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A casa morta

fotos: arquivo pessoal

No último dia do ano passado fui lá.

Fui buscar a velha Lanofix. Fingi que ia só para isso. Mentira. Fui para ver a casa morta. A casa onde nasci e cresci. Fechada há sete anos, desde que o último de seus sete habitantes se mudou de lá. Três deles não precisam mais de casa: meu avô, minha avó, minha mãe. A tríade que, junto ao meu pai, me justifica.

A casa número 1 da pequena vila na Mooca está à venda. Ninguém quer comprar. Pudera. Quem quer uma casa morta? Morreu de solidão, depois que todos nós saímos. O reboco de algumas paredes cedeu. Sua pintura está descascada. A casa morta não tem mais pele. Nem carne. É apenas um esqueleto sem ânima. Ossos sustentando um punhado de coisas importantes, além da Lanofix, inexplicavelmente largadas para trás: o carrinho de mão do meu avô, a enceradeira tão grande que nós “passeávamos” nela em dia de faxina. Meu violão, comprado no Mappin em três prestações. Os santos, hoje carcomidos, no quarto dos meus avós. No chão da sala ainda está o antigo telefone, daqueles de tecla. Penso que ele pode tocar a qualquer momento. Não sei se eu o atenderia.

Lanofix era a máquina de tricô da minha mãe. Ela fazia roupas de bebê para vender. Até a ‘ajudei’, quando criança, arruinando uma encomenda inteira. Depois de grande, aprendi a usá-la direitinho e fiz várias roupas para mim. Acabou esquecida em um dos armários. E no último dia do ano passado foi dia de buscá-la. Visitar a casa vazia foi como exumar as lembranças e reencontrar meus fantasmas de lã.

Tive algum medo de entrar na velha casa desdentada, de puro osso. Medo de ver coisas esquisitas, gente flutuando. Dizia para mim mesma: “A Lanofix, Silmara. É só trazer a Lanofix e pronto”. Funcionou, pois não vi nada, nem ninguém. Todos os fantasmas haviam saído. Houve uma hora, no entanto – é preciso contar, ainda que ninguém acredite – , em que eu já estava fora da casa e uma porta rangeu lá dentro. Não ventava e as janelas estavam fechadas. Eram eles, voltando.

No quarteirão, antes feito de casas, agora se vê um monte de edifícios. Do meio da vila, que no passado já teve um jardim com limoeiro, seringueira e pé de mexerica, antes de dar espaço aos carros dos moradores das quatro casinhas geminadas, eu digo aos pálidos prédios erguidos ao redor: “Vocês não sabem de nada”. Não sabem que foi nessa casa, em 1957, que meus pais fizeram sua festa de casamento, no quintal. (Vejo as fotos e custo a crer que coube tanta gente ali. Hoje, nele, mal cabemos minhas memórias e eu.) Não sabem que foi no quarto da frente que meu irmão nasceu, dois anos depois. Não sabem que nessa vila organizei, numa tarde qualquer dos anos 70, a festa de batizado para nosso gato Tommy (que ganhou esse nome em homenagem ao musical – nada como ter irmãos roqueiros), e um bocado de gente compareceu. Não sabem, aliás, dos amados bichinhos de estimação, entre cães, gatos e passarinhos, enterrados nela (inclusive o Tommy). Não sabem que naquela casa ganhei meu primeiro sutiã, e que ali minha mãe chorou o seio tomado pelo câncer. Prédios bobos, não sabem nada de nada.

E eu não sei mais usar a Lanofix. Mesmo assim, a trouxe comigo para minha casa viva. Está abrigada em sua elegante caixa verde. Talvez eu consiga, na internet, o manual dela. Talvez a opere, na intuição, e consiga tricotar alguma roupa nela novamente. Talvez eu ligue os pontos que faltam na trama da minha história. Talvez.

Necessidade especial

foto: Claudia

Fila do embarque. A atendente pede para que as pessoas com necessidades especiais se alinhem em outra fila, paralela à que estou. Têm direito a atendimento diferenciado, entram antes. Só não têm direito a sorriso, porque a atendente não sorri para ninguém.

Uns poucos migram para a nova fila. Cidadã honesta que sou, permaneço bonitinha na comprida fila dos passageiros comuns. Enquanto roo o esmalte do dedão, ocorre-me que eu também tenho legítimas  necessidades especiais.

A deste exato instante, por exemplo, é a de que a garota atrás de mim use fones para assistir vídeos em seu celular. Alguns portadores de necessidades especiais têm mobilidade reduzida. Eu tenho paciência reduzida.

