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Xilindró

cadeia

1980, temporada dos jogos inter-colégios. O nosso jogaria com o São Paulo, no centro da cidade. Da Mooca até lá, só de ônibus. Fomos, então, prestigiar o time. Tudo seguia nos conformes, quando uns garotos começaram a bagunça no coletivo. De repente, o estrondo. Haviam quebrado o vidro da janela.

O motorista para. Desliga o motor. Puxa o freio. Sai de seu posto e ruma ao fundão. Quem foi? Silêncio. Então vamos para a delegacia resolver isso. E não é que ele foi mesmo?

No caminho, gelei. Eu, treze anos, na delegacia. Teria direito a um telefonema? Sem advogado, restariam meus pais. Pai e mãe são nossos advogados eternos. Mas a gente não tinha telefone. Ligaria na casa 4 e pediria para a Dona Antonia dar o recado. Vexame. Já me via no xilindró, cabelos raspados, vendo o sol nascer quadrado, batendo caneca nas grades, tomando banho de sol com a galera. Não estaria sozinha, no entanto: meia dúzia de colegas da 7ª A dividiriam a cela comigo. Compadecidos, os professores nos visitariam no Dia das Crianças. Ninguém passaria de ano.

Enquanto lamentava meu destino, a turma de – no conceito do condutor enfurecido – menores infratores chegou à Delegacia. Colocaram-nos em uma sala. A maioria de nós não tinha culpa de nada, nadica. Mas como não houve delação, estávamos todos no mesmo barco. E agora, Dotô? Como é que volto pra garagem assim? – quis saber o motorista.

O delegado de plantão, sem nada mais grave para resolver naquele dia, nos mediu de cima a baixo. Iniciou seu sermão. Onde já se viu isso, a gente não tinha educação, nem respeito pelo patrimônio, que não acontecesse novamente, senão já viu. Ouvíamos calados, uns tremiam feito vara verde. Tudo piorou quando a Rô, usando uma saia que trouxera da Bahia, toda de rendas e franjas no melhor estilo boho-afoxé, numa atitude sem noção, resolveu apoiar o pé num cercadinho ao lado da mesa da autoridade. Tomou pito adicional, pobrezinha. Ninguém riu. O medo vencera. Vinte anos depois, perdemos a Rô. Meu coração ficou em cacos, feito a janela do ônibus.

Embora não tenha testemunhado o fato, tenho cá, até hoje, meu palpite sobre o autor do vandalismo. Fiquei de bico calado, no entanto. Vi-me no leito de morte, daqui a algumas décadas, chamando de canto o representante de Deus antes da extrema unção: Acho que foi Fulano, padre.

Sermão dado, lição aprendida, jogo perdido. Hora de voltar para casa. De ônibus. No trajeto, discutimos, apreensivos, se o episódio caracterizaria passagem policial, prejudicando nossas vidas dali para frente. Por via das dúvidas, ficou todo mundo comportado. Fichada, mesmo, é esta minha saudade de tudo e de todos.

À noite, quando meus pais chegaram, contei. Perguntaram se alguém havia se machucado. Não, pai. Quiseram saber se havia sido eu. Não, mãe. Sondaram o que haviam feito com a gente na delegacia. Só bronca, pai. Questionaram as minhas companhias. São gente boa, mãe. Disseram para eu escolher bem com quem andava. Sigo o conselho até hoje.

Contei da Rô, minha mãe não escondeu o riso. E fomos dormir. Certeza que o delegado, depois de despachar os baderneiros-mirins, riu também.

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Eu, panfleteira

jeans

Omiti de meus empregadores, ao longo da vida, importante experiência profissional. E só agora me dei conta. Não está no curriculum vitae, nem na minha página do LinkedIn. Eu mesma já a havia apagado de meu portfólio mental de realizações. Lembrei dia desses, quando uma garota veio entregar folhetos no semáforo.

Desci o vidro. Apanhei o papel, novos apartamentos na cidade. Deitei os olhos sobre ela, enquanto o sinal não abria. Cabelos longos, pretos, magrela – “pau de virar tripa”, diria minha avó. Vi-me nela, trinta e cinco anos atrás. Sim, eu já fiz panfletagem nas ruas de São Paulo.

A amiga do colégio, parceira de pequenas, médias e grandes aventuras, arrumara um bico para nós duas. A gente não queria umas roupinhas novas? Trabalho para depois das aulas no Liceu, à tarde. Coisa tranquila. Ou nem tanto.

Apresentamo-nos na data e hora combinadas, munidas de tênis confortáveis. Sobre os planos da minha amiga não sei, mas eu tinha um objetivo claramente definido: queria comprar uma calça Levi’s.

O serviço era, basicamente, espalhar folhetos pelo bairro. Casas, carros estacionados, padarias, lojas. Um por vez. Sim, senhor. Não pode jogar no chão. Sim, senhor. Nenhum folheto sobrando no final do dia. Sim, senhor.

