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Estrogonofe

fogão

Sempre tinha estrogonofe de frango no bandejão do jornal. Eu gostava só do creme. E do champignon.

Quando chegava minha vez, eu deitava a concha no réchaud bem devagar, aguardando o caldo enchê-la e cuidando para que não viessem junto os pedaços de carne. Em seguida, pinçava cirurgicamente alguns cogumelos. Na mais santa paz, sem pressa, para eventual desespero dos colegas atrás de mim.

As moças do restaurante ficavam por ali, ajeitando a comida remexida pelas pessoas, repondo o que acabava, explicando o recheio do capelete. Garantindo, enfim, o bom andamento da sagrada refeição, antes do retorno de todos à labuta.

Bastaram, no entanto, algumas vezes para a moça branquinha de touca idem me flagrar na estranha operação. Veio perguntar. Respondi.

Dali para frente, quando era dia de estrogonofe e ela me avistava na fila, já acenava. E corria para dentro da cozinha. Logo reaparecia no salão, trazendo no rosto um sorriso e nas mãos um prato só com o creme. Muitos champignons extras, certamente colocados na hora. Tudo salpicado de cheiro verde, de modo a ficar bonito. Aquilo era para mim. Eu só completava com arroz, batata palha e ia me esbaldar com meu almoço exclusivo.

É claro que sempre lhe disse “obrigada!” pela gentileza. Não sei, porém, se cheguei a agradecê-la a contento. Porque esse é o tipo da coisa que se deve agradecer grandemente. Registrar, enfatizar. Era o caso de chamá-la num canto e dizer o quanto eu me sentia especial com sua atitude (por mais simples que soasse), ou de elogiá-la para sua chefe. Perdi a chance. E jamais saberei por onde anda a moça alva. Só queria agradecer direito, vinte anos depois. Gratidão retroativa nem sempre é possível, tampouco surte o mesmo efeito. Gratidão deveria ser disciplina obrigatória já na pré-escola.

Era pequena, a moça. Delicada, falava baixo, os gestos humildes. Olhos claros, talvez? Nunca soube a cor de seus cabelos. A touca asséptica escondia sua identidade. Questões da vigilância sanitária. Talvez ela não fizesse ideia de que realizava, em meio a arrozes e feijões e talheres e azulejos brancos feito sua touca, o que muita empresa, com seus múltiplos recursos e ferramentas e aparatos tecnológicos, não é capaz de fazer. Naquele refeitório, eu era uma “cliente” absolutamente feliz e satisfeita. Inclusive nos dias em que não tinha estrogonofe.

Ontem lembrei-me dela mais uma vez, enquanto fatiava champignons e abria a caixinha de creme de leite.

Certos alimentos, dizem, são bons para a memória. Estrogonofe faz bem para a minha.

Tipo exportação

Cresci ouvindo falar em café tipo exportação. Laranja tipo exportação. Castanha de caju. Gasolina. Mulata.

Depois entendi.

Tipo exportação é quando a gente faz uma coisa que é bacana, mas precisa torná-la mais bacana, praticamente excelente, para poder vendê-la para outros países. (Entendi também que a mulata não deveria estar na lista.)

Ou seja: para fora, segue sempre o melhor.

Para dentro, não precisa ser o melhor. O bom já serve. O possível, o que dá.

Tem horas que concluo: eu sou uma pessoa tipo exportação.

Sou bacana, mas sou mais bacana ainda, praticamente excelente, para os outros. Sei dedicar carinho e atenção e gentileza às pessoas da minha família, as “de dentro”, mas acabo fazendo isso melhor para as de fora. As dos outros lares que fazem fronteira com o meu. Um lar é um país.

Tem dias que solto os cachorros em casa. Vocifero, esbravejo, surto por tudo e por nada.

Porém, se no instante de fúria doméstica o interfone toca e eu atendo, a voz recupera a maciez, “Tenho, sim, um ovo para emprestar. Levo aí!”. É a minha gentileza tipo exportação.

Quem nunca cuspiu fogo quando o namorado ou namorada faz um comentariozinho qualquer, questionando, por exemplo, seu empenho para arrumar emprego? Se, no entanto, é o professor da faculdade que lhe cutuca, além de aceitar a observação, agradece pelo toque… É a maturidade tipo exportação.

