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Mande lembranças

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arte: Rodvaz

Quando Fulano pediu a Beltrano que mandasse lembranças a Cicrano, Beltrano não sabia a quais, exatamente, Fulano se referia. Ninguém sabe essas coisas.

Seria a do último Natal que passaram em família, antes de o patriarca endoidar e resolver botar as pedras no bolso do casaco, e cujo resto da história só se soube no dia seguinte, quando Joca, o cachorro, latiu feito besta na beira do rio?

Ou, quem sabe, a lembrança dos tempos em que eram, os dois, irmãos inseparáveis, feito unha e carne, feijão e arroz? Um na pele do Homem Aranha e outro na do Batman, roubando os doces da mesa antes dos parabéns na festinha da prima.

Ou, então, aquela de quando, morando no velho casarão, brigaram feiamente por causa da gata de um que papou, feliz da vida, os canários do outro?

“Mande lembranças a Cicrano, quando o encontrar”. Pode ser que Fulano quisesse apenas lembrá-lo de que ele jamais o perdoara pelas botas – legítimas Stetson de bico quadrado e salto carrapeta que ele comprara com o salário de dois meses como empacotador no mercadinho – surrupiadas para ir ao baile do caubói da cidade, e nunca devolvidas, e que na ocasião Cicrano acabou beijando Mariana, o grande amor de Fulano. Por beijá-la ele até poderia perdoá-lo; pelas botas, jamais.

Beltrano ainda fala com os dois. É a ponte familiar, carcomida pelo tempo e que ninguém se atreve a atravessá-la. Beltrano, o portador de boas e más novas. O verbo de ligação. O irmão do meio, literalmente. Nunca mais se reuniram, os três. E não foi por causa de gatos, nem botas, nem gatos de botas.

Muitos mandam lembranças a alguém apenas para lembrar que ainda existem. Espécie de lembrete, “Ei, estou aqui”. Outros vivem mandando lembranças a esmo. Como frase vazia, a completar uma despedida banal. Por falta do que dizer. Para preencher de algum som o ar, vazio de assunto. Que pecado. Lembranças não deveriam ser enviadas em vão, eis um bom mandamento. O décimo-primeiro, quem sabe.

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Rosa, um miniconto

foto: Sílvia Kalvon

Foi tirando peça por peça da caixa de papelão. Um jeans novinho, com a palavra “flower” bordada atrás, no cós. Ela tentou ler, flô-er. Ergueu-a no ar. Não me serve, murmurou. Engordara bem nas ancas, culpa da comida da avó. Tão gordurenta, ainda não acostumara. Uma camisetinha verde musgo, furada na manga. Um lenço estampado em tom terroso, puído, embora elegante. Uma toalha de banho branca, com aplique de cetim também branco. Toalha grossa, boa, por que será que deram embora? — pensou. Levantou-se, enrolou-a no corpo. Viu o nome bordado no aplique. “Rosa”.

Todo mês, a igreja distribuía coisas para os pobretões do bairro. Ela era pobretona. E agora era do bairro. Requisitos preenchidos, ganhava roupas de vez em quando e aprendera a fazer currículo. O gerente de RH do banco era camarada do padre.

Como é que ia usar toalha com nome de outra pessoa? Ela não se chamava Rosa. Raspou as unhas sobre o bordado, pensou em desfazê-lo com a tesourinha. Estragaria a toalha, desistiu. Colocou-a sobre a cama, conferiu o restante da caixa.

Pôs-se a pensar na Rosa. Bonita? Inventou que a Rosa havia abandonado o marido. Ele, desiludido, resolvera dar tudo que ela deixara para trás, e a toalha foi no meio. Antes isso do que a Rosa ter morrido. Sentiu um arrepio, fechou a caixa. Dobrou a toalha, colocou-a por cima. Roeu a unha do dedinho. Não poderia usar aquilo, certeza. Onde já se viu? Até estava precisando de uma toalha boa, grossa. Mas.

