O nome da gente, parte 2

Arte: Marie
Arte: Marie

Nina vira e diz: “Mãe, sabe como eu gostaria de me chamar?”. E desfila uma longa lista de nomes que ela julga bonitos. Renata, Gabriela, Lorena, Rafaela, Manuela, Flavia. Não por acaso, os nomes das amigas. Não tem Nina na lista encantada. Ela não gosta de seu nome, deixou claro. Penso, mas não falo: “Um dia, você vai gostar”. A gente não desiste de querer mudar as pessoas.

Escolher nome de filho é uma responsabilidade cruel. Decidir a palavra-própria que o acompanhará pelo resto da vida, a que vai representá-lo perante o mundo, a que timbrará seus documentos, da certidão de nascimento à de óbito, é tarefa séria. E nem sempre pai e mãe acertam o gosto do filho. Fazer o quê.

Nina foi ideia minha. Era uma das opções de uma imensa lista desenvolvida em família. Infelizmente, não tivemos acesso à lista da Nina a tempo.

Até os quinze anos, todo mundo deveria se chamar ‘Pessoa’. Só então, a ‘Pessoa’ escolheria seu nome definitivo. Quinze é uma boa idade; o risco de uma escolha por impulso (nome de jogador do São Paulo, atriz da Chiquititas) é, em tese, reduzido. Deveria ser processo simples, inclusive, a mudança de nome. Que é possível perante a lei, mas o interessado tem de percorrer um caminho tão longo, tão deserto, que desiste. Não fosse isso, seria comum o diálogo:

– Oi, Maria!

– Oi, Raquel! Mas ó, não sou mais Maria. Sou Beatriz desde 2009.

– Bacana! Eu também mudei, agora sou Abigail.

– Ficou lindo! Me conta, você tem notícias do Henrique?

– Qual Henrique? O ex-Marcos?

– Ih.

O gosto – ou desgosto – por um nome é construído. Não basta a beleza do som ou da grafia; é uma afeição moldável e depende do contexto sócio-econômico-cultural-folclórico-planetário. Osama, por exemplo, há de ser rejeitado pelos povos ocidentais ainda por algumas eras. Por aqui, ninguém mais deve ter sido batizado Bráulio, depois de 1995. (Para quem não lembra ou não sabe, o Google pode ajudar. Palavras-chave: órgão – genital – masculino.)

Não me recordo de ter confessado algo parecido à minha mãe, a respeito do meu nome, quando criança. Nunca fui apaixonada por ele, é fato. Apenas resignei-me. E também tive minhas fantasias infantis. Já quis ser Noeli – personagem da novela Bandeira 2, que passou na Globo em 1971. Considerei melhor guardar o desejo para mim, ela poderia ficar magoada. Até porque, o desejo passou (eu ainda não tinha quinze anos).

Se há algum significado do nome Nina, a sinceridade deve estar na relação de características. Não deixa de ser uma coisa bacana.

[Nota: a parte 1 está aqui.]

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4 comentários sobre “O nome da gente, parte 2

  1. Nunca desgostei do meu nome, embora na adolescência preferia que fosse Elisabete e não Elisabeth pois parecia sobrar o “h” e faltar o “e”, mesmo a mãe explicando que era o nome de minha bisavó e de outras tantas homônimas na família.

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  2. Eu sempre gostei do meu nome. Mas minha neta que se chama Beatriz(escolhido por mim) que adoro, quando pequena queria se chamar Aline.
    Hoje tá conformada.
    Beijos

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