Nessas horas evoco Cazuza em livre e desesperada adaptação: por que que a gente é assim?

Se para a família e pessoas íntimas deveríamos, em tese, oferecer sempre o nosso melhor, o nosso excelente. Mas não. Estamos muito à vontade para escancarar nosso lado B. Mesmo que o preço seja uma carinha com superávit de tristeza no fim do dia.

Bom mesmo é ser do tipo importação. Do tipo “eu me importo com você”. Faz bem às relações. Até as internacionais.

Sergivânio

Ele se aproxima do balcão do caixa. A moça confere as etiquetas das roupas da freguesa e, uma a uma, passa-as pelo leitor de preços. Blip.

Ele, tímido, pede licença. “É aqui que entrega currículo?”.

Ela, entediada, não tira os olhos das etiquetas. “Não, é com Fulana”.

Ele olha ao redor e não identifica ninguém com chance de ser Fulana.

Tímido e nervoso, ele tenta novamente. “Ela está?”.

Entediada, lentamente ela apanha o rádio e chama Fulana. Retorna às roupas da freguesa, blip, blip. “Ela já vem”.

Apressada, Fulana chega e quer logo saber, “O que é?”.

Ele, tímido, nervoso e envergonhado por, indiretamente, ter atrapalhado a supervisora em suas importantes atividades de supervisão, mostra-lhe o papel e se apresenta. “Vim deixar meu…”.

Antes que ele termine, ela – que identificara o papel nas mãos dele, mas não olhara para seu rosto – o interrompe e chama a atenção da colega entediada, lenta e, pelo tom da bronca, também desavisada. “Currículo não é comigo. É com Beltrana!”. Apressada e irritada, Fulana se desculpa e vai embora.

A moça do caixa já atendia a próxima freguesa. Interrompe mais uma vez a conferência das etiquetas e chama Beltrana, que está vestindo manequins no outro lado da loja. “Ela já vem”.

Desinteressada, Beltrana chega e quer logo saber, “O que é?”.

Falta emprego no país. Mas falta empatia e gentileza também.

Ele, tímido, nervoso, envergonhado e agora também constrangido pela fila de freguesas que o assiste em silenciosa e quase maternal compaixão, se apresenta.

Sou a próxima no caixa, espicho os olhos e leio o nome em destaque no cabeçalho do papel sulfite. Sergivânio.

Beltrana recebe o currículo e guarda-o na gaveta do balcão. Sergivânio agradece a atenção. Ela volta aos seus manequins. Sergivânio guarda sua esperança no bolso da camisa verde e volta para casa.

Vou pensando nas pessoas cujos nomes compuseram o do candidato. Pai Sérgio e mãe Vânia? Avó Sergina e avô Ivânio? Seja quem for, nenhum dos homenageados saberá: o currículo de seu filho ou neto talvez jamais saia daquela gaveta.

Ou quem sabe, em um dia de arrumação, Cicrana o encontre. E, ao contrário de Fulana e de Beltrana, lhe dê alguma atenção.

Baila comigo

arte: Shiko
arte: Shiko

Em tempos de desespero hídrico, paulistas, mineiros e fluminenses apelaram aos rituais mágicos para que a água retornasse às torneiras áridas. Entrou em cena a dança da chuva, a performance ancestral que promete eficácia na geração de torós.

Se o elemento água, artigo em falta nos canos do sudeste, pode ser trazido de volta com uma dancinha, por que não promover um grande baile nacional, quiçá mundial, a fim de evocar atitudes escassas, esquecidas, evaporadas com o tempo, levadas com o vento?

Uma dança da gentileza, por exemplo. Com precipitações abundantes de amabilidade para socorrer, entre tantas necessidades, o trânsito das pequenas, médias e grandes cidades. Só não é recomendável realizá-la na hora do rush, no meio da avenida.

