a que eu, caçula, tive direito. Enchi a taça. Brinquei com meus irmãos, zanzei pelo quintal, catei algum gato, botei um LP na vitrola. Mais uma tacinha, que mal tem? Que gosto será que tem whisky? Meio forte. Tudo bem, é quase ano novo. Mais uma Sidra, mais um Drury’s. Drury’s! Diante da minha epifania alcóolica, Seu Tonico e Dona Angelina só observavam. Havia sabedoria na atitude deles.

Cinco, quatro, três, dois, um, adeus ano velho! Só mais um tiquinho de Sidra. Que tudo se realize no ano que vai nascer, muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender. Lá pelas tantas, a família se recolheu para merecido descanso. Eu dividia o beliche com minha irmã. Não me lembro como cheguei à cama de cima. Em meu desvario etílico, Morfeu me aguardava, com o Eno na mão.

Meu estômago adolescente, acostumado a Ki-Suco e Guaraná, estranhou as novidades. No meio da madrugada, a fatura chegou. Foi como a erupção de um furioso (e fétido) vulcão, vindo montanha, ou melhor, beliche abaixo.

Os Franco acordaram, assustados.

Acode a mini-ébria, traz pano de chão, pega desinfetante, limpa o rebosteio, troca o pijama. Enjoada, eu me revirava, agora, na cama de baixo. Cedida pela minha irmã que, por pouco, não fora atingida pelos meus, digamos, dejetos estomacais. Foi ali que cunhei o bordão que, segundo familiares, eu repetia de minuto em minuto, em profética gemedeira: “Eu não passo desta noite”.

Não só passei como, no dia seguinte, debutando na ressaca, fui obrigada a encarar o sintético sermão da minha mãe: “Agora você aprende”.

A pedagogia deu certo. Desde então, nunca mais coloquei uma gota de whisky na boca. Não que eu seja abstêmia. Mas é comum vinho sobrar em minha taça. Nos formulários médicos, nunca sei o que responder. Deveria existir uma zona intermediária entre “nunca bebo” e “bebo socialmente”. A verdade é que não vejo muita graça.

Já vi, porém. É mister anotar que o porre inaugural na infância não foi o único. Na juventude, contabilizei uns dois (três?). Em um deles, conta a lenda que, ao deixar um boteco com minha irmã e amigas, saí pelas ruas da Vila Madalena, virada no vinho, e sentei-me sobre um latão de lixo na calçada. Pedi para me deixarem ali, pois aquele era o meu lugar.

Sempre dramática.

2 comentários em “Eu não passo desta noite

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