Todos os posts de Silmara Franco

Férias.

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Caros e caras

O blog vai tirar umas feriazinhas. Volto logo!

Beijos,

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O maestro e o gato

siamês 1

Nos anos setenta, costumávamos ir à casa dos meus tios no bairro de Santa Cecília. Eles moravam (ainda moram) em um prédio na Alameda Barros, perto da avenida Angélica. Quando íamos visitá-los, eu gostava de cruzar o corredor e ir ao apartamento do vizinho, no mesmo andar. Eles tinham um gato.

Ali vivia o maestro Portinho. Minha tia falava dele com orgulho, dizia que era famoso e coisa e tal. Eu não estava nem um pouco interessada. Ia lá por causa do gato, mesmo. Bug era um siamês lindo, grandão, bonachão e vesgo. Passava um bom tempo brincando com ele, até minha tia me chamar de volta. Eu tinha seis, sete (oito?) anos.

Não era um apartamento comum. Três unidades, transformadas em uma só. Ficou um apartamentão. A decoração, coisa fina. Um piano, talvez? Vários sofás na sala – para mim, enorme. Sempre aboletado em um deles, o Bug. Eu, bem comportada, sentava-me ao seu lado e punha-me a afofá-lo. Lembro-me de alguém vir perguntar se eu queria um suco, uma água. Eu não queria nada. Só brincar com o grandão do Bug.

O maestro Portinho também era grandão. Muito alto, simpático. Se troquei três palavras com ele, foi muito. Não fazia ideia de quem eu estava diante. O dono do Bug foi um dos principais personagens da época dourada das big bands brasileiras, animando bailes e programas de rádio e TV. Produziu trilhas para novelas e, fora as obras que compôs, assinou arranjos para meio mundo. Cauby Peixoto, Ângela Maria, Nelson Gonçalves, Cely Campello, Vanusa, a turma inteira da Jovem Guarda. As gravadoras só queriam saber do dono do Bug.

Um dia, eis que o apartamento do maestro, no décimo sétimo andar, pega fogo. Meu primo conta que uma bituca de cigarro fora atirada do apartamento de cima e caiu justo onde? Na cortina de um dos quartos. O estrago foi grande. Suficiente para o Bug, sem ter como escapar, morrer asfixiado. Fiquei desolada com a notícia.

Logo arrumaram outro gato. O nome? Bug. Em homenagem ao antecessor. Também um siamês. Igualmente lindo, nem tão grande, nem tão bonachão. Vesgo, talvez? Fui conhecê-lo. Ele não me parecia tão dócil quanto o velho Bug. Influenciada pelo nome, esperava que ele fosse cópia integral do outro. Claro que não era. Então aprendi o que eu já desconfiava: gato não é tudo igual.

As visitas aos meus tios rarearam, não sei que fim levou o segundo Bug. Do maestro, sei: morreu em 1997. Seu legado para a música brasileira é imenso e valioso. Coisa linda, ser maestro. Uma pessoa que entende absolutamente tudo de música. Uma espécie de Deus do som. Gato também é uma espécie de Deus. Ou será que Deus é uma espécie de gato?

São quase dez da noite, estou me preparando para dormir. Sobre a cama, espio o Beto cochilando. É nosso siamês lindo, grandão, bonachão. Vesgo. Gosta de música, o bichano. Com ele que danço, de vez em quando (os outros detestam). Se é que esse negócio de reencarnação também vale para os bichos, gosto de fantasiar que o Beto é meu amigo Bug, do qual não pude me despedir. Pendência que ele tratou de resolver, aparecendo em nossa casa, numa tarde quente de fevereiro. Onze anos atrás.

Tem um cigarro?

cigarro

Eu já quis ser fumante. Fiz força, dediquei-me com afinco. Irmão fumante, irmã idem. Tínhamos cinzeiros espalhados pela casa. Como é que eu, a caçula adolescente, ia querer ficar de fora do maravilhoso mundo da nicotina?

As propagandas da época, assim como as novelas, bem que tentaram me transformar em adicta. Nada mais cool que segurar um cigarro entre o médio e o indicador, soltando longas baforadas de um jeito meio blasé, enquanto engatava um papo cabeça com alguém. De preferência, sobre filosofia. O importante era ter charme.

Experimentei várias marcas, investi até nos mentolados – sempre escondido. O cigarro, no entanto, não me quis. Um relacionamento que nunca daria certo, eu deveria saber.

