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O pato

ilustração: Aimee Marie

Já tive um pato.

Não o que faz quém-quém. Patinho de brinquedo, do tamanho do meu dedão. Todo preto (cinza?), de plástico, desses que param em pé. Uma amiga do primário me dera, nem sei bem por que. Só sei que o brinquedinho simplório e, aparentemente, sem graça, estava sempre ao meu lado. Como um fiel animalzinho de estimação.

Batizei-o, em notório arroubo criativo, de Patolino. Patolino pra lá, Patolino pra cá. Ninguém podia pegá-lo, tampouco desdenhar dele. Eu virava fera, encarnava a pata-mãe furiosa.

Não que não houvesse, em casa, outros brinquedos à minha disposição. Apesar da vida apertada, eu tinha lá minhas bonecas, como a Susi (prima da Barbie, que ninguém conhecia), a Vivinha, a Fofolete, as de papel. Bichos de pelúcia e outros divertimentos, inventados com coisas comuns, como caixinhas de fósforos vazias, pedaços de madeira que sobravam na oficina improvisada do meu avô. Tive também bichos de verdade, muitos. Desde meu primeiro dia de vida neste planeta convivo com eles, em especial os gatos.

O fato é que me afeiçoei ao patinho de plástico, como poucas vezes o fiz a um brinquedo. E podia jurar que o Patolino, pelo teor dos nossos papos (sim, nós conversávamos), também gostava de mim. Fui dando corda a esse antropomorfismo afetivo, sabido e aceito pela família. Até que, um dia, o pior aconteceu.

Vô Paschoal, sem querer, pisou no Patolino. Quem mandou largar no meio do quintal? Quando o vi destruído no chão, e meu avô bufando (para piorar a situação), só consegui recolher o que restara do Patolino, e me recolher à cama para chorar.

Chorei copiosamente a ‘morte’ do patinho como fizera, por tantas vezes, pelos nossos gatos que se iam. Soluçava, lamentando não ter me despedido do Patolino. Condenei-me ao título de criança mais infeliz do mundo, que não sabia como ia viver dali em diante.

Então ganhei outro patinho de plástico. Parecido com o Patolino, só mudava a cor. Não me recordo se foi presente da mesma amiga ou se meu avô, redimindo-se do patocídio culposo e vendo a neta caçula inconsolável, tratou de providenciar. Batizei-o homonimamente em homenagem ao velho amigo, e dediquei sinceros esforços ao novo relacionamento.

Mas o Novo Patolino não era o Velho Patolino. Não se substitui um amigo assim, do dia para a noite. Talvez eu devesse ter dado outro nome. Além disso, faltava-lhe a ânima que o Patolino, em meu julgamento, tinha de sobra. Quem sabe, a diferença não estava nem no pato de plástico, mas em mim. Depois de viver a fundamental e necessária fase de ‘luto’, superei a perda e reconstruí a vida (os dramas infantis são tão imensos!), eventualmente me distraindo com alguma roupa nova, um dinheirinho ganho da madrinha, os passeios a Santos no velho Fusca, os bichos de verdade. E passou.

Patolino brotou na lembrança porque, dia desses, pisei, sem querer, em um pequeno brinquedo de plástico da Nina. Fui checar: um cachorrinho cor de rosa, menor que meu dedinho. Talvez da turma da Polly (neta da Vivinha). Recolhi os caquinhos e joguei fora. Lembrei com carinho do meu velho patinho querido, mas sequer cogitei se aquele cãozinho significava algo para minha filha. Se ela perguntar, jogo a culpa na gata. Ela que pague o pato.

Melissices

melissa

Todas as meninas tinham. Eu não. Acordava e ia dormir sonhando com o dia em que eu teria a minha. Custou, mas ganhei. E então fui para a escola, altiva e radiante, de Melissa nos pés.

Desfilei-as quanto pude, para que todos notassem a novidade. Passada a euforia, as sandálias de plástico transparente (“fumê” era o nome da cor) se tornaram fiéis companheiras. Em casa, na escola, nos passeios. Na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê. Não me recordo direito que fim tiveram, se ficaram pequenas ou se arrebentaram. Eram de tiras, fechadas atrás e na frente.