Primeiro quarteirão. Quilos de folhetos nos braços. O bairro de Santana, de ônibus, parecia mais plano. Mas eu estava radiante. Inserida no mercado de trabalho, ganhando meu próprio dinheiro com o suor do rosto que, literalmente, começava a brotar. A Levi’s esperava por mim.

Com disciplina militar aliada ao esmero feminino, seguíamos caprichosamente depositando os folhetos nas caixinhas de correspondência das residências, nos para-brisas.

Segundo quarteirão. Os folhetos pareciam ter se multiplicado, em peso e tamanho. De quê eram, jamais me lembrarei. Deixando o capricho de lado, passamos a enfiá-los, do jeito que dava, nas grades dos portões e sob os limpadores dos carros.

A timidez nos levou à primeira não-conformidade na execução da tarefa: com vergonha de adentrar as padarias e lojas para deixar os folhetos, fizemos breve reunião de equipe na calçada e resolvemos eliminar essa etapa do roteiro. O que nos fez andar mais. Quis desistir. Mas tinha a Levi’s.

Terceiro quarteirão, ladeira acima. Descobrimos que se fossem dois folhetos por para-brisa, terminaríamos antes. Quem perceberia?

Quarto, quinto, sexto quarteirão. Os folhetos não acabavam. Ganhavam vida em nossos braços. Agora eram cinco em cada portão, dez em cada para-brisa. Sétimo, oitavo, nono, décimo. Pra quê portão? Era só atirar os folhetos nas garagens, os moradores veriam do mesmo jeito.

Exaustas, dobramos a esquina e avistamos um cesto de lixo. Bastou um olhar entre nós. Anjos empoleirados nos muros ao longo da rua, todos vestidos com Levi’s, trombeteavam o final do expediente.

Dia seguinte, fomos acertar o pagamento pelo dia anterior e rescindimos unilateralmente o contrato de trabalho. Minha alegação: aos dezesseis anos, não tinha perfil para a função. Não estava alinhada com a filosofia da empresa. Queria novos desafios, sobretudo que não me fizessem andar tanto. A Levi’s ficou para depois.

Cinco anos depois daquela tarde de panfletagem, já na faculdade, consegui um estágio remunerado. Que fiz com o primeiro salário? Torrei num jeans.

A garota do sinal ofereceu seu folheto ao motorista do carro azul, que recusou com gentil aceno. Determinada, investiu no carro de trás, que também declinou. Sorrindo, fez nova tentativa com o táxi ao lado, que aceitou. A persistência é uma calça velha, azul e desbotada.

Crônica de minuto #58

“sem título”, 2013 – Simone Huck
“sem título”, 2013 – Simone Huck

Aconteceu que ontem foi meu aniversário. E também o funeral do marido da minha amiga. Entre comemorar meu nascimento e lamentar a morte alheia, eu não sabia se ficava alegre ou triste. Na dúvida, fui os dois. A mim, chegavam as mensagens virtuais de parabéns. A ela, num desolador tête-à-tête, as de pêsames. Em todas, um brinde aos polos da existência – mais conectados, simultâneos e implacáveis do que se imagina.

Ele pedira para ser cremado. Sem velório, sem delongas. No crematório, a sala da cerimônia, ou sala da despedida, é uma espécie de arena. No centro, quem vai; ao redor, em circulares bancos cor de cinza-dor, quem fica. Pareceu-me aquele programa de entrevistas da TV, o Roda-Viva. No centro, sempre um pobre sabatinado; em volta, impiedosos inquisidores e suas mortíferas questões. Na despedida de ontem, as perguntas dos que (desta vez) ficaram eram feitas em silêncio. E ninguém sabia as respostas.

Para Dinah.

O dia em que meu amigo cantou na televisão

Caetano Veloso não sabe, mas o Rafael também pensava em cantar na televisão. Quando ele avisou, “Vai passar no programa tal, tal dia”, corri botar na agenda. Já esperava que fossem fazer bonito, conheço a cantoria dos quatro – ele mais três. Eu só não contava com a vontade doida de chorar que me deu, ao ver meu amigo na tela. Meus olhos marejaram em HD.

Sob domínio do streaming, onde todos podem, democraticamente, mostrar seus talentos e ser acessados infinitamente – independente da vontade e do crivo de algum editor enjoado – , cantar na televisão ainda é mágico, mitológico. Ainda desassossega o coração da família e dos amigos, que se aboletam no sofá, no horário anunciado. Não se lava louça nessa hora, não se atende telefone, não se faz barulho. Chiu, vai começar.

Rafael e seus companheiros de voz – dentre eles, a moça da saia mais bonita deste mundo – começam e eu, da minha sala de estar, reverencio sua música com alegria e orgulho. Não me mexo na poltrona, para não perder nenhum acorde. Não é todo dia. Juntos, os quatro não cantam; vão desenhando as notas no ar. Canto é uma ilustração sonora e colorida. O que meu amigo leva nos bolsos da camisa xadrez, escolhida para o dia? Nas mãos (e na voz), eu sei: um sonho em sol maior. Sol de quase dezembro. Por que não?