Se fumante é quem fuma, e ex-fumante é quem fumou e não fuma mais, alguém que desejou ser fumante e fracassou é ex-quase-fumante? Não há adjetivo para o meu caso. Nem explicação. Nunca aprendi a tragar, ardia a garganta. Trago direitinho, no entanto, as lembranças na cabeça.

Depois do colégio, eu e a amiga de pequenas, médias e grandes aventuras tomávamos o metrô na Luz e desembarcávamos no Jabaquara, onde ficava a garagem dos trens. Era lá mesmo que, escondidas, cometíamos o crime. Engasgando aqui e ali, rindo e tecendo considerações sobre o universo. Depois, metrô de volta e cada uma para sua casa, preocupadas em sumir com o cheiro que nos empesteara. Pastilha de hortelã e perfume. Não durou muito, o passatempo. Comecei a achar a coisa meio sem graça.

Mais tarde, eu precisava me enturmar na tribo dos bem-nascidos da FAAP, e a maioria fumava. Mas não queria dar bandeira, comprando cigarros perto de casa. Descia do ônibus na Praça da Sé e, antes de tomar o Cardoso de Almeida, elétrico que me deixaria na porta da faculdade, eu parava em um boteco perto do Páteo do Colégio e comprava meu maço. Que chegaria ao final da semana praticamente intacto. Eu me esquecia dele.

Comecei a trabalhar, agora os cigarros do pessoal eram outros. Tentei também. Queria expandir a consciência, ver coelhinhos azuis dançando ula-ula. E nada.

Então, desisti. Cigarrinho, só de chocolate da Pan.

Que não fazem mais.

Eu (não) uso óculos

Levei meu pai ao oftalmologista – “olhista”, como ele gosta de dizer. Aos oitenta e seis, a visão do Seu Tonico anda precária. Resiste aos óculos com receita, bom mesmo é o self-service da farmácia, com modelos prontos. Apanha na vitrine e vai testando, “Esse está ruim”, “Agora melhorou um pouquinho”, “Ah, esse está bom”. Leva ao caixa, paga e vai embora. Feliz da vida, enxergando vários palmos diante do nariz.

Quando eu tinha sete anos, usei óculos. Astigmatismo. Minha primeira grande provação, depois da botinha ortopédica. Não gostava da ideia, nem do modelo, tampouco do que via no espelho. Naquela época, a gente chamava oftalmologista de oculista. Só depois fui aprender: um é o médico que cuida dos olhos. Outro é a pessoa que faz os óculos. Não sei se nós confundíamos os dois, afinal oculista é mais fácil de pronunciar, ou se nossos óculos eram, de fato, prescritos e feitos pelo tal do oculista (o que nem pode). Só sei que fomos a uma ótica e saí de lá dividida: contente porque conseguiria ler a cartilha Caminho Suave numa boa, mas angustiada, antevendo os apelidos na escola.

O Banana, por conta das sardas, ganharia dos colegas um complemento fofo: Quatro-Olhos. Fiquei sendo Banana-Quatro-Olhos. Eles achavam aquilo engraçado. Eu não via, nem com óculos, graça alguma.

Dia desses, postei nas redes sociais um achado: minha foto do primeiro ano, com os ditos cujos. Rendeu imediata comparação com a Chiquinha, do Chaves. É preciso admitir que a semelhança procede. Infelizmente, no dia da fotografia não havia ninguém para dar uma ajeitadinha em mim antes do clique, nem uma penteada de leve nos cabelos. Resultado: o mal ajambramento e os malditos óculos eternizaram-se. Na época, rabisquei, de propósito, a fotografia. Inventei-me dentes e flor na camisa. Customizei a infelicidade, dando-lhe ares bufônicos para, talvez, sobreviver à desgraça.

O astigmatismo cedo foi embora, aposentei por conta própria os óculos. Adulta, fui brindada com leve miopia. Quando me perguntam se uso óculos, digo que não. Em seguida, lembro que sim – os de sol têm pouco mais de meio grau, igual ao que fica na bolsa, para o caso de uma rodovia à noite. Deve ser uma espécie de negação.

