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Mãos cruzadas

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arte: Kenyon Cox

Se me deito de costas e, instintivamente, cruzo as mãos sobre o peito, trato rapidinho de mudar. Que essa é, sempre foi e será posição de quem partiu desta para melhor, esticou as canelas, bateu as botas.

O manual dos bons modos dos mortos – que só é lido pelos vivos – diz que defunto que se preze deve permanecer assim em seu derradeiro leito. Quem será que inventou isso?

Só sei que disfarço, desentrelaço os dedos, ponho a mão no travesseiro, me viro de lado. Qualquer coisa que desfaça em mim a pose mortis. Vai que Dona Morte está pelo bairro, resolve aparecer e não confere direito. É risco que não se pode correr.

Quando criança eu ia (obrigada) aos velórios dos parentes, e ao me despedir deles no caixão (de novo, obrigada) meu olhar se demorava nos dedos entrelaçados sob o véu, num tom funesto de azul-frio com cinza-pedra. Minha avó. Meu avô. Minha bisavó (queriam que eu a beijasse; fugi). Que coisa, de minha mãe não me lembro. Não me lembro, aliás, de nada dela no dia em que foi cremada. Apenas que eu vestia, e isso me recordo bem, um macacão de popeline lilás costurado por mim, sob suas doces e pacientes instruções.

Até hoje, não gosto de ver ninguém dormindo, nem cochilando, de barriga para cima e mãos cruzadas no peito. Como se essa postura não pudesse pertencer ao mundo dos vivos. E justo essa posição vem ser das mais confortáveis. Quando o corpo repousa plenamente na horizontal, cabeça e mente alinhadas. Cotovelos apoiados, uma mão abraça a outra, quase em prece. (Será por isso?)

Se vou dar beijo de boa noite nos meus filhos e, por acaso, estão assim… Não chego a tentar mudar; vão perguntar o porquê. E não quero perpetuar a crendice. Resignada, sigo para minha cama, repetindo: “Deixa de ser besta, Silmara”.

Porque eu sou mesmo muito besta. Paciência.

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Trégua

Julieta, lembrei. Julieta era o nome dela. A vizinha da casa 3, que morrera em seu quarto. Marcos, o único filho. Um garoto da minha idade, sete anos.

Eu batia boca com ele sempre que podia. Não que fôssemos inimigos, brincávamos juntos. Mas não perdíamos a oportunidade de provocar. Ele dizia algo, eu rebatia, ele soltava outra e assim exercitávamos nossa retórica – com sofisticação intelectual no nível de “Nunca viu, cara de pavio?” e “Você não é de nada, só come marmelada”. O objetivo era ver quem daria a palavra final, a resposta lacradora que calaria o outro. Lembro vividamente de uma vez que ele falou: “Você tem resposta pra tudo”. Fiquei em dúvida se era elogio ou não.

Câncer, disseram. Julieta era jovem, miúda, morena, pintas no rosto. Educadíssima. No dia em que ela morreu, fiquei consternada. Como um garoto de sete anos iria viver sem a mãe? Pai já não devia ter, nunca o vira por ali. Quando minha mãe morreu eu tinha vinte; tempo que já me calçara de certa força e autonomia para enfrentar a vida. Além disso, eu contava com pai, irmãos mais velhos, avós. Mas e o Marcos, que estava no primeiro ano e usava franjinha?

O velório foi na sala. O cômodo onde os dois assistiam TV à noite, juntos, agora exibia outro programa. Eu não fui. E tive que lidar com a ideia de haver um defunto a duas casas da minha. Antes da Julieta, eu não tinha notícia de alguém na vizinhança que houvesse batido as botas em casa. Morria-se em hospital, na rua, longe. Não em casa, lugar de viver.

O portãozinho ficou aberto, um entra-e-sai dos poucos parentes. O Marcos ficou zanzando na vila. Chutando pedrinhas pelo chão, cabisbaixo. Da janela do quarto dos meus pais, eu o observava. Ele via que eu o via. Naquele dia, porém, não tive vontade, nem coragem, de provocá-lo. Como se a morte requeresse trégua entre nós. Era preciso alguma paz. Tampouco fui conversar com meu amigo. Saber se gostaria de comer biscoito champagne com Nescau, ouvir o LP dos Carpenters. Nada. O silêncio foi a trégua.

Logo ele se mudou. Comentaram que fora morar com os tios. Não me despedi. Perdi, então, meu parceiro de embates verbais. A casa 3 ficou vazia por um tempo. Depois, chegaram novos inquilinos. Pensei em avisá-los sobre eventuais problemas com almas penadas, mas desisti. Por via das dúvidas, levei anos para entrar ali de novo.

Mães que morrem conseguem, de algum jeito, cuidar dos filhos? Por que eu tinha sorte de ter minha mãe e ele não? Por que médicos não conseguiam curar tudo? Por que gente viva não vê gente morta?