Dança da paciência. Solitária, em par ou em grupo, para que escorra sobre cada um o dom da serenidade e da calma, a fim de melhor lidarmos com todos e tudo, de infâncias a velhices, de sofrimentos a injustiças, de chatices a arrogâncias. (Comigo, confesso, nunca funcionou; venho dançando há décadas, e ela ainda não deu o ar da graça por aqui. Talvez eu que não esteja fazendo direito os passos.)

A dança da tolerância, para alumiar mentes obtusas diante do diferente, e a dança da compaixão, até que ela, assim como o amor cantado por George Harrison, venha para cada um.

Sólidas ou líquidas, são muitas as coisas faltantes neste mundo. Invente a sua coreografia, e bote todo mundo na roda. Os deuses responsáveis hão de se sensibilizar. “Dance bem, dance mal, dance sem parar”.

Não custa tentar.

Com jeito

Naquele supermercado o preço é bom. Mas o carrinho não. É um centro atacadista, onde a maioria dos fregueses costuma comprar aos montes – e mais barato – , geralmente para abastecer seu negócio próprio. Eu não tenho negócio próprio, mas também vou ali para comprar aos montes. Um lar é uma espécie de negócio próprio.

E o carrinho deles é ruim. É desses de puxar, e não de empurrar, igual aos outros. Dia de fazer supermercado é dia de sentir-me um cavalo à frente de uma carroça abarrotada de leite, arroz, feijão, sabão em pó, tudo em embalagem tamanho família. Tenho pesadelos na véspera, procrastino, invento cólicas.

Eles também têm carrinhos normais, à razão de um para dez dos de puxar. Os normais são bons de empurrar, espaçosos. Mas quem quer um desses precisa contar com a sorte. Ou com a gentileza.

Era dia de sacrifício. Acionei meu radar assim que estacionei. Nada de carrinho normal. Procurei nos cantos. Nenhum. Suspirei, antevendo o suplício iminente. Quase relinchei de tristeza. Avistei uma funcionária, era a deixa.

– Oi! Por favor, você sabe se tem daquele outro carrinho, menor? – e aproveitei para desabafar – Esses aqui são tão desajeitados… Gesticulei para ilustrar melhor, apontando os trambolhos.

Ela sorriu, olhou ao redor, pediu um minuto e saiu. Logo surgiu no horizonte empunhando um carrinho normal – e era para mim! A felicidade tem quatro rodinhas, meu bem.

Entregou-me e disse:

– Você pediu com educação, aí eu fui buscar um pra você. Tem gente que chega aqui dando bronca, exigindo. Pra esses eu digo que não tem, acabou. Mas quando é com gentileza, a coisa muda.

Agradeci, saquei minha listinha de compras e segui meu destino.

Não é sempre que sou moça fina e educada. Não sou gentil em período integral. Talvez meio-período e olhe lá. Depende do dia, do vento, da umidade relativa do ar. Logo, não é sempre que consigo o que quero – seja um carrinho no supermercado, uma reivindicação para melhorar o bairro, um “sim” para um projeto, algum favor.

Quanta coisa já não devo ter deixado de conseguir na supervida, por não ter pedido com superjeito.

O mundo é das pessoas gentis. Os melhores carrinhos de supermercado também.

De carona

Arte: Dave Whittaker

– Como eu chego no Balão da Caixa D’Água?

O rapaz aparentava dezesseis anos. O cansaço em seu rosto entregava a longa caminhada. Skate e capacete sob o braço, camiseta de time. Não me pergunte qual, os únicos que sou capaz de distinguir, satisfatoriamente, são Palmeiras e Cruzeiro. E olhe lá.

Em Campinas há dez anos, costumo achar que tudo é perto. Primeiro, porque vim de São Paulo. Segundo: nunca ando a pé. Diante da pergunta, no entanto, calculei: meia hora de caminhada. Terminei de colocar o cinto de segurança na minha filha e, ainda em pé ao lado do meu carro, respondi:

– É longe, viu? Faz assim…

E dei as coordenadas básicas. Adiante, ele se informaria novamente. Com o skate, ficaria fácil. Aos domingos, uma das pistas da avenida que contorna a Lagoa do Taquaral, para onde ele deveria seguir, fica fechada ao trânsito. Bom para os que gostam de caminhar, correr, andar de bicicleta, essas coisas de gente saudável.