O que leva à outra necessidade especial para o momento: um café quente e forte. Não por conta de um eventual medo de avião, que disso não padeço. (Medo eu tenho de eles não servirem cafezinho durante o voo – estão com essa mania, agora). Mas porque fila é espera, e espera precisa de uma dose de cafeína para não ser (tão) enfadonha.

Passo os cinco minutos seguintes tentando me comunicar telepaticamente com a moça dos vídeos. Como ainda não alcancei esse estágio (e estou sem café), limito-me a rosnar.

Onde é a fila para quem tem necessidade especial de que a fila ande logo?

Elaboro mentalmente uma breve listinha das minhas necessidades especiais. Vou da indispensabilidade de um tempo, pessoal e intransferível, ao longo do dia para fazer as minhas coisas, à dificuldade nata em lidar com a minha vida financeira.

Para nenhuma delas, no entanto, há leis de proteção.

A vida não me oferece fila preferencial.

Prefiro assim.

Vergonha

Tenho vergonha de andar de trenzinho.

Veja bem: não de trem. De trenzinho. Aquele que toda cidade do interior que se preza tem. O veículo customizado que leva a criançada, pais e/ou responsáveis para passear, dar um rolê.

Para começo de conversa, não é trem. É ônibus. Adaptado e decorado com florzinhas, palhacinhos, bichinhos. Uns têm personagens vivos, Mônicas e Pernalongas para acompanhar e animar a turma. Dão a volta na cidade beeem devagar. Fazem até piuí.

(Eu sei: imitam trem porque trens são do imaginário infantil – e adulto – desde sempre, muito mais que ônibus. Que criança ganha de Natal ônibus que vem com ponto de parada, rodoviária? Foi para um trem, não para um ônibus, que Villa-Lobos compôs uma das músicas mais lindas deste mundo. Mineiro diz “trem” para representar qualquer coisa; vê lá se ele diz “ônibus” a torto e direito. Adoniran eternizou o quê, ônibus ou trem? Trem é fantasia pura, meu chapa.)

Apesar da vergonha, andei em vários. Pedido das crianças, fazer o quê. Sempre que possível delego a missão ao pai, a uma tia carinhosa, primos, invento compromisso. Na impossibilidade, vou. Desejando ser invisível durante todo o itinerário, mas vou.

Quando o trenzinho da alegria passa, as pessoas na rua sorriem, acenam para os passageiros, veem um encanto na coisa que eu simplesmente não vislumbro. Nunca retribuo os acenos dos estranhos, tampouco os sorrisos. Sou a rabugenta do trenzinho. Não estou ali, compreende?

A alegria dos meus filhos quando passeiam em um não é suficiente para que eu supere a vergonha que, tenho ciência, é boba. Sendo assim, além da vergonha intrínseca, há também a vergonha de sentir vergonha – cuja nascente eu desconheço. Sequer me lembro dos trenzinhos da minha infância.

Deve ser alguma memória descarrilada, talvez. Só fazendo terapia de trilhos passados.

Não vai doer nada

                        arte: Shawn Campbell

Em trinta minutos terei dois dentes extraídos.

Dois, de uma vez. Até nisso sou metódica: simétricos na arcada, lá no fundo, são irmãos de função. Cada um em seu hemisfério.

A caminho do consultório e a título de abstraimento, aplico a autossabatina imaginária: qual a capital de Honduras? Quantas letras tem otorrinolaringologista? O pânico da cadeira do dentista, inevitável, chega aos poucos. É preciso distrair a mente, hipnotizá-la: “Não vai doer nada”.

Listo em pensamento os presidentes que o Brasil teve desde que nasci. Começo com o Costa e Silva, depois o Garrastazu (eu era criança e achava que Garrastazu era uma pessoa e Médici era outra). Geisel, Figueiredo, não vai doer nada, Tancredo, Sarney. Farol fecha, moleque (sem dentes) vem pedir dinheiro, deixo os presidentes para lá e a nova lista é das moedas. Fracasso nessa, confundo cruzeiro, cruzado, cruzeiro real. De real, apenas o prenúncio do gelo na espinha. Parto para os campeões das copas do mundo. Já é delírio pré-pavor: sequer assisto ou gosto de futebol.

Não vai doer nada.

Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si. Agora de trás para frente: si, lá, sol, fá, mi, ré, dó. Tenho é dó de mim.

Na rua, sigo encarando pessoas a fim de adivinhar seus dentes. Quantos no ponto de ônibus têm todos os originais de fábrica? Quantos têm cárie, resina, amálgama, coroa, implante? Quantos usam aparelho? Quantos estão, neste exato instante, com dor? Quantos banguelas tomam o 332?

