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Rosa, um miniconto

foto: Sílvia Kalvon

Foi tirando peça por peça da caixa de papelão. Um jeans novinho, com a palavra “flower” bordada atrás, no cós. Ela tentou ler, flô-er. Ergueu-a no ar. Não me serve, murmurou. Engordara bem nas ancas, culpa da comida da avó. Tão gordurenta, ainda não acostumara. Uma camisetinha verde musgo, furada na manga. Um lenço estampado em tom terroso, puído, embora elegante. Uma toalha de banho branca, com aplique de cetim também branco. Toalha grossa, boa, por que será que deram embora? — pensou. Levantou-se, enrolou-a no corpo. Viu o nome bordado no aplique. “Rosa”.

Todo mês, a igreja distribuía coisas para os pobretões do bairro. Ela era pobretona. E agora era do bairro. Requisitos preenchidos, ganhava roupas de vez em quando e aprendera a fazer currículo. O gerente de RH do banco era camarada do padre.

Como é que ia usar toalha com nome de outra pessoa? Ela não se chamava Rosa. Raspou as unhas sobre o bordado, pensou em desfazê-lo com a tesourinha. Estragaria a toalha, desistiu. Colocou-a sobre a cama, conferiu o restante da caixa.

Pôs-se a pensar na Rosa. Bonita? Inventou que a Rosa havia abandonado o marido. Ele, desiludido, resolvera dar tudo que ela deixara para trás, e a toalha foi no meio. Antes isso do que a Rosa ter morrido. Sentiu um arrepio, fechou a caixa. Dobrou a toalha, colocou-a por cima. Roeu a unha do dedinho. Não poderia usar aquilo, certeza. Onde já se viu? Até estava precisando de uma toalha boa, grossa. Mas.

Apanhou a garrafinha sobre o criado-mudo, deu um gole. Foi até a janela, despejou-a cuidadosamente sobre as minirrosas. Dariam flor este ano, afinal? Logo seria primavera. Trouxera-as no ônibus, o tempo todo no colo, maior cuidado do mundo. Dezesseis horas segurando firme o vaso, tinha hora que até dava cãibra. Eram sobreviventes, as minirrosas e ela.

Currículo bom não pode ter mais que duas páginas, aprendera. Retirara, então, a parte de seu emprego na floricultura da madrinha, o moço do RH falou que era bobagem. A escola onde estudara também. “Pra quê? Ninguém vai saber onde fica esse fim de mundo!” — e riu. “Põe só Fundamental II: completo”. Então, coube tudo nas duas páginas. A entrevista é semana que vem. Se o jeans servisse, iria com ele. Flô-er, repetiu. O lenço estava garantido. Se conseguir a vaga, não precisará mais das roupas da igreja. Comprará uma toalha nova, também. E mandará bordar nela seu nome. Bem grande.

As flores do meio-fio

Foto: arquivo pessoal

É para cruzar com cuidado, avisa a placa plantada na esquina. Esqueceram de escrever: “Antes, veja as flores que brotaram no meio-fio”. Placas de trânsito são tão racionais.

Qual noiva quererá as flores clandestinas para seu buquê? Elas têm graça e são de graça.

Morte de quem, enfeitarão?

Que bêbado se juntará a elas na madrugada, quando esquecer o caminho de casa? Antigamente, dizia-se que gente, se bebesse além da conta, ia parar na sarjeta. Não se vê mais isso. Agora, o bebum prefere o aconchego da marquise ou banco da praça à inospitalidade da calçada. Sarjeta virou só lugar de passar água que lavou quintal, caminho de água de chuva e depósito de bicho atropelado enquanto o pessoal da limpeza não vem recolher.

Só criança colhe flor da rua. Meus filhos sempre apanham uma aqui, outra ali, e me dão de presente. Adulto gosta mesmo é de comprar.

Ninguém vai visitar o bebê da amiga na maternidade levando um caprichado arranjo vindo do canteiro da avenida, por mais bonito que ele possa ficar. As pessoas têm vergonha de oferecer presentes que não geraram nota fiscal. Levamos muito a sério o “Não pise na grama”.