Tomamos, minha filha e eu, o rumo de casa. Logo avistei o rapaz, no caminho que eu indicara. Pensei no destino dele, parte do meu trajeto; na minha filha, sentadinha no banco de trás; nos ensinamentos recebidos ao longo da vida sobre caronas e seus perigos (os quais ignorei durante a juventude, época em que eu ia de São Paulo a Ubatuba na base do dedão. Mas essa é outra história.). Cogitei: por que não levá-lo? Havia muitos “porque não” listados em meu juízo. Mesmo assim, escolhi o “porque sim”.

Encostei o carro. Abri o vidro:

– Ei!

E o Rafael topou a carona. Contou que estava em férias na cidade, na casa da tia. Saíra para dar uma volta e se perdera. Testando sua independência, presumi, não quis telefonar pedindo socorro.

Continuou: mora em São Paulo, num bairro vizinho ao que eu vivia. Já era uma afinidade. Falamos amenidades típicas de quem se vê pela primeira vez. Minha filha, atrás, imóvel e muda. Provavelmente, tentando compreender o que era isso de parar no meio da rua e convidar um desconhecido para entrar no nosso carro. A prosa evoluía e eu só pensava como explicaria a ela, depois, minha atitude. Diria que intuí ser o rapaz uma boa pessoa? Argumentaria que eu oferecera carona a ele, e não o contrário, o que mudava, significativamente, o cenário de perigo potencial? Aliás, eu fiz o papel de bandido; Rafael nada pedira. Fosse um meliante, teria agido no momento em que me parou na calçada. Qual pedagogia eu usaria para que minha filha, de tenros cinco anos, não concluísse que se pode fazer isso com qualquer pessoa na rua? Mas Rafael era uma pessoa qualquer na rua. E agora? Por outro lado, ele também deve ter tido seus medos ao aceitar a carona. Mas assumira que uma mãe, acompanhada de criança pequena, não seria capaz de cometer maldades.

Próximo ao tal do balão, perguntei onde sua tia morava. “Em um condomínio, naquela rua”, ele apontou. Ora, ora. “Tenho uma amiga que mora ali. Deixo você lá”.

O Rafael abriu um sorriso, agradeceu. Menino educado. Minha filha continuava em silêncio sepulcral. Que raio de mãe sou eu? No mínimo, curiosa: “Como se chama sua tia?”, perguntei. Gravei o nome. Para contar à minha amiga, claro. Mais agradecimentos, não há de quê, se cuida, boas férias, coisa e tal.

Rafael estava entregue. Era hora da prosa séria entre mãe e filha. No fim, ela só questionou o porquê de não termos aproveitado a parada para visitar minha amiga, que é mãe de uma das melhores amiguinhas dela. A educação dos filhos, descobri, não é um bicho-de-sete-cabeças. De duas ou três, no máximo.

Ao chegar em casa, a tarefa urgente e inadiável: telefonar para minha amiga. Ela não só conhecia a tia do rapaz, como informou: a tal tia é mãe da minha vizinha. Minha vizinha é, portanto, prima do Rafael. No final, o que valeu para nós dois foi um pouco de fé. E a fé, todo mundo sabe, não costuma falhar.

Quem precisa de rede social virtual, se a real está bem na frente do nosso nariz?

Crônica de minuto #32

– Vamos?

Sobre a pequena e redonda mesa da doceria, os restos da comilança. Três xícaras de café, meia dúzia de guardanapos melecados. Na rua, ajeito a cria no banco do carro e suspendo o olhar para compreender o sol do inverno. Ali perto, sem que eu os note, estão eles. Os invisíveis: o homem, as duas crianças pequenas, o cavalo que puxa a carroça deles.

Invisíveis para mim. Não para o marido. Que pede um minuto, atravessa ligeiro a rua, volta à doceria e de lá sai com quatro mousses de morango, embrulhadinhas no capricho. São para os invisíveis. A quarta iguaria é para a presumida e também invisível mãe, talvez a esperar em casa pela turma. Ou não. Nunca se sabe.