Quando surgiu, no finalzinho dos anos 70, não havia esse mar de cores e modelos de hoje, loja própria, nada disso. Era um só, objeto de desejo de dez entre dez garotas. Somente há pouco descobri que se chama “aranha”. Talvez porque o desenho das tiras lembrasse um artrópode. Podia ser usada no inverno ou no verão, com ou sem meia; o chulé era o mesmo.

Melissa, ao lado das Havaianas, é patrimônio histórico e afetivo brasileiro. Calçada por mulheres de oito meses (agora tem para bebê) a oitenta anos. Homem também usa. Democráticas, transitam por todos os ambientes sem fazer feio. São cult e cheiram deliciosamente. Está certo que, se não são recicladas depois, é um problemão para o meio ambiente. Nada é perfeito.

Nina, a caçula, gosta de Melissa. Quando a gente passa em frente a uma loja, ela fica ouriçada. Também fico. Cada uma com suas motivações. Ela, talvez porque ache os modelos bonitos, simplesmente. A isso eu acrescento a indelével carga memorial. Ela gosta de cheirar suas Melissas. Eu também. Será genético?

Ontem eu estava de Melissa. Sapatilhas da edição especial d’O Pequeno Príncipe. Dei-me conta de que, desde a primeira, tive tantas ao longo das últimas quatro décadas! Com salto, sem salto, aberta, fechada, de amarrar, de abotoar. Até tênis. Uma vez, quase comprei um par de botas, de cano longo. Desisti quando imaginei o suadouro a que me submeteria, mesmo em dias invernais. Fora o peso extra nos pés – embora Melissa valha quanto pese. Se tudo der certo, serei dessas vovozinhas sacudidas, de bengala e Melissa, dirigindo um Fusca.

Melissa e eu crescemos juntas. É parte da minha biografia. Sou, seguramente, uma das clientes mais antigas. Ah, se essa fidelidade fosse premiada. A relação é tal, que usá-la hoje causa em mim praticamente as mesmas reações de quase quarenta anos atrás, como sair da loja com aquele sorrisinho bobo. Ela ainda me dá prazer, alegria e satisfação. Chulé também.

Se, como diz a canção, as flores de plástico não morrem, as lembranças feitas dele também não.

Tupperwaaare!

Arquivo: National Museum of American History

Nos desenhos antigos o homenzinho investia contra a árvore com seu machado afiado. Na última machadada, gritava “Madeeeiraa!” e ela, rangendo, tombava ao chão.

Em casa não tem machado. Mas basta abrir o armário da cozinha e, em segundos, tal a árvore, todos os potes plásticos vêm abaixo. Nem dá tempo de berrar “Tupperwaaare!” ou coisa parecida. Tento agarrar o azul, o verde despenca, trazendo o vermelho junto. Num efeito avalanche, por pouco não sou soterrada. Eu, que só queria guardar o arroz que sobrou do almoço, à noite tenho pesadelos com ferozes vasilhas voadoras me atacando, numa versão doméstica d’Os pássaros, do Hitchcock.

Já decretei: que todos sejam guardados com as respectivas tampas, ainda que isso tome mais espaço. A revogação é inevitável; a arrumação não dura dois dias. Inútil organizá-los. São objetos dotados de ânima. Na calada da noite, como se tocados por uma varinha (plástica) de condão, criam vida e mudam, eles próprios, de lugar. As tampas vão passear, os quadrados se enfiam nos redondos, os grandes sobem nos pequenos, numa farra colorida de dar inveja. É carnaval no armário.

Como nas campanhas de pessoas desaparecidas, com apelos nas redes sociais, eu estabeleço uma diligência em busca das peças perdidas. Pergunto a todos da casa, até ao gato. É sabido: tupperware viúvo de sua amada tampa não tem serventia.