Marido nenhum chega em casa com as mãos para trás, segurando a supresa que é um punhado de flores do manacá da rua de baixo. Principalmente, quando a esposa foi dormir de bico na noite anterior.

Quem é que põe como enfeite na recepção do escritório as flores cultivadas bem ali, na floreira do prédio, tão fáceis, renováveis e disponíveis?

Nem todas as flores públicas estão ao alcance das mãos, é verdade. A maioria, no entanto, sim. Basta esticar o braço.

Brinco de imaginar que as flores sem grife do cruzamento, nascidas em meio ao mato e algum lixo, foram orquídeas raras na vida passada. E nesta vieram ser flor qualquer. Reino vegetal tem carma?

Só sei que as flores do meio-fio, sujeitas à poda impiedosa no próximo mutirão da prefeitura, estão à toa na vida, sem banda para ver passar. Ninguém as quer. Nem noiva, nem morto, nem bêbado. Nem eu, que só parei para fotografar.

A tatuagem

Ilustração: r8r/Flickr.com

Sonho dos mais esquisitos, aquele. Ele brincava com um garoto que não conhecia, numa casa que não era a sua. Vivia uma vida que não era a dele, num tempo que não era agora. Na casa, a escada, muito alta, não o deixava ver aonde ela ia dar. Vinha do andar de cima, porém, a música que embalava a brincadeira dos dois. E alguém cantava junto. O menino montava cavalinho em seus ombros, ele dava um pinote e lá iam ao chão, entre almofadas gigantes e coloridas, acabando-se em gargalhadas. Foi numa das piruetas que reparou. Em seu antebraço direito, um desenho que ele não sabia como fora parar ali. Que diabos, uma flor? Esfregou-a com os dedos, não saía. Era uma tatuagem.

Acordou banhado, os lençóis ensopados, sensação de não estar só. Acendeu o abajur e, desesperado, verificou o braço. Nada havia ali, além da fitinha de Nosso Senhor do Bonfim, puída e desbotada. A fé cabe num trapo. Mais intrigado que surpreso, tentou dormir de novo. E o medo de continuar a sonhar, viver o próximo capítulo, ter a flor impressa em seu braço, quem era o menino, que música era aquela, meu Deus? Melhor ficar acordado. Sentou-se na cama, cobriu-se com o edredom – era inverno – e pôs-se a contar os trens que chegavam à estação do metrô, vizinha ao seu prédio. Noventa e oito trens depois, hora de levantar.

Passou a semana incomodado. A urgência em enxergar o que (ainda) era invisível. A toda hora dobrava a manga da camisa: sentia-se tatuado. Na sexta-feira não foi trabalhar. Ligou para o escritório, deu uma desculpa qualquer. Apanhou a lista telefônica. Tatuagens artísticas, página trezentos e trinta e seis.

Seu avô, pai de seu pai, ensinara: “Os conselhos dos sonhos são os melhores”. Dizia que era através deles que os anjos falavam com a gente. Ele sempre achara que os anjos eram mudos. Ou que não queriam papo. Até aquela vez. Tem lição que a gente aprende, mas fica dormindo dentro de nós. Como urso hibernando. Um dia, ela acorda, ou brota. Não é preciso temê-la. Urso, sim.

No estúdio, acharam estranho homem tatuar flor. Ele também. Mas lembrou-se de outra do avô: “Um homem deve sempre ter uma flor à mão”. Quis, então, que fosse igualzinha à do sonho. Mostrava o antebraço ao tatuador, “Aqui, assim…”. Enquanto o moço imprimia o desenho em sua pele, transpirava como naquela noite. O ruído dos cinzentos trens elétricos agora era substituído pelo zunido – também elétrico – da agulha.

Segunda-feira. Da plataforma onde aguardava o trem, avistou seu apartamento. Com o dedo indicador no ar contou os andares, até chegar ao décimo segundo. Terceira janela da direita para a esquerda, seu quarto. Era dali que seus sonhos saíam para passear. Espantou-se com a quantidade de gente que dormia sobre ele, ao lado, embaixo. Imaginou todos sonhando ao mesmo tempo.

