Arquivo da tag: casa

Wanda

casa antiga desenho

Chique era a Wanda. Longos cabelos estilo pantera, óculos escuros tipo Jackie Onassis. Bem vestida, a qualquer hora. Morava ao lado da nossa vila, na casa dos meus sonhos.

Acompanhe comigo, com olhos de Google Maps: rua, calçada, casa da frente da vila, área comum da vila, nossa casa na vila. Essa era a extensão da casa da Wanda, cujo limite coincidia com o da nossa. Cinquenta metros no total. Uns oito de largura. Casarão, para os modestos padrões da Mooca da minha infância. Nos fundos do terreno, exatamente ao lado da nossa casa, um pomar.

Completando a quimera, a Wanda. Moça bonitona e, na minha avaliação, rica. Moderna, tinha carro e dirigia. Nada lembro do marido. Nenhum registro sequer em minha memória. Se alto, baixo, feio, bonito. Nada. Não tinham filhos, mas cachorro: Gueibin. Não sei como se escreve. Gaybin? Gabin? Um cachorrão deste tamanho, alegre e saltitante. Eu os via e ouvia chamando o peludo para lá e para cá, Cuidado com o portão!, Para, Gueibin!, Não deixa ele sair! Da mesma forma, nunca soube: Wanda com W ou com V? Nunca conversamos.

Gueibin era da raça setter irlandês. Jamais brinquei com ele. Quando eu passava na rua, em frente ao seu portão, nunca o via. Não era cão autorizado a latir para carros e gentes. Pena.

Antes de eles se mudarem para essa casa, havia outra vizinha. Uma senhora, cujo nome não me recordo. Só sei que dava jabuticabas para nós, por cima do muro. Depois que ela se mudou, o muro cresceu, a Wanda veio. Adeus, jabuticabas.

Nossa casa da rua Natal era pequena, ampliada na base do puxadinho. Eu passava bastante tempo pensando nas casas do bairro onde eu gostaria de morar. A da Wanda era a campeã. Em segundo lugar, um sobrado bacana na rua Jaboticabal, com pomposa rampa ligando o portão à porta de entrada. A janela da sala era um espetáculo: de parede a parede, do teto até quase o chão. A da nossa sala era tão mirrada. Para piorar, dava para o tanque de lavar roupas, no quintal. Por isso, quase nunca ficava aberta. A porta, então, fazia as vezes de janela também. Somada a outras limitações, não é de admirar que eu tenha dedicado tanto tempo sonhando com as casas do pedaço.

A única janela que me conectava ao mundo externo – fator de grande frustração – era a do quarto da minha mãe, que dava para a vila. Meu observatório geral de fundos de casas e telhados e horizontes, em um bairro predominantemente térreo, ainda imune à especulação imobiliária. Apenas ouvia os ônibus, as motos, o vendedor de biju, o sorveteiro. Dali, via a Wanda saindo. A Wanda chegando. A Wanda ralhando com o pobre Gueibin, que devia aprontar as suas.

Se viva for, Wanda deve beirar os setenta anos. Mais, até. Será que ainda usa óculos escuros? Será que tiveram filhos, netos, bisnetos? O Gueibin, se foi papai naquela época, talvez esteja na centésima geração. Que centésima o quê; tricentésima. Quem sabe já não topei, por esse mundo e sem saber, com um descendente seu, rolando n’alguma grama, batizando poste?

Depois que Wanda, marido e Gueibin se mudaram de lá, um japonês comprou a casa. O homem não era sofisticado, não usava óculos escuros. Nem cachorro, tinha. Ainda por cima, trocou o delicado portão de madeira da frente por outro, feioso.

Namorei um rapaz que tinha um setter irlandês. Como gosto de inventar reencarnações para os bichos, não demorou para que eu estabelecesse a conexão. Nunca confessei ao namorado, mas houve vezes em que cochichei ao ouvido do cão, como se segredo nosso fosse: “Eu sei que você é o Gueibin”.

Passou “Um peixe chamado Wanda” no Telecine. Aquele, dos anos 1980. Eu poderia fazer um filme também, “Uma vizinha chamada Wanda”. Nele, uma garotinha sardenta narraria, em primeira pessoa, suas filosofações sobre janelas, memórias e jabuticabas. Seu melhor amigo seria um cachorro. Igualzinho ao Gueibin.

Horóscopo

Minha avó gostava de ouvir o Omar Cardoso no rádio. Todo santo dia. Embora não fosse assim tão crente em previsões astrológicas, dona Josephina não perdia um programa. Ligava o aparelho na cozinha, bem alto, e ia cuidar da louça, da roupa, da casa.

Eu, por tabela, ouvia também. A voz empostada do radialista servia de trilha sonora para minhas manhãs, enquanto me divertia no quintal. A escola era só à tarde. Vez por outra, prestava atenção ao que ele dizia. Áries, seja mais assim. Câncer, seja menos assado. Peixes, dia propício para isso. Gêmeos, melhor evitar aquilo. Em minha meninice, achava que fazer horóscopo era um bocado divertido. Bastava inventar as coisas.

No quintal da minha infância, tão imenso, dava para brincar de balanço, esconde-esconde, de professora (dei muita aula para alunos imaginários; será que se formaram?), de casinha, andar de bicicleta, ter cachorro e gato e tartaruga, construir móveis para a boneca Susi com as ferramentas do meu avô. Cabia mesa e cadeiras, de vez em quando almoçávamos ali.