Na rotina de uma cozinha, os potes plásticos são tão fundamentais quanto odiáveis. Um dia ícones da praticidade e da modernidade, hoje um mal necessário. Ruim com eles, pior sem eles. Não posso ver feirinha deles no mercado: compro. E quanto mais compro, mais eles somem, num incompreensível fenômeno de abdução plástica. Há um universo paralelo aonde todos eles vão parar, meu bem.

Ou nem tão longe: certa vez, reclamei com a empregada que eu não tinha mais tupperware, apesar de me lembrar dos tantos comprados. Dia seguinte, ela vem trabalhar com uma sacola cheia deles. “Fui levando neles as sobras de comida da senhora, esqueci de trazer de volta”.

Tem também a amiga que, em sereno dia de fúria, aguardou a avalanche sossegar, colocou tudo num enorme saco preto e deixou-os para o lixeiro levar. Invejo rompantes de atitude assim. Só podia ser sagitariana.

***

Quero tupperwares novos, é meu desejo-metonímia da vez. Mas não os de armazenar resto de sopa ou lasanha; os de organizar cabeça. Poder guardar cada ideia e cada sentimento no seu lugar. Sentimento misturado é um perigo: medo com vergonha, amor junto da raiva, compaixão ao lado da pena. Tudo ficaria ali, arrumadinho, à mão. E com tampa, que é para conservar as coisas, até a velhice. Só precisariam inventar outro material. Tem coisa que não dura no plástico. Apodrece.

Forever young

Ilustração: Tom Vroman, em “Alexander”, de Harold Littledale

Primeiro desceram, uma a uma, as oito cadeiras. Em seguida, o aparador. Por fim, a mesa de jantar. Do caminhão, o moço preto de camiseta branca coordenava, Cuidado! Mais para a direita.Na calçada, seus colegas obedeciam. Exaustos. Logo as dez peças se reuniram na sala, recém-pintada para receber os novos moradores. A empregada quis adiantar o serviço e arrancou o plástico de uma das cadeiras, revelando o azul vivo do veludo. O brado retumbante da dona da casa ecoou: Não! Não tira!

Há certa esquisitice em quem não tira o plástico das coisas. Em quem deseja manter tudo igualzinho como veio da loja. Para não sujar. Durar mais. Deixar tudo com cara de novo. Plástico é o creme anti-idade, o Botox da mobília. Suaviza as rugas no tecido da chaise. Corrige os sinais do tempo no couro do sofá, destruindo as pegadas de quem descansa sobre ele. Retarda o aparecimento das linhas de expressão na camurça da poltrona e desfaz o contorno da bunda que repousou ali há pouco. O plástico apaga o passado, neutraliza o presente, evita o futuro.

Assim como teme gastar o móvel que comprou, o sujeito que faz isso – não raro, mulher, como a da história – receia gastar a vida. Usa, mas não abusa. Nunca deita, muito menos rola. Está sempre com um anteparo entre si e a diversão, o risco, a aventura. Teme contato e relacionamento, ainda que com um estofado. Jamais vive, plenamente, o que conquistou. Não quer a mortalidade nem para si, nem para aquilo que o cerca. Não sabe que tudo carece envelhecer. É econômico, dos produtos de limpeza às sensações. Está protegido.

Quem age assim com os móveis costuma estender o capricho pela casa inteira. É aquela pessoa que tem pano de prato novinho na gaveta e só usa os velhos, surrados, que a faxineira, vira e mexe, confunde com pano de chão. Que tem pratos lindos escondidos na parte mais alta do armário e só faz as refeições no velho Duralex. Inquebrável, aliás. Que envolve em filme plástico o teclado do computador. Que adora uma capa: na máquina de lavar roupa, no controle remoto da TV, no carro, no celular. Que deseja, enfim, a juventude eterna dos objetos. A todo custo.

Recomposta do pito, a empregada ainda tentou devolver os farrapos plásticos ao assento da cadeira mutilada. Tímida, deu a ideia. Aquela ali poderia ficar no canto, perto da quina da parede, que é onde as pessoas se sentam menos. A patroa topou na hora.