Apanhou a garrafinha sobre o criado-mudo, deu um gole. Foi até a janela, despejou-a cuidadosamente sobre as minirrosas. Dariam flor este ano, afinal? Logo seria primavera. Trouxera-as no ônibus, o tempo todo no colo, maior cuidado do mundo. Dezesseis horas segurando firme o vaso, tinha hora que até dava cãibra. Eram sobreviventes, as minirrosas e ela.

Currículo bom não pode ter mais que duas páginas, aprendera. Retirara, então, a parte de seu emprego na floricultura da madrinha, o moço do RH falou que era bobagem. A escola onde estudara também. “Pra quê? Ninguém vai saber onde fica esse fim de mundo!” — e riu. “Põe só Fundamental II: completo”. Então, coube tudo nas duas páginas. A entrevista é semana que vem. Se o jeans servisse, iria com ele. Flô-er, repetiu. O lenço estava garantido. Se conseguir a vaga, não precisará mais das roupas da igreja. Comprará uma toalha nova, também. E mandará bordar nela seu nome. Bem grande.

Sabiá

Ilustração: Gustavo Peres/Flickr.com

– Então, você deixa o rádio ligado? Eu vou lá telefonar.

O dono do bar, um sujeito meio redondo, fez que sim. Ele saiu, parou no orelhão em frente. No bolso da calça buscou a carteira e, nela, o cartão telefônico. No da camisa, o papelzinho escrito a lápis, com o número da rádio. Apertou os olhos para ler a letra ruim do colega. Ligou. Ocupado. Ligou de novo. Ocupado de novo. Buscou o papelzinho, errara algum número? Mais uma vez. Sorriso abriu, estava chamando. Atenderam.

No estúdio, Antonio Carlos comandava o programa romântico das sextas-feiras. Os ouvintes pediam as músicas por telefone, ele punha no ar. Embromava um pouco antes, para dar tempo do Chico, o assistente, achar a canção. Puxava conversa com quem estava do outro lado da linha, fazia um gracejo se fosse mulher. Chico conhecia tudo. Era dizer o nome da música, um pedaço da letra, ou só cantarolar de leve, e pronto. Ele dava a ficha: é de Fulano, faixa tal, do disco assim assado. Assoviava uma canção na hora que o homem da voz de veludo atendeu Osmar naquela noite.

– Vamos ver quem está na linha, alô?

– Alô!

– Quem está falando?

– Meu nome é Osmar.

– Boa noite, Osmar! Você fala de onde?

– Do orelhão.

Chico, de seu posto, riu. Antonio Carlos fez sinal para ele ficar quieto.

– Qual música você gostaria de pedir nesta noite enluarada, Osmar?

– Eu queria ouvir Sabiá.

– Sabiá… aquela… do…

Osmar facilitou as coisas:

– Aquela uma – e pôs-se a cantar em sua voz miúda, medrosa – “Vou voltar, sei que ainda vou voltar…”

Antonio Carlos olhou para o Chico, que fez sinal positivo.

– Claro! Sabiá, linda música! O Chico, meu colega aqui, vai por no ar pra gente, num instante. Mas você é de onde, Osmar?

Hora da embromação.

– Sou de Santa Rosa dos Purus.

– E onde fica Santa Rosa dos Perus, Osmar?

– Purus. É Purus. Santa Rosa dos Purus. Fica longe, no Acre. Encostado no Peru. Pensando bem, o senhor até que pensou certo.

– Então é longe mesmo, hein, Osmar! – e Chico fez sinal, cadê a música? – Um abraço para o pessoal de Santa Rosa dos Purus!

– Ah, ninguém vai ouvir o senhor, não. Lá não pega.

O Chico vasculhou aqui e ali. Nada de sabiá. Osmar espichou o olho por baixo do orelhão. Sentiu vergonha, o dono do bar o escutando pelo rádio, aquela conversa mole.

– Osmar, e para quem você vai dedicar “Sabiá”?