Não pode ser o mesmo quintal de quando me mudei de lá, quase duas décadas atrás. Tão estreito, tão apertado. Hoje, tão silencioso. Onde cabia a vida de todos nós, cabe nem meu choro. Algumas tralhas amontoadas, esperando o destino que nunca vem. Fechada há anos para morada dos vivos, agora a casa 1 da vila deve ser lar de almas que não podem pagar aluguel. Casa tem signo?

Éramos sete: meus avós, meus pais, meus irmãos e eu. Cinco signos diferentes. Toda família é uma salada zodiacal.

Certa vez, o Omar Cardoso anunciou uma tal pedra da lua. Que tinha poderes terapêuticos, energéticos e tal, uma beleza. Pois minha avó fez que fez, e só sossegou quando meu avô comprou a dita cuja. Deve ter custado uma fortuna. Que eu saiba, não serviu para nada.

Meu avô a chamava de Zéfina. Os parentes, de Pina. Eu achava ‘Josephina’ tremendamente feio. Ainda mais com ph. Só fui simpatizar com o nome depois de ler “Mulherzinhas” e saber que o nome da personagem principal, a porreta Jo March, era Josephine. E há quem diga que livros não são importantes.

Minha avó faria aniversário esta semana, dia 6 de novembro. Ela era de Escorpião. Um tantinho venenosa, feito o temido artrópode. Longeva, no entanto; viveu 81 anos. O que os astros lhe reservaram, no dia em que morreu? Omar Cardoso teria profetizado, “É hoje, Zéfina”.

De acordo com o horóscopo que acabo de estabelecer, hoje, sexta-feira, oito de novembro, passado e presente estão em harmoniosa conjunção. Bom dia para cavoucar as lembranças. Tenho uma constelação delas no céu do meu peito. Sou Touro com ascendente em saudade.

A rua

“Street”, Lea Vervoort

As casas perfeitas eram sempre de frente para a rua. Onde, da calçada, já se entrava na garagem, e da garagem, na sala. Nessa sala, idealmente, a janela tomava a parede frontal toda, nada de janelica. E dela se podia ver o movimento lá fora: quem vinha pela calçada, quem passava de moto, de carro, os vendedores de tudo, os ônibus, os vizinhos. Glória, então, se fosse sobrado: além da escada, que eu considerava chique, o quarto da frente, sobre a sala, virava camarote.

Não fui criança de desejar viver em mansões, palacetes, nada disso. Modesta, bastava-me um sobrado geminado de frente para a rua – típico da Mooca, meu universo natal e então única referência arquitetônica – e eu estaria realizada.

Quis o destino, esse fanfarrão de marca maior, que eu fosse viver em uma pequena vila, de onde não se via absolutamente nada da rua, nem uma nesga de calçada. Ainda se fosse a casa 4, da Dona Antonia, que era a última e única alinhada ao corredor de entrada da vila. Mas não: a vida colocou-me justo na casa 1, a do canto, a mais distante de tudo e de todos. Quando o moço do biju passava com sua matraca, teleq-teleq-teleq, era preciso sair correndo para alcançá-lo já quase na esquina, pois nem sempre ele adentrava a vila para oferecer seu quitute. Quem morava de frente para a rua não passava esse apuro.

Suspirava quando ia à casa das amigas. Em frente às suas salas, seus quartos, suas garagens, se dava a adorável e mágica dinâmica da rua. Como elas deviam ser felizes! Era como pertencer à grande festa cotidiana, fazer parte do filme urbano, viver, enfim. Na vila, eu me sentia fora do cenário, do enredo, do baile.

Não que detestasse a vida na vila; ela acabava sendo uma extensão do nosso diminuto quintal, onde se podia brincar à vontade, andar de bicicleta e skate, sentar no chão e ficar conversando até tardão.

O problema surgiu à medida em que a adolescência chegava. A rua era o cosmos onde circulavam os amigos, os inimigos, os paqueras. E, da janela da nossa sala, eu não avistava nada, além do tanque onde meus avós lavavam roupa. Do quarto dos meus pais, que dava para a vila, só os fundos das casas da frente. E alguns telhados do quarteirão, com eventuais gatos zanzando. Pouco, para minha sede juvenil de acontecimentos (e pertencimento).

Movida pela quimera da moradia ideal, punha-me a desenhar, obsessivamente, casas imaginárias sob medida para a minha felicidade. Caprichava na planta, me dedicava às fachadas. Talvez tenha escolhido Técnico em Edificações no segundo grau por conta disso. Ainda bem que a opção mostrou-se, a tempo, puro delírio.

Mudei-me da vila já adulta. Outros lares vieram, e a vista para a rua nunca mais foi requisito. Os sonhos envelhecem.

Há anos moro em um condomínio horizontal, que nada mais é que uma vila grande. Retornei às origens, por deliberada vontade. Nossa casa é uma das últimas, escolhida a dedo. Quanto mais longe da rua, dos barulhos, dos ônibus, das fumaças, das buzinas, das motos, dos escapamentos adulterados, melhor. Não que tenha deixado de gostar da rua; agora, eu decido quando quero vê-la. Passei a apreciar, sem sofrimento algum, o silêncio e o sossego. A melhor coisa de se ver ao acordar, descobri, não é a rua. É um bem-te-vi carregando um galhinho no bico.