Deveria estar na constituição federal: todos têm direito a um doce saboroso e fresquinho nas tardes de domingo.

O pai, tímido, agradece. Não é todo dia que alguém se importa com ele. E com a família dele.

Todos são iguais perante um doce. Crianças, feitas com açúcar e com afeto, são mais iguais ainda. Sejam elas filhas e filhos de quem for.

Falta o último personagem. Este, sim, de invisibilidade insuperável: o cavalo que puxa a carroça. Que também gosta de doce. Mas que nem constituição tem.

Crônica de minuto para quem enxerga bem

Ilustração: Jeff Turner/Flickr.com

À minha frente, na fila, ela chegou a esbarrar em mim. Desculpou-se. Não foi nada, respondi. Pediu um pão de queijo, um espresso, quis saber se tinham macaron. Quando o gerente do café, Thiago – não posso ver crachá, que leio –, aproximou a maquininha do cartão da mão tateante da moça, foi que notei. Era cega. E estava de salto alto. Eu, que tenho dois olhos funcionando bem, não me animo a reativar os meus, empoeirando no armário.

Olhos cegos não são olhos desligados. Tampouco são como aqueles bolsos falsos, só decorando a roupa. Olhos cegos inventam para si outra função. Aprendem o invisível. Farejam o oculto. São bolsos onde a alma guarda alguns dos seus segredos.

O Thiago, que enxerga longe, não só a ajudou na hora de pagar, como a acompanhou até a mesa. Fez a acessibilidade na prática, recheada de gentileza.

O contraponto: no final do nosso lanche o Luca, sete anos, quis mais um croissant. Dei-lhe três reais, deixei-o ir comprar sozinho. Ele ficou na fila, bonitinho. Na sua vez, o Thiago não o enxergou junto ao balcão que tinha quase a sua altura, e já ia atendendo o próximo freguês. O que os olhos do Thiago não viram de perto, meu coração sentiu de longe. Levantei-me e fui ao caixa, ajudar meu filho.

Enxergar ou não enxergar. Eis a questão.

O sapato, a rosa e a estrela

Foto: Travlinman/Flickr.com

Fim das férias escolares. Como se faz após a passagem de um furacão, trato de colocar, aos poucos, a vida em ordem. Começo pela saúde. A física, porque a mental foi para o brejo.

Toco a campainha. Pela porta de vidro, vejo que a recepcionista não está em seu posto. Espero. Um pássaro, uma moto e um bêbado passam na rua. Cada qual com sua melodia. E nada da recepcionista aparecer. Uma moça de cabelos longos, que aguarda lá dentro na sala de espera, me vê. E, talvez com pena de mim, derretendo sob implacáveis trinta e dois graus, abre a porta. Agradeço. Não sem antes pensar: eu não seria capaz da mesma cortesia. E o medo de abrir para uma bandida travestida de paciente? Invejo sua atitude e prometo ser menos neurótica daqui para frente. Ou, simplesmente, mais confiante.

A recepcionista retorna. Pede que eu ponha o dedo indicador na leitora biométrica. Coloco o polegar. Não disse? O brejo. Aboleto-me no sofazinho e avalio a leitura disponível. A coisa mais divertida das salas de espera são as revistas. Folheio um troço qualquer. O mais interessante nelas é a absoluta desimportância de seus títulos, seu descompromisso com qualquer esforço mental. E meu radar capta o quê? Um par de sapatos. Sempre eles. Clássicos, charmosos, num delicado padrão de cores de areia e rosa. Penso em flores no deserto. Déjà vu: eu já vi aqueles sapatos antes. Só não sei quando, nem onde. Enquanto matuto, divido meu olhar entre a revista e a dona deles. Bingo: é a moça que abriu a porta. Mais que isso: a mesma que eu vi dias atrás, na clínica a poucos quarteirões dali, onde fiz os exames que agora trago para a médica ver.

Finjo que leio, mas não tiro os olhos dela. Essa minha vontade de falar com Deus e o mundo. (Quem mais nota isso é Deus.) De contar coisas, fazer perguntas. Na maioria das vezes, me controlo. Noutras, não.

– Você estava naquela clínica aqui perto, outro dia?