Quis tocar a campainha do vizinho e mandá-lo ligar a TV, “Eu conheço este aqui, ó!”. Contar que tomamos um café juntos, sempre que dá. Que, na tela, o Rafael parece tão sério e comportado (logo quem). Que eu sei como é sua voz quando está à paisana. E o quanto rimos da vida, às vezes tão desafinada.

Quis registrar para minha coleção de vizinhos que sou tiete autorizada do Rafael e que vou garantir meu autógrafo-abraço vitalício, comprando todos os discos que ainda virão desse quarteto mineiro e ensolarado.

Quis dizer que não sei se meu amigo toma Coca-Cola, mas sei que não pensa em casamento. Ele só quer seguir vivendo. Amor.

As árvores da praia

Foto: Elan Popp

uma: Diga.

outra: Você já viu Deus?

uma: Hoje não.

outra: É sério. Você já viu Deus?

uma: Também é sério. Hoje não.

outra: E quando foi que o viu?

uma: Semana passada. Lembra da tartaruga-marinha que encalhou aqui?

outra: Lembro. Ela se debateu, debateu… Até que uma onda enorme virou a pobrezinha e ela voltou para o mar.

uma: Então.

As árvores da praia, irmãs universais, vivem de prosear sobre coisas e não-coisas. É nelas que o mar, dono líquido das verdades sólidas (ou vice-versa), escreve seu diário. Para saber do antes, do agora, quiçá do depois, basta lê-las.

***

uma: De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar?

outra: Roberto Carlos?

uma: Aham.

outra: Por que precisa haver serventia nas coisas? As finalidades estragam tudo.

uma: Deve ser para dar sentido às coisas.

outra: Bobagem. Não faz o menor sentido.

Uma é esfomeada, a outra é saciada. Idênticas na espécie, semelhantes na forma e díspares na ideologia, habitam solitariamente o mesmo lar. Como filhos, nunca são iguais – quaisquer que sejam os pais. As sementes sempre surpreendem.

***

outra: O barco veio e já foi. Venderam todos os peixes. Uns tão graúdos, o caiçara vibrava. Eu que não queria ser barco. Não gosto de peixe.

uma: Eu também não gosto de peixe. Mas queria saber nadar feito barco.

outra: O caiçara deve gostar de peixe e deve saber nadar.

uma: Então eu gosto do caiçara.

***

Qualquer que seja a estação, lá estão elas. Casadas à sua moda, co-dependentes em afetiva simbiose. Compartilham o solo, o nascer e o por do dia, dia após dia. As árvores da praia estão nas fotos dos turistas de veraneio, no caminho do cão sem dono, na batida do samba desafinado. E, quando não tem ninguém olhando, uma delas imita as crianças que comem salgadinhos e tomam refrigerante sob sua copa.

outra: O que vai fazer, enlouqueceu?

uma: A última a chegar na água é mulher do sapo!

E, com raiz e tudo, dispara para o mar.

Fwd:

Arte: Amédée Forestier

Amigo ou parente assim, todo mundo tem. Você recebe a notificação, chegou e-mail do Fulano. Pensa: desta vez ele, ou ela, vai contar novidade. Casou, mudou de emprego, vai ter bebê, descasou, fez matrícula na pós, está pensando em largar a engenharia e sair por aí fotografando passarinho. Ou, quem sabe, dirá apenas que está com saudades. Ingenuidade sua. Ao bater o olho no Fwd: do assunto, já sabe: mais um forward. O décimo da pessoa – esta semana.

Você pausa o olhar na tela, avaliando se convém bloquear o amigo de uma vez por todas. Afinal, nem sempre foi assim, mas de uns tempos para cá ele nunca escreve para saber como vão as coisas, se você passou no concurso, como foi a sua cirurgia, se você ainda tem o telefone daquele homeopata. Não, ele não quer saber de nada. Seu prazer é encaminhar, ao infinito e além, tudo que recebeu por e-mail. É fissurado no repasse, viciado em retransmissão. Sem se dar conta que, assim, a amizade entre vocês ruma a uma espécie de backward. O amigo virou spam.

Então, você lembra: passou seu aniversário e ele não se manifestou (embora conhecedor da data, a mãe e você são do mesmo dia). No rátimbum dele, porém, você sempre dá um jeito e manda o alô por e-mail, que a vida é mesmo corrida. (Mas não precisa ser maratona.) Ele ignora e, dia seguinte, nova missiva coletiva na sua caixa postal. Alertando sobre novo golpe na praça. Golpeada, na verdade, fica a relação de vocês. Polícia!

Responder para um mandador de forward é monologar, falar com paredes sem windows. Ele não responderá, ocupado demais em seu espetáculo-solo. Fwd: é bom; Fwd:Fwd: é sensacional; Fwd:Fwd:Fwd: é a catarse. Para ele, compartilhar é preciso; viver não é preciso. Sem assunto, ele conta com os assuntos dos outros. Tem um milhão de amigos e nenhum. Quer ser lido, mas não acessado.

A solução para o caso não é empurrar a situação com a barriga – nem backward, nem forward. É na base do stop mesmo.