Osmar trocou de ouvido o telefone.

– É para mim mesmo.

– Ah… Você não tem namorada, Osmar?

– Tenho não.

– Nem uma amiga, assim, especial?

– Tenho não, senhor. Vou dedicar para mim mesmo. Que esta semana a saudade bateu, tanto problema na vida, rapaz. Aí lembrei da música, minha mãe cantava quando eu era criança, sabe?

– Então pronto, Osmar! Dedique a canção à sua mãe! Mesmo que ela não escute na rádio, vai ouvir com o coração.

Antonio Carlos tinha a voz bonita, e dela saíam palavras bonitas também.

– Que vai, vai. Eu sei. Mas minha mãezinha está quietinha lá… Se ela sabe que eu estou sentindo saudades, se dana a chorar, não para mais.

– Então para um amigo daqui, Osmar. Dedique “Sabiá” pra um amigo!

Osmar foi se aborrecendo. Diacho. Então, não podia dedicar uma música para si. Tinha que ser para outra pessoa. Se tudo que ele fazia na vida já era para os outros. Os prédios de vidro que ajudava a erguer. O salário que ganhava e da metade ele não via a cor, ia para a família. A roupa que ajudava a passar na pensão, para o mês sair mais em conta, tanta camisa que meu Deus do céu. Tudo para os outros. Ninguém nunca dedicara uma música para ele. Queria, então, se dar um agrado. Quer dizer, queria mesmo era voltar. Como na canção.

– Amigo eu tenho, sim. Mas está tudo no Acre, já disse ao senhor que ninguém vai ouvir.

Chico fez sinal. Encontrara. Mas Antonio Carlos, inconformado, insistia na dedicatória.

– Nem um bichinho de estimação, Osmar?

– A dona da pensão não deixa. Olha, o cartão vai acabar. Se o senhor fizer questão, invente aí uma pessoa…

E a ligação caiu.

Osmar voltou ao bar e fez sinal para o dono, que lavava os copos, para mudar de estação. Ele enxugou as mãos no avental, achou a ideia ótima. Era dia de jogo, iam transmitir ao vivo. Osmar sentou-se em seu canto, beliscou a mandioca que já esfriara e serviu-se da cerveja que já amornara. Viu a gaiola pendurada logo acima da geladeira, um pano de prato com motivos de Natal cobria-lhe uma parte. Ao lado, uma imagem empoeirada de São Francisco de Assis (que não deixa de ser Chico). Pensou em sua sabiá, que àquela altura voava solitária nas ondas do rádio, sem ele.

– Tem nome, esse passarinho? – Osmar quis saber.

O dono do bar agora secava os copos.

– Uns chamam dum jeito, outros, de outro. Tem nome, não.

– Então vai se chamar Tom.

O homem olhou o bichinho, mudo em seu poleiro. Concordou. “Até que Tom combina”. Riu-se e foi ter com os fregueses que acabavam de entrar. Aqueles trabalhavam na madeireira da rua de cima, e eram chegados numa confusão. Não podia bobear.

Alto-mar

Ilustração: Shelly/Flickr.com

Agradeceu e desligou o telefone. E agora? Cruzou os braços. Descruzou. Mordiscou a ponta do polegar. E agora, quem cortaria seus cabelos? Vinte anos com ele, somente ele, ninguém mais que ele. Não confiava em outro. Apanhou uma mecha e a passou na boca. Não se conformava. Ele precisava morrer hoje?