Como sempre fazia, aguardou no lugar onde, sabia, as portas do quinto vagão se abririam. Este o deixava em frente à escada rolante na estação onde descia. Assim ganhava tempo. Viu os faróis do trem surgirem ao longe, miúdos. Ajeitou a gravata. Não deu bola ao primeiro nem ao segundo vagão. Mas o terceiro, ah! O terceiro trouxe a moça. Sentada, rosto recostado à janela, uma tristeza no olhar do tamanho de um bonde. Ou de um trem. Ele nunca havia sonhado com ela. Mas agora, passando à sua frente, ela parecia um sonho. Apressou-se em alcançar seu vagão, a escada rolante poderia ficar mais longe desta vez. As portas se abriram, “Com licença, com licença”, foi pedindo. Na confusão, a fitinha do Bonfim caiu. O banco ao lado dela acabara de desocupar. Não perdeu tempo: sentou-se, desabotoou o punho e dobrou a manga da camisa até o cotovelo. Colheu a flor do braço e lhe ofereceu. Mais intrigada que surpresa, ela tirou os fones do ouvido e o encarou. Ele, então, reconheceu a música.

O avô estava certo.

O sapato, a rosa e a estrela

Foto: Travlinman/Flickr.com

Fim das férias escolares. Como se faz após a passagem de um furacão, trato de colocar, aos poucos, a vida em ordem. Começo pela saúde. A física, porque a mental foi para o brejo.

Toco a campainha. Pela porta de vidro, vejo que a recepcionista não está em seu posto. Espero. Um pássaro, uma moto e um bêbado passam na rua. Cada qual com sua melodia. E nada da recepcionista aparecer. Uma moça de cabelos longos, que aguarda lá dentro na sala de espera, me vê. E, talvez com pena de mim, derretendo sob implacáveis trinta e dois graus, abre a porta. Agradeço. Não sem antes pensar: eu não seria capaz da mesma cortesia. E o medo de abrir para uma bandida travestida de paciente? Invejo sua atitude e prometo ser menos neurótica daqui para frente. Ou, simplesmente, mais confiante.

A recepcionista retorna. Pede que eu ponha o dedo indicador na leitora biométrica. Coloco o polegar. Não disse? O brejo. Aboleto-me no sofazinho e avalio a leitura disponível. A coisa mais divertida das salas de espera são as revistas. Folheio um troço qualquer. O mais interessante nelas é a absoluta desimportância de seus títulos, seu descompromisso com qualquer esforço mental. E meu radar capta o quê? Um par de sapatos. Sempre eles. Clássicos, charmosos, num delicado padrão de cores de areia e rosa. Penso em flores no deserto. Déjà vu: eu já vi aqueles sapatos antes. Só não sei quando, nem onde. Enquanto matuto, divido meu olhar entre a revista e a dona deles. Bingo: é a moça que abriu a porta. Mais que isso: a mesma que eu vi dias atrás, na clínica a poucos quarteirões dali, onde fiz os exames que agora trago para a médica ver.

Finjo que leio, mas não tiro os olhos dela. Essa minha vontade de falar com Deus e o mundo. (Quem mais nota isso é Deus.) De contar coisas, fazer perguntas. Na maioria das vezes, me controlo. Noutras, não.

– Você estava naquela clínica aqui perto, outro dia?

O sorriso da moça se abre, tal uma rosa, da cor rosa dos seus sapatos:

– Eu ia perguntar a mesma coisa! Reconheci você pela estrela – disse, apontando para a tatuada em minha perna.

– Já que é assim, também confesso: reconheci você pelos sapatos. São tão bonitos!