Há algum tempo, Nina cismou que queria usar óculos. Sem indicação para tal, quase me convenceu a mandar fazer uns sem grau, como se fosse um acessório, uma tiara. Diante das consecutivas negativas, fez birra, chorou, ficou infeliz. Lembrei de mim, sofrendo justamente pelo contrário: ter que usar o trambolho. Das inúmeras vezes que os “esqueci” sob a carteira, na sala de aula. Do sumiço que dei na peça, quando concluí que não precisava mais deles. Cada um com seu drama. No final, tudo depende de como você vê as coisas.

Hoje, quando olho a fatídica foto do primeiro ano, rio e tenho vontade de abraçar a menininha que fui. E, parafraseando a raposinha d’O Pequeno Príncipe, diria ao pé do meu ouvido: “Sabia que só se vê bem com o coração, e que você fica linda de óculos?”.

silmara gallicho 1o ano 1974

Mistura

Tudo que não era arroz e feijão, a gente chamava de mistura. Geralmente, carne. “O que tem de mistura?”, eu perguntava, já abrindo as panelas sobre o fogão. Verduras e legumes também entravam na categoria. Viraram, com o tempo, acompanhamento.

Como se diz a alguém, “Que Deus te acompanhe”, também deve-se falar para a dupla gastronômica mais brasileira que há: “Que o purê de batata te acompanhe”. Afinal, se está com purê de batata, está com Deus.

Cresci com os adultos mandando a gente ir comprar mistura. Lá ia eu no açougue buscar uns bifes, ou na avícola, pegar umas coxas de frango. Para os bifes, havia um martelo especial. Diferente dos martelos do meu avô, o da minha mãe era quadradinho, com pontas achatadas. Para amaciar a carne, diziam. Eu gostava de brincar com ele. Sumiu, nas mudanças.

Não digo que sempre achei esse termo – mistura – curioso, porque jamais deitei pensamento sobre. Fez parte do meu vocabulário desde sempre, é dessas palavras que a gente só reproduz, não questiona. Não, até agora. A mistura é mistura de quê? No Google, leio que o nome remonta ao tempo dos escravos. Nas refeições, eles recebiam um naco de carne que, de tão pouco, era misturado ao arroz, feijão e farinha de todo santo dia. Veio a abolição, o nome ficou. Toda cozinha tem um pé na senzala.

Apesar de amante do bom e velho feijão com arroz, hoje a mistura é o melhor do meu prato. Abobrinha empanada. Shimeji na manteiga. Quiabo refogadinho no alho. Suflê de espinafre. Salada toda coloridona. Por trás de um grande prato há sempre uma grande mistura. Pronto: mistura é a mistura de coisa boa com coisa gostosa.

Quando foi que deixamos de falar mistura? Deve ter sido quando paramos de dizer engrossar (um molho, por exemplo) e adotamos o reduzir. Ou quando substituímos o combinar pelo harmonizar.

Ontem fui pensar no almoço e a palavra saiu assim, sem querer: o que teríamos de mistura? Ri sozinha. Sem acompanhamento.

Lembrei das velhas panelas lá de casa. Fechei os olhos, abri as tampas. Servi-me de saudade. Memória com nostalgia é a melhor mistura que tem.

O nome da minha mãe

Ilustração: Juliana Cassab

De criança, eu não achava o nome da minha mãe bonito. Angelina. Achava-o levemente feio, sonoramente estranho. O problema, acredito, era o ina, que lembrava aspirina, vaselina, gelatina.

Certo dia, na escola, um menino perguntou o nome dela. Com vergonha, inventei, “É Angela”. Senti-me mal com aquilo, então emendei: “Mas todo mundo chama de Angelina”. Como se, sendo apelido e espécie de diminutivo, a coisa amenizasse.

Angela era bem mais lindo. Uma proparoxítona forte e, ao mesmo tempo, doce. O lance direto com o universo angelical. Além disso, tinha a Angela Maria, baita cantora. A Angela Ro Ro. Não havia naquela época, que eu soubesse, nenhuma Angelina importante ou famosa. Personagem da História, atriz de novela, nada. A Angelina Jolie era apenas uma bebê beiçuda.

Jamais contei o episódio da escola para minha mãe. Talvez ela achasse graça, talvez não. Para que correr o risco? Esta é a primeira vez que escrevo sobre. Se existe a internet dos mundos e a conexão for boa, ela vai ler. Talvez ache graça, talvez não. Agora eu corro, confiante, o risco.