A avó nunca deixava seus cabelos crescerem. De três em três meses, quando ela a mandava lavar a cabeça logo cedo, já sabia: dia de tosa. Normalmente, só lavava à noite. Nesse dia não adiantava ela se escorar nos batentes das portas, nem nos galhos da primavera ao lado do portão. A avó era como um desses cães que puxam trenós no gelo, ia a arrastando enquanto ladrava sem, contudo, mordê-la. Chegava ao salão com o rosto inchado pelo choro, as mãos cortadas pelos espinhos da primavera. O barbeiro improvisava para ela o assento com uma caixa de maçãs, para que ficasse mais alta. Sob a ordem da avó, decepava-lhe os fios. De vez em quando, ele bem que tentava. Um chanelzinho hoje, Dona Lurdes? Sem negociação. Cabelo comprido embaraça muito, sou eu quem penteio todo dia – ela justificava. Com a franja ensopada a lhe cobrir os olhos ela via, através do espelho, seu destino sendo traçado. A caixa de madeira a lhe torturar o bumbum. E a sempre encardida capa plástica com barquinhos desbotados, apertando seu pescoço, os restos de cabelos nas bainhas. Cabelos de outras crianças, postas ali para o mesmo castigo. Certa vez, assistira a um filme sobre um presídio para mulheres. Assim que chegavam, ficavam enfileiradas num corredor, nuas. As carcereiras passavam e, máquinas em punho, zzzzz. Todas carecas.

Não cortaria mais os cabelos. Pronto, estava decidido. Não entregaria sua cabeça assim, a qualquer um. Encontraram-no caído no apartamento, a manicure contou. Uma poça de sangue ao redor. Ele fora o único que atendera seu pedido, logo na primeira vez: Meio centímetro, por favor. Usou uma régua para aferir meio centímetro dos setenta que desabavam sobre seus ombros, e aquilo a encantou. Da segunda vez, facilitou-lhe a vida: Um dedo. Confiava nele a ponto de ler uma revista inteira durante o corte. Agora ela queria saber o que fazer com a sua confiança. As pessoas não avisam quando vão morrer.

Na escola ela era a única de cabelos curtos. Em seus aniversários, a madrinha insistia e lhe dava laços, presilhas, tiaras. Inúteis acessórios, segurariam o quê? O fim deles, porém, era sempre o lixo. Na sua festa de dez anos, aproveitou um instante de distração da avó e conseguiu salvar uma fivela dourada. Havia um barquinho de strass nela. Escondera-a na casinha do cachorro, numa fresta entre o assoalho e a parede. A avó não gostava do Genaro, e vice-versa. Late demais, esse bicho – reclamava. Era um local seguro, portanto. Ao sair para a escola, apanhava-a dali e a colocava nos parcos cabelos. Devolvia-a na volta, sob o olhar conivente do cão. Um dia, o flagrou mastigando a fivela. Não sobrou nada. Cachorros não avisam quando vão fazer arte.

A morte do cabeleireiro, no entanto, desmantelara nela um processo inacabado. Ela crescera, saíra de casa. Seus cabelos também cresceram. Mas temeu o retorno à tutela da avó, apesar de adulta. Viu-se arrastada ao velho barbeiro, a desconfortável caixa de madeira. Os barquinhos da capa plástica naufragando na poça de sangue, Tão moço, ainda. Não. Nem mais um dedo, a partir de agora. Seus cabelos cresceriam até os pés, ela os enrolaria pelo corpo, em breve não precisaria mais de roupas. Ela seria, ao contrário das presas do filme, eternamente cabeluda. E alforriada. Olhou as próprias mãos, lembrou dos espinhos das primaveras. Levantou-se num supetão, Preciso mandar uma coroa de flores! Onde se compra uma coroa?

Despediu-se das manicures, era a primeira vez que via o dono do salão chorar. O céu anunciava um temporal e o bairro do cemitério costumava alagar. No carro, recebeu a mensagem pelo celular. Era seu irmão, avisando: Vovó passou mal. Do cemitério até o hospital eram vinte quilômetros. Quantos dedos cabem num quilômetro?