Sinto falta, porém, do moço do biju. Em compensação, tem o sorveteiro. Aos sábados, ele passa na rua de trás, anunciando no alto-falante sabores de creme e de frutas. Que eu nunca comprei.

Crônica de minuto #62

A casa de meu sogro está à venda. Aos poucos, ela foi se esvaziando. No rateio do espólio afetivo os quadros em talagarça e as tapeçarias de Dona Jacy, os bibelôs, os LPs, os livros disto e daquilo foram ganhando novos donos e donas. Menos o anjo de ferro. Acabou ficando encostado no quintal, ninguém sabia o que fazer com ele.

Falta-lhe uma asa. É anjo deficiente.

Asas sempre vêm aos pares. É só ver as aves, os aviões. Menos xícara, que funciona bem com uma só.

Passei por ele, ao lado de outros cacarecos. Tristonho e aparentemente conformado com seu provável destino, a reciclagem. Fiquei com dó, catei. Avisei a cunhada, “Ó, está comigo”.

Agora ele vai morar no sítio. Já fez amizade com o São Francisco ao seu lado, sobre a lareira, que não fica lhe enchendo de perguntas, querendo saber o que aconteceu com a outra asa. Para ele, isso não importa. Santos são inclusivos por natureza. Anjo deficiente tem prioridade na fila para falar com Deus? Santo Antonio tem, está sempre com criança no colo.

Se alguém vir uma asa de anjo perdida, é favor contatar a família.

A casa morta

fotos: arquivo pessoal

No último dia do ano passado fui lá.

Fui buscar a velha Lanofix. Fingi que ia só para isso. Mentira. Fui para ver a casa morta. A casa onde nasci e cresci. Fechada há sete anos, desde que o último de seus sete habitantes se mudou de lá. Três deles não precisam mais de casa: meu avô, minha avó, minha mãe. A tríade que, em parte, me justifica.

A casa número 1 da pequena vila na Mooca está à venda. Ninguém quer comprar. Pudera. Quem quer uma casa morta? Morreu de solidão, depois que todos nós saímos. O reboco de algumas paredes cedeu. Sua pintura está descascada. A casa morta não tem mais pele. Nem carne. É apenas um esqueleto sem ânima. Ossos sustentando, sem vontade, um punhado de coisas importantes, além da Lanofix, inexplicavelmente largadas para trás: o carrinho de mão do meu avô, a enceradeira tão grande que nós “passeávamos” nela em dia de faxina. Meu violão, comprado no Mappin em três prestações. Os santos, hoje carcomidos, no quarto dos meus avós. No chão da sala ainda está o antigo telefone, daqueles de tecla. Penso que ele pode tocar a qualquer momento. Não sei se eu o atenderia.

Lanofix era a máquina de tricô da minha mãe. Ela fazia roupas de bebê para vender. Até a ‘ajudei’, quando criança, arruinando uma encomenda inteira. Depois de grande, aprendi a usá-la direitinho e fiz várias roupas para mim. Acabou esquecida em um dos armários. E no último dia do ano passado foi dia de buscá-la. Visitar a casa vazia foi como exumar as lembranças e reencontrar meus fantasmas de lã.

Tive algum medo de entrar na velha casa desdentada, de puro osso. Medo de ver coisas esquisitas, gente flutuando. Dizia para mim mesma: “A Lanofix, Silmara. É só trazer a Lanofix e pronto”. Funcionou, pois não vi nada, nem ninguém. Todos os fantasmas haviam saído. Houve uma hora, no entanto – é preciso contar, ainda que ninguém acredite – , em que eu já estava fora da casa e uma porta rangeu lá dentro. Não ventava e as janelas estavam fechadas. Eram eles, voltando.

No quarteirão, antes feito de casas, agora se vê um monte de edifícios. Do meio da vila, que no passado já teve um jardim com limoeiro, seringueira e pé de mexerica, antes de dar espaço aos carros dos moradores das quatro casinhas geminadas, eu digo aos pálidos prédios erguidos ao redor: “Vocês não sabem de nada”. Não sabem que foi nessa casa, em 1957, que meus pais fizeram sua festa de casamento, no quintal. (Vejo as fotos e custo a crer que coube tanta gente ali. Hoje, nele, mal cabemos minhas memórias e eu.) Não sabem que foi no quarto da frente que meu irmão nasceu, dois anos depois. Não sabem que nessa vila organizei, numa tarde qualquer dos anos 70, a festa de batizado para nosso gato Tommy (que ganhou esse nome em homenagem ao musical – nada como ter irmãos roqueiros), e um bocado de gente compareceu. Não sabem, aliás, dos amados bichinhos de estimação, entre cães, gatos e passarinhos, enterrados nela (inclusive o Tommy). Não sabem que naquela casa ganhei meu primeiro sutiã, e que ali minha mãe chorou o seio tomado pelo câncer. Prédios bobos, não sabem nada de nada.

E eu não sei mais usar a Lanofix. Mesmo assim, a trouxe comigo para minha casa viva. Está abrigada em sua elegante caixa verde. Talvez eu consiga, na internet, o manual dela. Talvez a opere, na intuição, e consiga tricotar alguma roupa nela novamente. Talvez eu ligue os pontos que faltam na trama da minha história. Talvez.

