Ligações perigosas

Arte: Lohan Gunaweera
Arte: Lohan Gunaweera

Confesso: gosto de desligar o telefone na cara dos outros, quando os outros me enchem “os pacová” (minha avó falava assim). Se a prosa vai mal, se a comunicação foi liquidada, cerimônia não é comigo: deixo meu interlocutor no vácuo, encerro o assunto, boto ponto final – ainda que unilateral – na conversa. Fazer o quê. É minha primitiva vingança, meu prazer chulo e secreto, a satisfação do instinto subdesenvolvido que também habita meu ser.

Não foi assim que mamãe ensinou, bem sei.

Antigamente, quando os trambolhentos telefones ficavam numa mesinha no canto da sala, fazer isso causava não só uma afronta pessoal, mas uma lesão auditiva. Do outro lado da linha, a pessoa quase sentia o baque seco do fone no gancho (gancho? Eu disse gancho?). Quanto mais forte a porrada no aparelho, maior o desaforo.

Hoje, o impacto físico do ato, digamos, rebelde, é discreto. Chega a ser elegante. Basta tocar a tela de um smartphone ou, quando muito, apertar uma tecla, para encerrar aquela DR bombástica. A tecnologia minou o aspecto cênico dos embates verbais não-presenciais, estragou a teatralidade do tele-bate-boca, arruinou o desfecho do barraco de longa distância. Quase cortou o meu barato.

Minha porção mal-educada costuma vitimar, invariavelmente, os entes mais próximos e queridos (quem explica?): marido, pai, irmãos. Embora meus alvos prediletos também incluam, com frequência, voluntários de instituições de caridade, atendentes de telemarketing, cartões de crédito e telefonia celular, além do dono da pizzaria que atrasa meu pedido em mais de uma hora. Jamais pratiquei o vil hábito, no entanto, com chefe ou cliente. Berra quem pode, ouve quem tem juízo.

Desligar na cara resume o “não tenho mais nada a falar com você”. Resolve a parada sem democracia, cidadania ou direito a réplica. Tem efeito similar a bater porta, levantar-se da mesa no restaurante e ir embora. Pior que lixar as unhas placidamente enquanto o outro profere o diabo. Com a diferença de que, ao telefone, não se pode conferir a expressão de fúria do ultrajado. Um mistério a mais na relação?

Pior que desligar enquanto o outro fala é não atender quando esse outro liga de volta para tirar satisfação. É o ápice da impiedade.

O inferno me aguarda, bem sei.

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5 comentários sobre “Ligações perigosas

  1. Isadora ( a pequena de 1 ano e 7 meses) desenvolveu uma tática mestre… ela atende: “alo, oie, tá, tá, táu” e pronto, joga o telefone no chão, ou no sofá, ou no tapete, mas o importante é que ela joga o telefone como quem diz, chegou, bastou, ou como ela mesma diz “pabou mãae, pabou” (acabou, acabou)….

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  2. O meu medo é outro ! É de eu, em consequência de uma inoportuna ligação telefônica, ir logo para o inferno, esperar Vc lá …
    “_Gostaria de falar com o Sr. Fernando…
    _ Quem está falando ?
    _ Aqui é do Banco Itaú (o canalha sabe que eu tenho conta no Itaú e estou aguardando o estorno de um lançamento indevido) e o Sr. pode me atualizar alguns dados cadastrais…
    _Não forneço dado algum por telefone !
    _É somente para segurança desta ligação…
    _Não forneço meus dados por telefone !
    _Então..
    _Não insista ! (e desligo).
    Já atendi muitas outras variações dessas “Ligações Perigosas” ! Até um choro de criança dizendo ser meu sobrinho e que ele tinha sido raptado !…”
    O meu sonho é que um dia todas as ligações eletrônicas do mundo sejam de identificação instantânea obrigatória (número do telefone, IP, etc. e localização num mapa “tipo Google maps” ! Não sei se teremos espaço nas cadeias para todos esse “Ligadores Perigosos”, mas talvez poderemos salvar muitas vítimas em perigo e evitar irmos logo para o inferno esperar Vc ! (brincadeirinha !).

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  3. Ui, ainda bem que com sua amiga de infância aqui isso nunca aconteceu!
    Se eu ‘discar’ o seu número, não bata a tecla na minha cara, please!
    Acho que só uma vez fiz isso na cara de uma pessoa, que abusou (e muito) da minha paciência. E era amiga, hein?
    Talvez o inferno me aguarde para uma temporada curta.
    bjs.

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  4. Já “cliquei” o telefone na cara de operadores de telemarketing em geral, mas descobri que isso os estimula a continuar ligando (fingem que a ligação caiu, rsrs!).

    Hoje adoto a postura de psicopata: interrompo o cidadão no meio da frase para dizer “não, obrigada” e fico repetindo essa resposta a tudo que o outro diz, sem maiores explicações. É grosseiro, eu sei, mas já cansei de tentar argumentar, pedir pra não ser incomodada, ser simpática…

    A gente se vê lá no inferno. 😉

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