Arquivo da tag: museu

Museu

8c92398c1a40645885a10e50226cb905

Não me tornei museóloga por pouco.

Quando era criança, inventei de montar um museu. Com o tema para a curadoria da primeira exposição em mente, saí catando coisas – aparentemente aleatórias – pela casa. Uns chumaços de algodão, um pente velho, uma moldura de espelho, sem o espelho (daqueles cor de laranja, que vendiam nas feiras) e o que mais estivesse dando sopa.

Nossa casa na vila tinha um pequeno quintal na lateral. Quintal é sempre território de imaginar. Foi ali que instalei meu museu de coisas. Distribuí, com rigor técnico, as peças da exposição ao lado do tanque, na prateleira onde meu avô guardava a cândida e onde mais considerei adequado.

Cuidei, também, de garantir ao público as informações necessárias. Escrevi num papelzinho do que se tratava cada item do precioso acervo.

E, assim, fui identificando os objetos de altíssima relevância histórica e cultural para o país: “algodão do travesseiro de Pedro Álvares Cabral”, “pente de José Bonifácio”, “moldura do espelho da princesa Isabel”. Não lembro de todos os objetos do inventário imaginário. Só sei que deu uma curiosa exposição. Temporária, porém; no dia seguinte tudo teria que sair de lá, minha avó tinha que lavar roupa.

A única visitante foi minha irmã. Eu fui sua guia. Disse ela que estava tudo muito bonito. Nada como ter alguém para reconhecer nosso talento. Pena que não há, na família, um registro sequer. Tirar fotografia naquela época não era algo corriqueiro, como hoje. Só em eventos especiais. Tinha que ter a máquina fotográfica, filme (12, 24 ou 36 poses), dinheiro para mandar revelar e paciência de aguardar. Levava quase uma semana para voltarem do laboratório. E não dava para editar nada. Compartilhar com alguém, só entregando em mãos ou pelos Correios.

Quis o destino que, mais tarde, já na faculdade, meu primeiro emprego fosse em um… museu. Museu Paulista. Museu do Ipiranga, para os chegados. Eu era estagiária de comunicação visual. Fui alocada na sala da numismática, em uma das torres laterais (a direita, para quem olha o prédio de frente), e para chegar até ela era preciso – acredite se quiser – cruzar uma parte pelo telhado, já que não havia acesso direto por escada, nem elevador. Havia um caminhozinho partindo da torre central, devidamente protegido por uma pequena grade para que ninguém rolasse telhado abaixo. Só complicava em dia de chuva.

Primeiro job: uma exposição entitulada “Ser negro hoje”, comemorativa do centenário da abolição da escravatura nesta Pindorama. Era 1988 e eu tinha 21 anos. Ali, tudo novidade para mim: trabalhar, ter salário, o tema abordado em si. Em minha jovem vida, nunca havia parado para atinar, pra valer, sobre. Piada de preto era normal. Eu ria. Dei minha contribuição, desenhando em madeira, à mão livre, a silhueta de vários bonecos em tamanho natural, representando negros e brancos. O chefe ficou bem satisfeito.

Lembrei da minha pequena exposição no quintal. Se a filha de Dom Pedro II tivesse um espelho com moldura cor de laranja, que teria visto refletido nele no dia em que assinou a Lei Áurea?

Ainda bem que trago um museu de histórias, sons e imagens dentro da cabeça (levemente falho, às vezes). A vida tem essa mania de ligar tudo o tempo todo, por um fio compridíssimo e invisível chamado memória.

Anúncios

De volta para o futuro

Foto: Gilberto Filho/Flickr.com

Outro dia minha neta fez um passeio com a escola. Foram ao museu. Ela voltou encantada com as coisas que viu. E particularmente impressionada com um objeto, muito popular antigamente: a chapinha. Quem diria. Uma engenhoca com traços de duas eras tão distintas – a Moderna e a Medieval – ser capaz de tanto sucesso no passado.

Minha neta não sabe da missa a metade. Quem se recorda do Curvex, do contraditório Invisible Bra (absolutamente perceptível), da ombreira e do Botox? Dos velhos desfiles de moda com moças de olhares sombrios e roupas que precisavam de legendas? E das meias-calças que não duravam uma temporada? O que me fez lembrar de outro nonsense de outrora: a depilação com cera.

E fazer supermercado? Nada mais insólito: os produtos iam das prateleiras para o carrinho, do carrinho para a esteira, da esteira para as sacolas, retornavam ao carrinho, passavam para o porta-malas, e somente depois de todas as etapas é que chegavam à despensa. Nem dá para explicar como é que esse processo perdurou por tanto tempo.

Quem se lembra de quando não se reciclava lixo, o esgoto ia para o mar e a gente quase cozinhou o planeta?

Lembro-me de existir dono que não recolhia a caca do cachorro na rua, de gente que abandonava cachorro, comia cachorro, atropelava cachorro e ia embora, como se nada tivesse acontecido. Tempos bicudos, aqueles.

E como era triste a época em que as mulheres ganhavam menos que os homens, tinham que se vestir como eles no trabalho e, dependendo da profissão, nem tatuagem podia aparecer. Parece que as coisas já melhoraram: o trabalho voltou a ter sua função original e praticamente não se vê mais por aí quem endoideça – ou morra – por causa dele. E pensar que naqueles tempos também se morria de tanta coisa sem sentido: bala perdida, fome, gripe, raiva.

Minha neta quis saber se eu já usei chapinha. Sem graça, como quem confessa já ter usado algum tipo de droga, revelei que sim. Mas só uma vez, quando conheci seu avô – tratei de explicar.

[Nota: não tenho neta, viu? Digamos que eu tenha inventado essa história mais ou menos em 2045.]