Mas eu me mordo de ciúme

arte: Mr. Onz

E o gato estabeleceu que eu sou só dele. Até que a morte nos separe, sou dele e ponto final. Ciumento, na falta de palavras para fazer valer seu unilateral juramento de fidelidade, ele se vira como pode: faz xixi no meu lado da cama, na porta do meu armário e, eventualmente, em mim.

Especialistas em comportamento animal limitam-se, nesses casos, à reza aprendida nas enciclopédias de medicina veterinária: é marcação de território.

Eles não conhecem o Beto.

Beto é o mais velho da casa. Embora já tivéssemos gatos quando ele veio, trazido pela vizinha que não sabia o que fazer com aquele filhote de siamês que perambulava pelo condomínio. Dá-se bem com todos, humanos ou não, é o amigão geral da nação. Não à toa, seu sobrenome ficou sendo Boa-Pessoa. Beto Boa-Pessoa. Divide a casa com outros três felinos, dois machos e uma fêmea. Todos zanzam pela casa sem restrições, tudo é deles também. Dormem em nossas camas, descansam nas cadeiras sob a mesa de jantar e outros locais menos convencionais, tiram longas sonecas no sofá, instalam-se sobre a máquina de lavar roupa independente se é dia de lavanderia, não pagam aluguel, têm aposentadoria garantida, sombra e água fresca. São amados, felizes e nos fazem felizes.

Com regalias, Beto é o único autorizado a passear comigo na rua. Diferente dos outros, ele não se escafede assim que abro a porta. Ao contrário, fica serenamente rolando na grama, cheirando as flores, observando os passarinhos; não sai do meu campo de visão e atende meu chamado para voltar. Os outros, se encontram brecha, se pirulitam e só retornam horas depois. Aqui somos adeptos da meritocracia.

Ele é meu gato-celebridade no Instagram, inspiração e personagem de crônicas. Recito-lhe poesias, tiro-o para dançar. Será que a fama lhe subiu à cabeça? Sou sua dona, sua luz, raio, estrela e luar, seu iaiá, seu ioiô. Natural que ele confundisse as coisas. Sim, eu o amo. Mas, como diriam, para evitar confusão, “como amigo”.

Que mais, ó Bastet, deusa protetora dos gatos e das mulheres, devo fazer? Se até já lhe dei florais e, que não me ouçam, ofereci passar a escritura da casa para seu nome (a fim de sensibilizá-lo no lance do território), desde que ele parasse de regar os móveis. Não adiantou.

Como a separação está fora de questão, o jeito é caprichar no desinfetante e orar para que Beto se convença que não sou dele. Porque não sou de ninguém. Nem de mim.

Desencaixotando

arte: Petter Duvander
arte: Petter Duvander

O pior, pior mesmo, de se mudar não é a fase de procurar o novo lar pela cidade, nem passar uma temporada fazendo dos classificados sua única fonte de leitura, nem ouvir lorota de corretor, nem sondar se os novos vizinhos são gente boa, nem aguentar o azulejo cor de rosa do lavabo. O pior, pior mesmo, é desfazer as caixas.

Elas, a solução perfeita para acomodar o que vai no caminhão, do frágil ao inquebrável. Elas, a redenção para que suas calcinhas e sutiãs não embarquem junto às ferramentas do marido ou aos carrinhos do filho mais novo. Elas, a promessa de que as coisas ficarão tão de jeito que, no máximo em dois dias, praticamente se auto-organizarão em seus destinos.

Enquanto a coisarada é embalada nas caixas mágicas, transportadas da casa velha até o caminhão de mudança e do caminhão até a casa nova, você se compadece dos moços que tiveram de estacionar na rua porque o regulamento do condomínio não deixa entrar caminhão grande e, portanto, têm de carregar o peso por cem metros no muque, sobem e descem escadas quando a tralha não cabe no elevador, suam em bicas, ensopam o uniforme azul marinho. “Aceitam uma água geladinha?”. É o máximo que você pode fazer por eles.

Porém, assim que a última caixa pousa no chão da casa nova, são eles que, secretamente, se compadecem de você. Dali, eles se vão, felizes da vida, tratar de mais duas mudanças, uma na zona norte e outra na zona sul. Embalar, transportar da casa até o caminhão e do caminhão até a casa nova, estacionar na rua por causa do regulamento, cem metros no muque, as escadas, as bicas, o uniforme ensopado. Um deleite, perto dos intermináveis e desesperadores momentos que você vai viver desfazendo as caixas que, repentinamente, deixaram de ser mágicas. Ser carregador de caixas, e não desfazedor delas: que dádiva!

Fazê-las é o céu. Desfazê-las é o inferno. Conviver com elas é alguma coisa entre um e outro. Os gatos, dada a longa espera, até desistem de ganhar seus novos, grandes e espaçosos brinquedos. Gatos, o mundo sabe, adoram caixas de qualquer tipo e tamanho.

Para cada caixa desfeita surgem duas, cheinhas, num processo semelhante ao da abiogênese. Não há lógica à luz da ciência, física quântica ou ocultismo, que explique por que encaixotar leva um dia e desencaixotar, vinte.

Ou mais.