Sentou-se na cama ao lado da avó, que lhe fez um pedido. Assim que pudesse, deveria passar em sua casa e procurar uma caixa no armário de seu quarto. Azul, tem uns lilases grandes, é fácil de achar – explicou. Ela obedeceu. Seguiu as coordenadas e a encontrou. Abriu. Reunidas nela, todas as presilhas, laços, fivelas, grampos que ela havia ganhado quando criança. A avó não os jogava fora de verdade, então. Era seu jeito de afundar as vontades da neta, jogar a madrinha para escanteio. Agora ela ganhava de volta os presentes do passado. A avó temia o futuro? Ê, Genaro. Sentiu as mãos formigarem, lembrou das primaveras do portão. Fechou a caixa e a deixou ali.

No dia seguinte, durante o horário da visita, contou à avó que havia encontrado a caixa. A enfermeira entrou e serviu o lanche. A avó retirou o miolo do pão e fez uma bolinha. Com ela enfeitou a gelatina, e lamentou:

– Pena não estar completa.

– Como assim?

– Falta uma.

– Qual?

– A fivela que tinha um barquinho. Aquela eu nunca encontrei.

A avó passou geléia na casca do pão, mudou o canal da TV. Desistiu do pão, empurrou a bandeja para os pés da cama. Ela levantou-se para recolhê-la.

– Nem me lembro dessa. Vai querer o chá?

A tatuagem

Ilustração: r8r/Flickr.com

Sonho dos mais esquisitos, aquele. Ele brincava com um garoto que não conhecia, numa casa que não era a sua. Vivia uma vida que não era a dele, num tempo que não era agora. Na casa, a escada, muito alta, não o deixava ver aonde ela ia dar. Vinha do andar de cima, porém, a música que embalava a brincadeira dos dois. E alguém cantava junto. O menino montava cavalinho em seus ombros, ele dava um pinote e lá iam ao chão, entre almofadas gigantes e coloridas, acabando-se em gargalhadas. Foi numa das piruetas que reparou. Em seu antebraço direito, um desenho que ele não sabia como fora parar ali. Que diabos, uma flor? Esfregou-a com os dedos, não saía. Era uma tatuagem.

Acordou banhado, os lençóis ensopados, sensação de não estar só. Acendeu o abajur e, desesperado, verificou o braço. Nada havia ali, além da fitinha de Nosso Senhor do Bonfim, puída e desbotada. A fé cabe num trapo. Mais intrigado que surpreso, tentou dormir de novo. E o medo de continuar a sonhar, viver o próximo capítulo, ter a flor impressa em seu braço, quem era o menino, que música era aquela, meu Deus? Melhor ficar acordado. Sentou-se na cama, cobriu-se com o edredom – era inverno – e pôs-se a contar os trens que chegavam à estação do metrô, vizinha ao seu prédio. Noventa e oito trens depois, hora de levantar.

Passou a semana incomodado. A urgência em enxergar o que (ainda) era invisível. A toda hora dobrava a manga da camisa: sentia-se tatuado. Na sexta-feira não foi trabalhar. Ligou para o escritório, deu uma desculpa qualquer. Apanhou a lista telefônica. Tatuagens artísticas, página trezentos e trinta e seis.

Seu avô, pai de seu pai, ensinara: “Os conselhos dos sonhos são os melhores”. Dizia que era através deles que os anjos falavam com a gente. Ele sempre achara que os anjos eram mudos. Ou que não queriam papo. Até aquela vez. Tem lição que a gente aprende, mas fica dormindo dentro de nós. Como urso hibernando. Um dia, ela acorda, ou brota. Não é preciso temê-la. Urso, sim.

No estúdio, acharam estranho homem tatuar flor. Ele também. Mas lembrou-se de outra do avô: “Um homem deve sempre ter uma flor à mão”. Quis, então, que fosse igualzinha à do sonho. Mostrava o antebraço ao tatuador, “Aqui, assim…”. Enquanto o moço imprimia o desenho em sua pele, transpirava como naquela noite. O ruído dos cinzentos trens elétricos agora era substituído pelo zunido – também elétrico – da agulha.