Fiz-me muitas perguntas, na época. E o Marcos estava enganado. Eu não tinha tantas respostas assim.

Se a minha mãe tivesse Facebook

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Se a minha mãe tivesse Facebook quando eu era criança, não sei se ela seria do tipo que tudo publica acerca de seus rebentos. As fofices, as traquinagens, as frases engraçadinhas, as caretas, as dores, as delícias. Minha mãe era do tipo reservada. Mas quem resiste?

Considerando que a internet estivesse a todo vapor nos anos 70, imaginei a timeline da dona Angelina.

Em uma tarde de 1971, entre uma receita de cuscuz e uma mensagem do Chico Xavier, ela postaria que, para conseguir me fazer almoçar naquele dia, fora me seguindo da cozinha até o portão da vila onde morávamos. Eu, quatro anos, não queria comer. E, com a estratégia, eu ia passeando, ela ia me distraindo e eu papava tudo. Minutos depois choveriam os comentários das amigas, marcando a polaridade das opiniões: “Que absurdo!”, “Que gracinha!”. Ela me proibiria de zanzar durante as refeições ou não, conforme o que lesse?

Noutro dia, faria um post-desabafo contando que, em um momento de descuido seu, eu, aos cinco, assumira o controle da velha Lanofix e simplesmente arruinara a encomenda de tricô que ela preparava, e lhe garantiria alguns trocados no final do mês. Nos comentários, a torcida para que ela conseguisse recuperar o tempo perdido, tudo ia dar certo, calma. O apoio lhe daria ânimo para recomeçar do zero?

Ela também postaria, a título de diversão, que eu, aos sete e na intenção de imitá-la, coloquei um absorvente – o velho Modess, que nem de longe lembra os ultrafinos de hoje – e saí na rua, feliz da vida, desfilando o duvidoso volume na calça. Finalizaria o post com kkkkk. Emojis boquiabertos ilustrariam o feedback?

Só não sei se publicaria, num dezembro de vacas magras, que meu presente de Papai Noel fora um xampu Johnson’s (bem mais caro e raro que o Colorama – lanolina ou ovo – de todo dia). Mas era do grandão. Afinal, era Natal.

Ademais, ela rechearia sua página com fotografias de flores e das suas bordações, vídeos de valsas, truques para limpar manchas de molho de tomate, indignações a respeito do Led Zeppelin (“Mas isso é música?”).

Só sei que se a minha mãe tivesse Facebook, eu a seguiria por toda vida.

Saudade é a linha do tempo que não volta mais.

As mangas

Foto: Simon D

Quando minha mãe era internada, e isso acontecia com alguma frequência, eu a visitava à tarde. Sempre levava uma coisinha para ela comer. Ela gostava de manga, quase nunca serviam no hospital. Eu sabia por que. Manga é uma delícia, mas dá trabalho. Podia imaginar as reuniões semanais da equipe com a nutricionista, discutindo o cardápio dos pacientes: “Manga, não”.

Tenho colossais apreço e preguiça de manga. Quantas vezes, no café da manhã, olho para ela, olho para a banana, torno a olhar para ela, e lhe digo: “Sorry, baby”.

Eu preparava a manga em cubinhos cortados à perfeição, ajeitava-os num pote de plástico e, não sem reclamar um tanto, pegava um ônibus e um metrô até o hospital. Cumpria minha missão filial, muitas vezes, cansada pelas aulas da manhã. Ela comia com a melhor boca do mundo, e eu ficava com remorso.

Papar uma banana é simples, rápido. Já a manga envolve processo sofisticado, requer habilidade, tempo, fé, determinação: pegar pratinho e faca. Descascar. Cortar. Travar luta inglória em busca do melhor aproveitamento da fruta, posto que a polpa ao redor do caroço é algo ingerenciável. Lavar as mãos e, só então, desfrutá-la. Comer manga no pé, se lambuzando, é delírio romântico. Só vale para quem está em férias no sítio e tem estoque extra de fio dental. Banana não; é pá-pum.

Quando meus filhos pedem manga, a velha preguiça me invade. Por que não escolhem os morangos, as uvas, essas frutas que nasceram prontas para a degustação? Banana, por que não? Respiro e, não sem reclamar um tanto, cumpro minha missão maternal. Preparo-a em cubinhos, cortados à perfeição. Quando os vejo, com a melhor boca do mundo, fico com remorso.

Há um caule invisível (porém encorpado) ligando culpa e amor.

No ano em que minha mãe morreu passou na TV uma novela, “O direito de amar”. Ela gostava de assistir. A música de abertura era “Iluminados”, do Ivan Lins. A letra diz assim: “O amor tem feito coisas, Que até mesmo Deus duvida, Já curou desenganados…”

O amor não curou a minha mãe. Mas ela comeu as mangas que pode. Só não deu tempo de ela ver o final da novela.