Há nove anos nos mudamos para nossa casa atual. Há nove anos duas caixas de papelão permanecem num canto do meu quarto, embora já tenham habitado o corredor. Integradas à paisagem doméstica, adquiriram até utilidade com o passar do tempo. Desenvolvi afeição por elas. Cogitei revesti-las com algum material decorativo, de modo a ficarem mais jeitosas. Imbuída de coragem, comecei a desfazê-las umas três vezes, e três vezes desisti. Onde enfiar aquilo tudo? Já nem sei mais o que é “aquilo tudo”, não me lembro do seu conteúdo e não levo jeito para Pandora. Um rótulo puído, escrito à mão com marcador preto, indica que ambas abrigam álbuns de fotografia, que ficaram sem lugar nos armários novos e a preguiça de reconfigurar os espaços venceu. Afinal, para quê tanto papel, se a memória de quatro gerações cabe num pendrive?

O pior, pior mesmo, é explicar as caixas, quando alguém passa por ali e pergunta.

Tupperwaaare!

Arquivo: National Museum of American History

Nos desenhos antigos o homenzinho investia contra a árvore com seu machado afiado. Na última machadada, gritava “Madeeeiraa!” e ela, rangendo, tombava ao chão.

Em casa não tem machado. Mas basta abrir o armário da cozinha e, em segundos, tal a árvore, todos os potes plásticos vêm abaixo. Nem dá tempo de berrar “Tupperwaaare!” ou coisa parecida. Tento agarrar o azul, o verde despenca, trazendo o vermelho junto. Num efeito avalanche, por pouco não sou soterrada. Eu, que só queria guardar o arroz que sobrou do almoço, à noite tenho pesadelos com ferozes vasilhas voadoras me atacando, numa versão doméstica d’Os pássaros, do Hitchcock.

Já decretei: que todos sejam guardados com as respectivas tampas, ainda que isso tome mais espaço. A revogação é inevitável; a arrumação não dura dois dias. Inútil organizá-los. São objetos dotados de ânima. Na calada da noite, como se tocados por uma varinha (plástica) de condão, criam vida e mudam, eles próprios, de lugar. As tampas vão passear, os quadrados se enfiam nos redondos, os grandes sobem nos pequenos, numa farra colorida de dar inveja. É carnaval no armário.

Como nas campanhas de pessoas desaparecidas, com apelos nas redes sociais, eu estabeleço uma diligência em busca das peças perdidas. Pergunto a todos da casa, até ao gato. É sabido: tupperware viúvo de sua amada tampa não tem serventia.

Na rotina de uma cozinha, os potes plásticos são tão fundamentais quanto odiáveis. Um dia ícones da praticidade e da modernidade, hoje um mal necessário. Ruim com eles, pior sem eles. Não posso ver feirinha deles no mercado: compro. E quanto mais compro, mais eles somem, num incompreensível fenômeno de abdução plástica. Há um universo paralelo aonde todos eles vão parar, meu bem.

Ou nem tão longe: certa vez, reclamei com a empregada que eu não tinha mais tupperware, apesar de me lembrar dos tantos comprados. Dia seguinte, ela vem trabalhar com uma sacola cheia deles. “Fui levando neles as sobras de comida da senhora, esqueci de trazer de volta”.

Tem também a amiga que, em sereno dia de fúria, aguardou a avalanche sossegar, colocou tudo num enorme saco preto e deixou-os para o lixeiro levar. Invejo rompantes de atitude assim. Só podia ser sagitariana.

***

Quero tupperwares novos, é meu desejo-metonímia da vez. Mas não os de armazenar resto de sopa ou lasanha; os de organizar cabeça. Poder guardar cada ideia e cada sentimento no seu lugar. Sentimento misturado é um perigo: medo com vergonha, amor junto da raiva, compaixão ao lado da pena. Tudo ficaria ali, arrumadinho, à mão. E com tampa, que é para conservar as coisas, até a velhice. Só precisariam inventar outro material. Tem coisa que não dura no plástico. Apodrece.

As casas

Ilustração: Ekaterina Mitchev

Toda casa tem remédio vencido
Livro nunca lido
E ralo fedido

Toda casa tem tapete de bem-vindo com desenho engraçadinho
Forno de microondas um pouco sujinho
E xampu de ponta-cabeça, para aproveitar o restinho

Toda casa tem quintal razoavelmente bagunçado
Muito papel velho guardado
E um revisteiro, nem sempre atualizado

Toda casa com recém-nascido tem cantiga no ar
Uma visita craque em fazer bebê nanar
E quilos de fraldas que, pena!, não vão se reciclar

Toda casa com criança tem árvore de Natal
Bola murcha no quintal
E um Miojo providencial

Toda casa de gente preocupada tem leite desnatado
Dinheiro bem guardado
E portão com cadeado

Toda casa com gato tem sofá desfiado
Pelo pra todo lado
E pelo menos um vídeo dele, bem engraçado

Toda casa tem, inclusive, coisas que não rimam
Como vaso sem planta
Filme de viagem que ninguém assiste
Ímã de geladeira de lugar que já fechou
Controle remoto com pilha fraca
E cupom de promoção que não vale mais

Toda casa tem mais coisas que o necessário
Mas ninguém sabe
Que o que toda casa tem, coitada, é medo de cair.

Nota: este poema é a maior prova de que um texto, às vezes, tem vontade própria. Nascido para ser coisa de adulto, teimou e pendeu para o infantil o tempo todo. Não teve jeito: ele venceu.