Em vinte minutos dr. Claudio aparecerá no corredor e me chamará. Por que não liguei avisando que não poderia vir? Diria que o gato passou mal, o pneu furou, assaltaram minha casa, levaram tudo. Inclusive, minha coragem.

É meu début na extração dentária. Conto aos amigos, para dividir a angústia, alguns me olham com superior desprezo: “Mas você nunca arrancou dente antes?”. Chego a sentir-me uma excluída dental. Daqui pra frente, porém, tudo será diferente. Faltam dez minutos. Não vai doer nada.

Sabedor do meu pânico, dr. Claudio me deu um Valium na véspera. “Tome-o meia hora antes de vir”. Obedeci e a estratégia parece funcionar. Já estou na sala de espera e posso jurar ter visto um gnomo no sofá lendo Caras. Que terá o elemental de gorrinho engraçado achado da fantasia da Claudia Leitte na Sapucaí? Aliás, quantos dentes ela tem? De leite, certamente nenhum.

Minha mãe, mais nova que eu, hoje, já não tinha nenhum dente. Usava dentadura. Naquela época, era assim que se fazia. Até dentes saudáveis iam para o beleléu, mesmo sem necessidade, facilitando a vida do protético. E na nossa família não se usava visitar dentista regularmente, era coisa de rico. Só quando o bicho pegava e, geralmente, era tarde. Nunca lhe perguntei se doera. E nunca gostei de sua dentadura.

Meus filhos vão ao dentista desde antes de saber andar.

A primeira vez que fui, tinha sete anos. Algumas escolas públicas mantinham um dentista que, de vez em quando, dava uma olhada na boca da criançada. Fazíamos fila e íamos para a inspeção meia-boca. O doutor me examinou por um instante e inquiriu: “Você come lápis?”. Respondi que não. Oh ingenuidade. Os restos mortais do Faber-Castell no. 2 nos pré-molares denunciavam a mentira.

Dr. Claudio me chama, tenta me animar, “Não vai doer nada”.

Não vai, uma ova. Pode até não doer fisicamente, as anestesias modernas são incríveis. É dor de medo, é dor de fragilidade, de invasão, de vulnerabilidade.

Onde está o gnomo? A Claudia e seus dentes de Leitte? Tudo que vejo agora é um dragão selvagem e mau, armado de um alicate gigante vindo em minha direção, fazer apoteose em minha boca. A Mocidade Independente falou este ano sobre o fim do mundo. Uma sessão no dentista é mais ou menos isso.

Nem capitais, nem presidentes, nem moedas. A única pergunta que sou capaz de fazer, agora, é desesperançosa e dirigida não à Claudia, mas ao Claudio:

– Acabou?

Enriquecida com ferro e ácido fólico

Não se lê mais nos ingredientes das coisas: farinha de trigo. Dois substantivos com uma preposição no meio e só. Agora é farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico. Adjetivaram, mineralizaram e vitaminaram a farinha. Aquela com que minha mãe fez os bolos da nossa infância, aquela que tinha na vendinha, aquela que a gente fazia cola? Não tem mais. Acabou.

O pão nosso de cada dia está irremediavelmente impregnado de substâncias estranhas. E o macarrão e o biscoito. Panetone? Também. De janeiro a janeiro, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. É a onipresença do ferro e do ácido fólico na vida. Estamos todos mais saudáveis.

Até a hóstia consagrada foi enriquecida de ferro e ácido fólico. Ninguém mais comungou do mesmo jeito.

O binômio alimentar iniciático transformou-se em uma entidade sofisticada. Rebatizada de “farinhadetrigoenriquecidacomferroeacidofolico”, a matéria-prima dos nossos mingaus virou um termo imenso, indissociável, nos dizeres dos rótulos. Um palavrão de comer.

Algumas marcas ainda acrescentam “especial”, para tornar tudo mais belo – e maior. Não se enganem, porém: é tudo farinha enriquecida com ferro e ácido fólico do mesmo saco.

No mercado:

– Moço, onde fica a farinha de trigo?

– Não tem.

– Como não tem?

– Só farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico. Terceiro corredor.

Ferro é importante para a saúde, evita anemia. Ácido fólico idem, evita má-formação. Mas não há nada que evite a saudade dos bolos da minha mãe, que nunca mais comi.

Mas eu me mordo de ciúme

arte: Mr. Onz

E o gato estabeleceu que eu sou só dele. Até que a morte nos separe, sou dele e ponto final. Ciumento, na falta de palavras para fazer valer seu unilateral juramento de fidelidade, ele se vira como pode: faz xixi no meu lado da cama, na porta do meu armário e, eventualmente, em mim.

