A primeira TV em cores

tv cor

A humanidade já se dividiu entre quem tinha TV em cores e quem não tinha. Quando a nossa chegou, concluí: não éramos mais pobres.

A Semp, moderna e formosa, substituiu a velha Telefunken preto-e-branco na estante na sala. Sentadinha no sofá de curvim, eu acompanhava a saga do casal Regina Duarte & Francisco Cuoco em “Selva de Pedra”. Morria de vontade de saber como eram, de verdade, as roupas das moças. Nos anos 1970, as cores ferviam nos guarda-roupas. Pela Telefunken, só restava imaginá-las. O enredo tinha que ser muito bom.

Então, meu pai fez a surpresa e agora eu poderia ver a Lucélia Santos coloridona, em “A Escrava Isaura”. Lerê, lerê. Didi, Dedé, Mussum e Zacharias me fazendo rir em azul, verde e vermelho nas tardes de sábado. Lembro do meu pai exclamar, diante da tela de vinte polegadas: “Que espetáculo de imagem!”. Os ajustes, porém, continuavam a acontecer da mesma forma. Meu irmão no telhado, ajeitando a antena, e alguém na sala, informando, “Piorou!”, “Melhorou!”, “Agora o 5 está ruim!”.

A programação contava com meia dúzia de canais, é verdade. Mas a diversão já ganhara significativo upgrade. E a gente falava “tv a cores”. Eu era grandinha quando a nação brasileira descobriu que o certo era “tv em cores”. Para meu pai, porém, não fez a menor diferença. Fiel à antiga expressão até hoje, por vezes ele a customiza e solta um “tv à cor”.

A Semp durou muito. É certo que, depois de um tempo, ela passou a viver mais no conserto do que em casa. Era coisa corriqueira, meu irmão descendo as escadas com o trambolho nos braços, ajeitando no carro pra levar na Colortel. Semana seguinte, a bichinha estava de volta. Até o próximo (ou mesmo) problema. Eu, que não entendia lhufas de eletrônica, só pensava que “tubo” deveria ser uma coisa complicadíssima.

A televisão mudou tanto, que nem deveria mais se chamar assim. Smartphone é TV. Tablet é TV. Computador é TV. A TV está em todo lugar, virou uma coisa só, tudo junto e misturado. Uma espécie de deidade da comunicação, o Santo Pixel a nos guiar. A TV é muito maior que a TV.

Assisto, com leve assombro, a facilidade que meus filhos têm para desejar substituir seus aparelhos: quero celular novo; quero computador novo; quero tablet novo. A Telefunken – que tinha seletor manual e eu gostava de virar de uma vez, só para ouvir o barulho, tráááá – me viu dar os primeiros passos, entrar na escola, aprender a escrever. A Semp acompanhou minha adolescência inteirinha, conheceu o primeiro namorado, ao vivo e em cores. A seguinte, que eu não me lembro a marca, estava presente quando comemorei meu primeiro emprego, e também quando meu mundo ficou preto-e-branco por um instante, na primeira demissão. Coitadas das TVs de hoje, de vidas tão breves. Culpa da Nossa Senhora da Obsolescência Programada. Nem comento com meus filhos, para não ouvir, “Ai mãe, você é tão século passado”.

Admito, tenho saudade das nossas velhas TVs. Grandalhonas, pesadas, com muitos botões e poucas funções. Eram uma porcaria em termos de tecnologia, e a culpa por essa saudade tem nome: nostalgia. É gostoso lembrar delas como parte não só da mobília, mas da família. Saber que suas transmissões estão, indelevelmente, inscritas em minha biografia. Mesmo com a dura constatação que, apesar das tardes de sábado colorizadas, nós ainda continuávamos pobres, pobres, pobres de marré deci.

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