Crônica junina

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Precisei comprar vestido de caipira para a Nina, ela vai dançar quadrilha na festa junina da escola. Lembrei-me de uma loja perto de casa que costuma ter, assim eu escaparia dos shoppings. Poder estacionar em frente, e não na lonjura de um G5, é uma bênção em dias de pressa modo on.

Abro o vidro e, sem descer do carro, pergunto à senhora em pé, na porta: “Tem vestido de caipira?”. Se não tiverem, basta engatar a ré. “Temos, sim!”. Viva São João.

A senhora aponta a seção dos vestidinhos, e em seguida pede a um rapaz que assuma o atendimento. “Pode deixar, vó”. Ela avisa que vai almoçar e desaparece através da porta ao lado de uma arara com calças em promoção.

O rapaz conta que ela gosta de ficar ali, zanzando, ajudando. Na verdade, ela e seu avô começaram o negócio, tanto tempo atrás. Hoje ele toca a loja e eles moram ali, numa casa anexa.

Reúno meia dúzia de vestidos para a Nina experimentar. Enquanto ela desfila, vou duvidando que alguma garota que viva no interior se vista daquele jeito. Toda festa junina, tirando as comidinhas, é uma falácia.

O vermelho ficou bom?, tem um número maior?, crédito ou débito?, CPF na nota? Vendas são feitas de perguntas e respostas que se encaixam.

Reparo: o rapaz tem um sobrenome tatuado no braço. As pessoas costumam tatuar o primeiro nome do filho, da mãe, do pai. Sobrenome, primeira vez que vejo.

Obrigada, eu que agradeço, boa tarde, para vocês também. Na pressa, Nina esquece no provador o casaco que vestia. Só notamos depois, longe dali.

Apanho a bolsa, cadê a nota fiscal?, ufa!, tem o número da loja, pego o celular, ligo, peço para guardar. Reparo: a razão social da loja é o sobrenome no braço do rapaz.

Final do dia, retorno à loja. O casaco esquecido está dobrado à perfeição, dentro de um saco plástico. Em qualquer outro lugar ele estaria amarfanhado sob o balcão, aguardando o resgate. Gentileza extra para a freguesa que tanta pressa tinha. O rapaz está certo em se orgulhar da sua dinastia – que batiza seu ganha-pão – impressa na pele.

Antes de sair, passo ao lado das calças em liquidação e tento ver a porta por onde a avó se transfere para o seu mundo paralelo. Não vejo. E se for uma passagem imaginária, como a que conduz à Nárnia? Faz sentido; em vez de apenas um armário com roupas, uma loja cheinha delas.

Eu bem que gostaria de ir para Nárnia. Mas só se lá tiver canjica.

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4 comentários sobre “Crônica junina

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