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Voltinha

“Fusca com família”, Gustavo Rosa

À noite, meu pai pegava a chave do Fusca, dava uma chacoalhadinha, olhava pra nós e já sabíamos: dia de dar voltinha! O destino? Nenhum. O programa era a voltinha. Breve ou longa, dependendo do nível no tanque e da disposição do Seu Tonico, único motorista da família. Ele e minha mãe na frente, nós três atrás. Rodar pelos bairros, só pelo prazer de andar de carro. Uma espécie de peregrinação a Santiago de Compostela sobre rodas, onde o caminho é mais importante que o lugar final.

Desde que me entendo por gente, teve carro em casa. Nem por isso o encantamento se esgotara; não era sempre que o usávamos. Matinê no Cine Comodoro, para assistir a “Uma janela para o céu”? Ônibus. Visitar a Vovó Carmela na Vila Diva? A pé. Tia Zinha, em Mauá? Trem. Passear de carro, para meus poucos anos de vida, ainda era acontecimento recheado de novidade e finesse, coisa de gente rica.

A discussão era sobre quem iria nas janelinhas. Negociações feitas, lá íamos. Sem cinto de segurança, que nos anos 70 a gente mal sabia onde ficava. Era comum o item permanecer enroladinho em um elástico, tal qual saíra da fábrica. Acho até que o Fusca nem tinha. Nunca sofremos acidente. São Cristóvão era nosso chapa.

Sob o ronco das mil e trezentas cilindradas, a gente pedia para passar aqui e ali, ou seguia a esmo, guiados pelo nada. Eu gostava das avenidas, dava para correr mais. Quando era minha vez, aproveitava minha janela particular (para o céu?), decorando a cidade e treinando a leitura nas placas. Torcia para passar em frente à casa de alguma amiga. Quem sabe ela não me veria e, admirada, diria, “Olha a Silmara!”. Ah, se nosso Fusca falasse.

Hoje, caso eu sugerisse um passeio assim aos meus filhos, acostumados ao carro desde o bebê-conforto, eu seria bombardeada por questionamentos incrédulos – Pra quê?, Mas aonde vamos?, Que graça tem? – e ganharia debochada recusa a tão besta convite.

São poucas as novidades para quem nasceu neste século, e os encantamentos, outros. Definição de simplicidade, para eles, é uma velha conexão 3G, o pacote básico da Net, pizza sem borda recheada.

Já meu pai, piloto-herói da minha infância, hoje se embanana todo na hora de entrar no carro, confunde as portas, não se entende com o cinto de segurança. Agora, sou eu que o levo passear. O destino, geralmente, é o médico. Para ouvir que está tudo bem com seu motor 8.7. O que não é para qualquer um.

Por pura nostalgia, hei de ter um Fusca. E a caçula avisou: estou proibida de buscá-la na escola com ele. Em silêncio, penso: o mundo dá voltas. Deixa estar.

1983

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ilustração: Jessica Lopez

“Vende-se – ano 83”. Olhei o Gol à minha frente, tão velho e desbotado. Trinta e cinco anos nas rodas, meu chapa. E, pelo jeito, muitos quilômetros de histórias. Todo valente pela avenida, disputando seu lugar com os irmãos mais novos. Deve ter visto de tudo por esses caminhos de meu Deus. Carregado tantas gentes diferentes.

Onde eu estava em 1983?

O sinal abriu, engatei minha retrospectiva particular.

Quando aquele Gol era novinho em folha, eu tinha 16 anos. Usava cabelos até a cintura, morava na casa 1 da vila. Pesava quarenta e poucos quilos e não gostava das minhas pernas, finas e branquelas. Short e minissaia, por autodecreto, não passavam nem perto do guarda-roupa.

De aniversário, ganhei a Carolina. A cachorra mais linda e doce do mundo. Grandona e folgada, quantas noites a deixei dormindo na minha cama e fui para o sofá. Para não atrapalhá-la. E também porque ela roncava. Ê Caró…

Foi o ano em que, após longa espera, instalaram nosso telefone. Plano de expansão da Telesp, vinte e quatro meses pagando o carnê. Eu era a única da turma que não tinha. Para nunca esquecer: 948-3443. Dona Antonia (a vizinha da casa 4 que quebrava nosso galho quando precisávamos ligar para alguém, ou se um parente precisasse dar notícia importante, geralmente de morte, cujo número era 92-6405) respirou aliviada.

Segundo ano do colegial técnico em Edificações, no Liceu de Artes e Ofícios. Queria arquitetura, como a irmã. De casa, na Mooca, até a Luz, ônibus e metrô. E seiscentos metros de caminhada pela rua Jorge Miranda, em meio às bostas dos cavalos do 2º Batalhão de Choque. Levantava-me tão cedo que, não raro, aportava na escola com a blusa do avesso, ou uma meia de cada pé. O importante era a régua T chegar intacta. Fazia bolo para vender na hora do intervalo. Hoje, quase não faço bolo para meus filhos.

Segundo ano de tratamento da minha mãe. Eu a acompanhava, o hospital era ao lado da Santa Casa. Dia de quimioterapia era o pior. Dona Angelina ficava um trapo. Em frangalhos também, meu coração. Sofrimento deveria ser contável e divisível. “Me dá metade do seu enjoo, dois terços das suas dores”, lhe diria.

Não me lembro de ter ficado doente em 1983. Igualmente, não tive namorado. Mas saracoteava à beça. Saía com os mocinhos e, de vez em quando, mentia, dizendo que tinha 17. E também dei trabalho ao anjo da guarda: andava na moto dos amigos sem capacete.

Escrevi poesias. Aprendi a tocar violão. Passei tardes inteiras ouvindo Vinicius de Moraes e Rick Wakeman. Costurei um macacão azul-céu de popeline para mim.

Em 1983, tinha ideia fixa com o ano 2000, tão distante e irreal. Gostava de pensar onde eu estaria. Em minha prospectiva, imaginava que, caso o mundo não acabasse no Réveillon, aos 32 anos eu haveria de estar casada e teria dois filhos. Manteria os cabelos longos e projetaria casas e prédios maravilhosos. Nessa última parte, errei feio.

Quanto deve estar custando o Golzinho?