Segunda-feira. Da plataforma onde aguardava o trem, avistou seu apartamento. Com o dedo indicador no ar contou os andares, até chegar ao décimo segundo. Terceira janela da direita para a esquerda, seu quarto. Era dali que seus sonhos saíam para passear. Espantou-se com a quantidade de gente que dormia sobre ele, ao lado, embaixo. Imaginou todos sonhando ao mesmo tempo.

Como sempre fazia, aguardou no lugar onde, sabia, as portas do quinto vagão se abririam. Este o deixava em frente à escada rolante na estação onde descia. Assim ganhava tempo. Viu os faróis do trem surgirem ao longe, miúdos. Ajeitou a gravata. Não deu bola ao primeiro nem ao segundo vagão. Mas o terceiro, ah! O terceiro trouxe a moça. Sentada, rosto recostado à janela, uma tristeza no olhar do tamanho de um bonde. Ou de um trem. Ele nunca havia sonhado com ela. Mas agora, passando à sua frente, ela parecia um sonho. Apressou-se em alcançar seu vagão, a escada rolante poderia ficar mais longe desta vez. As portas se abriram, “Com licença, com licença”, foi pedindo. Na confusão, a fitinha do Bonfim caiu. O banco ao lado dela acabara de desocupar. Não perdeu tempo: sentou-se, desabotoou o punho e dobrou a manga da camisa até o cotovelo. Colheu a flor do braço e lhe ofereceu. Mais intrigada que surpresa, ela tirou os fones do ouvido e o encarou. Ele, então, reconheceu a música.

O avô estava certo.

Sobre baleias e vulcões

Ilustração: Elizabeth/Flickr.com

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A garotinha das tranças tortas entregou o giz de cera, uma folha de papel, e pediu:

– Desenha uma baleia?

Danou-se. Quando ela era pequena, tudo que tentava desenhar ficava parecido com vulcão. “Por que um vulcão, Helena?”, a professora perguntou. “Não é vulcão…”, e desabou no choro que não terminaria antes do recreio. Desde aquela época resolvera: não desenharia mais e pronto. Passou a infância distante dos crayons. Era inimiga dos pincéis, avessa às aulas de educação artística. Adolescente, descobriu as ilustrações digitais. Foi sua alforria. Agora, a menina lhe propunha um retorno ao inferno.

– Vou tentar – disse, ajeitando-se no banco de concreto da pequena alameda. Esboçou uma montanha e acrescentou nela um rabo de peixe. Cruzou os braços, condenando o próprio trabalho:

– Eu não sei desenhar baleia.

A pequena quis tranquilizá-la:

– Não faz mal – e segredou-lhe no ouvido, baixinho: – A baleia também não sabe desenhar gente.

Retomou o giz. Riscou a metade inferior da ‘montanha’ com um longo e ondulado traço, representando o mar. Fez-lhe um olho triste. A garota examinou. Séria, inquiriu:

– Cadê o esguicho?

– Esguicho?

– Toda baleia solta esguicho pela cabeça. Nunca viu, não?

Desenhou, então, uma espécie de chafariz sobre a baleia disforme. Igual ao do jardim que ficava na entrada do asilo. Há um mês ela passava as manhãs ali, visitando os velhos. Mas sentia-se incomodada perto deles, alguns cheiravam a manteiga. Era com a menina que conversava a maior parte do tempo. Filha da cozinheira que, não tendo com quem ficar, ia junto.

Ela riu:

– Isso não é esguicho!

“Danou-se de vez”, pensou. O vulcão. Mas a menina soltou:

– Parece mais uma flor!

Estava sempre com duas tranças mal-feitas, produzidas às pressas pela mãe, ainda na madrugada. Uma começava acima da orelha. A outra, abaixo. Uma dúzia de fios eram banidos do abraço cor-de-rosa do elástico, aqui e lá. Diariamente interrompida em seus sonhos, tratava de terminá-los no caminho, embalada pelo sacolejo dos três ônibus.

