José do Ano

Eu estava em São Paulo. Mais uma daquelas reuniões de trabalho, onde a ida e a volta são mais interessantes do que a própria. Rodo pelo Itaim Bibi, tenho que estacionar em um hotel, nenhuma vaguinha na rua. Logo vem o manobrista, bato os olhos em seu crachá. Leio de novo, é isso mesmo? José do Ano.

Penso: se o dono do crachá demonstrar alguma simpatia, é praticamente impossível não puxar conversa:

– Seu José do Ano?

Ele abre um sorriso, não sei se de orgulho do nome, ou por conhecer a conversa que se seguirá.

– Eu mesmo, às suas ordens!

E a minha pergunta infame, previsível, instintiva, automática e boba: De que ano? Percebo na hora e tento consertar.

– Todo mundo pergunta isso para o senhor, não é?

– É… (o sorriso fica maior ainda, ele vai respondendo enquanto termina de preencher o canhoto)… e o pior é que faz anos!

A gargalhada explode espontânea, minha e dele. Aí José do Ano começa a contar. Nasceu em Palmeira dos Índios, sertão de Alagoas. Na virada de 1962 para 1963. Os Moura Lima comemoram, e o pai anuncia, Esse vai ser José do Ano! E avisa: Se o padre não quiser batizar, que não batize. Trago o menino de volta sem batizar, porque esse aqui tem que ser do Ano! E o padre batizou. E José do Ano veio parar em São Paulo.

Catedral de Palmeira dos Índios, AL

Catedral de Palmeira dos Índios, AL / Foto: Divulgação

Apesar de sertaneja, sua cidade natal não é das que mais sofrem com a seca. A seca de Graciliano Ramos que, embora tenha nascido noutra cidade, foi prefeito de Palmeira dos Índios em 1927. Talvez nem José do Ano saiba disso. Ele saiu de lá de ônibus para vir estacionar os carros dos outros. Como tantos Josés. Mas só o do Ano tem esse sorriso no olhar. Vontade danada de perguntar se ele é feliz aqui, se a família ficou por lá, se tem filhos, mas isso não são perguntas que se faça a alguém que se acaba de conhecer. E o momento não ajuda, pego o papelzinho escrito à mão e com pressa e vou para minha reunião. Ele continua manobrando, não para um minuto, um canhoto atrás do outro.

Passo a reunião pensando no José de 1963. Como será que teve a ideia de vir para São Paulo, terá sido o folclore da cidade grande? Qual terá sido sua primeira visão da cidade sem fim, sem índio e sem palmeira? Desejei que ele estivesse ali na minha volta, para continuar a prosa. Será que voltou alguma vez à cidade natal? Reunião encerrada, corro para o estacionamento. E José do Ano não está lá. Nas semanas seguintes, busco um motivo para retornar ao Itaim Bibi, mas não encontro. Descubro que o primeiro brasileiro a ganhar a Maratona de Chicago é seu conterrâneo. O motivo não é dos melhores, eu sei. Mas quando estiver novamente em São Paulo, passo lá para contar.

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Um comentário sobre “José do Ano

  1. Cumadra.
    Como sou o Rei dos Xucros (país da Trapadêincia do Meio, um vizinho de nossas terras pelo sul) depois que o Pena mandou seu fio preu achar sua meada, xucramente tentei ser um dos leitores registrados no seu blog.
    Mas, quem sou eu pra realizar tarefas que dependem de raciocínio lógico? Quem, hein? Cliquei aqui, cliquei ali, digitei, mas… continuei fora das paliçadas de seus domínios.
    E confirmei quem sou eu. Ninguém.
    Porém, bafejado pela sorte, a quem recebo sempre prum chá das cinco, semana sim, e semana também, ficamos os dois em silêncio olhando o cair do sol na Serra da Canastra refletida na água da represa fronteiriça, recebi do nosso mesmo amigo o mapa da mina e do fio que me levou, Teseu, ao tesouro da Cumadra, Ariadne.
    E entrei, e li, e fucei, e ri, e sirrepiei com seu olhar esquinal pelas esquinas e ruas da cidade cheia de esquinas a cada quarteirão.
    E descobri junto, estas capturas, estes achados, estas simples e brilhantes pedrinhas ao sol da estrada. Aqueles azuis de céu de outono no movimento suave da folha mais alta da árvore imóvel.
    Tão tá, agora tô assiduante. É so cutucar aqui e semesinredo no fio.
    Beju
    do Cumadro.
    PS. Biserve que em tempos de tudo sem fio e via satélite, um fio poderá ser uma boa e salutar novidade pras almas transeutes. E pode ser vendido, daqui uns, tempo na feirinha do MASP, ou, caríssino em sua primeira edição, nalgum sebo. O logo, entrementes, entre as mentes nas livrarias.

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