Carta para uma vendedora

Ilustração: Josi Stanger, fiel leitora deste blog

Moça

Vamos encarar a verdade: chegamos, como a maioria dos casais (embora não sejamos exatamente um) àquele ponto onde é preciso discutir a relação. No nosso caso, microrrelação. Se na vida de um casal a crise leva algum tempo para se instalar, para nós bastaram o quê? Uns três encontros. A loja onde você trabalha é uma das minhas preferidas, e nas últimas vezes calhou de só você estar disponível. A sorte é que nós duas somos mulheres, temos a moda a nos unir, há de ser mais fácil o entendimento. Nosso planeta de origem, Vênus, é o mesmo e isso ajuda um bocado. Proponho, então, uma espécie de terapia – como a de casais –, onde cada uma expõe seus sentimentos. Eu começo, pode ser?

Primeiro: apesar de fundamental num relacionamento, eu não vejo necessidade de nos chamarmos pelo nome. Não há meio de eu decorar o seu. E assim você não troca mais o meu. Que não é Soraia.

Segundo: não há nada mais bonito numa relação do que um querer ver o outro para cima, feliz. Porém, devo tranquilizá-la: nem tudo fica bem em mim. Nem todas as cores me favorecem. Nem tudo ‘me valoriza’. Quatro décadas sob a ação da gravidade, dois filhos, carboidratos a mais e exercícios a menos têm seu preço. Conheço meus limites.

Terceiro: sinto que precisamos ter mais momentos em que não estamos juntas. Quando estou no provador, por exemplo. Aquela hora é só minha. Ali, desnudada, encaro detalhes que o velho espelho do quarto não dá mais conta de mostrar. Experimento um ângulo diferente, brinco com meu reflexo, me dou broncas, faço auto-elogios, traço metas, confiro a evolução da celulite, percebo que preciso limpar minha bolsa, pendurada no gancho. Seria importante não ser interrompida de dois em dois minutos com “Está dando certo?” ou “Posso ver como ficou?”. Eu não peço para ver tudo o que você está fazendo, peço? Então.

Mais alguns segredinhos. Quando termino minha compra, terminei mesmo. Entendo que talvez a mensalidade da sua faculdade dependa disso, mas não fica bem insistir com “Não vai levar mais nada?” e “Hoje é só isso mesmo?”. That’s all, folks.

E eu juro: para mim, não faz diferença saber que vermelho está mais na moda que azul. Eu sempre vou preferir a cor que, no dia, combinar mais com a minha alma.

Por fim, não custa lembrá-la: eu não sou o seu bem.

Agora é a sua vez. Serei toda ouvidos.

Um abraço,

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13 comentários sobre “Carta para uma vendedora

  1. he he he, Silmara! Eu entendo o seu lado, mas entenda o lado dela, vai?!…A maturidade, ajuda-nos a ser mais condescendentes…rsrs Tadinha, dela…

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  2. Que verdades você falou!Acertou em cheio como sempre!Texto maravilhoso!É tudo o que sinto,cada vez que entro numa loja!E essa história de “meu bem”… estraga meu dia! Bjs e ótima semana pra vc,”meu bem”!KKKKKKKK!

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  3. Sil querida….
    suas cartas….sempre uma delicia de ler….

    Estou te devendo as fotos da Letícia, mas vc não imagina minha correria estes dias. Te mando assim que possível, juntamente com notícias.

    Voces estão todos no meu coração. Quando voltarão a BH??

    Beijos mil

    Ana

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  4. Ai, posso imprimir e entregar enquanto escolho o que quero e experimento? Assim ela fica lendo e não incomoda!!!

    (Você se supera a cada texto!!!)

    Beijo, flor!

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  5. Sil…que saudades de tudo!! de vc , dos seus textos…..

    Cadê o livro pronto???????Cada o lançamento em rede nacional???
    Já passou da hora de mandar bala no livro !! Ops ” mandar bala”” estou denunciando minha idade ( risos!!)
    Agora , falando sério….menina, vc que me incentivou tanto, me deu apoio e segurança….. vai em frente!!! Você merece!!!!
    E o nosso café…..??? pode ser depois do carnaval???
    bjos e saudades
    Debora

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  6. Sil, querida…Eu vou à loja preferida em companhia de uma das melhores amigas, e às vezes vou em bando de amigas. Ficamos dando palpites, e tem sempre alguma compradora solitária que vem se chegando, se chegando, e aí pede opinião. E eu já aprendi a não dar minha opinião pra quem não conhece minha sinceridade. Há coisas que não se pode fazer…beijos…

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  7. Esse negócio do provador é muito chato, mesmo. Quando minha mãe está junto então, se deixar, ela entra junto.

    A moça de um lado dizendo que tá tudo lindo e a mãe do outro dizendo que tá tudo pequeno. “Tem que comprar maior para durar mais”. As jaquetas do uniforme são G. “É pra servir até o terceirão”

    Adorei a colaboração de hoje.
    Acertou em tudo, Sil.

    Beijos,
    Camila
    ilimitada-mente.blogspot.com

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  8. SIl!!!
    Amei, ver a ilustra aí em cima, ainda mais com a legenda, a mais pura verdade!!
    e o texto, também… sabe, da última vez que caí nas mãos de uma vendedora, comprei um óculos de sol e descobri que era exatamente um óculos cujo o modelo eu não gostava… e ainda por cima custou caro. Tudo porque ela conseguiu me convencer que o modelo combinava com meu corte de cabelo, com meu rosto, com minha cor, e sei lá mais com quê… parecia uma amiga de infância que conhece tudo sobre a gente… fiquei sem ação diante de tanto argumento… agora comprei um outro, bem baratinho num camelô, hehehe do modelo que eu queria, só não abuso dele porque tenho medo que não proteja meus olhos do sol como deveria, mas quem me garante que as sifras do outro tenham tanto poder de proteção contra os raios ultra violetas do sol…
    um beijinho Sil… e quando quiser outro desenho… 🙂

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  9. Pois é Sil…
    Uma intimidade forçada. E se você olha nos olhos só enxerga o vazio quando elas dizem: “Ficou perfeito em você”. Parece mais um andróide programado pra só dizer mentiras e fazer você levar a loja inteira.

    Beijos na alma!
    Layla Barlavento
    culpadowalter.blogspot.com

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  10. Adorei. Sabe que você me deu uma boa idéia? Acho que vou discutir meu relacionamento com as vendedoras de carro. Estou trocando o meu, e por incrível que pareça, como é cansativo o povo de concessionária. Parece que eu atraio o mesmo biotipo: gênero feminino, loira, na faixa dos 30, acima do peso. Muda a loja, o fabricante, mas o tipo é o mesmo. Durante a visita conseguem ser esnobes, as vezes até cruéis. Depois ficam me ligando durante a semana querendo vender até a alma.

    Parabéns pelo texto, um beijo e uma excelente semana.

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