“Flor é melhor que vulcão”, ponderou. Corrigiu o esguicho. Desenho aprovado, enfim. Os velhos dali nunca lhe pediam para fazer desenhos. Alguém os havia ensinado que era melhor serem quietinhos. Como vulcões extintos.

Meio-dia. Hora de partir. Desceu a alameda, cruzou os portões. Fez um último aceno à pequena amiga. Na esquina de casa, buscou na bolsa o controle remoto da garagem. Encontrou a baleia, dobrada em quatro. Sorriu. A semana estava apenas começando.

Sobre fadas e madrinhas

Ilustração: Catriona Allen-Bryce/Flickr.com

A menina entrou soluçando no quarto e atirou-se aos pés da cama:

– Madrinha, eu nunca vi uma fada!

A mulher, empenhada em desatar os nós do cadarço do tênis da menina, interrompeu a tarefa por um instante. Tempos atrás, diante da mesma lamentação da afilhada, ela lhe garantira que as fadas existiam. Mais: contou-lhe que elas viviam nas árvores. Com a revelação, a menina decidira passar o dia de plantão no pomar da casa, aboletada no tronco do abacateiro doente que havia sido derrubado uma semana antes. Não vira, porém, fada alguma. Só o gato que, de vez em quando, surgia por detrás de alguma touceira, na tentativa de papar algum passarinho mais distraído. E só. Naquele dia, tristonha, a menina concluiu: A madrinha deve estar enganada.

A mulher alcançou uma caneta no criado-mudo. Com a tampa, fez nova tentativa de desembaraçar o cadarço, Mas quem é que deu tanto nó aqui?

– Será que nunca mesmo?, perguntou, cutucando os nós com impaciência. Tão apertados.

A menina ajoelhou-se. Lembrou-se de uma viagem que fizera com os padrinhos para a praia. Um enorme engarrafamento na serra. Ela, que nunca vira a estrada passar tão devagar sob seus olhos, teve uma esperança. Quem sabe a lentidão do trânsito não a faria avistar alguma fada na mata? Grudou o rosto no vidro da janela, espalmando as mãos contra ele. O padrinho sempre implicava quando ela tocava as coisas para vê-las melhor: A gente vê com os olhos, não com as mãos! Assim como a madrinha em relação às fadas, ela também achava que o padrinho estava enganado: mãos são olhos complementares. E os dois, tão enganados, a cuidar dela. Estou frita, pensava. Durante a descida da serra, o máximo que seus olhos – todos eles – detectaram foi um sapo, que atravessara a estrada aos pulos, cegamente, e por pouco não virou patê.

– Fada não existe coisa nenhuma, madrinha.

A mulher disse que elas eram assim mesmo, não ficavam dando sopa por aí. E, metendo os dentes no cadarço emaranhado, quis saber:

– E por que é que você quer tanto ver uma?

A menina alcançou a caneta e rabiscou o dorso da mão. Os dentes funcionaram e os nós do cadarço finalmente começaram a se soltar, a mulher ficou animada.

– Olha! Fiz uma fada!, disse a menina. Em seguida, acrescentou-lhe cabelos e óculos. – Fada usa óculos, madrinha?

A mulher desfez, vitoriosa, o último nó do cadarço. Abriu um sorriso.

– Óculos eu não sei. Mas tênis, acho que usa. Olhe aqui.

E inclinou-se para mostrar: do lado esquerdo, bem no cantinho, próximo aos ilhoses por onde o cadarço passava, havia uma bonequinha bordada. Notara nela um detalhe que, poderia jurar, não estava ali antes: uma espécie de varinha, que saía de sua minúscula mãozinha. Na ponta, uma pequena estrela lilás.

A menina agarrou o tênis e disparou em direção ao quintal. Sentou-se, desta vez, num rolo de corda, enrolado à perfeição, que o padrinho deixara ali. E ficou esperando que a fadinha saísse do tênis e viesse conversar com ela. Talvez a madrinha não estivesse enganada, então.