Desenho o argumento do curta-metragem: duas mulheres fazem o mesmo exame de rotina, na mesma clínica, no mesmo dia. As duas são pacientes da mesma médica. As duas têm consulta na mesma terça-feira. Uma às cinco, outra às cinco e meia. As duas reconhecem, uma na outra e na mesma hora, um sinal, uma particularidade. Que permanecem guardados na memória de ambas, junto a tudo o mais que habita a vida de cada uma, sem que nenhuma se dê conta disso. A uma cabe a gentileza do dia. À outra, a primeira palavra. Para que um fio invisível se estabeleça entre elas, ligando outros fatos que sequer serão sabidos.

A casualidade e sua vizinha, a coincidência, por morarem tão perto, também vivem se esbarrando. Tem até quem as confunda, são mesmo parecidas. Mas é só prestar atenção. Uma se levanta cedo e está sempre cuidando das rosas do jardim. A outra gosta de ficar acordada até tarde na varanda, descalça, quando o céu é estrelado como esse de hoje.

Conversa de borboleta

Foto: Rich/Flickr.com

Na camiseta cor de céu

Mora a borboleta bordada

Em fios de verde oliva e laranja lima.

A borboleta de verdade ficou curiosa e pousou

Para conversar com a amiga

Que estava tão quietinha.

Perguntou seu nome

E a borboleta bordada não respondeu.

Quis saber qual flor ela gostava mais

E a borboleta bordada não respondeu.

A borboleta de verdade desistiu e voou.

A borboleta bordada chamou baixinho

Mas não deu tempo de contar

Que não tinha nome

E gostava das margaridas

Mas preferia os girassóis.

Chega de cinza (be sure to wear some flowers in your hair)

Foto: D Sharon Pruitt

Neste inverno, quando as cores mais sóbrias e tristes parecem querer dar o tom, nas roupas e nas paisagens, surpreenda. E faça como manda aquela música: “be sure to wear some flowers in your hair”.

Mesmo que você não esteja indo a São Francisco, mas ao trabalho. Mesmo que você vá ficar em casa. Mesmo que custe uns minutinhos a mais na frente do espelho: coloque algumas flores em você. Pode ser um brinco. Um lenço. Um anel. Uma blusa. Uma bolsa. Qualquer coisa com flor.

Mesmo que as semanas de moda tentem lhe convencer do contrário, e a despeito da temperatura lá fora despencar para os quinze graus, estampe-se de flores. E, se não estiver geando, deixe à mostra aquela flor tatuada no ombro, para espanto dos seus colegas de escritório que nem sabiam que você tinha uma.

Mesmo que chova. Mesmo que o carro tenha deixado você na mão e você vá trabalhar de ônibus. Melhor assim: mais gente verá sua flor. Mesmo que os ônibus entrem em greve e você tenha de ir a pé. Aí você vai colhendo flores pelo caminho para enfeitar a sua mesa.

Mesmo que as coisas, no geral, não estejam do seu agrado. Mesmo que seja a centésima vez que você diz para si mesma que vai procurar outro emprego, mudar de profissão, terminar com o namorado, falar sério com o marido, ter mais paciência com os filhos. Que vai começar a caminhar. Que vai se alimentar melhor. Que vai colocar mais vestidos no seu guarda-roupa. Aproveite e comece por um florido.

Mesmo quando os cinzentos tentarem estragar seu dia, faça como o doce touro Ferdinando: prefira sentir o perfume das flores a entrar na briga. (Só tome cuidado com as abelhas.)

Mesmo que você use todos os seus trocados, compre todas as flores daquele senhor no sinal. Depois, dê-as de presente para seus vizinhos. Pois gentileza gera gentileza, alguns sabidos já notaram.

Empunhe sua flor e mostre que você está, sim, entendendo muito bem o que acontece no Irã, no Sudão e, principalmente, na sua cidade. E mesmo que para alguns soe como cafonice nostálgica e piegas, mostre que sua Flower Power está mais viva do que nunca.

Mesmo que você não tenha vivido os anos sessenta e setenta, jogue o meio tom e a sisudez para escanteio, e assuma a cor por inteiro. (Aliás, o mundo, hoje, está a cara de quem nasceu naqueles anos que prometiam tanto.)

Não tenha medo: vá de flor.