Não repara na bagunça

Ilustração: Nadia/Flickr.com

Assim como se implora à visita que adentra em casa para não reparar na bagunça, faz-se mister pedir a quem entra em nossa vida – namorado novo, por exemplo – para fazer o mesmo, mas em relação a outro tipo de bagunça: a da nossa cachola. Principalmente, se essa visita for voltar mais vezes.

Almofada no chão, pia cheia, roupa aqui e acolá, sapato perdido, pacote de biscoito aberto na cama, livro, correspondência e brinquedo, tudo junto na mesa de jantar… para tudo dá-se jeito. É questão de braço e disposição. Já para ideia fora do lugar, palavra que vem antes de pensamento, complexo e mania misturados na mesma gaveta, rotina analógica em descompasso com a digital, ah. Nem com as melhores caixas organizadoras do mundo. É quando a pessoa avisa que vai, mas talvez fique, e se ficar, talvez queira ir. Mais ou menos isso, ou nem tanto, muito pelo contrário. É nessa bagunça, de fato, que as visitas reparam.

Bagunça que vem lá dos tempos de projeto, quando a pessoa ainda estava na planta, está fadada a bater ponto, transformando a vida num eterno canteiro de obras. Nada toma forma, tudo é ainda, tudo é quase, tudo é gerúndio. E não adianta trocar o mestre de obras, o problema está na fundação.

Bagunça gera bagunça, num fenômeno que não é restrito à violência ou gentileza. Um relacionamento bagunçado desperta mal-estar na profissão e vice-versa. A culpa não é do chefe. Nem do terapeuta, essa espécie de personal organizer.

Ouvi dizer que quando a vida, no geral, está caótica, a baderna se refletirá no guarda-roupa. Fui correndo ver o meu e, dia seguinte, arregacei as mangas e parti para a arrumação. Minha esperança era enganar o universo, fazendo o caminho inverso. Ou seja, mudar de fora para dentro. Não deu muito certo, mas o armário ficou um brinco. Ninguém reparou.

(Des)Empregada II, a traição

Foto: Amigomac/Flickr.com

– Alô?

– Eu queria falar com a Silmara.

Seguem-se dois minutos de conversa. É de um certo RH, pedindo referências sobre minha ex-empregada, aquela que pediu as contas. Como num interrogatório, respondo às perguntas com ‘sim’ ou ‘não’. Sou a ré. Condenada, talvez, por não ter aumentado o salário da ex-ajudante e ter tapetes demais. Meu desejo, porém, é abrir o coração com a moça do outro lado da linha. Chorar as pitangas. Lavar a roupa suja (opa). Contar como anda a vida depois da saída dela. Desabafar que tenho pensado em mudar minha cama para a masmorra da área de serviço, para ficar mais prático. “Você sabe o que é desencardir vinte e oito meias por semana?”. Em vez, recolho-me à condição de ex-patroa, cuja função, agora, é fornecer subsídios para a nova carreira da ex. Ao final da ligação, tasco a pergunta:

– De que empresa é?

– Da padaria tal.

Então é isso. Vou ser traída com o padeiro.

Conheço o lugar. E logo começa o devaneio: chego ao balcão e peço meia dúzia de pãezinhos. Três moreninhos e três branquinhos, para agradar os gregos e os troianos do meu lar. Espicho o olhar e reconheço a cabeleira, apesar da redinha. É ela, ajeitando na cesta os pães recém-saídos da fornalha. Sou fina, cumprimento. “As crianças, como vão?”. Emendo: “Veja também umas broinhas, por favor? A minha nova ajudante a-do-ra!” – é meu inocente blefe. Ela entrega o pacote com os pães, ainda quentes, por cima do balcão. Faço questão que note minhas unhas, feitíssimas, simulando distância de qualquer tanque (ela não sabe, mas comprei luvas de látex). Despedimo-nos com polido afeto, e no som ambiente da padaria começa a tocar “I will survive”, da Gloria Gaynor. Na tela aparece “fim”, junto com os créditos do meu curta-metragem imaginário. Não sei porque não fiz cinema na faculdade.

E se eu revelar certas coisas sobre o perfil da ex? Não, isso não. “Amai-vos uns aos outros”, ensinou Jesus. Que, por certo, não tinha empregada quando proferiu isso.

Declaro minha inveja de quem tem a mesma empregada há vinte anos. A que é convidada para os batizados dos filhos de quem, um dia, ajudou a trocar as fraldas. A que ganha presente de Natal até da madrinha do patrão. Aqui, elas mal completam o primeiro ano e já dão o pinote. “A casa é muito grande, Dona Silmara”. “Muito gato, Dona Silmara”. “É pouco tempo para fazer tudo, Dona Silmara”. “A senhora paga pouco, Dona Silmara”. Os opostos – muito e pouco – não as atraem. E a Dona Silmara compreende tudo. Só não compreendo como elas conseguem passar uma camisa em menos de trinta minutos e manter os Tupperwares organizados no armário.

As compadecidas vizinhas me param na rua, “E aí?”. Finjo serenidade, demonstro paz interior. Na realidade, tenho encarnado a Rainha de Copas, como na história da Alice, quando percebo vestígios de Nutella na cortina: “Cortem-lhe a cabeça!”

Nem tudo são trevas, porém. Gosto da casa vazia, da ausência de corpos estranhos zanzando na minha intimidade. De acordar sem o ronco do aspirador de pó e tomar café-da-manhã na cozinha sem trilha sonora sertaneja. Mas meu pão com manteiga jamais será o mesmo.