O sorriso da moça se abre, tal uma rosa, da cor rosa dos seus sapatos:

– Eu ia perguntar a mesma coisa! Reconheci você pela estrela – disse, apontando para a tatuada em minha perna.

– Já que é assim, também confesso: reconheci você pelos sapatos. São tão bonitos!

Desenho o argumento do curta-metragem: duas mulheres fazem o mesmo exame de rotina, na mesma clínica, no mesmo dia. As duas são pacientes da mesma médica. As duas têm consulta na mesma terça-feira. Uma às cinco, outra às cinco e meia. As duas reconhecem, uma na outra e na mesma hora, um sinal, uma particularidade. Que permanecem guardados na memória de ambas, junto a tudo o mais que habita a vida de cada uma, sem que nenhuma se dê conta disso. A uma cabe a gentileza do dia. À outra, a primeira palavra. Para que um fio invisível se estabeleça entre elas, ligando outros fatos que sequer serão sabidos.

A casualidade e sua vizinha, a coincidência, por morarem tão perto, também vivem se esbarrando. Tem até quem as confunda, são mesmo parecidas. Mas é só prestar atenção. Uma se levanta cedo e está sempre cuidando das rosas do jardim. A outra gosta de ficar acordada até tarde na varanda, descalça, quando o céu é estrelado como esse de hoje.

Os presos da Dona Balbina

Dona Balbina, ou Vó Bina/Arquivo pessoal

Minas Gerais é terra de gente rara, já disseram. Que, além de rara, costuma ser preciosa como tudo o que dela já se extraiu. Terra de gente colorida. Musical. Charmosa. Efervescente. Original. Generosa. Refinadamente simples.

Dona Balbina é da turma dos generosos. Vó Bina nasceu em 1891, e não teve vida nem um pouco fácil. Viúva aos vinte e sete anos, costurava para a vizinhança sob a parca luz de uma lamparina. Com o que ganhava, alimentava os filhos. Que eram muitos. Mas ela sempre tinha em casa algo para receber as visitas. Geralmente um doce, feito por ela no maior capricho.

Vó Bina conhecia todas as plantas, ervas e segredos da natureza. Dizem que ela fazia um chá para bronquite feito com uns ingredientes esquisitos, que era tiro e queda. Conta-se que um tio, que sofria com a doença, mas jamais aceitara o remédio por achá-lo difícil demais de engolir, nunca se curou. Ao contrário dos demais, que enfrentaram a panacéia numa (quase) boa.

Pena que ninguém se lembrou de anotar seus conhecimentos. Agora é esperar que Vó Bina volte a este planeta um dia (se é que já não está por aqui), e que tenha guardado essa sabedoria naqueles arquivos mentais que a gente carrega de uma vida para outra.

Pelo menos uma vez por mês, Vó Bina gostava de preparar suas ‘quitandas’, como se dizia, para levar a uns moços muito especiais. Eram os presos da cadeia de Pouso Alegre, que nesse dia podiam saborear os pães, os sequilhos e o café fresquinho daquela mulher que, de verdade, se importava com eles. Gentileza improvável nos dias de hoje. Vale repetir: a vida da Vó Bina não tinha regalias. Questionada sobre por que repartia suas coisas quando mal as tinha, ela respondia com uma sabedoria singular: “Assim Deus manda mais”. E para entender mesmo o que a movia, o que ela ganhava com esse gesto, a gente precisa compreender dois fundamentos: um é a compaixão. O outro é a generosidade.

Naquela cadeia, os presos não passavam de uns vinte homens, postos ali por conta de delitos quase prosaicos, como roubar galinhas ou dar uns tapas nos desafetos. Uma categoria de detento que habita nosso imaginário e a gente gosta de pensar que existe: os bonzinhos.

Os presos da Vó Bina não ficavam à toa. Como deveria de ser, eles trabalhavam. Fabricavam brinquedos em madeira – carrinhos, vassourinhas, bonecas – que depois eram vendidos na cidade. No dia da tal visita, uma das netas ia junto. Era a menina quem fazia questão de ir, e nisso havia um interesse: ela sempre faturava um brinquedo.

