Ruim da cabeça

Ilustração: Christo Bakalov/Flickr.com

Você, que sai para trabalhar todos os dias às oito e quinze em ponto e nem nota as florzinhas que caíram da velha árvore sobre seu carro durante a madrugada. Que desaprendeu a ouvir o vento e não reconhece mais o cheiro de chuva chegando. Que não tem nenhuma fotografia de nenhum amigo de infância.

Você, que cantou parabéns para seu avô calculando o quanto a festa tinha lhe custado. Que gostava de enrolar os dedos nos cabelos da sua mãe para dormir e hoje só dorme direito se estiver sozinho. Que já quis ter um dragão e não deixa seus filhos terem um cachorro.

Você, que puxou o tapete do seu colega de trabalho e depois foi chorar no banheiro, mais por raiva do que por remorso. Que não confessa para ninguém o que lhe dá medo de verdade, com medo da coisa acontecer. Que nem ficou sabendo que o bebê da vizinha já nasceu. Que não deixou sua filha ouvir o moço que tocava violino na rua, para não se atrasar na consulta com o médico. Que não se deu conta do quanto se parece com seu pai.

Você, que nunca saiu de pijama na rua e não sabe o que é nadar pelado. Que entrava na casa da sua avó e sentia o aroma do pão assando e ia correndo beijá-la, com saudade e fome, e hoje faz abaixo-assinado para tirar a fábrica de biscoitos do seu bairro.

Você, que sabe o quanto seu funcionário caprichou no relatório, mas preferiu lembrá-lo dos itens que faltaram. Que veste um sorriso diferente conforme a roupa do freguês. Que não gosta que seus filhos brinquem descalços.

Você, que nunca levou um gatinho para casa e implorou aos seus pais para ficar com ele. Que nunca apertou a campainha e saiu correndo. Que não tira o relógio e nunca tem tempo. Que não percebeu que derrubaram o ipê amarelo da sua rua. Que sonhava em ver um show dos Beatles e hoje nem liga para a coleção deles bem ali, na sua estante.

Você, que nunca andou na contramão. Que não espera seu filho tentar amarrar o sapato sozinho e já vai amarrando por ele. Que não perdia um dia de Vila Sésamo e que hoje se irrita com tudo na TV que não seja noticiário.

Você, que vê o olhar do cão faminto e engole o último pedaço do salgadinho. Que vai de carro a dois quarteirões da sua casa e acha isso normal. Que cruzou com a empregada hoje cedo na cozinha, disse bom dia mas não até amanhã. Que se irrita sempre com o motorista da frente. Com o do lado. Com o de trás também.

Você, que tem barco, mas não tem amigo de verdade. Que quando criança queria viajar numa nave espacial, e hoje diz para seu sobrinho de quatro anos que essas coisas não existem.

Você, que não tem ninguém lhe esperando em casa.

É com você mesmo que eu estou falando. Eu tenho notícias. Primeira: você é ruim da cabeça. Segunda: talvez seja doente dos pés, também. Terceira: esse samba esquisito que é a sua vida tem conserto.

28 comentários sobre “Ruim da cabeça

  1. Oi, Silmara.

    Como disse (lá em um comentário do Olhar Mutante), continuo percorrendo o “fio da meada”. :-)

    Muito bom esse texto. Conforme eu fui lendo, a cada parágrafo, eu ia ouvindo ao fundo (da minha cabeça) uma música, que foi em crescente até terminar a leitura…

    Pensei até que você fosse terminar com o refrão dela (dessa música), porque tem tudo a ver (na minha opinião).

    E, para acabar com rodeios, a música que ficou tocando na minha cabeça enquanto lia seu texto era: “A Tonga da Mironga do Kabuletê”. “Eu vou é mandar você… pra tonga da mironga do kabuletê” :-)

    Beijos,
    Brunno – http://olharmutante.wordpress.com

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  2. Posso dizer que fico no meio termo?!
    Não tenho paciência no trânsito, quero tudo rápido, lerdeza me aflige, mas ainda paro: para olhar o céu azul, reparar o chão, amarelo de flores de ipê caídas, ouvir menino dando gargalhada, afagar a barriga do gatinho, sentir o cheiro do cafezal em flor e do pão, saindo do forno…
    Tô longe do ideal, mas como escreveu: tudo tem conserto!

