De papel

Arte: Etringita
Arte: Etringita

Eu uso agenda de papel.

Faço reuniões pelo Skype e uso agenda de papel.

Compro sapatos pela internet, tenho leitor de código QR no celular e uso agenda de papel.

Baixo músicas, subo arquivos, utilizo vários aplicativos de mensagem instantânea ao mesmo tempo, estou nas redes sociais, tenho blogs, vou a qualquer lugar com GPS e uso agenda de papel.

Sou, com razoável desempenho, quase um ser digital. Na hora de organizar tarefas e compromissos, porém, ainda sou analógica.

O amigo geek me vê chegar para a reunião empunhando a dupla improvável tablet & agenda de papel. Pergunta se vim a cavalo. Sou discriminada. É bullying.

Nem sempre foi assim. Tive um relacionamento sério – casamento, propriamente dito – com um handheld, aquele pequeno computador de mão. Seu nome era Top. Palm Top. Estávamos sempre juntos. Ele sabia tudo da minha vida. Ele entendia tudo que eu escrevia.

Um dia, ele morreu. Inesperadamente.

Fiquei viúva, só no mundo, com contas a pagar cujas datas de vencimento eu não lembrava; só ele sabia. Quedei-me desnorteada, sem saber para quando estava marcada a consulta na ginecologista, a reunião na escola das crianças. Perdi aniversários, quase esqueço de renovar minha carteira de motorista. Levei um tempo para recompor minha rotina, resgatar a autoconfiança. Retomar a vida, enfim.

Naturalmente, passei a ter um pé atrás com a espécie. Não queria me entregar ao primeiro handheld que aparecesse, apesar das promessas de amor, estabilidade e backup eternos. Não, não. Preferi ir à papelaria. Flertei com vários modelos e saí de lá com minha nova companheira – virei gay? – , todinha feita em celulose. Desde então, nada de compromisso sério. Agora sou adepta do ‘ficar’. Papel sim, passado não. Uma vez por ano, adiós muchacha.

Tirante furto, incêndio ou enchente, a agenda de papel jamais me abandonará. Difícil é quando preciso transferir um compromisso para nova data (toca escrever tudo de novo) ou localizar uma informação importante (o que toma bons minutos). A tranquilidade tem seu preço.

Vez por outra, penso em superar o bloqueio afetivo-tecnológico, dar uma segunda chance à ciência para cuidar dos meus afazeres. (Afinal, a lista de endereços ainda é confiada ao chip do celular. Se perdê-la, não serei capaz de ligar para ninguém. Quem decora número de telefone hoje em dia?) Mas gato escaldado tem medo de água fria – já dizia minha avó, que odiava gatos e nunca soube o que é uma agenda.

Estou satisfeita com minha Tilibra amarela, modelo espiral, toda rabiscada. Que não é touchscreen, não requer bateria, não tem sistema operacional e roda com qualquer Bic. Viveremos felizes pelo resto do ano. Até que 31 de dezembro nos separe.

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5 comentários sobre “De papel

  1. Ah, nossos caderninhos, milhares de bloquinhos, sete agendas para cada ano e todos os papéis do mundo. Tudo isso com muito “fru-fru-fru” na capa. Tecnologia pra isso? NÃO!!

    Beijos de papel hannemuller, meu preferido!

    Huck

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  2. Silmara, palmas para você, clap, clap, clap! Eu também tive o mesmo transtorno e apesar de trabalhar com informática mantenho a minha amiga mais confiável: A agenda. Inclusive com lista telefônica.
    O melhor é que voltei a curtir uma gostosa mania de enquanto falar ao telefone ir desenhando bonequinhos no canto da página da agenda. Estou reaprendendo a não ter pressa, isto é, a viver no tempo que Deus me confiou. Nada de ser Super Homem. A vida é muito curta e bonita para eu estar correndo atrás de nada, não acha?
    Seu post me inspirou, rs…rs!
    Um abraço,
    Manoel.

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  3. Muito bom!principalmente porque a caligrafia é tão pessoal,e esta característica única está se perdendo…quem vai reconhecer por exemplo,a letra da mãe,numa receita culinária,num recado apressado ou amoroso sem assinatura?não escrevemos mais,só digitamos..bj

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  4. Que texto bom! (que novidade o elogio! rs).
    Por mais que ame a tecnologia, não confio nela totalmente. Agenda de papel é fundamental, para mim. Tenho mais de uma, inclusive…
    Fora que escrever é fundamental, senão a letra vira um garrancho.
    Beijo, Silmara.

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