Eu não a conheci. Dona Balbina é trisavó dos meus filhos, bisavó do meu marido. Enquanto escrevo, olho para seu retrato, tão antigo quanto belo. Penso no dia em que ela tirou essa foto, onde seria esse cenário, em que estaria pensando? Faço uma reverência à sua compaixão, ao seu interesse pelos que tinham menos ainda que ela, sequer dignidade. E outra reverência à sua generosidade: mesmo sem ter, Vó Bina dividia o que tinha. E justamente por viver dividindo, recebia da vida sempre o que lhe bastava.

Seria bom sentar-me ao seu lado no velho fogão à lenha, que não existe mais, e tomar um café com ela.

Chega de cinza (be sure to wear some flowers in your hair)

Foto: D Sharon Pruitt

Neste inverno, quando as cores mais sóbrias e tristes parecem querer dar o tom, nas roupas e nas paisagens, surpreenda. E faça como manda aquela música: “be sure to wear some flowers in your hair”.

Mesmo que você não esteja indo a São Francisco, mas ao trabalho. Mesmo que você vá ficar em casa. Mesmo que custe uns minutinhos a mais na frente do espelho: coloque algumas flores em você. Pode ser um brinco. Um lenço. Um anel. Uma blusa. Uma bolsa. Qualquer coisa com flor.

Mesmo que as semanas de moda tentem lhe convencer do contrário, e a despeito da temperatura lá fora despencar para os quinze graus, estampe-se de flores. E, se não estiver geando, deixe à mostra aquela flor tatuada no ombro, para espanto dos seus colegas de escritório que nem sabiam que você tinha uma.

Mesmo que chova. Mesmo que o carro tenha deixado você na mão e você vá trabalhar de ônibus. Melhor assim: mais gente verá sua flor. Mesmo que os ônibus entrem em greve e você tenha de ir a pé. Aí você vai colhendo flores pelo caminho para enfeitar a sua mesa.

Mesmo que as coisas, no geral, não estejam do seu agrado. Mesmo que seja a centésima vez que você diz para si mesma que vai procurar outro emprego, mudar de profissão, terminar com o namorado, falar sério com o marido, ter mais paciência com os filhos. Que vai começar a caminhar. Que vai se alimentar melhor. Que vai colocar mais vestidos no seu guarda-roupa. Aproveite e comece por um florido.

Mesmo quando os cinzentos tentarem estragar seu dia, faça como o doce touro Ferdinando: prefira sentir o perfume das flores a entrar na briga. (Só tome cuidado com as abelhas.)

Mesmo que você use todos os seus trocados, compre todas as flores daquele senhor no sinal. Depois, dê-as de presente para seus vizinhos. Pois gentileza gera gentileza, alguns sabidos já notaram.

Empunhe sua flor e mostre que você está, sim, entendendo muito bem o que acontece no Irã, no Sudão e, principalmente, na sua cidade. E mesmo que para alguns soe como cafonice nostálgica e piegas, mostre que sua Flower Power está mais viva do que nunca.

Mesmo que você não tenha vivido os anos sessenta e setenta, jogue o meio tom e a sisudez para escanteio, e assuma a cor por inteiro. (Aliás, o mundo, hoje, está a cara de quem nasceu naqueles anos que prometiam tanto.)

Não tenha medo: vá de flor.

All You Need Is Love (ainda sobre as gentilezas)

Ninio Romantico/Flickr

I

Um dia o Carlos, meu cunhado, chegou em casa com um presente para minha filha. Era uma enorme tartaruga de pelúcia cor-de-rosa. A tartaruga tinha um zíper na barriga, e nela quatro ‘ovinhos’ feitos de pano. Dentro, os filhotinhos. A tartaruga poderia ficar grávida e não-grávida, e as tartaruguinhas nasciam quantas vezes a gente quisesse. Era só colocar os bichinhos de volta na barriga e começar a brincadeira de novo. Enquanto minha filha se divertia com a novidade, meu cunhado revelou: Eram cinco ovinhos. E cadê o outro?