Continuo a entrevistar mais candidatas, e nada. De qual crise o noticiário fala? Só sei das minhas: de nervos, de identidade e de alergia ao Veja Multiuso.

Paciência, é preciso tê-la. Na vida, nem tudo é Perfex.

(Des)Empregada

Ilustração: DrasticJo/Flickr.com

E a empregada pediu as contas. Cuidar de um lar com oito seres vivos não era exatamente seu plano de carreira. Lá fui eu para o tanque, a pia, o ferro de passar e, sobretudo, para o inferno. Sem garantia de purgatório, muito menos paraíso. Queria era ver Virgílio desentupindo ralo. Beatriz com um esfregão nas mãos. Dante colocando o lixo para fora. Essa sim, seria a divina comédia.

Desde o primeiro dia após o último do aviso-prévio, descubro, com a mesma surpresa de uma exploradora, partes da minha casa nunca dantes navegadas. Frestas e cantinhos impossíveis de limpar, compartimentos secretos, xícaras desconhecidas. Perguntas que não querem calar surgem a todo instante: por que gatos soltam tanto pelo? Como assim, o forno não é autolimpante? Quem guardou estas tranqueiras na área de serviço? Como se limpa o box do banheiro? Quem inventou as camisetas brancas? Por quem os sinos dobram? Qual o sentido da vida?

Deus criou o mundo. Assim que tudo estava limpo e arrumado, descansou. Num lar, a lenda divina não se aplica. É deixar tudo bonitinho para, dali não sete dias, mas sete horas, estar quase tudo novamente por fazer. É como se os dias fossem um eterno “dia da marmota”, igual ao que aquele repórter vive no filme “O feitiço do tempo”. Pois juro: lavei esta calça ontem, e lá está ela no cesto. As atividades domésticas se repetem o tempo todo, numa espécie de maldição. Não há fim, não há conclusão. Não pode haver felicidade numa caixa de sabão em pó. Nem líquido.

Lembro da amiga que costuma evocar “Cry Baby”, da Janis Joplin, em dia de faxina. Cada um sabe da sua dor. Cada um busca sua reza. Nessas horas, vou de bossa nova. Para lavar a varanda enquanto a tardinha cai. Porque barquinho, que é bom, não tem. Água, só no balde.

E a penitência vai longe: a lei do silêncio é clara, nada de barulho depois das vinte e duas horas. Porém, o cuco vai dar meia-noite e o aspirador de pó é quem vai cantar. Sou uma fora da lei. O indelével tempo não facilitou para mim durante o dia. Então, vai de noite, mesmo. Com direito a um bombom entre um tapete e outro. Caloria entra, caloria sai. Quem precisa de academia?

Vizinhas compadecidas tratam de indicar substitutas. “Urgente”, imploro. Na entrevista inicial, por telefone, trato de pintar um quadro ameno: só tenho duas crianças. A casa tem só três quartos. São só quatro banheiros. Só. Para ver se ela também se compadece e topa vir. O fato é que nenhuma tem dia livre. Quando tem, combinamos, “Na segunda, então?”. E ela não vem. Nem telefona. Se homens são de Marte e mulheres, de Vênus, as empregadas domésticas serão de qual planeta? A questão, talvez, não seja o planeta, mas quais e quantos ônibus elas pegam para vir trabalhar.

Uma mulher sem sua ajudante é capaz de qualquer coisa para restabelecer a ordem no lar. Na situação de (des)empregada, boto a família toda para trabalhar, inclusive os menores de idade. Que venha o fiscal do conselho tutelar. Pois dou-lhe uma vassoura, também. Vale tudo. Até estratégias antiéticas, ilícitas, feias. Afinal, o sétimo mandamento, “Não roubarás”, não fala nada sobre surrupiar a empregada do próximo.

Os elefantes

Ilustração: Dawn Hard/Flickr.com

Se você não pode com eles, junte-se a eles. Quem disse isso pela primeira vez sabia o que estava falando.

Passei o final de semana observando os elefantes que apareceram, de uma hora para outra, no meu quintal. Gostaram tanto do pedaço que não estão com pressa de ir embora. Pudera. Esse bicho tem pressa de alguma coisa? Elefante, quem não sabe, é o maior animal que há. Só perde para a baleia-azul. E, como ela, ele é dos mais pesados. Dependendo de onde resolva se instalar, vira trambolho, estorvo. Transtorna a vida e toma tempo – já tentou dar banho em um? Baleia, pelo menos, não precisa de banho.

Armei minha rede ao lado da turma de paquidermes. Só para conhecê-los melhor, entre um quilo de amendoim e outro. Virei freguesa do mercadinho, a dona queria saber o que eu fazia com tanto amendoim. Contei-lhe a verdade, ela riu, hi hi hi. Japonês ri de tudo. Por isso vive muito.

Dei-me conta de que fui eu mesma que os deixei entrar. Elefante em casa é um problema. Problema em casa é um elefante. E eles vieram parar justo no meu minúsculo quintal. Nunca imaginei que coubesse um ali, quanto mais vários. Pois couberam. Eu tenho deixado que os problemas, assim como os elefantes, pareçam maiores e mais pesados do que realmente são. Primeiro aprendizado: elefante cabe em qualquer lugar. Problema também, basta a permissão para que se instale. E um problema, tal elefante, incomoda muita gente.