Especialistas em comportamento animal limitam-se, nesses casos, à reza aprendida nas enciclopédias de medicina veterinária: é marcação de território.

Eles não conhecem o Beto.

Beto é o mais velho da casa. Embora já tivéssemos gatos quando ele veio, trazido pela vizinha que não sabia o que fazer com aquele filhote de siamês que perambulava pelo condomínio. Dá-se bem com todos, humanos ou não, é o amigão geral da nação. Não à toa, seu sobrenome ficou sendo Boa-Pessoa. Beto Boa-Pessoa. Divide a casa com outros três felinos, dois machos e uma fêmea. Todos zanzam pela casa sem restrições, tudo é deles também. Dormem em nossas camas, descansam nas cadeiras sob a mesa de jantar e outros locais menos convencionais, tiram longas sonecas no sofá, instalam-se sobre a máquina de lavar roupa independente se é dia de lavanderia, não pagam aluguel, têm aposentadoria garantida, sombra e água fresca. São amados, felizes e nos fazem felizes.

Com regalias, Beto é o único autorizado a passear comigo na rua. Diferente dos outros, ele não se escafede assim que abro a porta. Ao contrário, fica serenamente rolando na grama, cheirando as flores, observando os passarinhos; não sai do meu campo de visão e atende meu chamado para voltar. Os outros, se encontram brecha, se pirulitam e só retornam horas depois. Aqui somos adeptos da meritocracia.

Ele é meu gato-celebridade no Instagram, inspiração e personagem de crônicas. Recito-lhe poesias, tiro-o para dançar. Será que a fama lhe subiu à cabeça? Sou sua dona, sua luz, raio, estrela e luar, seu iaiá, seu ioiô. Natural que ele confundisse as coisas. Sim, eu o amo. Mas, como diriam, para evitar confusão, “como amigo”.

Que mais, ó Bastet, deusa protetora dos gatos e das mulheres, devo fazer? Se até já lhe dei florais e, que não me ouçam, ofereci passar a escritura da casa para seu nome (a fim de sensibilizá-lo no lance do território), desde que ele parasse de regar os móveis. Não adiantou.

Como a separação está fora de questão, o jeito é caprichar no desinfetante e orar para que Beto se convença que não sou dele. Porque não sou de ninguém. Nem de mim.

O céu é o limite

arte: Tang Yau Hoong
arte: Tang Yau Hoong

Em avião, gosto de espiar o que as pessoas fazem. É mania de onisciência aérea e, garanto, imperceptível para o sujeito. Sabedora de meus podres, desenvolvi técnicas avançadíssimas com ajuda dos óculos escuros para manter o rosto voltado para o horizonte enquanto, secretamente e sem incomodar ninguém, inspeciono o passageiro da esquerda, direita e até o da frente, na fileira oposta. O de trás, no entanto, me escapa. Preciso aperfeiçoar, talvez com idas programadas ao banheiro dos fundos. No universo das manias, o céu é o limite.

Enxerimento não é mau-caratismo. Pode ser feio, deselegante e invasivo, mas só quando escancarado ou mal-intencionado. Abelhudice silenciosa, despretensiosa e confessa como a minha, mal não faz. O que os olhos dos outros não veem…

Começa na sala de embarque. Esforço-me para saber o que tanto conversa no WhatsApp o homem de moletom azul e Havaianas brancas – só visualizo emoticons coloridinhos e concluo que o papo está animado. Distraio-me com o painel de embarque, confiro o Instagram, busco um café. Logo retorno ao meu passatempo favorito de aeroporto, imaginando o tema da escrevinhação da moça com sete (sete, eu contei) piercings, em seu tablet com capa de borboleta. Toda informação relevante coletada em meu voyeurismo aeroportuário segue para o caderninho.

Na aeronave, aboletada em meu assento, flagro à frente um senhor barbudo lendo Jorge Amado. Nosso destino: Salvador. É coincidência em modo avião.

Enquanto a aeromoça passa checando o cinto de segurança de todos, a moça dos piercings passa de fase no Candy Crush. Cada um com o que lhe é importante.

Fecham as portas, vamos decolar. O moço da poltrona ao meu lado apanha o celular e, antes de desligá-lo, contempla demoradamente as duas meninas que lhe sorriem na tela de fundo. Suas filhas, eu sei. Assim como sei dos seus pensamentos. Amor e medo sempre andam – ou voam – juntos.