Levou tempo para eu simpatizar com o nome. No colégio, já não lhe inventava nomes. O som, An-ge-li-na, começou, inclusive, a me agradar. Gosto é gosto, e ele muda. Passei a apreciá-lo. Tanto que o incluí na lista de nomes para minha filha. “Que tal Angelina, pra homenagear a avó?”, propus, no quinto mês de gravidez. Não houve adesão. Não que achassem feio. Acabei – coisas da vida – sugerindo Nina. Que ganhou. Então, “ina” não consistia mais em problema? Eu, definitivamente, estava em paz com o nome dela. De algum modo, sei que ela sabe. Na vila dos anjos também se comemora o Dia das Mães?

Pudesse, reencontraria o garoto da escola e explicaria tudo.

Gol!

futebol 1

Vivo perdendo gol do meu filho.

Em vez de prestar atenção ao jogo, distraio-me com a formiga aparentemente desnorteada que escala meu sapato, a nuvem em forma de cachorro, o pacote vazio de Ruffles que o vento leva pra cá e pra lá.

Quando vejo, já foi. Tenho déficit de atenção esportiva. E não há tratamento – graças a Deus.

É domingo, estou em pé desde as seis e dirigi cinquenta quilômetros. Aboleto-me na arquibancada; sou apenas um holograma de mim, que fiquei na cama. Não entendo nada do que fazem em campo. Demoro a descobrir de que lado o time dele faz gol. Aliás, mal o identifico, ao longe. Tento pela chuteira. Ele veio com a verde-limão ou a laranja?

Flagro um pedaço de conversa ao lado, o marido de não-sei-quem não pagou pensão e passou a noite no xilindró. Não pagar pensão é falta grave. O pacote de Ruffles agora foi parar na torcida rival, alguém se anima e o chuta de volta. Se tem uma coisa que une todo mundo é batata frita.

Perco novo lance, sei porque a torcida solta “Uuuh”.

Futebol não é minha praia. Praia também não é minha praia. Tem areia, água salgada, que aflição.

Vinte minutos de bola rolando, finjo compreender as jogadas. Resolvo ir à lanchonete. Sou a única a pedir café. Em pé desde as seis, lembram?

Volto ao meu posto e descubro que, enquanto eu tomava café e borboletava no Facebook, meu lateral-esquerdo favorito fez gol. Não dou uma dentro.

Posso não ser a mãe-torcedora ideal. Mas divirto-me vendo pais e mães com síndrome de técnico. Que ficam, da arquibancada, berrando instruções aos seus minineymars, com a mesma naturalidade com que os mandam arrumar a cama, escovar os dentes ou fazer a lição. O caso das mães, geralmente, é mais grave. “Tem que descer mais, Pedro Henrique!”, “Vai na bola, Lourenço Augusto!”. Chamam pelo nome inteiro. Nem o técnico sabe de quem se trata. Eu não faço isso. Primeiro, porque não daria uma orientação que prestasse. Segundo, atrapalha o time, é mico dos grandes. Se as torcidas organizadas têm regras a seguir, torcidas de genitores precisam de um capítulo extra.

Não fui alfabetizada nos esportes. Tinha ojeriza às aulas de educação física, no ginásio. Em parte, pela ideia do exercício em si; em parte pelo uniforme pavoroso a que éramos submetidas (shortinho bufante vermelho, minissaia branca plissada por cima) e em parte pela professora, que dava aulas maquiada e ensinava vôlei fazendo a turma ler em voz alta as regras, a partir de um livro. Sentávamos em roda e nos revezávamos. Deve ser por isso que peguei gosto pelos livros e não pelos esportes.

Na TV, pulo, sem dó, todos os canais que cobrem o assunto. Pudesse, os eliminaria. Tenho apenas um par de tênis – todo mundo precisa ter, na vida, um par de tênis e uma caderneta de poupança, para eventual necessidade. Peguei da caçula, ficou pequeno para ela. É um número maior do que eu calço, fato irrelevante. Eu que não gasto com essas coisas.

Na volta do jogo, no carro, torço para que ele não pergunte “Você viu aquele gol que eu fiz?”. Na qualidade de mãe, não poderei mentir. A inquisição fatal vem e eu respondo. Ele fica chateado por dois segundos, balança a cabeça e ri. Sei que está tudo bem quando ele emenda, “O que a gente vai almoçar?”.