Também ando dando atenção demais aos dumbos do quintal. Se acho que estão com fome, com sede, calor, lá vou eu cuidar deles. Fazendo isso, deixo-os cada vez mais fortes. Que se virem sozinhos, portanto. Assim como os elefantes, alguns problemas se auto-resolvem. Só precisam de um pouco de tempo. Segundo aprendizado.

Percebendo que algo não ia bem, os amigos quiseram saber o que estava acontecendo. Mostrei-lhes o quintal. “Simples”, disse um eles, “Eu levo um para minha casa”. Outro se dispôs a fazer o mesmo. Em seguida, outro também. Agora restam poucos. Aprendizado número três: dividir os elefantes, assim como os problemas, torna tudo mais simples. Pleonasticamente leve.

Acabo de espiá-los pela janela. Estão dormindo. Quando acordarem, vou lhes contar aquela antiga piada sobre quantos elefantes cabem num Fusca. Quero ver se algum deles vai acertar.

Bananas

Ilustração: Andrea Joseph/Flickr.com

.

– Casa sem banana não é casa.

Toda família tem seus parentes distantes. É como se cada fruto da árvore genealógica fosse saboreado por um passarinho, e sua semente fosse parar longe dali, dando origem a uma nova árvore, filha daquela. E dela surgissem novos frutos, especialmente ligados à árvore-mãe. Assim são as famílias: os frutos, numa espécie de migração, vão se estabelecendo em outras terras. A diferença é que, de vez em quando, eles se encontram.

Tio Zuza é tio do papai. Nas migrações ao longo das décadas, ficou longe de todos. Mas mantém o hábito de, três vezes por ano, visitar os sobrinhos-netos. Viaja sozinho. Exibe com orgulho sua carteirinha de idoso: a passagem sai de graça. Ou quase.

Quinta-feira de manhã, desembarcou na rodoviária. Fui buscá-lo. A primeira pessoa a levar uma bronca do tio – soube assim que fechei o porta-malas do carro – foi o motorista do ônibus que o trouxe: como é que podiam deixar alguém viajar trezentos e sessenta quilômetros sem ar-condicionado? A segunda, o vendedor de chiclete no sinal, um moleque de dez anos: por que é que não estava na escola? A terceira, e já em casa, fui eu. Minha infração: ter me esquecido de comprar banana.

Enquanto tentava, em vão, lhe mostrar as qualidades do mamão papaia, estalando de maduro na fruteira, tio Zuza deu de ombros, desistiu do lanche, retornou à sala e foi conferir os porta-retratos sobre a cristaleira, Como espicharam os filhos da Margarete!

Anotei no papelzinho ao lado da pia: incluir um bom cacho na próxima compra. Escrevi ao lado, para pensar depois: de que é feito um lar, então? O que confere, de verdade, alma a uma casa?

Quando um casal de parcos recursos decide viver junto, geladeira, fogão e cama são os itens mínimos para garantir a sobrevivência – e a alegria – na nova moradia. E máquina de lavar? Não, pois sempre se pode recorrer à casa da mãe de um dos dois. Armários? Também não; umas araras, umas caixas bem bonitas de papelão dão conta de organizar tudo até que se consiga mandar fazê-los. Está bem, televisão é fundamental. Porém, o laptop a substitui. E este não pertence à casa, mas sim ao dono. No mais, o que dá o título de lar a uma casa são seus habitantes, suas vozes e seus passos.

A minha tem tudo isso. E mais: secadora de roupa, aspirador de pó, banheira, sofá, cadeira, cachorro, formiga nos tamanhos P, M e G, pernilongo faminto nos dias chuvosos, lâmpada queimada, goteira de vez em quando, cama de casal, cama de criança, cama de gato, embalagem aberta de biscoito, roupa no varal, vela no armário para quando falta energia, leite de caixinha, chinelo pelo meio, feijão no tupperware, copo de requeijão, livros, canetas no finzinho, antenas, tapetes, cardápio de pizzaria na porta da geladeira, iogurte vencido, jabuticabeira sem jabuticaba, conta de água, CD na caixinha errada, desenho de criança na parede, garagem para dois carros, wi-fi, CEP e santo protegendo a entrada. Eu poderia jurar que tudo isso, junto, constituía uma casa.

Mas faltava a banana. A primeira fruta de todo bebê. A base da nutrição humana, depois do leite materno. Amassada com o garfo, em forma de coração, como as que minha mãe fazia. A fruta mais popular do planeta. Embora, tirando a nanica, eu confunda todas as outras espécies: prata, ouro, maçã, da terra. Boa de levar no carro, na lancheira, no escritório. Não requer talheres, não suja as mãos. Não deixa fiapo, nem nada verde nos dentes. Sacia qualquer larica. A fruta iniciática, perfeita e fundamental. Nunca soube de alguém que houvesse escorregado numa casca de banana, nem acho que elas sejam tão baratas assim, para justificar as expressões em torno delas.

De acordo com a sentença do tio Zuza, minha casa não passava de um amontoado de tijolos, cimento, vidros, telhas, fios e coisas inertes. Faltava-lhe o sopro divino. Mas nem tudo estava perdido, e a condenação foi breve: o varejão abriu às seis e meia da manhã.