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  3. Silmara,
    Que bom que a vida é cheia de contrapontos: para estrago, conserto; para doença, cura; para pessoas “ruim da cabeça”, textos transformadores como este que você escreveu!
    Parabéns! Muito lindo mesmo.
    Grande abraço,

    Renata Feldman.

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  4. Sil,

    Lindo, lindo, lindo. Mas muito lindo mesmo.

    Que bom voltar e encontrar logo cedo um texto tão maravilhoso. Você é mesmo fora de série.

    Beijos

    Ana

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  5. Silmara,
    Estou acompanhando seu blog já faz um tempinho… Agora decidi criar um, inspirada em você. Não chego a seus pés, estou engatinhando, mas amo seus textos. Adicionei o seu, na lista dos meus preferidos, ok?
    Obrigada por existir.
    Um beijo da Marie.

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  6. Prezada Silmara,
    Amei seu texto e fiquei feliz em constatar que ainda estou lúcida. Lembrei de algumas pessoas que são tão pobres, mas tão pobres que só teem dinheiro. Bjão e que Deus te conserve o dom de escrever.
    Tia G. (www.tiagenuina.blogspot.com)

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  7. Linda, acho que sou boa da cabeça. Porque, pra certas coisas, a maioria na verdade, eu sou ainda meio criança. Porque não adianta a gente correr tanto pra no fim das contas, não chegar à lugar algum, não é mesmo!?

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  8. Silmara, sou leitora nova do seu blog e a cada texto fico mais encantada. Como já comentado, dá vontade mesmo de imprimir esse belo texto e entregar a cada pessoa que cruzamos na rua. Parabéns!

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  9. Eu que defendo a causa das “coisas simples da vida” tô vendo que tenho esquecido muitas elas. Agarro seu conselho: tudo nesta vida tem conserto.

    Abraço forte, Sil!

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  10. tem concerto pq depende de nós.. dpende da atitude d cada um! Bom diaa! bjocas

    ps: sobre a historia da abelha, nao postei ainda, tá salvo como rascunho pq tô sem tempo d terminar meu comentário!!

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  11. Silmara,

    Não vou dizer que conheço gente assim. Todos nós, inclusive eu, em determinados momentos de nossas vidas, por um motivo ou outro, ou mesmo sem motivo algum, acabamos adotando alguns desses comportamentos. Triste, mas é a pura verdade. Ainda bem que tem conserto!

    bjs

    Ivana

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  12. Sil, conhecemos algumas pessoas assim…. mas confesso que quero distância delas!!!! Quero gente feliz ao leu lado!
    Belas palavras. Bjos !
    Debora

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  13. Comentário curtinho só para dizer que:
    Suas palavras me animam, me inspiram, me fazem chorar e sorrir com a mesma intensidade. Lindo texto!

    Bom dia!!!

    Beijocas, Vívian

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  14. Lindo Lindo Lindoooooooooooooooooooooooooooooo

    que bom que tudo tem conserto amore, que bom lindeza…

    to aqui com o coração feliz depois de todas essas belas palavras…

    mil, mas milllllllllllllllll bjos da flor roxa hhuahuhuahua

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  15. Já virou rotina checar meus inspiradores no lado direito da página um a um e notar que este aqui foi atualizado há algumas horinhas e sentir o coração cheio por saber que certamente o dia começará melhor depois de ler um lindo e inspirador texto.

    Beijo

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  16. Cumadra.

    Pela vida, soube que as maiores feiticeiras, as mais efetivas, eram tecelãs.

    Seus encantamentos – dias e noites fiando, tecendo, pensando os fios em pontos especiais tal e qual os druídas teciam suas poções – iam vestindo as pessoas. Agasalhavam seus corpos dando-lhes rumos e ensinando-lhes os caminhos para chegarem ao baile dos astros brilhando como luminosas estrelas.

    Elas diziam que uma quarta notícia seria o pé da mesa que faltava.

    Vista-se, arrume-se, dê sentido às notícias do seu interior na sua vestimenta da manhã. Saia pra vida sabendo que, um pé depois do outro, tecendo a sua estrada, todas seremos feiticeiras e todos serão druídas.

    Mas sabendo que a vida começa com o fio da meada de cada dia.

    Cumpadro

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