Crônica de minuto #58

“sem título”, 2013 – Simone Huck
“sem título”, 2013 – Simone Huck

Aconteceu que ontem foi meu aniversário. E também o funeral do marido da minha amiga. Entre comemorar meu nascimento e lamentar a morte alheia, eu não sabia se ficava alegre ou triste. Na dúvida, fui os dois. A mim, chegavam as mensagens virtuais de parabéns. A ela, num desolador tête-à-tête, as de pêsames. Em todas, um brinde aos polos da existência – mais conectados, simultâneos e implacáveis do que se imagina.

Ele pedira para ser cremado. Sem velório, sem delongas. No crematório, a sala da cerimônia, ou sala da despedida, é uma espécie de arena. No centro, quem vai; ao redor, em circulares bancos cor de cinza-dor, quem fica. Pareceu-me aquele programa de entrevistas da TV, o Roda-Viva. No centro, sempre um pobre sabatinado; em volta, impiedosos inquisidores e suas mortíferas questões. Na despedida de ontem, as perguntas dos que (desta vez) ficaram eram feitas em silêncio. E ninguém sabia as respostas.

Para Dinah.

Crônica de minuto #56

arte: Jairo Souza
arte: Jairo Souza

Alguém morre e logo se conjuga:

– Descansou.

É a secular, esperançosa e bem-aventurada ideia de que, ao morrer, ganha-se de presente o repouso absoluto. Seja porque a pessoa livrou-se do sofrimento da vida nem sempre fácil no planetinha azul, porque se foi sem aviso-prévio ou porque viveu o bastante.

Estão pensando que é assim, é? Que morre-se e entra em férias eternas? Que se muda para um céu de infinita varanda com sofás fofos e macios, poltronas reclináveis, música da boa e suco de frutas vermelhas à vontade? Que o universo celestino é um dolce far niente sem agenda, sem relógio, sem calendário e muita, muita soneca?

Talvez estejamos todos redonda e mortalmente enganados.

Liberta da carcaça e agora transmutada na luz e energia originais, a alma ainda não chegou ao seu destino. E se a pós-vida terrena exigir de quem se foi, em vez de folga, trabalho dobrado? Tratamentos, estudos, reflexões, revisões de lições que ficaram para trás, atualizações de mundo, planos para um retorno.

Viver dá trabalho, morrer também. A vista, de lá, certamente é bonita. Mas Deus não dever dar mole, não.

Sete dias

arte: juliana moraes
arte: juliana moraes

Ontem fui à missa da mãe de minha amiga. Já são sete dias, na contagem terrena, desde que ela partiu. Somos semanais. E precisamos das missas para pontuar as chegadas, as partidas e os durantes da vida. O que é uma missa, se não uma conversa, coletiva e no viva-voz, com Deus?

Antes de ontem, conversamos longamente, ela e eu. Ela falou das mudanças que a vida quer que ela dê conta, dos aprendizados com pai e mãe, esses sujeitos compostos, determinados e nada ocultos da nossa história. Queixou-se do inferno astral – faz anos semana que vem. A morte é um tipo de aniversário.

Cheguei atrasada, a missa já havia começado. Sentei-me atrás, em silêncio. Escaneei o salão, à procura da minha amiga. Logo avistei seu cabelão anelado, no primeiro banco, à esquerda. Durante a celebração, foram suas costas que vi. Não soube de seus olhos, se secos ou molhados. De costas, ninguém é alegre ou triste.

(É da fachada que todos cuidam mais: gravata, colar, estampas, enfeites. Adereços, assim como emoções, estão invariavelmente na parte da frente. Vivemos todos em uma imensa igreja, porém. E também somos demoradamente vistos por trás…)

Quando eu era nova, nas missas, queria ser como as pessoas que sabiam todos os ritos, faziam os movimentos na hora certa, conheciam as rezas, cantavam as músicas sem precisar olhar no papelzinho. Eu, semianalfabeta católica,  nunca sabia o que fazer: em que hora deveria me levantar ou erguer as mãos ou fazer o sinal da cruz; desconhecia todos os refrões e não entendia por que não podia mastigar a hóstia, mas esperar que aquela massa insípida e redonda se dissolvesse por completo em minha boca. Preocupada em acompanhar a coreografia e não errar, não me atinha à fala do padre. ‘Colava’ de quem estivesse ao meu lado. Mesmo assim, estava sempre perdida, deslocada, atrasada. Ontem, soube: ainda estou.

Sempre quis saber se a pessoa que se foi assiste sua própria missa. Encarapitada n’alguma imagem de santo, zanzando pela nave da igreja ou flutuando feito nuvem ao lado de quem ficou. Pensei no dia, lá na frente, em que os amigos de meus filhos comparecerão à minha missa de sétimo dia, como fiz ontem. Que saberão, os amigos, de mim? Eu pouco sei da mãe da minha amiga. Eles não saberão nada. Não saberão, inclusive, como é gostoso encarapitar-se n’alguma imagem de santo, zanzar pela nave da igreja e flutuar feito nuvem ao lado de quem ficou.

Para Monica