Foi assim. O voo estava lotado. Uma mulher estava com sua filhinha pequena no colo, que chorava sem parar. A mãe tentava distraí-la, cantava, contava histórias e nada. Os passageiros – meu cunhado, inclusive – já se incomodando com a situação, mas fazer o quê? Criança não quer nem saber, quando quer chorar, chora mesmo.

Foi quando o Carlos teve uma ideia. Pegou a tartaruga que estava embrulhadinha no bagageiro, e não teve dúvidas. Ou melhor, teve, mas era um quase caso de vida ou morte. Ele abriu-lhe a barriga, retirou um dos ovinhos e o deu à menininha. Como num passe de mágica, ela abriu um sorriso e parou de chorar. E todos viveram felizes para sempre.

Está certo, meu cunhado teve outra motivação, além da compaixão: o desejo de viajar em paz. Mas tirante isso, o gesto foi, no mínimo, uma gentileza das boas. Capaz de fazer a diferença na vida daquela garotinha, naquele momento. E da sua pobre e desesperada mãe. Eu, que não sou pessoa das mais gentis, tenho aprendido nos últimos tempos: todo mundo pode fazer alguma coisa por alguém, sempre. Algo simples, que não nos tira do caminho, não nos atrasa e não nos onera. Juro: a vida fica melhor assim.

Minha filha adorou o presente com o bichinho a menos. Até porque ela nem sabia da quinta tartaruguinha – que deve estar até hoje na casa da menininha.

II

Existe um lugar na blogosfera chamado Crônicas de uma menina feliz (não faço o link aqui de propósito, só mais adiante). A dona dele, uma brasileira que vive na Alemanha, dedica-se a uma atividade singular. Ela faz desenhos para os outros. Mas não são simples desenhos. Quero dizer, são desenhos simples, que ela própria chama de ‘bobinhos’, mas que não são nem um pouco simples na sua natureza. Ela desenha a vida das pessoas. Gente que ela nunca viu na vida lhe manda histórias de suas infâncias, contando suas doces memórias, e ela põe tudo no papel. Depois, todo mundo pode ver na tela. Às vezes, ela fica sabendo de uma história (triste ou feliz), se comove, e lá vai ela desenhar. Com um capricho de dar gosto.

Quando encontrei esse site, absolutamente por acaso, resolvi lhe mandar algumas das minhas histórias, assuntando se ela não gostaria de desenhá-las. E não é que ela gostou da ideia? Antes, fez uma espécie de entrevista comigo: quis saber como eram meus pais, meus irmãos, que roupas eu usava quando criança, como era a casa onde cresci.

Quando vi o post de hoje no seu site foi impossível não ficar com os olhos rasos d’água. Fiquei impressionada, e comovida, com sua habilidade para captar os detalhes do que lhe contei, das fotos que lhe enviei, traduzindo tudo em desenhos transbordantes de carinho e delicadeza. Como se as pessoas da minha família (até o gato) fossem seus velhos e queridos amigos. Ganhei mais um presente diferente e bom este ano, além dos que eu já contei aqui dias atrás.

Essa moça é uma verdadeira retratista de boas lembranças. Ela doa seu tempo e sua energia, simplesmente para fazer um agrado. Pensei com os botões: por que uma pessoa faz isso? O que move um desconhecido a nos endereçar tamanha gentileza? Sim, porque podemos ser gentis com quem está à nossa volta. Mas quando o somos com quem não conhecemos, propriamente dito, o sentido muda. É outro papo.

O que a move é simplesmente a alegria de imaginar a alegria das pessoas vendo seus desenhos, que são dela mas que pertencem, de um jeito muito especial, às pessoas retratadas neles. Aquele sentimento que, de um jeito ou de outro, é o que  funda o trem das nossas vidas.

É preciso registrar uma coisa: ela havia me avisado que publicaria minha historinha hoje. Então, este post aqui já estava meio pronto desde ontem, eu só estava esperando ver no que a coisa tinha dado para completá-lo. Prestem atenção: lá no finalzinho de seu post ela resolveu colocar uma música. Que também já estava aqui desde ontem e é, inclusive, o nome deste post. Ninguém combinou nada. Para quem acredita em coincidências…

III

Ave Beatles.